Busca avançada



Criar

História

Uma paixão chamada Agronomia

História de: Benedicto Leonardo Primo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/08/2018

Sinopse

Nesta entrevista Benedicto Leonardo Primo conta sobre a origem humilde de sua família e de como foi o primeiro integrante dela a cursar ensino superior, o que foi possível pelo apoio de sua mãe. Benedicto relembra momentos com seu irmão mais novo, o primeiro namoro, como conheceu sua esposa e de como começou a trabalhar no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, onde ficou por mais de trinta anos. Além disso, Benedicto fala de sua paixão pela Agronomia, por fazendas, por seus filhos, netos e esposa.

Tags

História completa

P/1 – Boa tarde, senhor Benedicto.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Nós gostaríamos de começar a entrevista perguntando ao senhor nome completo, local e data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Benedicto Leonardo Primo. Nasci no dia 26 de julho de 1918 . E... Posso continuar?

 

P/1 – Em que cidade?

 

R – Ah. É. Eu nasci em Cerquilho. Exato. Esqueci disso.

 

P/1 – Pode continuar.

 

R – Pois é. Ah, eu, como já tinha conversado, como expliquei pra senhora nos primeiros dados... Meu pai faleceu eu tinha dois anos de idade e minha mãe logo depois ela casou; na segunda vez eu já devia ter uns dez anos, mas casou com uma pessoa que era de poucos recursos. Como eu estava fazendo curso primário, os amigos da minha mãe e também os parentes diziam que eu devia fazer um curso mais avançado, não ficar satisfeito só com o primário. Com essas condições financeiras foi uma certa dificuldade, ainda mais com o agravante que minha mãe tinha casado pela segunda vez e era uma pessoa de um nível muito baixo, mal sabia escrever o nome dele, mas era um cara trabalhador. Então, me lembro bem, que os amigos dela diziam assim: “É preciso fazer um curso”. Ah, eu preciso dizer o seguinte: quando eu falei pra você que eu morei nesses lugares que eu falei, mas eu fui morar com meu avô, pai de minha mãe, em Tatuí. Lá tinha um... Foi inaugurado um Ginásio do Estado na cidade. Eles ficaram entusiasmados e falaram: “Não, você dá um jeito de estudar e morar no meu si...”. Daí eu fiz o curso ginasial em Tatuí.

 

P/1 – Em Tatuí?

 

R – Fiz o curso lá.

 

P/2 – O senhor é o filho mais velho?

 

R – Sou o filho mais velho. Estudei então em Tatuí. Depois, por causa já dessa questão financeira, eu me lembro, é uma coisa que eu falava muito, que eu gostava: eu queria ser engenheiro. Não como hoje eu sou engenheiro agrônomo, eu queria ser engenheiro civil. Mas na minha época era pouco comum você fazer um curso de nível universitário sem trabalhar, porque hoje se faz muito universitário, a pessoa trabalha, faz curso à noite e trabalha durante o dia. No meu caso não. Então eu disse: “Bom, sabe de uma coisa, eu vou estudar em Piracicaba, uma cidade do interior. Vou fazer Agronomia”. Apesar de que eu gostava também até dessa parte de agricultura, lidar com agronomia, cultura de nossos vegetais, vamos dizer, de arroz, feijão, cultura de feijão, arroz ou então de coisa ligada com agronomia. E eu fiz esse curso bem, lá em Piracicaba. Acontece que assim que eu me formei eu falava, eu falo hoje até para o meu filho, que é moço e para os meus filhos: “Coisa boa é você ter pai”, porque eu não tinha pai, era padrasto. Um detalhe: quando eu estava estudando em Piracicaba eu tinha que pagar aquelas prestações de estadia, de moradia lá que eu tinha que fazer, minha mãe pegava o dinheiro do meu padrasto escondido dele. Eu me lembro bem (risos). Isso é uma coisa que eu guardo muito. Outro dia, há poucos dias, eu li no jornal: “Uma nota de 500 mil reais”. Era uma nota assim, desse tamanho assim. Ela então pegava o dinheiro que ele recebia com a venda, porque o meu padrasto fazia cultura de... Estou falando muito depressa?

 

P/1 – Não. O senhor vai ter que voltar um pouco depois.

 

R – É? Então, quando ele vendia, por exemplo, ele usava muito fazer plantação de abacaxi. Quando havia aquela colheita, ele vendia aquilo e vinha um dinheiro bastante grande em relação às condições financeiras dele, que eram pequenas. Aquilo representava muito e, minha mãe, escondida dele tirava o dinheiro, uma parte pra ela me sustentar lá no estudo. Foi dessa forma que eu estudei em Piracicaba. Estou falando isso pelo seguinte: quando eu me formei eu estava tomando gosto até pela parte da agricultura, curso que eu fiz, tudo isso, então eu pensei de... Eu disse: “Olhe, eu vou arranjar um emprego”. Naquela ocasião que eu me formei, ______ no interior, havia, isto é, o governo criou nos municípios do Estado de São Paulo a Casa da Lavoura. E então eu dizia assim: “Ah, eu vou querer trabalhar nessas Casas de Lavoura porque eu vou trabalhar nessa cidade, e eu fazendo amizade com os fazendeiros, amanhã, eu posso ficar... Ter uma participação no rendimento do fazendeiro”, porque eu não tinha capital. Então o jeito era dessa forma, e eu pensava, porque o meu avô, pai da minha mãe, ele dizia muito: “Olha, o homem não pode saber quanto ele ganha no fim do mês, o tal de assalariado, porque hoje você ganha x, você gasta o x, se amanhã você passa a ganhar 2x, você gasta os 2x. Você não sai daquilo, não faz patrimônio”. Eu pensava assim, mas logo que eu me formei as Casas da Lavoura estavam esgotadas, quer dizer, já saturadas e não tinha mais possibilidade de arranjar aquele emprego. Eu tinha muita amizade com um professor que tinha amigos aqui no IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas] e entrou em contato com eles, e aqui o IPT me convidou, e eu vim trabalhar no IPT. Em 1947 eu vim trabalhar no IPT, aliás, perdão, 1944. E comecei, trabalhava em laboratório. Não era o que eu gostava, viu. Eu gostava era de fazenda. Acontece que depois, anos depois que eu estava trabalhando no IPT... Isso é outro detalhe, com isso eu posso trazer as informações pra você. Eu morava aqui em São Paulo quando estava trabalhando no IPT, solteiro e morava num hotel pertinho da Igreja Santa Ifigênia, um hotel pequeno, mas acontece que a minha futura sogra ia fazer uma cirurgia aqui em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, e a família dela, os filhos todos, veio se hospedar nesse hotel pra acompanhar a cirurgia da mãe. Até um amigo meu no... Isso eu lembro um detalhe, no hotel que eu morava, dizia assim: “A população de Uberaba está aqui hoje. Só ficou o chefe da estação lá em Uberaba”. Isso porque era tanta gente que tinha vindo, que a família era muito grande e que tinha vindo. E foi assim, através dessa... E morando nesse hotel, que vinha a ser minha futura mulher, fiz amizade, fiz uma relação com ela e fiquei conhecendo essa moça com quem eu casei e que é a Maria José. É interessante uma coisa, um detalhe, que eu tinha vindo trabalhar em São Paulo, isso é coisa que talvez dá mais ilustração na minha exposição. É o seguinte: o tempo que eu estudei em Tatuí eu namorei uma moça cinco anos. Primeira namorada. Apaixonado por ela. Fato de eu ir estudar em Piracicaba, depois a distância, depois complicou. Ela acabou até arrumando outro e, vamos dizer assim, me abandonou. E eu caí aqui numa cidade, São Paulo, vindo do interior, caí numa fossa, vamos dizer assim, desesperado, porque morando numa cidade eu não tinha quase amizade aqui em São Paulo. Então eu fiquei um pouco triste. E essa moça, cuja mãe veio fazer operação, estava no hotel, eu tive conhecimento com ela e eu... Ela era muito alegre, muito sorrindo, coisa assim, eu disse: “É o jeito de eu poder esquecer aquele namoro”. Foi desse jeito que eu pensei. Tem um detalhe, até engraçado. É o seguinte: quando eu disse “vou casar”, porque ela me trazia alegria, eu lembro, ia esquecer o namoro, daquele namoro que eu tinha ______ moça que fica mais gravado. E aconteceu que nessa ocasião, viu Roseli, eu conversando assim descobri que ela era um ano mais velha do que eu. Eu tinha uma coisa na minha cabeça, eu sempre achava que o homem pra casar, hoje eu sei, mudou completamente, mas no meu tempo eu achava que eu tinha que ser no mínimo dez anos mais velho que a minha futura esposa. (risos) Confesso pra vocês que eu tive um ímpeto de querer até desfazer. Não tive coragem. ______ (risos). Mas hoje eu falo, ______ coisa de... Desenvolveu muito bem, quer dizer, eu tive três filhos, ela foi uma excelente esposa pra mim, não tem... Como esposa foi fantástica. Estou dizendo isso; hoje, coitadinha, ela está nessa situação, mas ela hoje não lembra de mais nada. Mas eu fui feliz no casamento, apesar de ter esse lado assim. Mas o que eu queria dizer mais pra você?

 

P/1 – Senhor Benedicto, a gente geralmente começa na infância. O senhor veio falando e eu não quis interrompê-lo, mas eu queria voltar. Depois a gente vai retomar.

 

R – Ah, sim. Pode então.

 

P/1 – Bom, vamos voltar um pouquinho no seu nascimento. O senhor nasceu em Cerquilho, em 1918. O senhor passou esse começo de infância lá em Cerquilho?

 

R – Foi, foi.

 

P/1 – Então conta pra gente um pouquinho. O senhor lembra dessa primeira fase de sua infância?

 

R – Olha, eu acho... Não detalhei muito não Rosali, essa parte da minha infância. A única coisa que eu lembro, que até hoje é coisa que eu gosto muito, é de futebol, acompanho muito na televisão, mas eu nunca fui bom jogador. E esse meu filho, meu filho! Meu irmão, que é dois anos mais novo do que eu, ele jogava bola, eu tinha uma inveja dele! Nós íamos jogar bola juntos, eu levava drible dele. Então, eu até me afastei de jogar bola, e ele ficou. Ele jogava bem, esse meu irmão.

 

P/2 – Esse seu irmão é filho do primeiro casamento?

 

R – Do primeiro casamento, é.


P/1 – E o seu pai, o senhor tinha falado antes de começar a entrevista que ele morreu em consequência da gripe espanhola? E ele trabalhava na terra? É isso?

 

R – É, na terra. Era lavrador.

 

P/1 – Mas vocês moravam dentro da própria cidade ou num sítio?

 

R – Na cidade.

 

P/1 – Na cidade mesmo?

 

R – Na cidade, é. Ele tinha um sitiozinho, naturalmente perto... Até, por exemplo, quando eu ainda meninote ______ minha mãe já tinha casado segunda vez, nessa ocasião eu fui morar até em Boituva, outra cidadezinha, muito perto de Cerquilho, sabe, Roseli. Ele tinha um sitiozinho. Não era proprietário dele. Até ele arrendava isso aí. E eu me lembro que era tudo perto... Uns seis quilômetros, eu lembro assim, coisa isso de menino, que foi minha mãe que dizia: “Agora você vai levar lá para o marido dela, que é o meu padrasto, levar o almoço, levar a marmita”. Eu ia levar a marmita na lavoura. Eram seis quilômetros. Eu ia a pé. Eu chegava lá, ele plantava melancia, eu me lembro bem que às vezes pegava uma melancia debaixo de uma plantação que estava mais escondida, menos quente, quebrava na pedra e ia comer aqueles pedaços de melancia ______.

 

P/2 – O senhor tinha quantos anos quando ela casou de novo?

 

R – Eu tinha dez pra onze anos.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa: nesse período que seu pai morreu, o senhor tinha dois anos e ela casou novamente só dali a oito anos. Esse período, como a sua família sobreviveu? O que sua mãe fazia pra manter a casa?

 

R – Roseli, nessa parte, eu não tenho condição de responder pra você. Engraçado, não tem... Como é que minha mãe se sustentou nesse períodozinho, viu. Não sei não. Não estou sabendo.

 

P/1 – Mas depois da viuvez dela vocês continuaram morando em Cerquilho?   Nessa mesma casa?

 

R – Sim, sim. Na mesma casa.

 

P/1 – O senhor lembra como era essa casa?

 

R – Olha, você falou uma coisa engraçada. Como eu disse pra você, quando a minha mãe, meu pai não, porque eu não conheci. Eu falo até que eu... De fato, quando ele faleceu eu tinha dois anos. Eu não tenho a menor ideia de como... Não conheci meu pai. Então... O que você perguntou? A casa. A casa era até agradável, a casa era mais ou menos boa, inclusive até... Coisa sanitária não tinha, era coisa no fundo, um negócio de cisterna, coisa assim. Era uma coisa...  Eu me lembro que eu estudava, comecei a estudar fora, quando eu tinha ______ de anos, quando eu fui estudar em Piracicaba, então eu vinha, eu achava uma coisa muito atrasada, desde eu ter compressão dessas coisas ou então falta de recurso. Mas não é bem isso, acho que é educação mesmo, viu, que era assim.

 

P/1 – E essa casa, o senhor lembra se ela era grande?

 

R – A casa era grande. Uma casa boa.

 

P/1 – Quantos quartos tinha?

 

R – Tinha três quartos... Uma casa... Sala grande. Casa bem boa sim.

 

P/1 – E tinha luz na casa?

 

R – Tinha, tinha. Luz tinha.

 

P/1 – E esses primeiros estudos que o senhor fez, o senhor fez em Cerquilho mesmo? Primário?

 

R – Não. Primário foi em Cerquilho. O secundário eu fui estudar... Foi aí que eu passei a morar com meus avós, os pais da minha mãe, que moravam em Tatuí, e eu fui estudar em Tatuí.

 

P/1 – E lá em Cerquilho, o senhor lembra da escola? O senhor tem memória dessa época?

 

R – Não tenho, viu Rosali. Isso não tenho. Eu era menino, a única coisa que posso dizer pra você, isso eu não esqueço nunca, eu tinha um professor de (Cornilha?), e ele era famoso, coisa, o castigo dele, ele vinha com uma régua bem grossa, assim na cabeça, e batia na cabeça... Isso se você não tinha feito a lição de acordo. (risos) Pra mim não. Não, porque eu sempre fui bom, muito estudioso, mas eu via os colegas, os castigos que eles recebiam. Isso eu me lembro.

 

P/2 – E das brincadeiras de infância? O senhor lembra do futebol com o seu irmão.

 

R – Com meu irmão... Ou então de jogar aquela bolinha de gude, coisa desse tipo, é só o que eu lembro viu.

 

P/2 – Brincadeiras de rua, não?

 

R – Brincadeiras de rua. Exato.

 

P/1 – Por exemplo, festas. As festas da cidade, e mesmo festas em família, o senhor lembra de alguma específica?

 

R – Rosali, a única coisa que eu me lembro, não sei se foi, isso devia ser até eu estar nos primeiros anos da minha mãe, eu me lembro que eu estava... Saia na porta da casa e via aqueles, os defuntos, eram carregados dentro de rede. Não era caixão, não. Isso eu me lembro, viu. Eram carregados em redes. Não sei como é que era feito depois lá no cemitério. Eu me lembro de passarem pessoas carregando um negócio desse tipo. Ou então, de festas, você falou, lembro assim, e coitada da minha mãe, ela falava: “Ah, quando eu morrer quero que vocês, no meu acompanhamento, no meu sepultamento, que levem uma banda de música”. E eu também gosto, viu. Coisa linda. Acho coisa linda banda de música.

 

P/2 – E ela teve? Ela é viva ou já falecida?

 

R – Não, não. Já morreu há muito tempo. Já morreu.

 

P/1 – E não fizeram a última vontade dela?

 

P/2 – Não teve a banda de música...

 

R – Não teve não. Mas ela queria isso, coitada.

 

P/1 – E deixa eu perguntar uma coisa para o senhor. Só o senhor foi pra Tatuí? E seu irmão?

 

R – Só eu. Meu irmão... Porque foi isso, eu fui estudar em Tatuí e... Talvez esses detalhes eu não possa te informar. Eu sei que ele logo... Ele começou... Tanto que ele, por exemplo, ele foi trabalhar na estrada de ferro da Sorocabana, que era da região, e ele aprendeu a fazer comunicação, como é que chama?

 

P/1 – Telégrafo?

 

R – Telégrafo. Ele começou de telégrafo. Ele começou aí. Tanto que ele, por exemplo, dois anos mais moço, ele começou muito cedo. Eu fui estudar, demorei até quando eu comecei a trabalhar, quando eu vim para o IPT eu tinha vinte... Vamos dizer dezoito. Eu formei com quantos? Me formei em 1943, 1918 pra 1943 são 25. É, 25 anos. Então, e o meu irmão, quando trabalhava, começou como telégrafo nessa Sorocabana com quinze anos.

 

P/1 – Naquela época começava a trabalhar cedo.

 

R – Muito cedo. Então, ele... Tanto que depois ele se formou... Se formou! Ele se aposentou bem mais novo do que eu, porque ele contou todo esse tempo desde a idade de quinze anos.

 

P/1 – E ele então não foi para Tatuí?

 

R – Não foi, porque, o que eu estou dizendo pra você, como a minha mãe, o meu padrasto, dificuldade financeira, ele não tinha muita compreensão, ele não estudou. Ele só dedicou a essa parte. O único da família que fez o curso superior fui eu.

 

P/2 – E de Tatuí o senhor já foi pra Piracicaba?

 

R – De Tatuí fui pra Piracicaba.

 

P/2 – Então o senhor não tinha muito relacionamento com seu padrasto, não é?

 

R – Pouquíssimo. Pouquíssimo. Com meu padrasto tive pouquíssimo relacionamento. Muito pouco.

 

P/1 – Porque quando ele casou com sua mãe o senhor tinha mais ou menos dez anos, não é? O senhor foi morar com seus avós logo depois?

 

R – Logo depois, sim. Acho que um ano depois ou coisa assim. Eu fui morar com meus avós.

 

P/1 – E seus avós moravam em fazenda ou na cidade?

 

R – Na cidade, na cidade.

 

P/1 – E como é que foi esse período de morar com os avós?

 

R – Bem, porque eles tinham a atividade deles e acho que, não sei, não tenho ideia, acho que eu gostava muito de estudar, era muito estudioso e não teve muito problema de eu morar com eles. Eu me acostumei muito bem.

 

P/1 – Mas o senhor gostava de morar lá?

 

R – Gostava. Gostava. Sabe o que era Rosali, aí comecei a entrar na parte de jovem, coisa assim. Foi quando começou fazer aquele convívio. Eu me lembro, você falou isso aí também, quando eu comecei a estudar em Piracicaba, aliás, em Tatuí, eu... Tinha o ginásio, tinha o coro, o coro orfeônico e eu fazia parte do coro, eu tinha a voz de contralto nessa ocasião. Eu me lembro bem... Cantava, gostava de cantar. Engraçado, eu tenho receio desse negócio de cantar. E se fala muito que cantar faz muito bem pra pessoa.

 

P/2 – Lembra um pouquinho daquela época. Tem um microfone aí. Dá uma cantadinha.

 

R – (risos) Não.

 

P/1 – Então o senhor cantava lá no coro. Além dessa namoradinha que o senhor arrumou lá em Tatuí, que foi sua grande paixão, sua primeira namorada, o senhor tinha amizade com a rapaziada lá da cidade? O que faziam lá em Tatuí então?

 

R – Em Tatuí, do meu tempo, pouco lembro de coisa assim. Eu achava que... Não me lembro bem, Rosali, dizer o que, quais seriam as atividades de juventude?

 

R – Tinha baile, tinha festinha?

 

R – Festinhas tinham sim. Eu, por exemplo, hoje a... Esqueço o nome dela... A Orth, não sei, da televisão...

 

P/1 – Marisa Orth.

 

P/2 – Marisa Orth.

 

R – O pai dela foi meu companheiro de juventude lá. O pai dela. Eu me lembro que eles tinham um hotel lá, então... Quando eu lembro assim, eu me amarrei muito, porque é uma parte muito importante da juventude minha, da fase de Tatuí.   Hoje eu fiquei muito mais em Tatuí do que as outras cidades que eu morei, era mais jovem e coisa. Mas tinha mais ligações assim. Então, me lembro das festas, como você falou. Você falou uma coisa que eu lembro, que eu gostava. Eu sempre gostei muito de jogar cartas, de jogo; os meus companheiros, a gente ia nos clubes, a gente ia jogar na... Naquela região é muito difundido o tal de truco. Você conhece essa?

 

P/2 – Sim.

 

R – Pois é. Então eu fazia isso muito. Eu me lembro uma vez que estava jogando... Não, aí não foi truco não, aí já foi pôquer, que é um jogo de mais emoção. Eu me lembro de algum amigo atrás de mim que disse: “Eu não posso ficar perto de você”. Eu estava de blefe. O jogo do pôquer tem isso, você joga um negócio, fazendo que está cheio de jogo e não está, e o outro se tiver medo ele foge e você ganha sem ter as cartas. ______ pouco conheci. Rosali, você falou uma coisa que também, desse negócio, você falou festa, que eu fui aos bailes, que eu estava até com minha namorada também, e esse dia eu bebi um pouco demais. Foi a única vez que eu bebi e que eu cheguei em casa e vomitei. Na ocasião os amigos falaram: “Bom, quando você bebe demais, se você vomita, você se recupera”. Eu não. Eu vomitei... Que nunca mais. Tomei medo. Tomei medo de beber, de você chegar a esse ponto de vomitar, depois dá um mal estar. Eu achei um mal estar muito ruim, viu. Nunca mais quis saber disso, sempre me controlei.

 

P/1 – E tinha cinema lá em Tatuí?

 

R – Tinha. Tinha.

 

P/1 – E o que faziam lá no cinema? Lembra o que era...

 

R – Rosali, era um negócio... Ah, você falou muita coisa que eu lembro bem. Tatuí tinha dois cinemas. E o jeito – que meu pai era muito severo, eu não podia ficar muito na rua – que eu ficava junto com a namorada era só indo ao cinema e ______. (risos) Fazia muito disso. Isso eu me lembro, sabe. Engraçado, hoje eu não consigo me concentrar e entrar no romance porque, eu acho, você vê, você ouve muito caso da pessoa que está assistindo, você fica tão emocionada, você acaba chorando. ______ está vivendo aquele drama. Eu não consigo viver não.  Não consigo. Não sou muito... Eu tenho... Eu estou morando com essa Mônica, minha filha, às vezes estou vendo novela, vejo só alguns lances, mas não é de eu ficar vivendo aquilo. Um filme também, tanto que essa minha filha, meu genro, eles vão ao cinema, vão ao teatro, então nem me chamam. Uma coisa eu acho, sabe que... Eu digo que eu sou... Talvez seja exigente. Eu me lembro que quando era moço, que eu ia muito ao teatro mais pra satisfazer minha mulher, que a gente estava ainda moço, eu via que as peças tinham um certo requinte... Era aquela chateação demorar de um ato pra outro, porque eles tinham que mudar completamente. Hoje acredito que seja por questão econômica mais barata, a peça começa e termina naquele ambiente. Eles não modificam muito, não. Não é verdade? E eu acho que antigamente eu gostava, achava bonito. Ou melhor, outra coisa: no meu tempo de moço você ia ao teatro de roupa bem arrumadinha, hoje o pessoal vai muito à vontade. E aquela parte de ir muito arrumada, achava muito bonito.

 

P/1 – Ainda em Tatuí, como é que foi que o senhor conheceu essa primeira namorada? Conta pra gente como é que aconteceu esse namoro.

 

R – Bom. Nós estudávamos no mesmo colégio. O único detalhe que posso dizer para você, Rosali, às vezes eu achava que ia pegar na mão dela, e coisa, que o pai dela era fotógrafo, ela então ajudava muito o pai na revelação. Então, tinha aquela solução que usa pra revelar. Tem um negócio, não sei qual é, não sei bem qual é que é. Você sabe?

 

P/1 – Eu sei o que é, mas não sei o nome.

 

R – Eu sei que pega na mão, ficava aquele mau cheiro, coisa assim. Achava ruim isso, mas não lembro.

 

P/2 – ______ (risos) O senhor falou que sua mãe casou de novo e teve outros filhos. Como é que foi esse relacionamento com os outros irmãos novos? O senhor teve contato, teve...

 

R – Não, pouco, pelo seguinte: quando ela teve esses filhos eu já estava estudando em Tatuí. Então tive com eles pouco contato. Inclusive tem horas até que eu penso um pouquinho que, engraçado, eu acho que a gente precisa ter muito... É importante você mostrar certa amizade ou acompanhar. Nesse caso, eu com esse meu irmão que é do primeiro casamento, que eu disse que era dois anos mais moço do que eu, eu acho que ele é muito mais chegado a eles, se correspondem, vai lá visitar, porque inclusive a última filha da minha mãe teve um problema de... Essa doença de ataques epiléticos. E ela faleceu. E essa minha irmã do segundo casamento, que é a mais velha, assumiu, está tomando conta até hoje dessa minha irmã, que tem esse problema de... Esses ataques epiléticos, que é uma coisa trabalhosa pra ela. E o meu irmão tem muito mais ligação com essa minha irmã do que eu. Eu não tenho quase. Esse meu irmão, por exemplo, mora em São Vicente; esse ainda eu vou, telefono, vou lá visitá-lo, mas os outros irmãos, perdi completamente o contato com eles.

 

P/1 – Que em verdade o senhor conviveu muito pouco com eles, não é verdade?

 

R – Também, também.

 

P/1 – Mas o senhor ia passar férias em casa? Tanto quando o senhor morava em Tatuí, quanto em Piracicaba.

 

R – É, mas aí férias, viu... Até tem uma coisa, eu passava muito ligeiramente. Eu estava tão ligado com essa namorada e tal, por isso que ia mais na casa dos meus avós, pra ficar junto da namorada, do que ficar com minha mãe, que morava em Cerquilho.

 

P/1 – Isso na época de faculdade. O senhor morava em Piracicaba e ia pra Tatuí.

 

R – Ia pra Tatuí em vez de ir pra casa da minha mãe. Passava lá ligeiramente. Passava um dia rapidamente com ela e ia pra Tatuí.

 

P/1 – Ah... Entendi. Entendi. E o período da faculdade, conta um pouquinho pra gente. Lá em Piracicaba tem muita república, muita festa de estudante? Conta pra gente um pouquinho dessas festas...

 

R – Pois é, posso dizer... Engraçado, viu Rosali, quando fui pra lá, justamente a parte financeira, eu morei muito em república, e morei... Fiz o curso lá que durou quatro anos. Nos primeiros três anos até eu tive com eles, mas no último ano eu  tive lá uma certa desavença com os companheiros e eu fiz uma amizade, até nesse ponto pra mim foi o que me ajudou. Eu fiz amizade com um professor aposentado que morava num hotel lá em Piracicaba, e fui morar nesse hotel. Foi aí que eu...

 

P/1 – ______ repúblicas.

 

R – Pois é. E aí eu fui morar nesse hotel e fiz amizade com esse professor aposentado que tinha ligação com o diretor aqui do IPT. Eu fui, por exemplo, da turma, o primeiro a arranjar emprego, porque eu estava desesperado, viu Rosali, porque o problema era o seguinte: como eu disse no começo pra você, que eu falo para o meu filho hoje: “Bom, coisa é ter pai”. Quando você tem pai, você está, vamos dizer duro, sem dinheiro e tem pai, ele solta uma grana aí. E eu não tinha essa condição de fazer isso. Um cara de barba já, com vinte e poucos anos, eu tinha que ter minha independência e, quando apareceu isso, até os meus colegas achavam que eu fui um premiado, fui o primeiro da turma a começar a trabalhar. Porque, como falei pra você no começo, a minha ideia era trabalhar no interior. Quando eu comecei inclusive, já estava morando aqui em São Paulo, trabalhado no IPT, eu falava para os meus colegas lá: “Olha, eu moro aqui em São Paulo contrariado, porque no interior você sai na porta, você conhece todo mundo, você conversa, tem papo. Aqui você sai na rua, você desaparece, ninguém te conhece mais”. Então, tinha esse negócio. Mas tive que arranjar esse serviço, embora contrariado. Agora eu tive umas passagens, viu Rosali, engraçado, eu depois, três anos depois que eu estava lá no IPT, como eu disse, fui conhecer essa minha atual, minha mulher, com quem eu casei, eu... Herdei, por herança do pai dela, que ele fez doação, uma fazenda. Eu quis então deixar o emprego e disse: “Nós vamos...”. Pensei que ela fosse achar bom que ia morar em Uberaba, junto da família dela, e eu fosse morar lá. Ela não quis. Ficou com medo, parece. Fiquei decepcionado, porque eu pensei, que eu disse: “Bom, vou ter uma fazenda, vou desenvolver aquilo”, que eu herdei por intermédio dela. E ela não topou. Ela disse... Engraçado, as irmãs dela, as irmãs, todos não gostavam de fazenda, porque o meu sogro, sabe quantos filhos teve? Ele casou duas vezes. Do primeiro teve sete; do segundo, catorze filhos. Mas hoje ele conseguiu dar uma fazenda  pra cada filho.

 

P/2 – Puxa vida!

 

R – ______ deu uma fazenda pra cada um. Não era uma fazenda grande, mas era uma fazenda,  perfeitamente possível viver à custa dela. E ela disse que não gostava de fazenda. As irmãs falavam que não gostavam. Mas eu não quis... Ia assumir compromisso sozinho? E nessa hora, do casal, é muito importante os dois... Vamos enfrentar. E ela não quis e eu acabei desistindo. Fiquei por aqui mesmo, até aposentar fiquei aqui mesmo. Agora, como disse, não gostava que era contrariada. Aposentei, ela já teve outros problemas de saúde, não dessa agora, disseram, os médicos diziam que era estresse, e eu... As irmãs disseram... Eu tenho um cunhado que tinha um hospital lá em Uberaba, e eu fui morar em Uberaba. Morei lá vinte anos.

 

P/2 – Depois de aposentado?

 

R – Depois de aposentado, morei vinte anos. Agora, depois de vinte anos, ela apareceu com essa doença, na ocasião eu fiquei muito preocupado, porque os médicos e os psicólogos que eu conversei disseram: “Se você tiver condição financeira pra manter sua mulher numa dessas casas especializadas, é a melhor coisa que você pode fazer”. Aí minhas filhas: “Não papai, você vem pra cá”, e eu coloquei lá e vim morar com essa filha.

 

P/1 – Ah, então quando o senhor veio morar com essa filha, o senhor estava em Uberaba.

 

R – Estava em Uberaba. Eu morei lá vinte anos. Aposentado e tendo uma vida maravilhosa, porque estava aposentado, eu jogava meu tênis, os meninos que encontrava na rua: “Oh, Bené...”. Minha mulher brincava, brincava muito, dizia até que tinha ciúme de mim, porque via que eu era mais conhecido na cidade do que ela que era da terra, eu que não era da terra era muito mais conhecido. E aquilo lá era muito gostoso, muito, muito gratificante. Eu fiz muito isso aí. Depois, quando a doença dela começou a aparecer, que eu pensei que fosse esclerose, já era a doença, dessa que ela tem hoje, e eu tive que afastar, tive que abandonar... Parei de jogar também.

 

P/2 – E a fazenda, o senhor vendeu?

 

R – Vendi. Vendi e troquei por um apartamento aqui em São Paulo, que eu estava morando; depois vendi esse e comprei um em construção em Uberaba, que hoje eu tenho um apartamento lá, que esse filho que é mais novo está morando lá, casou com uma moça de lá e ele está morando nesse meu apartamento.

 

P/1 – Ele mora lá em Uberaba?

 

R – Mora em Uberaba.

 

P/1 – Ah, entendi.

 

P/2 – E as filhas moram em São Paulo?

 

R – Tenho três filhas e as três moram aqui em São Paulo.

 

P/1 – Qual o nome de todos os filhos?

 

R – É Mônica, Sandra, Fernanda e Eduardo.

 

P/1 – Vamos voltar só um pouquinho, o senhor não contou das festas que tinha nas repúblicas em Piracicaba.

 

R – Ah, sim.

 

P/1 – O senhor se lembra dessas festas?

 

R – Sim, era muito, muito divertido. Coisa de estudante é muito bom. Isso era uma coisa boa mesmo. A gente fazia aquelas reuniões... Outra, sabe Roseli, você falou de festas assim, eu me lembro, uma coisa que eu lembro até hoje. Eu contava isso como uma grande vantagem... O homem gosta de contar, às vezes, vantagem. Tinha uma menina que estava com quinze anos, novinha, começou... Na cidade todo mundo do interior sabe... Piracicaba é maiorzinha, mas não é ainda comparada com São Paulo, todo mundo conhece, e ela então... Todo mundo admirava por ser bonita e tal. E eu conquistei, arranjei esse namoro pra esquecer. Aí já era pra esquecer a tal de Tatuí. Namorei e coisa, assim... Lembro uma vez que fui num baile e eu dancei... Ela ficou doida pra dançar, não queria parar, e eu saí às quatro horas da manhã. Fui pra casa e deitava de dor! O meu corpo doía de tanto dançar (risos). E eu confesso, uma dessas grandes lembranças que eu tive foi isso, de eu contar vantagem para os colegas e dizer: “Puxa vida. Eu dominei os outros colegas que estavam mais interessados. Eu é que conquistei a menina pra namorar”.

 

P/2 – Mas não deu certo.

 

R – Não deu certo. Também porque aí eu vim trabalhar já. Eu me formei, aí eu vim pra São Paulo e aí também não deu certo nessa parte. Eu me lembro de um detalhe, assim que você falou. Hoje, a moça vai na casa dos rapazes, completamente... Você ______ já vivida, sabe como é que é isso. Mas eu, por exemplo, me lembro, outro dia eu encontrei, agora faz um... Eu comemorei 55 anos de formatura, porque lá em Piracicaba eles fazem de cinco em cinco anos uma reunião, congraçamento dos formandos. Como de cinco em cinco anos tem uma turma lá que arruma muita festa, chope e tal, então um dos colegas chegou pra mim: “Você lembra que você me chamou, foi pedir pra eu pedir autorização dos pais dessa menina, foi até a casa dela pra namorar essa menina?”. Eu tive que pedir para o rapaz fazer a minha apresentação para os pais dela.

 

P/2 – E hoje em dia o senhor não encontrou mais nem sua primeira namorada, nem essa?

 

R – Você falou um negócio engraçado. Há pouco tempo, porque, vou dizer uma coisa, apesar do... Eu não posso queixar, eu fui feliz com minha mulher, tenho três, quatro filhos maravilhosos, não posso queixar não, mas não faz muito tempo... Eu tinha uma vaga... Hoje não. Perdi completamente, até a fisionomia. Eu não sei. Também, puxa vida, eu estou com oitenta anos e eu não sei se ela está viva ainda. Pode ser que também não esteja. Às vezes eu fui mais privilegiado, estou vivendo mais. (risos)

 

P/2 – Tem curiosidade de saber dela?

 

R – Pois é. Mas hoje não, viu. Ela morreu. Já morreu. Agora morreu tudo. Completamente.

 

P/2 – Ficaram lembranças boas, não?

 

R – Muito. Lembranças boas, sim.

 

P/1 – E lá em Piracicaba o senhor tinha algum apelido na república? Nessa época de estudante.

 

R – Tinha, Dito. Também falava Dito, Benedito. Falavam Dito. Isso é apelido. Mas o Bené é que era o mais conhecido, mais solicitado.

 

P/1 – Voltando um pouquinho para o trabalho que o senhor desenvolvia no IPT. Conta pra gente um pouco do tipo de trabalho que o senhor desenvolveu lá no IPT ao longo desses anos.

 

R – Pois é, Rosali, isso que eu falei pra você, eu fiz... Porque, quando o diretor, em contato com esse professor que me levou a ser contratado pelo IPT, era pra eu ir desenvolver um estudo novo no IPT, que ninguém conhecia e que até no Brasil era muito pouco conhecido, que era o tratamento de pele, curtido. Curt... Como é que se diz?

 

P/1 – Curtimento?

 

R – Curtimento. Curtir a pele, no caso da sola, fazer a sola de sapato ou então de outros animais menores, vamos dizer, caçado, coisa aquilo, eu fui pra fazer isso aí. E eu comecei... Eu também... Eles me chamaram... Eu só fui através de literatura, que tive um ano, me lembro muito bem, no IPT, só estudando isso aí. E eu cheguei à conclusão que a única forma de eu desenvolver uma técnica boa para o IPT seria se eu fizesse um estágio no exterior. Eu estava afim, até inclusive de trabalhar, fazer um estágio... Nessa ocasião, a literatura me dizia, um dos países mais avançados nessa parte de curtimento seria a Alemanha. Apesar de que eu não conhecia o alemão, eu tinha um conhecimento bom de inglês, mas de alemão nada. E eu disse... Estava afim até de fazer isso, mas o diretor achou que ia gastar, aquilo dispendiava, me despendia, que eu tinha que fazer umas... Dar uma pensão pra eu morar na Alemanha, eu sei que ele recusou isso. Aí eu passei... Fazia parte lá no IPT, a parte de qualificação de madeiras. Isso foi o que eu fiz durante trinta anos, fiquei 35, uns 32 anos, qualificação de madeiras, que é o seguinte: que você, sabendo que determinada madeira é boa pra isso ou aquilo, através do estudo anatômico, que é feito em laboratório, em microscópio, em microscópio. Eu fazia aquele estudo pra comparar, saber, se essa madeira podia substituir aquela que estava já reconhecida ou então, também eu fiz, por exemplo, uma coisa que eu posso lhe dizer, quando foi construir a ponte Rio-Niterói, lá os pilares, dizem os engenheiros que construíram a ponte, que tinha que ter uma proteção dos pilares contra as embarcações, porque as embarcações que eram um pouco maiores, que fossem de encontro àqueles pilares, poderiam danificar os pilares e comprometer a estabilidade da ponte. Então, essas pontes tinham que ser protegidas por madeiras. É um tipo de para-choque. Então a madeira... Eu fiz um estudo dessa parte. Mandei então, uma ocasião, já não fui eu, foi um colega meu, um funcionário que era meu e foi até a ilha de Marajó. A madeira que está protegendo hoje os pilares da ponte Rio-Niterói veio da ilha de Marajó. Só as madeiras que a gente... Através do meu exame microscópico e através de um... Uma outra parte no IPT, que faz a parte de apodrecimento da madeira. Então ______ o IPT faz isso, verifica se essa madeira é resistente ou não, porque você sabe que dentro da água marinha tem os moluscos que vivem lá, e esses moluscos que atacam a madeira. Se a madeira não for resistente, ela perde o efeito dela, que é a proteção dos pilares. Ou então, outra coisa que eu fiz muito, receber madeira para os ramais aqui, porque você sabe, as linhas de metrô, as linhas, os dormentes das linhas são de concreto, mas no pátio de manobras do metrô é tudo madeira, são dormentes de madeira.

 

P/1 – Como os da linha de trem?

 

R – Como a linha do trem. Então a gente tinha... Eu que fazia isso aí. Em muitos anos eu fui a Rio Claro, a madeira vinha dos estados, vinha da Bahia, vinha do Espírito Santo, então, vinha aqui em Rio Claro, onde nós recebíamos a madeira e eu ia lá fazer os exames, verificar se correspondia àquela qualificação exigida das madeiras. Isso eu fiz muito tempo; o que eu fiz muito tempo no IPT foi isso: qualificação de madeira.

 

P/1 – O senhor ficou especialista em madeira, então.

 

R – Fiquei. Fiquei como especialista em madeira.

 

P/1 – Então, na verdade, a faculdade que o senhor fez não ajudou tanto.

 

R – Muito pouco. Pouco, porque tinha a parte de Botânica, coisa de... Mas, muito pouco. Você falou uma coisa... Falou bem. Pouquíssimo mesmo me ajudou. Eu tenho que dizer, uma vez, ter que estudar, através de... Com os outros colegas, literatura, pra desenvolver essa parte do estudo da madeira.

 

P/1 – Então, o senhor trabalhou 35 anos.

 

R – Trinta e cinco anos...

 

P/2 – E logo que aposentou foi pra Uberaba.

 

R – Pois é. Assim que eu estava aposentando, eu disse a minha mulher... Começou com umas doenças, que eu não sei o que era. Os médicos depois disseram que era depressão. Ah, me lembro uma vez que meu filho veio, estava no interior, “nossa, a mãe está lá no quarto passando mal”. Punha três, quatro cobertores, tremia de frio. Então, chamava, ia aos Prontos-Socorros. Pronto-Socorro na capital é complicado, são todos médicos inexperientes, não satisfazia. Aí então minhas cunhadas, a mais velha, por exemplo, disse: “Não”. O irmão dela, que é meu cunhado também, hoje já faleceu, ele tem uma casa, um hospital em Uberaba, disse: “Não, você venha. Você já aposentou, você vem pra cá”. E uma coisa que eu lembro, viu, coitada, hoje eu lembro dela, não sei se era da doença... Porque o seguinte: quando eu morava aqui em São Paulo, estava pra aposentar, o meu sonho era morar no Rio de Janeiro, porque eu via aqueles velhos lá naquela praia, debaixo das árvores, aquela coisa, achava aquilo uma maravilha. Eu cheguei então, fui para o Rio de Janeiro; eu tinha uma cunhada que morava lá e tive hospedado com ela. Cheguei à conclusão... Até apartamento... Vou aposentar, vou morar aqui. Esses dias meu sobrinho, que é médico, disse “Ah, vou dar um remédio pra você”. Deu um remédio, ela ficou com a boca... Com a língua... Não falava direito. Fiquei apavorado, assustado, sabe. Eu voltei imediatamente pra São Paulo. Aí, conversando com a minha cunhada lá em Uberaba: “Não, você vem pra cá, meu irmão, seu cunhado, tem hospital, você vem pra cá”. De fato fui pra lá. O médico já especialista deu sonoterapia pra ela, tratou... Passou bem. Eu morei com ela esses vinte anos, moramos lá bem. Aí aconteceu essa doença, que eu pensava que era esclerose, ela já estava com oitenta anos, setenta e tantos anos, quase oitenta...

 

P/1 – Isso tem pouco tempo?

 

R – Tem uns cinco anos que ela já está internada aqui, já são quatro anos. E então me foi um baque danado, porque tive que desfazer meu apartamento, resolvi mu... Ah! Não, deixei de contar... Estava contando, quando eu vim do Rio, a minha cunhada quis que eu fosse morar em Uberaba, eu resolvi de uma noite pra outra, chamei o caminhão de mudança e mudei. Até hoje não esqueço. A minha mulher foi chorando daqui a Uberaba. Eu gasto cinco, seis horas de automóvel, ela foi chorando daqui até Uberaba.

 

P/2 – Ela não queria ir?

 

R – Não queria ir, deixar os filhos.

 

P/2 – Ah, os filhos não foram.

 

R – Não foram. Já tinha os três moços aqui.

 

P/1 – Estavam casadas já?

 

R – Já. Eu falo sabe, que o negócio de... Até comento. Eu estava morando em Uberaba, eu tenho esse filho que é também casado, já mora em Uberaba, mas eu falo assim: “Filho bom mesmo é mulher”. As meninas, as filhas, são muito mais chegadas, me tratam muito bem, então hoje aqui eu estou no céu. Tenho três filhas, me tratam muito bem. São assim... Aquilo pra mim é gratificante demais.  Então, digo assim, bom mesmo é filha. Eu tenho essa Mônica que eu moro, ela tem dois filhos, são homens, rapazes fantásticos; um tem 25, outro 21 anos, já estão trabalhando, já estão independentes, já estão ganhando muito bem. São economistas, estão muito bem. Eu falo: “Minha filha, você está feliz. Só que filho homem depois, não sei se sua nora vai ser boa pra você”, porque eu acho que mulher é diferente.

 

P/1 – Nesses vinte anos que o senhor foi pra lá, seus filhos ficaram todos aqui?

 

R – Ah, sim. Ficaram. Todas casadas, Rosali.

 

P/1 – E o seu filho, ele foi com você?

 

R – Não, meu filho... Quando eu vim pra cá, ainda era solteiro, mas ele estava trabalhando, estava tomando conta de uma fazenda lá no Estado de Goiás, depois voltou pra Uberaba, mas ele não morou comigo, não. Logo ele casou e já teve a vida dele independente.

 

P/1 – Quer dizer, ele morava lá, mas não morava com o senhor.

 

 R – Não morava comigo. É que eu disse uma coisa que eu ______ dizendo: “Ele é muito bom filho também, mas não é como filha”. Por exemplo, ele telefonava: “Como vai, papai? Tudo bem?”; “Tudo bem”, mas não era... Estava precisando... Eu passei uma fase mais... Eu digo assim: hoje, eu sou muito, talvez funcionando uma ______ mas eu ouço muito a Silvia Poppovic. Tem um programa, coisa interessante, eu gosto muito dela e... Conta dos problemas. Hoje ela tem um programa, até um assunto dizendo que muda de vida e tal, então, vê casos de pessoas que passaram por períodos terríveis e que conseguiram superar e depois crescer na vida. Então, eu tive uma fase, um ano, antes de eu vir pra cá, desses quatro anos, eu sofri muito lá por causa de minha filha, era só eu e ela ______ filhos, só eu com minha mulher, sozinho... Nessa hora, falta um pouquinho de apego.

 

P/2 – Nesse período que o senhor morou em Uberaba, morou com sua cunhada ou independentemente?

 

R – Não. Eu tinha meu apartamento.

 

P/2 – Ficou quanto tempo com a cunhada?

 

R – Não, com a cunhada não fiquei não.

 

P/2 – Só foi pra ______.

 

R – É. Só. Não tive... Não.

 

P/2 – E das filhas, o senhor disse que elas são casadas. Já tem netos então?

 

R – Tenho, tenho.

 

P/1 – Quantos netos o senhor tem?

 

R – Tenho sete netos com esse agora, o mais velho da Mônica que está com 27 anos faz uns seis meses, ele estava com namorada e ele chamou a namorada pra morar com ele. Ele alugou uma casa. Ele saiu da casa da minha filha, da Mônica. Hoje tem uma casa, hoje ele tem a casa dele, alugou uma casa e chamou a namorada pra morar. Mas aí a namorada disse: “Não”, e acabou indo lá, porque ela é de Curitiba, com os pais dela e tal. Eles ficaram meio apavorados. Hoje isso é comum, eu sei, juntar. Não casa... Agora ele está prometendo que vai casar. Está marcando, está tratando dos papéis, estão tratando que vão casar o ano que vem.

 

P/2 – E os outros netos?

 

R – Ele tem um outro irmão que está com 21 anos, está moço também, está com namorada muito firme. (tosse) Me arranja um pouquinho d’água? Pra mim às vezes melhora.

 

(PAUSA)

 

P/1 – O senhor estava contando dos netos. Então, tinha esses dois filhos da Mônica. E da Sandra? A Sandra tem filhos?

 

R – A Sandra tem uma filha só, uma moça – não sei se sou avô coruja. Está com vinte anos...

 

P/1 – O senhor estava falando da neta. A Mônica tem uma filha... Não, a Sandra tem uma filha.

 

R – A Sandra tem uma filha. Vinte anos. Morro de pena dela, porque ela tem essa filha única. Você acha mau. O casal que tem filha única é muito ruim, sofre muito. Está com namorado e ela não vê futuro nenhum. É um rapaz até bom, coisa assim, mas ela não aprova por isso, porque não vê futuro pra filha. Tem esse problema. E a Fernanda, Fernanda tem três. Tem uns amigos (italianos?). Eu falo, são três meninos inteligentes. A Ana da Fernanda está em Roma agora.

P/1 – Ah! Está em Roma?

 

R – Está em Roma. E ela é danada, tudo ela sabe. Hoje tem um menino que ele está com treze anos; também está muito bem, rapaz estudioso. Então, a minha nora... Porque a Fernanda, um detalhe, quando ela anunciou que estava grávida do terceiro filho, disse: “Ai meu Deus”, falei pra minha mulher, “que coisa sem juízo, como é que pode... Está difícil educar filho”. Mas eu pensei cá comigo e disse: “Gente, às vezes, coitada, é essa filha que vai dar alegria pra ela”. E ela tem nove anos, de uma esperteza, uma coisa... Já fez dez, uns oito ou dez testes pra fazer propaganda na televisão. Ela está fazendo uns testes nessas empresas que fazem isso, que eles pegam coisa pra gravar. Mas, danada... O pessoal levou lá... Outro dia minha filha pediu pra eu acompanhá-la, não tinha quem acompanhasse, e ______ ver o desembaraço dela de encher uma ficha dessa todinha, respondendo tudo. Ela é muito viva. E ela tem mesmo... Não só viva, como tem uma coisa assim que transmite... Eu vejo, o pessoal gosta, fica doido que... Está sempre sorrindo, é uma menina extrovertida. Acho uma beleza.

 

P/2 – Como é que ela chama?

 

R – Gabriela.

 

P/1 – E o Eduardo, tem filhos?

 

R – Tem uma filha só. Tem uma filha, ele está bem, esse meu pai também é (cavador?), como eu disse, eu sou... Considero às vezes porque eu falo que passei fase difícil, mas acho que sou um homem feliz. Inclusive, o seguinte: quando eu falo aqui para os amigos que eu tenho 82 anos, o pessoal diz: “Não é possível. Você não tem isso aí”. Eu tenho, ainda tenho uma... Não estou esclerosado. (risos) Bom, eu não posso queixar dos filhos. Ele também está bem e tem uma filha só. Uma filha.

 

P/1 – Como é seu dia-a-dia hoje, seu Bené?

 

R – É o que eu falei pra você. Quando eu vim pra cá, Rosali, fazendo quatro anos eu vim pra casa de minhas filhas, preocupadíssimo. Como é que eu ia encher meu tempo? E as cunhadas, também comentando lá de Uberaba. Antes de eu vir pra cá eu tinha começado um pouquinho de estudar teclado. Aí vim pra cá... Os filhos: “Não papai, você pega...”. Peguei uma professora... Trabalhei... Estudei até agora, faz uns seis meses. Deixei um pouquinho. Deixei pelo seguinte: eu sou um pouco exigente, achei que... Cheguei num ponto, deslanchei muito mais. Eu falava para a professora. Não, mas quando ela dizia, minha professora: “Quando falo para os meus alunos que eu tenho um aluno de oitenta anos, eles ficam: não é possível! Como é que pode ter cabeça ainda pra estudar?”. E eu consigo tocar um pouco. Toco uma valsa de Danúbio Azul, coisa desse tipo. Toco, no teclado. Agora, ando meio relaxado. Mas eu falei pra minha filha, quando eu era mais moço eu lembro que uma vez eu entrei nesse negócio. Quando eu tinha uma reservasinha, eu entrei num negócio de letras de câmbio. Eu tinha o justo, poder render um pouquinho mais que a Caixa Econômica paga muito pouco. O tal de poupança. Aí, entrei no negócio de ações e perdi bastante. Eu logo fui pra Uberaba e lá fiquei afastado, nunca mais. Agora eu voltei e hoje eu tenho então... Eu compro umas ações aí. Eu tenho umas seis ou oito empresas, que eu tenho ações dessas empresas e na televisão tem a Bloomberg, que acompanha o movimento da bolsa o dia inteiro. Vai dando a cotação. Vai baixando, vai subindo, coisa que só...  Inclusive eu sou cliente do Banespa, onde eu recebo minha aposentadoria, que fica ali na Sumaré e eu vou lá, pego no... Sei lá, (televisor?) – tem lá. A Mônica também tem, eu comprei em casa, mas eu vou lá com os outros colegas, vou discutir, passo horas lá. Eu com isso eu estou distraído, e fico com a cabeça... Estou ganhando, estou perdendo. Isso me dá uma... Não fico muito na... Como é que se diz? Sem pensar em nada. Tenho ocupação.

 

P/1 – Bom, a gente já está encaminhando para o final da entrevista e eu queria perguntar o seguinte: se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua vida, pudesse voltar no tempo e mudar alguma coisa, o senhor mudaria?

 

R – Eu fico... É o que eu falei pra você, eu fiz agronomia, os meus avós com quem eu morei eram, mexiam... Esse meu avô, por exemplo, é do tempo, sabe Rosali, que eles iam às cidades mais... Às fazendas mais afastadas do Mato Grosso, eles traziam gado a pé pelas estradas pra poder vender nos frigoríficos abatedores aqui em São Paulo. Eles viviam disso e eu fui criado nesse ambiente. Eu, tendo feito agronomia, e falo mesmo, que acho a coisa mais linda hoje quando eu vou, por exemplo, eu tive em 1969, eu ganhei uma bolsa de estudos, fiquei seis meses, eu estive lá em Lisboa. E eu andei viajando. Depois viajei um mês pela Europa e eu não gostava de ver os museus, não. Eu gostava de ver aquela vegetação diferente da nossa. Flores diferentes, aquelas árvores diferentes. Eu sempre gostei disso. Então, eu acho, foi uma pena... Eu falo para os amigos: “Engraçado, tive toda a chance de mexer com fazenda, fiz agronomia, casei com uma moça que, por intermédio dela, herdei uma fazenda e não desenvolvi essa atividade”, porque quando eu herdei a fazenda dela, que eu recebi, eu trabalhava no IPT. O IPT nessa época não é como hoje, que o sábado hoje ninguém trabalha; no meu tempo não, você trabalhava até meio dia. Então eu não tinha tempo, condições de sair de São Paulo pra ir fazer inspeção lá na fazenda que eu tinha. Aí então, quando eu aluguei a fazenda, meus cunhados disseram: “Olha, melhor você vender a fazenda, porque se você alugar, o que acontece? Você vai perder a fazenda, porque quem aluga desfruta o máximo que pode da fazenda, não preocupa em mantê-la. Então vai desgastando, desvalorizando a fazenda”. E eu acabei vendendo. Então, essa é uma coisa que eu teria... Não consegui fazer.  Outra coisa que você falou, eu achei que foi um mal meu, foi eu ter ficado, talvez porque eu... Timidez minha. É o seguinte: eu ter ficado nesse posto 35 anos. Eu devia ter aventurado outras atividades, mas medo de deixar aquela coisa certa. Uma, porque também eu tinha já casado, achei complicado...

 

P/1 – Quatro filhos...

 

R – Quatro filhos. Nós os tivemos muito cedo. E isso perturbou. Então me deixou nesse ponto. Mas hoje não posso queixar. Eu até falo assim, porque apesar disso eu tenho uma aposentadoria razoável, eu estou mantendo com essa... Porque hoje com minha aposentadoria eu estou sustentando a minha mulher nessa clínica. Eu moro com meu genro, com minha filha, não tenho despesa. Então hoje estou, quer ver, com a cabeça... Estou tranquilo. Estou bem. Tenho uma saúde que não posso queixar e assim estou vivendo.

 

P/1 – O senhor gostaria de dizer mais alguma coisa que a gente não perguntou? 

 

R – Sabe... Você fala numa coisa, Rosali, é o seguinte: eu, por exemplo, nessa parte que você falou um negócio de gostaria eu ______ falar dessas minhas filhas. Eu não sou, não fui de guardar muito fotografias. E acho que hoje, eu não sei, não gosto de ver, sabe. Eu agora, por exemplo, esse é meu filho, esse é meu neto, tenho certeza que minhas filhas: “Olha, ele parece com você”, o meu neto. Esse sou eu, quando eu me formei.

 

P/1 – Ah! É o senhor. Nossa, bonitão!

 

R – Tinha 43 anos.

 

P/2 – O seu neto parece...

 

R – Então me lembro que meu neto parece muito comigo.

 

P/1 – Nossa. O senhor era bonitão heim seu Bené. (risos)

 

R – Mas, nem isso. Eu não guardei... Eu sou relaxado nessa parte. Acho que devia... Eu falo para as minhas filhas: “Fotografia é bom você tirar, mas vocês fazer um tipo, coisa”. Aliás, quem fez coisa bonita, por exemplo, nesse assunto, viu Rosali, foi essa minha neta, filha da Fernanda. Ela fez um negócio aqui, mas bonito, bem feito. Que danadinha, viu. Ela está com quinze anos hoje.

 

P/2 – Essa é filha da Fernanda?

 

R – Filha da Fernanda. Ela que fez esse trabalho, fez uma investigação aí dos antepassados.

 

P/2 – E o senhor não falou pra gente. De que origem o senhor é? 

 

P/1 – O sobrenome. De que origem é sua família? Leonardo.

 

R – É português.

 

P/1 – É português mesmo?

 

R – É português.

 

(PAUSA)

 

P/1 – Essa Maria Silvia (Oliveira?) era... E Júlio (Albina?) de Oliveira, quem...

 

R – São os bisavós da... Por parte do pai dela. 

 

P/1 – Ah! Aqui estão os por parte de mãe.

 

P/2 – Os seus pais, como é que chamavam?

 

R – Antonio Leonardo e Benedita ______.

 

P/1 – Senhor Bené, a gente vai pegar suas fotos agora pra gente conversar um pouquinho rapidamente sobre elas e eu só queria fazer uma última pergunta: o que o senhor achou de estar contando sua história aqui pra gente?

 

R – Olha, eu acho excelente. Você... Como eu falei, quando a Fernanda me falou, entrou em contato com você, que ia fazer esse meu depoimento, ______ porque infelizmente, viu Rosali, a parte de fisionomia eu sou péssimo, não sou... Eu vejo às vezes meus amigos, colegas, contemporâneos meus, contam coisa do passado com muita, muita... Recursos de coisas, eu não... Eu guardo muito pouco nessa parte. Quando foi? Acho que foi ontem também, encontrei com uma moça que: “Nos encontramos, o senhor não lembra?”; “Não, não lembro não”. Engraçado, eu tenho uma memória muito boa pra números. ______ meus netos também. Telefone dos amigos, tudo eu guardo de cabeça, tenho tudo na cabeça. Tenho facilidade pra números. Agora, fisionomia... Há um tempo eu encontrei um... Foi amigo também lá do clube do primeiro que eu comecei trabalhar, esqueço de ______ o clube. Então: “Como vai, como vai, seu pai, sua mãe...” e coisa assim. E eu: “Tchau, tchau, tchau”. Não sei com quem que eu falei. (risos) É desse jeito, viu. Eu sou mal mesmo em fisionomia. Uma coisa tremenda.

 

P/1 – Mas tudo bem. Muito obrigada. Vamos agora falar sobre as fotos.

 

R – Foi bom, muito bom. Aguardo sua pergunta. O que você quer mais perguntar?     

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | portal@museudapessoa.net
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+