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História

Uma mulher da roça e da luta

História de: Margarida Pereira da Silva (Ilda)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2007

Sinopse

Margarida Pereira da Silva, conhecida como Ilda, nasceu no interior do estado de Pernambuco em uma família de trabalhadores rurais. Com quatorze anos interrompeu os estudos e conheceu o homem com quem se casou e teve quatro filhos. Após seis anos vivendo um cotidiano de violência doméstica, saiu de casa e se envolveu com a luta sindical. Depois de muitos anos separada, participando do movimento de mulheres, descobriu que sofria violência. Nesta entrevista, retoma sua trajetória em movimentos sociais. Com a experiência de cinquenta e oito anos de luta, deixa uma mensagem para as mulheres.

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História completa

 

R – Eu sou a Auxiliadora Dias Cabral, assessora do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR) do Nordeste. Fui uma das entrevistadas, fiz o curso com o Museu da Pessoa e estou aqui para fazer a entrevista com a nossa companheira Margarida. Eu gostaria que a companheira dissesse o seu nome, falasse um pouco da sua identificação: quem você é, data e local de nascimento.

 

O meu nome é Margarida Pereira da Silva, mas desde criança que eu tenho o apelido de Ilda, muita gente ainda me conhece por Ilda. Eu nasci no dia 27 de outubro de 1948, em uma comunidade rural chamada Diogo, no município de Surubim. Hoje, Diogo é município de Casinhas – porque na época Casinhas era um distrito de Surubim – Pernambuco, Brasil.

 

P – E os teus pais, tua família?

 

R – O meu pai chamava-se Manoel Pereira da Silva e minha mãe Amara Maria da Conceição.

 

P – Qual era o emprego deles?

 

R – Trabalhadores rurais. Mesmo ele sendo de origem rural, no período entressafra, como se diz, no período do verão, ele negociava. Dependia do que ele definia de negociar: ele negociou com queijo, negociou com faca, negociava com charque, bacalhau, carne seca ou de sol, nos sábados, na feira local de Surubim. Queijo, faca, rádio ele vendia em outras cidades.

 

P – Faca, faca peixeira?

 

R – Sim, faca peixeira. Todo e qualquer tipo de coisa que ele imaginava negociar, ele negociava; e ele também ia negociar na zona da Mata. Ele também foi uma pessoa que no período do verão ia ao corte de cana e a minha mãe ficava com os filhos e filhas e também cuidando da horta e dos animais.

 

P – E dos seus avós, você sabe alguma coisa?

 

R – Ah, eu sei. O meu avô paterno se chamava Francisco José de Oliveira, trabalhador rural. Minha avó se chamava Julia Maria da Conceição – e a minha mãe também era trabalhadora rural. Meus avós foram um casal que teve doze filhos, sendo quatro mulheres e oito homens. Minha avó sofreu muito para criar os filhos, eles foram criados na roça. Passaram muita fome, minha mãe contava que seus irmãos trabalhavam na roça e minha mãe levava o almoço, ainda pequena, e não tinha nada para comer, juntavam juá e levava uma bacia cheia, um pote com água e isso era o almoço. Surubim é uma cidade do agreste e o juá é uma plantação típica de sertão e agreste. 

 

P – E só tinha em Pernambuco?

 

R – Creio que o juá é um fruto do Nordeste. Quero falar mais de minha avó. A minha avó sofreu também, porque a comunidade Diogo era um lugar muito pequeno e a diversão que havia era uma bodega. E nessa bodega tinha muita cachaça; eu lembro que quando pequena, tinha um pessoal que entregava aguardente, que era como se chamava cachaça, era trazida em um jumento, todo final de semana, com umas ancoras (vasilhas de madeira). Seus filhos homens bebiam muito e minha avó e avô também, era a diversão deles. Minha avó não bebia na bodega, ela levava a aguardente para beber em casa, eu lembro que, a gente pequena, ela gritava de sua casa e a gente adorava quando ela chamava, porque sabia que era para comprar aguardente, ela nos agradava com qualquer coisa de comer. E a gente gostava de fazer o que ela mandava. Mas ela acabou pagando um preço muito alto com os filhos. Depois, ficou com problema de coração, porque os filhos, depois que estavam bêbados, oito homens, ficavam agressivos com os outros e com algumas pessoas da comunidade. Ela saía correndo, gritando, muitas vezes ela desmaiava, era um sofrimento terrível. 

 

P – São coisas que as outras pessoas contam para você ou você ainda viu, continua a ver isso?

 

R – Eu ainda consegui ver, mas não tanto. Inclusive, eu tinha um tio que era mudo e surdo e ele, quando bebia, ficava muito agressivo. Ninguém entendia o que ele dizia; quando ele perguntava as coisas e as pessoas entendiam o contrário, ele batia nas pessoas, ele se sentia magoado. Eu lembro porque eram poucas casas nesta comunidade, onde só quem morava praticamente era nossa família... depois de algum tempo, meu pai construiu algumas casas para alugar e, com isto, aumentou a comunidade com pessoas de outras famílias e de comunidades diferentes. 

 

P – Ô Ilda, que outras coisas, além desse fato, marcaram esse período, na infância?

 

R – Minha mãe teve quatorze filhos, sendo seis mulheres e oito homens, três morreram já grandes. Meus pais não tinham terra e onde nós trabalhávamos a terra não produzia alguns produtos, principalmente a batata doce. Tinha uma comunidade que produzia bastante, por ser uma terra de areia, e meu pai sempre comprava batata e algodão. Em uma das compras de batata, um dos meus irmãos comeu ela quente e à noite quase que morre com diarreia.

 

P – Ele comprava tudo.

 

R – Meu pai era muito batalhador, ele era uma pessoa que “cavava”, ele era bem “cavador”, enfrentava todo tipo de trabalho, era igual a um trator. E ele comprou quatro sacos de batata, porque era assim na minha casa: “Hoje à noite é batata”. Então, esse monte de pessoas, a panela tinha que ser enorme, treze pessoas. E, quando a batata chegou quente, o meu irmão, o terceiro filho, ele comeu. Era no mês de maio e nós fomos para a cidade, o meu pai tinha uma preocupação muito grande para que seus filhos estudassem. E a minha irmã mais velha, com quinze anos já morava na cidade para estudar. E era noite de maio, noite do colégio, que ela estudava na cidade, o nome do colégio Nossa Senhora do Amparo, e o meu pai foi, minha mãe e meus irmãos mais velhos. Só ficou esse irmão com os irmãos menores e aí, quando ele foi dormir ele entregou a chave à esposa do meu tio e quando a gente chegou, que a gente entrou em casa, ele estava deitado quase morto, em uma rede, com uma disenteria enorme e ele estava assim, como se estivesse boiando dentro do coco.

 

P – Ilda, do lado da profissão, a família de vocês é de agricultores. E, em relação à raça, sabe dizer de onde vieram as famílias?

 

R – O meu pai era da raça negra, a minha mãe era mais clara. O meu avô achou uma criança em uma mata, essa criança não sabiam quem era, os pais dela, eu ainda a conheci, já uma senhora, suas filhas, filhos e netos pareciam índios. Meu avô materno considerava ela uma filha. Agora, saber assim da origem dos meus pais, eu não sei contar muito. Eu só sei da origem de trabalhadores rurais; inclusive, como toda a maioria das famílias rurais, as crianças começam a trabalhar cedo. A minha mãe contava um caso que nós ficamos assim abismadas. Ela nos contava e mostrava uma marca na perna, que quando ela era pequena entrou em um curral e uma vaca correu atrás dela e pisou na perna direita dela, ferindo sua perna. Quando ela contava, a gente ficava impressionada, porque ela passou três meses em uma cama e o remédio que usava era o esterco do gado. Nós ficamos abismadas e pensávamos “como que ela não perdeu essa perna?”. 

 

P – Ilda, e a sua infância? Como é que foi a sua infância?

 

R – A minha mãe era muito... não sei se eu posso dizer, assim, severa. Mas por ela ser uma pessoa que gostava muito de trabalhar, ela era da roça, cobrava muito da gente para nós assumirmos a casa. Não tínhamos tempo de brincar muito, alguma brincadeira, só no sábado e domingo era brincadeira de roda, pular corda, a amarelinha. Foi uma infância muito difícil, mesmo os nossos pais vivendo bem. Eles não tinham brigas entre eles, não eram pessoas de bater nas filhas(os), desde que não lhes contrariasse. Mesmo assim, dependendo da situação era muito difícil. Meu pai e minha mãe faziam todo o esforço para as filhas e filhos estudar, como eu já falei.

 

P – Mas vocês tinham casas, tinham terras?

 

R – A gente tinha uma casa, inclusive foi feita num terreno que meu pai comprou ao meu avô. Era uma casa de tijolos, com dois quartos. Depois ele foi fazendo puxadas. O terreno não dava para manter a família, a roça era arrendada, ficava mais ou menos uns seis quilômetros para ir até lá, na roça. Uma coisa que ele plantava muito, principalmente nesse terreno que era muito bom na época, era algodão. Ainda bem pequenininha, ia todo mundo apanhar algodão. A gente achava o maior “barato”.

 

P – E o que mais tu lembras quando era criança?

 

R – Lembro de um rio que passava lá por trás da nossa casa e a gente pescava muito. Eu gostava de ir pescar, a minha mãe fica esperando a gente chegar. Hoje, quando eu chego lá, não tem mais a casa que nós tínhamos, já é outra casa. Quando eu vou lá, eu fico lembrando do rio que sempre estava com água... hoje o rio é seco. Naquela época, mesmo no verão não faltava rio para pescar, a gente passava o dia inteiro pescando; às vezes, íamos para outros rios, distante de casa. Eu achava muito legal.

 

P – E, na escola, tu lembras de alguma coisa, assim, que te marcou na escola?

 

R – Ainda hoje, a minha primeira professora, ela é viva. A escola, naquela época, era em outra comunidade, era a comunidade conhecida por Alto de Santa Luzia, porque muito antes da escola já existia a igrejinha, que já tem quase setenta anos. Naquela época, começávamos logo na primeira série, na mesma sala era uma turma da primeira à quarta série, com a mesma professora...

 

P – E já era escola do estado?

 

R – Não, era municipal. Uma coisa que eu não esqueço era que as professoras eram muito exigentes. E botava a gente para estudar a tabuada e ela nos dava cada “bolo” quando errávamos que a gente ficava com a mão inchada. Por isso, eu tenho mais facilidade hoje com matemática, porque aprendi forçadamente. Tem também outra coisa: que para a gente chegar na escola tinha uma ladeira enorme. Eu lembro que uma vez a gente desceu brincando, me empurraram e eu saí rolando na ladeira e aí o meu vestido descosturou, um vestido todo rodadinho que minha mãe costurou. 

Minha mãe nunca foi à escola, mas, depois dela grande, ela aprendeu a assinar o nome dela, só não lia. O meu pai ainda passou dois anos na escola e ele andava dez quilômetros para ir e para voltar da escola. Andava com um tamborete na cabeça, mas aprendeu a ler e escrevia muito bem.

Ele não tinha onde sentar na escola. Meu avô paterno se preocupava com educação e aprendizagem dos filhos. Filho homem. Eu tenho dúvidas se ele tinha o mesmo tratamento com as filhas mulheres. Meus avós paternos se chamavam José Pereira da Silva (Zé Bom) e Margarida Pereira. Eu não sei contar muito da minha avó, porque, quando ela morreu, meu pai era novinho. Só sei que se chamava Margarida, o meu nome foi em homenagem a ela, era do segundo casamento do meu avô, depois ele casou novamente – foram três casamentos. O meu pai foi criado com madrasta. Segundo as pessoas falam, meu avô era um homem muito bom.

 

P – E a juventude?

 

R – Eita.

 

P – Fala das alegrias e das tristezas da vida da gente.

 

R – Minha juventude foi sem muitas novidades, não sei se eu vivi a minha juventude. Como eu falei, a história do meu pai que gostava que a gente estudasse. Eu comecei a estudar na cidade, fui fazer a quarta série, tinha treze anos, eu e outra irmã. Eu não gostava e levava “pau”, era reprovada, a minha irmã passou e, depois, a gente ficou estudando na mesma série. Só que tinha uma coisa, mesmo o meu pai querendo que a gente estudasse, eu não gostava de estudar, quando chegava da escola, a minha mãe dizia para estudar e eu pegava a enxada e ia embora para o roçado. Só estudava à noite, a minha mãe mandava fazer as “tarefas da escola”, pegava o candeeiro, pois não tinha energia, era aqueles candeeiros que usava colocar querosene e um pavio de algodão, a gente quem fazia.

  O nariz ficava cheio de fumaça provocada pela queima do algodão e o querosene. E quando eu ia estudar, deitava cansada e a luz não permitia que eu ficasse acordada, eu deitava e começava a dormir antes de iniciar a tarefa. E aí, a minha irmã chegava: “Levanta. Vai estudar, faz o dever”. Eu me levantava, mas também não assimilava nada, não tinha muita vontade. Quando eu fui fazer a quarta série primária pela segunda vez, eu já tinha catorze anos, já entrando para os quinze. Aí arranjei um namorado e desisti de estudar. Não gostava mesmo.

 

P – Quais as aventuras da juventude?

 

R – A minha mãe, ela não podia ver a gente sair. Como eu falei, a gente tinha uma casinha alugada e, às vezes, a gente ia conversando nas casas e ela botava a gente para dentro. Mas quando era no domingo, a gente sempre dava uma fugidinha. Na época não tinha uma BR que tem hoje, de Surubim para Recife. Os ônibus que iam para Recife passavam por dentro da nossa comunidade. E eu lembro que uma vez eu mais quatro primas paramos um ônibus para passear num local chamado de Lagoa da Pedra, ou rua da Porca, uma comunidade vizinha. Quando chegamos e o ônibus parou, não tínhamos dinheiro, o cobrador ficou uma fera com a gente e, quando chegamos em casa, foi muita surra. Eu acho – não, eu tenho certeza – que eu fui uma das pessoas que mais apanhou na minha família. Minha mãe ia bater e eu segurava a corda dela e ela ficava muito brava e aí era que ela batia.

 

P – Porque você resistia.

 

R – Eu resistia. E eu fazia muita coisa que ela não gostava. Ela foi uma mulher incrível.

 

P – E as festas, as diversões, a festa de Santa Luzia?

 

R – A única festa de rua era a da padroeira na comunidade de Santa Luzia, a diversão era balanço e o leilão. Tinha uma festa que o meu pai fazia sempre. O meu pai era uma pessoa muito alegre e ele gostava muito de dançar. No São João e no Carnaval, ele contratava um sanfoneiro para tocar e dançava forró a noite inteira...

 

P – No carnaval?

 

R – No carnaval. Na época, eu não gostava de dançar. Eu era bem criança e quando adolescente também, eu ia dormir. O meu pai, no São João, mandava fazer balões para festejar o São João, fazia aquela fogueira e o forró ia até de manhã. Se fosse hoje, eu estaria junto... eu adoro dançar e, na época, eu ia dormir, não fazia a mínima questão. Tem uma coisa que eu lembro também da minha infância, que eu não esqueço e de vez em quando eu conto. Eu era muito medrosa. Quando morria alguém, eu não ia olhar, só em saber eu já ficava com medo. Tinha dia que eu não controlava, ficava com medo, sem dormir, na cama. A cama que eu dormia era uma cama de casal onde dormia menino e menina, tudo junto, tinha momento que tinha cinco crianças, tudo na cama. E eu estava na cama e a minha irmã estava na rede. Aí, morreu uma pessoa, uma senhora que ajudava a minha mãe, ela pedia esmola, era uma pessoa, assim, bem sofrida. Eu lembro dela, era Severina; seu apelido, Nina. E, quando ela faleceu, eu tive tanto medo! Eu, tremendo na cama, chamei minha irmã que dormia em uma rede dizendo “estou doente”. Ela me chamou para ficar com ela, eu fui para a rede e tremia de tanto medo que ficava batendo nela. Ela disse: “Mãe, vem fazer um remédio pra Ilda que ela está tremendo muito”. E mãe já sabia o que era, disse assim: “Ajeite aí que ela dorme”, e eu dormi. Quando foi no outro dia, eu falei que estava era com medo. Minha irmã disse: “Nunca mais eu chamo você para rede”. Outro dia, morreu uma criança de uma vizinha nossa; eu coloquei a mão em cima do anjinho e aí passou o medo. Tem coisa, assim, que marca.

 

P – E também é uma forma como o pai ou a mãe reage, né?

 

R – É. Quando eu era adolescente, eu tinha o meu irmão mais novo, o João, ele era assim, muito chorão. Eu era adolescente, de doze, treze anos e a minha mãe botava a gente para tomar conta dos irmãos mais novos. 

Aí ele acordava muito à noite pra tomar suco. A minha mãe comprava laranja só pra fazer suco pra ele. Outro dia eu disse assim: “Mas é engraçado: eu fico acordada por causa dele e eu vou fazer suco pra ele e eu vou ficar sem nada?”. E eu colocava o açúcar na água e dava a ele e eu chupava a laranja.

 

P – Ele tomava água com açúcar.

 

R – Ele tomava a aguinha e dormia tranquilo. Imagine, era calmante.

 

P – E a sua mãe nunca pegava?

 

R – Nunca pegou. Depois que a gente cresceu, eu contei tudo. Hoje, quando a gente se encontra e começa a contar essas coisas, nos divertimos muito.

 

P – Tu gostarias de destacar alguma coisa ainda da juventude? Você lembra de algum fato marcante que você acha que é importante?

 

R – Teve uma coisa em relação à questão da vida daquelas pessoas da minha comunidade. O meu pai era considerado como o mais rico, porque como ele negociava, nessa época ele vendia carne de charque, ele trazia carne e aí a gente colocava dentro do feijão, que ficava gostoso. Uma coisa que lembro é que minha avó criou, além das doze filhas e filhos, ela também criou duas netas. E aí, a minha mãe pegava o resto da carne e colocava dentro de uma peneira e colocava no alto, para ninguém mexer. E nesse dia, uma das netas de minha avó foi mexer e aí levou uma queda. A gente achava graça nessas coisas, porque ela foi mexer em uma coisa que não era para mexer.

 

P – E também nem tudo era motivo de alegria.

 

R – Sim, sim. E outra coisa que me marca também na minha vida de adolescente é o quanto eu trabalhava para fazer comida. Como a minha irmã mais velha já havia optado para estudar na cidade e eu não, então eu era a dona de casa e da roça, eu era a segunda filha mulher. E eu era muito encrenqueira. Teve um dia em que eu estava tirando a batata do fogo, aquela panela bem grande, colocando em uma bacia enorme, chegava a estar esfumaçando, muito quente, cozida em panela de barro na lenha. E o meu irmão, o terceiro, chegou querendo pegar uma batata. E eu disse: “Você não pegue”. Eu colocava apelido em todo mundo e o apelido dele era “Tamborete” porque ele tinha as pernas meio abertas. Ele pegou a batata, voltou e jogou no meu rosto mesmo, na boca. Fiquei um tempo com a boca queimada. A minha mão era cheia de calo, que eu ralava até cinco quilos de milho; eu ralava no moinho... muita gente não conhece, era uma pedra em cima da outra.

 

P – Não, esse eu não conheci.

 

R – Era uma pedra em cima de outra pedra, mas a pedra debaixo não tinha buraco, era só na de cima. O buraco da pedra era só para segurar um pau para gente segurar e para colocar o milho, moer enquanto a de cima ficava solta. E eu ia, botava o milho e ia desmanchando milho para fazer angu. Outra vez, chegou o quarto irmão, que nós chamávamos de Tão, ele veio me abusar, como falávamos. Ele disse alguma coisa comigo e eu estava mexendo o angu no fogo e eu peguei a colher de pau e nas costas dele, ficou vermelho. Aí, quando eles vinham bater em mim eu corria para o quarto. Eles eram mais velhos que eu.

 

P – Você, na verdade, [não] tinha muita vontade de estudar e se dedicou mais ao trabalho da roça e ao trabalho de casa.

 

R – Ahã.

 

P – Como tantas outras mulheres da época. E como é que foi a criação com tu fazendo as coisas, esse monte de coisa em casa, com teus irmãos? 

 

R – Meus irmãos não ajudavam. Às vezes, eu chorava, porque tinha o período da seca que a gente ia lavar roupa muito longe e onde eu lavava roupa era uns seis quilômetros para ir e para voltar. A gente tinha um jumento, e levava as latas já para trazer água. Este barreiro se chamava comum – comum porque era um barreiro que foi do meu avô e ficou para todos da família.

 

P – Porque servia a todos.

 

R – É, servia para todos. Quando eu levava o jumento com a lata e a roupa para lavar, eu chegava com aquela trouxa enorme logo cedo da manhã e voltava no final da tarde e, quando eles queriam uma roupa, me chamavam, não sabiam nem procurar a roupa no meio de tantas outras. Não tinha essa história de os homens ajudar. Às vezes, eu estava tão cansada que acabava chorando. Eles ficavam sentados, com tudo na mão, que é muito cruel. Noventa por cento dos homens, ou mais, eram assim...

 

P – E, Ilda, você casou cedo, como foi?

 

R – Foi como eu falei, eu quase não tive adolescência. Quando eu tinha doze anos, eu acho que já era o que sou hoje, eu querendo arranjar um namorado que era amigo da gente e as pessoas não aceitaram. Inclusive, eu fazia um coraçãozinho de papel... aí, a minha irmã pegou e disse: “Esse é o coração do diabo”. Eu era muito nova. Quando eu deixei de estudar, eu não tinha catorze anos ainda, e eu deixei de estudar porque, além da preferência de trabalhar na roça, estava querendo casar, eu considerava uma vida muito sofrida, eu trabalhava muito, eu parecia um animal. Com catorze anos, eu ainda estava na escola, no mesmo ano arranjei um namorado e saí da escola. Foi com esse rapaz que eu casei, ele foi o meu primeiro namorado. Era de uma comunidade que ficava a mais de dez quilômetros de distância. Na minha comunidade, havia uma capelinha de Nossa Senhora de Fátima; na época, não existia energia e ele foi com um lampião. Foi nos anos 1960. Estava nos preparativos para a festa de Nossa Senhora de Fátima. 

Quando eu vinha da escola, encontrava com ele, com um jumento com o caçoa [cesto] cheio de pão, levando para a comunidade dele. E ele conversava comigo. Eu pensei: “Vou deixar de estudar, vou trabalhar e vou casar, com certeza. Eu casando, vai melhorar a minha vida”. A gente ainda passou quatro anos namorando, minha mãe tinha muito cuidado, muitos ciúmes. Eu pedia para ir na casa da irmã dele e ela não deixava sair sozinha com ele, mas eu era danada. Mesmo assim, a gente namorou, tivemos relação sexual antes de casar, com oito meses, o meu filho mais velho nasceu.

P – Depois que o seu filho nasceu. 

 

R – Eles descobriram antes, porque o cara teve ciúmes de um vizinho. Porque a gente ia para a feira a pé, eram dois quilômetros de casa para a cidade, e este cara acompanhou. Tudo bem, fomos conversando e ele ficou com raiva. Aí, ele foi para a casa da minha irmã, que ela morava na cidade, ela estudava e costurava também, e ele chegou dizendo: “Olha, eu vou deixar a sua irmã, porque eu não vou levar ponta”. O noivo de minha irmã havia acabado o noivado e ela disse: “Você está com covardia, não quer se casar com ela”. Ele disse: “Eu já devo a ela e ela me deve”. Eu sei que ela conseguiu segurá-lo e levar para falar com meu pai. Isso foi no mês de agosto e, em setembro, casamos.

P – E como foi essa experiência, Ilda, na sua vida? Quantos filhos você teve? A relação com o seu marido, quanto tempo você ficou casada?

 

R – O primeiro namorado... O casamento da gente, eu acho que foi forçado, porque eu acho que nem existia amor. Se ele tivesse dito “não”, não tinha problema, pois quando ele disse que ia embora, eu nem liguei. Mas, quando o meu pai soube, o meu pai e minha mãe fizeram tudo para ajeitar o casamento e a comunidade não soube o que estava acontecendo, ninguém soube que a gente ia casar. Foi um casamento surpresa que, na época, estava na moda. Teve um fato lá que eu não esqueço: no dia do casamento, eu passei o dia na cidade e, na hora que a gente vai saindo da igreja, vai chegando um enterro. E a superstição do povo dizia que “se o casamento se encontrar com um enterro é muito ruim”, não iria dar certo, e foi um corre-corre para não encontrar. O noivo acabou indo em outro carro e a noiva em um carro sozinha, atrás. Essas coisas, quando a gente lembra, só dá vontade de rir.

Mas, em relação à experiência, eu digo que foi uma experiência válida por causa dos filhos que eu tive. Hoje, acho que, mesmo tendo passado pelo que eu passei, eu não gostaria de não ter me casado e com a pessoa que eu casei. Eu não sei, se de repente eu tivesse casado com outra pessoa, também não era a mesma coisa.

O meu casamento foi de muito sofrimento, eu não contava para ninguém, nem falava o que acontecia comigo. A gente casou e foi morar em uma das casas do meu pai, que era perto uma da outra, e a minha mãe presenciava alguma violência psicológica. Na época, não era considerada violência. Ele só me chamava aos gritos, quando eu não ouvia ele chamar, perguntava: “Você está morta? Você é cega? É muda ou surda?”. Ele me tratava assim, dessa forma que as pessoas viam e ouviam, e a minha mãe também. 

 

P – Ela achava muito natural.

 

R – Não sei se era natural. Mas eu acho que se logo no início do namoro a gente fosse ver a relação das famílias e fizesse uma reflexão, a gente não casaria com determinada pessoa. Para começar, toda a família dele era toda desajustada, separada, que batia muito nas suas mulheres. No início do casamento, além de gostar da roça, eu também gostava de criar os animais. Quando eu casei, eu levei um monte de galinha e, quando ia chegando a noite, ele queria colocar as galinhas tudo em um galho só do pé de árvores. Ele subia e se as galinhas ou os pintos não ficassem onde ele queria, ele jogava no chão... matou muita galinha dessa forma. Era uma violência triste que ele tinha com os animais, eu acabei desanimando e deixando de criar. 

Como eu falei, eu casei e já estava grávida e tem uma cena da gravidez do meu primeiro filho que eu não esqueço. A casa que a gente morava era cheia de degrau. Ficava o tempo todo caminhando e ficava cansada, até por estar grávida. Num dia de domingo, chegou uma mulher em minha casa e ela morava sozinha e me pediu uma vasilha; eu pedi para ela entrar e, logo que ela saiu, a reação dele foi terrível, eu não sei por quê. Eu estava na cozinha e ele me deu um tapa tão grande na minha cabeça que eu bati em uma grelha de assar carne no fogo de carvão e furou a minha cabeça. Isso foi no domingo e, na sexta-feira seguinte, comecei a sentir as contrações do parto, na mesma sexta-feira nasceu o meu filho mais velho.

 

P – Cada um tem uma forma de violência.

 

R – Claro que sim, eu fui violentada de várias formas. Quando estava grávida da minha filha, fui à cidade resolver algumas coisas; quando cheguei, ele estava uma fera, era o mês de setembro, e eu ganhei a Girleide em janeiro. Ele saiu correndo atrás de mim. Onde eu morava, tinha uma rampa – a casa já não era a mesma que morávamos quando casamos, saímos da casa do meu pai e fomos pagar aluguel – ele saiu com raiva, porque o meu pai não soltava dinheiro para ele. Neste dia que fui à cidade, ele pegou e jogou um tijolo nas minhas nádegas, ou na minha bunda mesmo, e ficou a marca por muito tempo.

Outras cenas aconteceram. Com os mais novos, foram várias vezes que ele me bateu. Bateu que chegava até a rasgar a minha roupa e, nesse dia, eu não conseguia fazer nada em casa. Os meus filhos ficavam gritando. Quando ele me batia, a menina não deixava ele chegar perto de mim, ficava chorando quando ele se aproximava de mim. Se ela estivesse sozinha, ele ainda chegava perto dela. Se ela estivesse no meu colo, ele não chegava, que ela gritava. Por medo.

 Muitas vezes, eu ficava com ela nos braços para ver se era melhor e me defendia. Para ver se ele não batia, mas ele me batia mesmo assim. Uma das cenas que lembro foi com o meu filho mais novo: quando eu estava com seis meses de gravidez, ele me botou para fora de casa.

 

P – Como é que você conseguiu conviver com esse marido seis anos?

 

R – Foram seis anos de muito sofrimento e violência. Tive quatro filhos.

 

P – E tu tiveste esses meninos onde?

 

R – Todos em casa. Nunca fui ao médico ao menos para dizer que estava grávida.

 

P – Nunca fizeste pré-natal, nada?

 

R – Nada. Eu trabalhava até o dia descansar.

 

P – E ele acompanhava os seus partos? Como é que era essa relação? Porque tem pai, tem marido, que acompanha.

 

R – Ele ficava em casa.

 

P – A parteira, ele ia buscar?

 

R – Ele ia buscar. O primeiro, por exemplo, foi uma parteira da cidade de Surubim. A partir dos outros, foi uma parteira da comunidade. Na época do filho mais velho, ela estava estudando para ser parteira. 

 

P – E ainda nesse tempo que tu conviveste, que tu eras casada, como é que era a relação da família, da tua família de filhos e do teu trabalho da roça, como foi isso?

 

R – Foi difícil conciliar, mas eu conseguia. Quer dizer, a minha família não sabia de nada do que estava acontecendo comigo. Eles percebiam eu machucada e, quando perguntavam, eu dizia que batia em algum lugar, que não sabia o que era, não sei o que aconteceu, eu sempre ficava escondendo. Eles não insistiam muito, porque eles também desconfiavam, mas não faziam nada. Só depois, quando o meu último filho nasceu, ele me botou de casa para fora e eu disse a eles. 

Um certo dia choveu e nós estávamos jantando numa boa, mais os três filhos, e eu já estava grávida do mais novo e ele disse assim: “Amanhã você vai para a roça”. Eu disse: “Infelizmente, eu não vou poder ir, porque tem a menina e eu não posso levar”. Ela estava com oito meses, quem tomava conta dela era a minha irmã, mas ela tinha casado. A minha mãe estava sozinha. Eu falei: “Não tem quem fique com ela”. E aí, por causa disso, foi uma briga, ele me bateu, chegando a rasgar minha roupa e mandou eu ir para a casa de meus pais. Foi quando a minha mãe teve certeza do que estava acontecendo. Na comunidade não tinha energia e o pessoal ficava sentado nas calçadas, conversando, até dar a hora de dormir, eu cheguei e sentei, minha mãe ficou esperando eu ir embora e eu não fui embora. E quando eu não fui embora, ela olhou para mim e perguntou: “Não vais embora?”. Eu disse: “Guido bateu em mim, mandou eu vir para cá e ficou lá com os filhos”. Ela mandou eu dormir, eu fiquei deitada. Cedinho, a minha mãe chegou chamando, disse: “Vá embora, pegue uma lata, leve água para o pessoal não perceber que você dormiu fora de casa, tenha paciência que ele melhora”. Minha mãe não tinha experiência com o problema de violência familiar.

 

P – Achava que era a primeira vez.

 

R – É, achava que era a primeira vez. Aí, eu fui e levei a água e quando eu cheguei lá ele não queria deixar eu entrar. Mas depois entrei. Eu já levava os dois mais velhos para a roça comigo. Nós não tínhamos terra, a que o meu pai tinha era pouca e para gente é que não tinha mesmo. A gente andava mais de seis quilômetros para ir nesta terra que era arrendada.

 

P – O teu marido não tinha terra?

 

R – Não tinha. A gente alugava uma terra para trabalhar. Eu mesmo acordava três horas da manhã e cozinhava o feijão, fazia o café dele, quando o café estava pronto, eu chamava os meninos e ele e eu depois do café colocávamos os dois mais velhos em um carro-de-mão e eles iam conosco, passavam o dia inteiro debaixo de um pé de juá. Quando chegava em casa, era aquela coisa, saíamos muito cedo, estava tudo para fazer, os meninos chegavam morrendo de fome e para fazer o fogo de lenha ou carvão, buscar água para banho e cozinhar, que era mais perto – a de beber era mais longe – a correria era grande. Ainda faltava comida, quando trazia batata doce, milho, jerimum, ou outro produto, as crianças chorando e ele queria que eu desse conta, batia em mim pela demora da comida ficar pronta. Os meus filhos passaram muita fome, eles diziam: “Mãe, estou com fome”. A única coisa que não faltava em casa era farinha.

 

P – Porque vocês produziam? 

 

R – É, mas não era o suficiente. Tinha algumas coisas que não faltavam, mesmo que ele comprasse fiado: era feijão, farinha, açúcar e café, isto nunca faltava. Quando não tinha outra mistura, botava feijão e comia bebendo café. Os meninos, quando estavam com fome, era farinha com açúcar. Mas meu pai criava galinha e minha mãe sempre mandava, já pronta. Minha família não sabia do que nós passávamos.

 

P – Você gostaria de destacar mais alguma coisa, Ilda, desse período? 

 

R – Eu quero destacar uma coisa, é bem rápido, eu não falei e que foi importante, eu criava uma cabra para dar o leite aos meninos.

 

P – Só tinha uma?

 

R – Só tinha uma. Tem uma época que a cabra não dá leite, eu estava com o meu menino mais novo, em um destes prazos, e a gente comprava uma garrafa de leite do nosso vizinho, que era o meu tio. Esse leite era para molhar o cuscuz do pai e das três crianças maiores e o resto do leite para o mais novo tomar durante o dia. 

 

P – A única garrafa.

 

R – Uma garrafa de leite. Eu me separei no dia do batizado do menino mais novo, os padrinhos foram minha irmã e meu cunhado. O menino estava com nove meses. Ele disse que, quando chegasse da igreja, levasse o menino para ele abençoar, mas quando a criança chegou estava chovendo e ele estava em uma venda tomando cachaça.

 

P – Ele não foi no batizado?

 

R – Ele não foi ao batizado, nem eu. E não fomos levar o menino para dar a bênção, porque o menino estava dormindo, também, e estava chovendo.

 

P – E ele em uma venda tomando cachaça?

 

R – Tomando cachaça. Aí, ele foi para casa e mandou me chamar. Eu não fui para a igreja, fiquei na casa dos meus pais preparando o almoço, porque a gente não tinha como fazer o almoço em nossa casa. Já eram quase doze horas quando ele mandou me chamar. Não deixou os filhos almoçar, fui apanhar feijão maduro em volta de casa para pôr no fogo, para depois almoçar.

 

P – Com o almoço pronto na casa de sua mãe?

 

R – Com o almoço pronto. A minha irmã mais nova foi levar o almoço, que minha mãe havia colocado tudo que fiz no balaio, e ele mandou de volta. Uma vizinha foi escondida e pegou a comida para dar às crianças, mas para nós dois foi o feijão que estava no fogo. Ele não esperou pelo feijão, voltou a beber novamente. Puxou a faca para matar o meu pai, queria matar a minha irmã mais velha, minha mãe estava em uma capela que tem lá na comunidade e ele mandou minha mãe fechar as portas da igreja, senão ia matá-la. E, assim, foi o maior rolo, chegou em casa e falou: “Eu vou arrancar a sua orelha”, eu senti a faca bem pertinho da minha orelha. Foi um dia de tormento. Nesse dia, era inverno, eu tinha uma cabra e a cabra dormia dentro de casa por causa da chuva. Eu fiquei com os filhos e eu chamei a vizinha e disse: “Você vai falar com minha mãe para ela arranjar uma forma de eu sair da minha casa, ou então eu vou sozinha, sem destino”. Ela mandou dizer que eu podia arrumar alguma coisa para viajar, eu não tinha calçado, nem roupa, e a minha irmã mais velha arrumou algumas roupas, calçado e outros objetos. Fui para casa do meu irmão, em Recife, e tive que deixar as crianças com ele. Com três dias, ele mandou falar com minha mãe para ficar com os dois mais novos e os mais velhos ele levou para sua irmã tomar conta. Depois de três dias, a irmã foi na casa de minha mãe e pediu para ela ficar com os meus filhos e ela disse: “Pode trazer meus netos, eles são como se fosse minha filha”. Eu fiquei um mês no Recife, foi um mês de muito sofrimento. Eu deitava e só ouvia o choro deles. 

A minha sorte é que tinha uma menina, uma sobrinha minha com a mesma idade do meu filho mais novo, o Flávio. O meu filho nasceu no dia 12 de agosto e ela nasceu no dia 13 do mesmo mês. No aniversário da minha sobrinha de um ano, ela andava para todo lugar, o meu filho não ficava nem sentado no braço, não conseguia segurar o pescoço, porque ele foi criado com água, estava muito desnutrido e, quando eu vi aquela cena, em comparação à menina, eu sofri muito. Quando voltei, ele apareceu querendo reatar, mas eu não quis e ele ficou me ameaçando. O meu pai foi à delegacia da cidade e deu parte. O juiz reclamou, porque o meu pai não foi denunciar ele no dia do batizado. Ele foi preso por uma noite e, depois disto, ele parou, não voltou mais. Não denunciei ele há mais tempo porque só depois de muito tempo de separada é que descobri que tudo que sofri foi violência.

 

P – Depois…

 

R – Depois que eu comecei a participar do movimento das mulheres foi que descobri que tudo que passei foi violência. Mesmo eu tendo iniciado a minha participação no movimento sindical há mais tempo, desde os anos 1980, quando eu comecei a participar do movimento de mulheres foram várias descobertas que aconteceram na minha vida.

 

P – Desde a violência direta.

 

R – Sofria desde a violência direta, indireta e sexual. Porque ele me batia e, à noite, depois, eu era obrigada a ter relação sexual com ele. Eu sempre digo: sofri todo tipo de violência. Muita gente diz que temos que perdoar. Não tenho ódio dele por causa dos frutos que são os meus filhos, mas eu não esqueço o que eu sofri. 

 

P – E, Ilda, só para fechar esta parte, de tudo isso que tu viveste, qual é a tua maior lição que tu levaste dessa relação, dessa convivência?

 

R – No primeiro dia que ele praticou a violência comigo, eu aceitei quietinha. O medo que eu tinha era de que a sociedade soubesse e falassem: “A filha de Manoel é separada”. Eu tinha medo de que as pessoas soubessem que eu era violentada, tinha medo da separação, e por isso escondi tudo. Quer dizer, hoje eu não esconderia o sofrimento que eu passei, não aguentaria nenhuma violência. Na primeira vez, já tinha resolvido, mas eu apanhei muitas vezes. Quando ele vinha me bater, eu sentava na cama, pegava a menina no braço para ver se evitava ele me bater, sentava e apanhava sentada e calada, sem reagir, para ninguém ouvir. 

A única vez que eu reagi, no dia de domingo, cedo da manhã, ele chupou umas mangas com as crianças, ele jogou as cascas pertinho da porta e eu ia passando, levando água para as galinhas, e ele disse: “Apanhe essas cascas de manga”. E eu fui pegar com a água na mão e ele disse: “Ligeiro, sua aleijada” e me empurrou. A água não derramou, eu reagi e joguei a água nele. Quando eu reagi, foi o fim, foi quando as vizinhas e os vizinhos vieram saber e perceber que ele batia em mim. Porque eu corri para a casa da vizinha. Mas eu tive que voltar. 

 

P – Ilda, vamos pegar a questão da sua militância, né? A questão da sua trajetória nos movimentos sociais, nos movimentos das mulheres, como é que surge?

 

R – Hoje eu agradeço a minha mãe por estas participações. Minha primeira militância foi no movimento sindical, comecei a participar através do incentivo dela, porque ela era sócia do sindicato e todo mês ela ia às assembleias. Quando eu me separei, que eu voltei do Recife, eu me associei, porque eu tinha quatro filhos que precisavam de médico. Na época, o sindicato era assistencialista, tinha médico e dentista. Minha mãe insistia para que eu participasse, porque ela era de uma consciência completamente diferente da do meu pai. No período das campanhas salariais, na mata, o meu pai ficava reclamando: “O açúcar fica mais caro por causa das greves”. E ela ficava tentando convencê-lo de que o aumento do açúcar não era causado pelo aumento dos salários.

 

P – As questões maiores de conjuntura.

 

R – É. E, como ela participava do sindicato, ela já percebia essa discussão. Aí, ela ficou muito tempo insistindo. Depois, eu comecei a participar. Eu comecei como delegada sindical da minha comunidade e, depois, eu fui para o Conselho Fiscal e depois fui para secretaria. Quando eu estava mais efetiva na direção, a Federação me convidou para participar das reuniões da Comissão Estadual.

 

P – Da Comissão Estadual de Mulheres?

 

R – De mulheres, trabalhadoras ligadas ao movimento sindical.

 

P – E o ano, você lembra, mais ou menos?

 

R – Nos anos 1980.

 

P – Final dos anos 1980?

 

R – É. Quando eu comecei a participar, indiretamente, eu estava participando do movimento das mulheres. Quem estava na coordenação como assessora, que ajudava na Comissão Estadual, era Vanete Almeida. De vez em quando, eu comecei a participar da Comissão Estadual. E, então, a gente teve muitas brigas no sindicato. Eu participei de muitas atividades da Comissão Estadual com o meu próprio dinheiro, porque meus pais assumiram os meus filhos e minhas irmãs – inclusive, eu tenho uma irmã que mora em Brasília e ela me assumiu, todo mês ela me mandava o salário, porque eu não ganhava nada.

 

P – Quem?

 

R – Minha irmã, mandava salário. E desse dinheiro eu tirava para participar da reunião do sindicato, para participar de reunião de mulheres, porque o meu pai dava alimentação aos meus filhos. O Sindicato não fortalecia as questões das mulheres e, ao mesmo tempo, a gente tinha Comissão Municipal de Mulheres.

 

P – Mas é meio estatutária…

 

R – Não, não é estatutária. A gente fazia as reuniões mensais de mulheres no sindicato, só que era para falar tudo o que eles queriam. Não era um movimento onde se discutia a importância da mulher.

 

P – Era para discutir mais a questão sindical.

 

R – Sindical e não a importância da participação das mulheres, da evolução das mulheres nas questões políticas, as questões que envolvem as mulheres, a autonomia das mulheres. E aí, eu ia aprendendo isso dentro da Comissão Estadual. E eles foram percebendo. No início, o sindicato ainda liberava dinheiro, mas depois... Foi cortando.

Para você levar a discussão do movimento autônomo para dentro era muito difícil. Mesmo no sindicato, a gente dizendo “vamos trabalhar com as mulheres, a mulher pode participar”… Mas essa mulher é importante para o sindicato enquanto ela tiver a visão só deles. Quando ela vai para um lado e para outro e elas estiverem percebendo as coisas, aí eles não querem mais. 

E, assim, a Comissão Estadual me escolhe, também, para participar da Comissão Provisória da Contag. E continuava no sindicato, na Comissão Estadual, mas também eu fazia parte da Comissão de Mulheres. Depois, no quinto congresso da Contag, o primeiro que eu participei, eu fui escolhida para fazer parte da direção como suplente. 

Eu intervia junto da direção e uma das brigas da gente na Contag foi conseguir diária para alimentação em viagem e, também, as passagens. Mesmo assim, era de ônibus, porque os homens iam de avião e as mulheres iam de ônibus.

 

P – Nessa relação tudo foi acontecendo muito rápido. Sindicato, Comissão Estadual... Nesse processo todo várias coisas aconteceram, cite pelo menos dois fatos que foram marcantes nesse processo.

 

R – Eu acho que um fato que marcou foi a gente entrar no quinto congresso. A comissão organizar, discutir, definir um nome para a direção executiva, que só tinha homem na Contag, a mulher aceitou e no momento final ela não aceita mais. E aí, nesse congresso a gente perde a oportunidade de participar. Isso marcou muito. 

E marcou também uma posição que tomamos juntos, nós de Pernambuco, no 6o Congresso da Contag. A gente tinha o nome de um homem, que acabou não ficando também, aí a gente desistiu de tudo. No estado de Pernambuco, nessa época, eram todos os homens. Eu acho que foi marcante a união dos homens e mulheres naquele momento, pelo menos naquele congresso.

 

P – Estavam muito juntos.

 

R – Estávamos juntos, eu acho que isso é uma coisa que marcou. E logo, no outro ano seguinte, marcou também. A gente tinha conseguido passar dentro do Congresso, que a gente ia escolher uma coordenadora da Comissão Nacional. E indicaram meu nome e fizeram a campanha. Teve uma eleição dentro da Comissão Nacional e eu consegui, as pessoas me elegeram com a diferença de um voto contra a candidata do Norte. Então, são coisas, assim, que marcam, porque, às vezes, a gente nem espera.

 

P – Você competiu também com a Santiago?

 

R – Com a Santiago. As pessoas tinham vários nomes. Tinha o meu, da Santiago de Rondônia; da Maira do Rio Grande do Sul; e de Raimundinha, que era do Ceará. E homens e mulheres sentaram e disseram: “Vamos ficar só com o nome da Ilda”. Quer dizer, é uma coisa que me marcou, porque eu não era, e não sou ainda, pessoa de muitos discursos. Eu sou mais de fazer, mais do que pegar um microfone e fazer um discurso belo como o que muita gente faz. 

 

P – E como seguiu?

 

R – Foi tudo muito rápido. Nessa época, quando eu entro como coordenadora da Comissão Nacional da Contag, eu acho que a gente não estava discutindo nem a questão da secretaria, nem participando da discussão ainda. Porque no início teve um período de ciúmes entre os movimentos. Eu percebia, porque eu continuei na Comissão Estadual. Teve um período em que as assessoras que participavam da reunião da Comissão Nacional se afastaram por ciúmes das outras assessoras do movimento sindical. 

Quando eu fui pra Contag, é uma coisa que me marca, eu não falava muito, e quando eu cheguei na Contag eu tive um bloqueio muito grande em relação à fala. Inclusive, eu falei para esses homens outro dia, lá na Contag. Os outros homens, que vinham de muitos anos de Contag, era um pessoal metido a fazer discurso. Só homem que não tinha nenhuma visão em relação à importância das mulheres dentro da transformação da sociedade, e eu tive muito bloqueio da fala. Muitas coisas que eu falava eles ignoravam, eles questionavam, eles riam. 

A gente falava de começar a mudança para trazer a visibilidade das mulheres a partir dos documentos. Todos os documentos dos congressos da Contag, se alguém ler, era como se não existissem mulheres dentro do movimento sindical. Porque a gente sabe que as mulheres não estavam na direção, mas as mulheres estavam nas frentes de luta, à frente das reivindicações, à frente da luta pela terra e participavam dos congressos. Não era um grande número de mulheres, mas havia mulheres que participavam, mesmo sem direito à voz, e muitas, muitas mulheres falavam, mas eles não enxergavam como uma coisa boa e importante para a transformação da sociedade. Então, eu tive que fazer terapia. Foi um processo. 

É nesse mandato que se inicia a discussão pelo Primeiro Encontro Latino-Americano, em 1995 e 1996. O MMTR, Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Nordeste, que estava à frente do primeiro encontro, vai fazer algumas atividades de preparação em Brasília. E eu, como coordenadora, participei da discussão e foi quando eu ouvi falar mais das questões latino-americanas.

Foi um processo muito bom. Participei então do 1º Enlace. Inclusive, a gente tinha a Raimundinha e eu puxei a discussão da secretaria antes de fazer essa discussão na Contag. Puxava pela consciência de que a gente sozinha não ia a lugar nenhum. E aí, a gente já visibilizava como um movimento de mulheres importante para somar e para a transformação da sociedade em um movimento autônomo. E a gente enfrentava o maior “pau”: em uma discussão que a gente puxou, de vinte e cinco estados, só quem segurou a discussão foi Ceará, com Raimundinha, eu, que era a coordenadora, e o Tião, um diretor que era da Secretaria de Formação da Contag. E, quando o MMTR-Nordeste vai para a Contag e a gente passa a discutir o Primeiro Encontro Latino Americano, vai além das mulheres. Claro que foi toda a discussão das mulheres, mas a gente falou com alguns diretores, a gente conseguiu fazer com que alguns homens percebessem a importância do encontro, que eles fossem com a gente para ir buscar dinheiro, recursos para acontecer o evento. Conseguimos, também, fazer com que eles entendessem a importância da gente sair e articular a busca de dinheiro. Por exemplo, duas pessoas, a Auxiliadora e a Maria Jucá, ficaram quase uma semana lá na Contag em Brasília e a gente ficou pensando como buscar recursos para a realização do Primeiro Encontro. Foi muito difícil.

A relação da presidente da CONTAG com o Ministério da Reforma Agrária foi que conseguiu recursos. Mas, em todas as embaixadas que nós fomos e em alguns gabinetes dos deputados, não conseguimos nada.

 

P – Foi uma coisa marcante...

 

R – Coisa que marca. E então, participei do Encontro. Não sei se foi o cansaço, eu sei que eu adoeci, tive problemas de saúde no encontro. Eu acho que eu não participei como eu deveria, mas com certeza a gente aprendeu algumas coisas na vida das trabalhadoras rurais da América Latina e na vida da gente. Em alguns momentos, a gente acha que vai conseguir ter uma convivência com outros movimentos, mas a articulação com as mulheres do Sul nesse encontro foi uma experiência muito ruim. A gente fazia as coisas e elas apresentavam de outras formas; inclusive, a gente fez uma avaliação do encontro e elas fizeram outra, tudo negativo.



P – Você participou da Contag, você participou do início da construção da Rede LAC, participou do Primeiro Enlace e continuou. Depois você veio para o MMTR como secretária executiva.

 

R – Quando eu saí da Contag, em 1999, eu já comecei a participar mais fortemente do MMTR-Nordeste e, em 2001, fui eleita secretária executiva do MMTR-NE

 

P – E aí foi fortalecendo a sua participação dentro da Rede?

 

R – Mesmo antes de eu entrar no MMTR-Nordeste e participar como secretária executiva, eu continuei. Saí da Contag, da executiva, mas eu continuei como suplente na Contag. E, quando se inicia a discussão da Rede LAC, aí a Contag é convidada e me indicou para eu participar no início da discussão.

 

P – Depois, sua participação ficou mais efetiva, até chegar o Segundo Enlace. O que você destacaria como coisas marcantes nessa sua participação? O que foi mais forte para você?

 

R – Para mim, foi marcante a definição, naquela articulação, de onde ficaria a secretaria. 

 

P – Foi marcante a definição.

 

R – Aqui no Brasil, né? E também no momento em que a gente vai discutir a sede, eu acho que isso é marcante. Outra coisa: a evolução, primeiro com os sonhos, e a gente vê os sonhos serem realizados, isso foi marcante. A inauguração da secretaria foi muito legal. Agora em relação ao Segundo Enlace...

 

P – Você participou. Foi muito diferente a sua participação do primeiro para o segundo encontro?

 

R – Eu acho que foi marcante estar na Coordenação Internacional. Outro impacto foi o nosso avanço como trabalhadora, eu diria um avanço muito grande.

 

P – O nível de participação das mulheres.

 

R – O nível de participação. Eu lembro que no primeiro a gente não entendia e muita gente adoeceu naquele primeiro, se sentiu mal porque praticamente era a primeira discussão. Eu já tinha participado de alguma discussão em outras línguas, mas tinha muitas delegadas nossas que não tinham participado. Então, foi um processo de avanço muito grande, porque mesmo antes do segundo a gente teve algumas discussões com outros países. Então, isso facilitou para o avanço.

 

P – O entendimento. E o que você considera de resultado para tua vida como mulher que você é? 

 

R – Eu tenho tanto pra falar. Toda a falação que eu fiz de tanto sofrimento e tudo, mas hoje eu acho que tudo isso foi mínimo, pois o avanço na minha vida foi muito maior, muito maior. O avanço de eu ver o meu filho dizer assim: “Você me ajudou num momento que eu nem esperava”. Pessoalmente, por exemplo, meus filhos são um grande avanço. Com tanto sofrimento, meus filhos hoje estão todos formados. Tem dois que tem doutorado, um tem mestrado e a outra só não conseguiu concluir por falta de iniciativa. O meu segundo filho, quando ele ia defender a tese do doutorado, ele supernervoso, dizendo: “Eu não sei como é que eu vou sair dessa, mãe, eu não sei se eu vou conseguir”. Isso por telefone e eu dando orientação a ele de como ele fazer e conseguir. Aí, ele chegava para mim e dizia: “Mãe, se não fosse a senhora ter me dado aquela orientação, eu não sei se eu tinha conseguido fazer a defesa”.

 

P – Ele tinha que ir pra oratória...

 

R – Devido ao problema que eu tinha passado na Contag, eu fiz um curso de oratória e passei algumas orientações para ele. Para mim, essa coisa é marcante. É marcante o reconhecimento que os meus filhos têm. É marcante que os meus filhos me apoiem na minha decisão de participar dos movimentos sociais, me apoiem não só quando eram pequenos, mas hoje, em todos os momentos, eles me apoiam, me admiram.

 

P – Dão força.

 

R – Dão força, valorizam o que eu faço, reconhecem a importância do que eu estou fazendo.

 

P – E como é que tu vês a Rede LAC hoje? Como tu estás vendo?

 

R – Mesmo a gente conseguindo chegar onde chegou com a Rede, temos muito a fazer, muito a fazer.

 

P – Muitos desafios?

 

R – Muitos desafios. Um desafio é a rede conseguir realizar um dos objetivos que a gente discutiu no início. É a rede conseguir fortalecer os movimentos que estão dentro da rede. E são vários movimentos que estão dentro da Rede, na coordenação hoje, desta Rede tem o MAMA, o MMTR-Nordeste, a Contag...

 

P – Na coordenação brasileira.

 

R – Mas também tem dois países, que é o Uruguai e o Peru. Mas tem os outros países. Como é que a rede vai conseguir fortalecer esse movimento, seja no Brasil, seja em qualquer país da América Latina? Eu considero um desafio. E eu considero um desafio muito grande é a secretaria da Rede. Também tem a mulher trabalhadora rural – essa é a pilar dessa Rede – na coordenação, na secretaria executiva.

 

P – É espécie de um sonho.

 

R – É um sonho que eu tenho, porque é um desafio. Primeiro, tem a questão da língua, mas eu acho que já tem algumas mulheres que já estão superando. Hoje, o MMTR-Nordeste está em nível nacional e internacional. Hoje o MMTR-Nordeste não está só no Nordeste. Então, quando ele sai para uma discussão da América Latina e do Caribe, quando ele está na discussão do Mercosul, quando ele está na discussão nacional, o movimento está nesses lugares. São as trabalhadoras rurais que estão lá. Eu estou falando do MMTR-Nordeste, mas com certeza sobre outros movimentos também. As trabalhadoras rurais, hoje, não são apenas Brasil. Trabalhadoras rurais são, hoje, Brasil, América Latina e Caribe.

 

P – Qual seria, Ilda, a mensagem que você desejaria para a Rede, para as mulheres e para você mesma?

 

R – Acho que a mensagem que eu deixaria, primeiro para as mulheres... Vou citar logo para as mulheres do MMTR-Nordeste. Eu sei que há muita dificuldade, muito desafio. Mas aqui, no MMTR-Nordeste, a mensagem é abraçar essa causa com muita força. É muito desafio para nós. Para mim, hoje é mais fácil, porque eu estou na direção, mas para aquelas mulheres que ainda têm que sair da roça para participar, deixar seus filhos, a mensagem é que ela não desista. Ela precisa dar continuidade a essa luta e topar o desafio. 

Foi um desafio eu ir para a Contag, sair do sindicato para a Contag foi um desafio. Foi um desafio, também, a experiência de vir para o MMTR-Nordeste. Eu aprendi. Com certeza, eu decepcionei em alguns momentos, mas também em outros eu contribuí. Então, eu acho que qualquer pessoa é capaz de estar em qualquer lugar, seja municipal, estadual, nacional ou internacional. 

Por isso, eu tenho essa esperança de um dia eu ver uma trabalhadora rural à frente da secretaria da Rede LAC, seja do Brasil, seja de outro país qualquer da América Latina.

 

P – Quer dizer mais alguma coisa?

 

R – Foi uma oportunidade muito rica. A gente acaba querendo, às vezes, falar demais. Também, falar de uma experiência de cinquenta e oito anos de luta, anos de experiência, de conhecimento, porque mesmo que eu tenha cinquenta e oito anos de idade, eu não lembro só das coisas de quando eu era jovem, de quando eu era adolescente, eu lembro das coisas de quando eu era bebê, porque a minha mãe falava essas coisas para mim e isso é muito importante.

 

P – Eu, como entrevistadora, queria agradecer a você em nome da Rede LAC e do Museu da Pessoa. Que sejamos todas felizes e tenhamos um final de ano gostoso.

 

R – Obrigada.




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