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História

Uma vida dedicada ao magistério

História de: Edilene dos Anjos Nascimento Vasconcellos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/03/2009

Sinopse

Edilene relembra sobre sua infância, e suas dificuldades ainda moça. Ela e seus onze irmãos começaram a trabalhar bem cedo, ainda criança, pra ajudar em casa. Estudou num colégio público, e privado, com auxílio de bolsa. Relembra como foi seu curso de Formação de Professores. Conta à adrenalina de ter se casado e se formado no mesmo dia, como foi se tornar mãe, como foi o seu primeiro processo de alfabetização e quem despertou seu interesse em tornar-se professora: o seu filho.

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História completa

P/1 – Edilene, para começar, eu queria que você falasse o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R – Edilene dos Anjos Nascimento de Vasconcelos, nasci em Vassouras no dia treze de abril de 1967.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Onze irmãos, nove vivos. Dez comigo.

 

P/1 – Desses onze irmãos, você está no meio, é a mais nova, é a mais velha?

 

R – Mais ou menos no meio.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – O meu pai, José do Nascimento, e minha mãe, Teresa Maria dos Anjos Nascimento.

 

P/1 – Quando você era pequena, você lembra qual era a profissão dos seus pais?

 

R – Meu pai, funcionário público. Profissão da vida toda – eu acho – operador de máquina, tratorista, mais popularmente. A minha mãe sempre foi do lar.

 

P/1 – Onde você morava na infância? A primeira casa de que você lembra.

 

R – No mesmo lugar que a minha mãe hoje, é a casa de onde eu saí para minha casa, em Vassouras mesmo.

 

P/1 – E como era essa casa?

 

R – Era uma casa pequena, muito humilde, feita de – não sei se você já ouviu falar – um tijolo que se chamava “adobro”, parece que era feito de barro, foi o meu avô que construiu. Parte da minha infância eu ainda vivi nessa casa. Uma parte era de cimento, só cimento grosso, e uma outra parte tinha chão batido. Os filhos sempre foram cedo trabalhar e a gente ajudava em casa. Aos poucos, com toda a batalha, minha mãe foi construindo uma casa por fora da outra, porque a gente não tinha outra casa para morar. Fazia uma parede, derrubava a outra, fazia outra parede, derrubava a de dentro. A casa hoje é o dobro ou o triplo do tamanho daquela época. Mas foi construída com muito suor, muita batalha.

 

P/1 – Vocês ajudaram a construir essa casa?

 

R – Com a parte financeira, porque a gente trabalhava fora, era pouquinho dinheiro porque a gente era criança, recebia pouquinho. E ajudava pegando no balde de cimento, ajudando a levar material para o canteiro, carregando tijolo, essas coisas.

 

P/1 – Iam construindo a casa, você, seus irmãos, seus avós?

 

R – Eu, meus irmãos e meus pais. Vinha um pedreiro que trabalhava no final de semana, porque a minha mãe e o meu pai não tinham condições de pagar uma empreitada para o pedreiro, ou pagar a semana corrida. Então ele pegava no sábado e no domingo e a gente pegava junto.

 

P/1 – Quando vocês moravam lá, dormiam os onze irmãos juntos?

 

R – Tinha o quarto das meninas, o quarto dos meninos e o quarto dos meus pais. O filho caçula e o outro, o segundo, no caso, dormiam no quarto com meus pais. O caçulinha no cantinho e o outro no bercinho, que foi o meu avô que construiu, ele ficava nos pés da cama dos meus pais. Com exceção de mim – não sei se eu era meio xodó, o que eu era – que fiquei um tempo maior dormindo naquele bercinho. O meu pai sempre teve a mania de levar um café para beber durante a noite – acho que por fumar também. Ele pegava o café para ele, bebia e deixava um pouquinho. Então batia a caneca no meio das gradezinhas do berço, eu acordava e tomava aquele golinho de café com ele. Eu adorava isso, adoro lembrar disso.

 

P/1 – O que mais você lembra dessa casa?

 

R – Eu lembro que a gente sempre viveu com muita dificuldade. Doze filhos, meu pai funcionário público, minha mãe não trabalhava fora, ela dava os pulos dela para poder ajudar: plantava; vendia verdura, chuchu. Alguém dava retalho, ela fazia uns shortinhos de elástico, coisa simples, e vendia. Sempre dava um jeitinho de ajudar o meu pai, mas era uma ajuda pequena. A gente tinha uma dificuldade grande, mas era aquela família unida. Eu e um dos meus irmãos éramos os mais levados e de vez em quando a gente levava uns cascudos merecidos (risos), mas era muito bom. A gente brincava de coisas que eu não vejo as crianças brincarem hoje mais. As crianças só querem jogos, brigar, lutar; aquelas brincadeiras de luta. Naquela época a gente amarrava um arame em uma lata de óleo e ficava brincando de carrinho, era delicioso. Jogava bolinha de gude. Bolinha de gude ainda tem hoje, mas naquela época parecia que tinha mais. Tinha uma brincadeira também – um dia desses eu estava lembrando – era uma rodinha de borracha e a gente fazia com vergalhão um arco, uma trava, e rodava aquele arco de borracha. A gente falava que era brincadeira de rodar arquinho. Era muito bom. A gente dividia assim: eu estava rodando o arquinho, quando caía, era a vez do meu irmão. Quando ele deixava cair, era a minha vez. Eu quase sempre levava muito tempo para conseguir porque ele era muito melhor que eu nisso. A gente também brincava de trabalhar. Por exemplo: a gente não tinha água encanada, tinha que lavar louça na bica. Tinha uma água de mina, que tem até hoje, é uma água muito boa. Meu pai encanou, fez uma bica; essa água cai dia e noite e a gente ia lá para lavar louça. Tinha uma vizinha que também tinha o mesmo tipo de vida, a gente disputava quem acabava de lavar a louça primeiro. A gente esquentava a água na lenha para tomar banho. Eu e o meu irmão, a gente tinha que rachar lenha. Então a gente disputava também. Trabalhava. “Quem que vai partir a tora?”. “Então você dá vinte machadadas, quando você terminar, eu dou vinte machadadas”. Era vencedor aquele que tivesse conseguido partir aquela lenha. Era muito legal. Meu irmão ganhava sempre, ele era muito mais forte que eu (risos).

 

P/1 – Você lembra de mais brincadeiras, alguma coisa que vocês aprontavam juntos?

 

R – A gente brincava de correr atrás da casa; um correndo aqui, outro ali, para ver quem chegava primeiro. Era uma bobeira, mas para gente era muito divertido. Ele era bom em tudo, chegava primeiro quase sempre. Às vezes, eu chegava muito depois, ficava escondidinha. Ele tinha chegado antes e estava esperando eu chegar. E eu: ”Você não chegou, não? Eu já estou aqui há um tempão!”. Só para tentar enganar, mas não tinha jeito (risos).

 

P/1 – Vocês lembram de alguma coisa que vocês aprontaram que você tenha tomado uma bronquinha?

 

R – Eu aprontei com ele. Peguei um carvão e escrevi na parede da casa, de fora a fora, imitando a letra dele para ele levar a bronca. Ele estava aprendendo a escrever, tinham algumas letras que ele fazia ao contrário e eu fiz igualzinho para ele levar a bronca (risos). Ah, que maldade! Coisa de criança.

 

P/1 – Ele tinha aprontado com você para você fazer isso?

 

R – Eu lembro que eu aprontei, mas não sei se ele tinha aprontado antes, ele era danadinho também. Mas como ele ganhava sempre em tudo, deve ter sido por causa disso.

 

P/1 – Você lembra do que vocês mais brincavam ou trabalhavam, quando pequeno?

 

R – Eu lembro bem dessa brincadeira do arquinho, acontecia bastante. De correr atrás da casa, de pique-esconde. E de trabalho, lembro muita dessa questão de rachar a lenha e de esquentar a água para o banho. A gente tinha que tomar conta do fogão de lenha para o fogo não apagar. Éramos nós dois que tomávamos conta da água para todo mundo tomar banho e éramos os últimos a tomar banho: um dia era eu, um dia era ele, o último.

 

P/1 – Era a sua mãe que cozinhava?

 

R – É, minha mãe que cuidava do serviço toda da casa. Mas a gente ajudava, porque eram muitas crianças e a minha mãe lavava roupa, fazia comida, arrumava a casa. A gente trabalhava fora, a partir de uma certa idade. Eu tive um irmão que foi trabalhar com seis anos em um restaurante, limpando mesa, lavando copo. Era o xodó da freguesia do restaurante. A gente estava sempre ajudando, mas ajuda de criança pequena.

 

P/2 – Quais eram as tarefas que a sua mãe te dava?

 

R – A gente lavava louça, varria quintal, tratava de bicho, minha mãe sempre teve bicho, tem até hoje. Ela está com 73 anos e tem porco, galinha, cachorro, gato, passarinho. Às vezes a gente ia no morro pegar lenha. Quando tinha tora de alguma árvore, a gente ajudava a cortar a madeira.

 

P/1 – Você lembra o que sua mãe fazia de comida quando você era pequena?

 

R – Sempre teve verdura, porque minha mãe sempre plantou horta. Você vai na minha casa e nunca que você não encontra pelo menos um canteiro de couve. Sempre tem. Tem cheiro verde, alface. Alface menos porque é mais difícil, requer um tempo maior, e depois ela acabou, acabou. Não é igual a couve que fica aquele pé que vai dando folha, vai tirando, e vai dando mais. Mas o que tem sempre é couve, cheiro verde e chuchu. Tem – não sei se você conhece – uma verdura que se chama almeirão. Tem sempre. E fruta tem um monte: tem fruta-do-conde, jambo, bananeira. Sempre tem banana do quintal.

 

P/1 – E você lembra de ouvir de pequena umas histórias, uns causos, umas coisas de terror ali da região de Vassouras?

 

R – A minha vó contava várias, mas tem duas que eu não esqueci de jeito nenhum. Uma época ela tava indo para casa, não sei se tinha algum animal, não sei o que tinha, que não quis passar em um determinado lugar de jeito nenhum. Ela olhou, e viu na encruzilhada uns panos brancos batendo. Ela contava isso para gente. Essa outra acho que minha mãe que contou: passava sempre um homem a cavalo, só que só via quando o homem estava virando na curva, mas não via ele passar, só via lá na curva: “Ué, mas não passou ninguém aqui, como esse homem está virando a cavalo?” E ninguém nunca sabia desvendar esse mistério. E quando minha vó contava essas histórias, cadê que a gente tinha coragem de mudar de cômodo depois? Um medo, mas a gente sempre pedia para ela contar de novo.

 

P/2 – Em que situações vocês se encontravam para ela contar?

 

R – A minha vó trabalhava em uma casa de família e conheceu o meu avô. Ele ia lá, até que minha vó foi morar com ele. O meu avô era muito mulherengo. Ele tinha duas mulheres e minha vó era uma delas, foi a segunda esposa. Ela viveu com ele durante alguns anos, até que, por ele ser muito mulherengo – eu acho que ela deve ter cansado – ela passou a viver assim, de tempo em tempo ela estava na casa de uma filha. Ela teve três filhos, mas ficava mais na casa das filhas. Passava dois meses na casa da minha mãe, depois dois meses na casa da minha tia; ficou assim, até morrer. Mais próximo dela morrer ela ficou com minha mãe, que ficou cuidando dela.

 

P/1 – Como era próximo da sua casa? Tinham outras casas, outros amigos?

 

R – Várias casas. Tinha um quarteirão, ainda tem, que era do meu avô; só que agora algumas foram vendidas, algumas ainda são dos herdeiros. Ele deu um pedacinho para cada filho, onde a gente mora até hoje. A parte que eu moro não foi herança do meu avô. A minha sogra comprou, já era de outra família, e depois eu acabei construindo nesse terreno que tinha sido, muito antes, do meu avô. Alguns pedaços são pessoas estranhas e alguns terrenos ainda são de parentes.

 

P/1 – E você tinha uns amiguinhos de infância do bairro que moravam por perto?

 

R – Conhecidos. Amigos, amigos, de brincar na rua, essas coisas, não muito, porque a minha mãe não deixava a gente brincar na rua, e a gente também foi trabalhar muito cedo. A gente quase nunca brincava na rua, ela nunca deixou a gente ficar muito à vontade.

 

P/1 – E você tinha muitos irmãos também?

 

R – Muitos irmãos. Por isso que a gente brincava muito dessas coisas em casa, porque a gente não tinha aquela liberdade para brincar na rua. Os vizinhos eram colegas com quem a gente ia junto para a escola, porque a gente ia a pé. A nossa casa fica a dois quilômetros do centro. A gente ia a pé, voltava a pé, e um fazia companhia para o outro, os colegas, os vizinhos. Mas era só colega de escola mesmo: ia, voltava; as família se davam, mas não tinha aquela coisa de ir na casa do colega brincar, ou ele vir para nossa casa, não.

 

P/1 – Como era essa escola?

 

R – Do Jardim da Infância até a quarta série primária, eu fiz no Instituto de Educação, na época era Grupo Escolar. Anos depois eu voltei a essa escola para fazer o Curso de Formação de Professores. Mas era uma escola pública, com as diversas dificuldades que uma escola pública tem. Era longe de casa. A nossa rua era estrada de chão, a gente tinha uma dificuldade grande para ir à escola, mas não faltava à aula, não.

 

P/1 – Seus pais incentivavam vocês a irem na escola?

 

R – Incentivavam. O meu pai estudou muito pouco, acho que não terminou a primeira série do primário. Minha mãe nem chegou a ir à escola porque meu avô não deixava. Mas ela aprendeu a ler escondido dele, com a vizinha, uma amiga, que muito depois formou-se professora, escreveu um livro e tudo. Mas os dois sempre incentivaram e colocaram todos os filhos na escola, incentivaram sempre que puderam.

 

P/1 – Você gostava de ir na aula?

 

R – Eu amava ir à escola. Nossa, era a coisa que eu mais amava naquela época – de repente mais que as brincadeiras que eu gostava tanto. Minha mãe me colocou no colégio com quatro anos. Fui para o Jardim da Infância. Fiz um ano e, no ano seguinte, com cinco anos, mais um ano de Jardim da Infância. Para mim, eu já estava pronta para ir aprender a ler – era aprender a ler que a gente dizia. Não sabia que era classe de alfabetização; era para ir para a primeira série. Eu achava que eu ia, porque, para mim, eu já tinha ficado tempo demais no Jardim da Infância. Então nas férias, de cinco para seis anos, eu enchia a cabeça da minha mãe com jornal, revista, tudo que tinha letra. Eu ficava atrás dela o dia inteiro: “Mãe, essa letra com essa faz o quê?” Ela falava. “E essa com essa faz o quê, mãe?” O tempo todo. Nas férias de dezembro para fevereiro – eu acho – eu aprendi a ler, assim, perguntando a minha mãe. Eu fiquei maravilhada quando eu fui para a primeira série. Não fui nesse ano porque tinha mais um ano de Jardim da Infância. Mas eu não fiquei desestimulada pelo fato de não ir. Em relação à escola, foi uma fase muito importante porque eu digo, de certo modo, que aprendi a ler sozinha. Metida (risos).

 

P/1 – O que você gostava no dia a dia da escola?

 

R – Eu gostava de tudo relacionado à sala de aula. Não dava tanta importância para o intervalo, não. Mas da merenda eu gostava também (risos).

 

P/1 – Você lembra como era?

 

R – Era engraçado. Um dia desses estava até comentando na escola. Era uma sopa de macarrão com um baita de um osso. A gente ficava pedindo para colocar aquele osso, porque no osso tinha carne, lógico. “Bota um osso para mim! Bota um osso para mim!”. E ficava o recreio inteiro roendo aquele osso (risos). Era muito legal. Eu passava quase o recreio todo naquela merenda e voltava para sala. Eu gostava muito das minhas professoras, e acho que elas gostavam de mim porque elas até me protegeram. Mas eu não era bagunceira. Eu era em casa, na escola, não. Qualquer problema que acontecia elas nunca suspeitavam que eu pudesse estar envolvida, e não estava mesmo, não. Uma vez só que eu briguei com uma menina na sala de aula e não fui punida porque eu tinha razão. A professora se ausentou por pouco tempo. Antigamente as professoras levavam os cadernos para corrigir em casa. E ela tinha trazido aqueles cadernos, colocou sobre a mesa e pediu que eu entregasse aos colegas. Então uma outra menina tomou a frente e foi entregar. Eu não gostei daquilo, fiquei brava porque pediu à mim, e quando a professora pedia, a gente se sentia. Então eu briguei com a menina, mandei ela parar, ela não parou. Em seguida eu puxei o casaco dela por trás, ela caiu no chão. Deu aquele auê, a professora voltou, e os alunos começaram a contar: “A Edilene derrubou ela no chão, brigou” e não sei o quê. A professora perguntou: “Por quê?” “Professora, a senhora mandou eu entregar os cadernos aos colegas e ela foi entregar”. Ela virou para a menina: “Quem foi que eu mandei entregar o caderno?” A menina: “Ela”. “Pois é, você não tinha nada que ter ido entregar e se metido no que eu mandei ela fazer.” (risos) Mas isso é porque eu tinha um bom comportamento, era uma boa aluna. Naquela época tinha classificação, eu estava sempre entre os três primeiros lugares, ficava muito feliz. Eu era uma aluna muito boa.

 

P/1 – Seus pais deviam gostar também.

 

R – Gostavam, se orgulhavam.

 

P/1 – Os seus irmãos estavam na mesma escola que você?

 

R – Tinha uma escadinha. A gente ia quase todo mundo junto, o horário era praticamente igual, e todos na mesma escola. Tinha uma outra escola que era o prefeito da cidade. E ele era padrinho da minha mãe. Então a gente pedia, e ele dava a bolsa de estudo, porque o colégio dele era particular. A gente fazia do Jardim até a quarta série nesse colégio público, ia para o outro colégio e fazia quinta a oitava, naquela época era Ginasial. O Segundo Grau fazia lá também.

 

P/1 – E nessa escola em que você ficou até a quarta série, o que mais você gostava? Tem alguma história que você tenha vivido lá?

 

R – Eu gostava de participar de tudo. Por exemplo, tinha desfile de sete de setembro. Eu chorava quando minha mãe não podia comprar um uniforme novo, arrumar direitinho para ir, ficava muito triste. Tinha uma festa, alguma participação, um teatrinho, de tudo eu queria estar participando. Teve uma época que eles começaram ginástica rítmica, eu era apaixonada. Queria fazer, me inscrevi, mas durou pouco, fiquei tão triste porque acabou.

 

P/1 – Você lembra de algum teatrinho que você fez e chamou a atenção?

 

R – Da época de Jardim à quarta série eu não lembro, mas quando eu fiz Formação de Professores, eu participava de todos os teatros.

 

P/1 – Você demorou um tempo para ir para a Formação de Professores?

 

R – Demorei. Estava casada, tinha filhos. Uma outra coisa que eu lembro do período até a quarta série foi a Primeira Comunhão. Estava fazendo Catequese, fazia na escola mesmo. Um dia a professora começou a levar uns vestidinhos, umas túnicas, de um tecido simples para experimentar. Ela sabia que a minha família era pobre. Nem pensou em falar: “Diz para sua mãe arrumar um vestido para você fazer Primeira Comunhão”. Ela levou o vestido para experimentar, depois disso marcou um dia e um horário, e eu fiz Primeira Comunhão sem a minha mãe presente, sem uma foto, sem nada. Fiquei muito triste depois que eu soube que aquilo era Primeira Comunhão, e eu fiquei sem nenhum registro dela, mas feliz por ter feito a Primeira Comunhão, porque na minha casa eu fui a primeira a fazer. Meus irmãos mais velhos não tinham feito.

 

P/1 – Como é que foi a sua Primeira Comunhão? Você chegou lá com vestidinho?

 

R – Marcaram um horário para ir. Eu estava pensando que era, ou um ensaio, ou uma aula extra, não sei. Só sei que eu não imaginei que fosse a Primeira Comunhão. Cheguei, a professora veio com o vestido que eu já tinha experimentado, ela tinha separado para mim; e fiz a Primeira Comunhão. Para mim, aquilo foi um balde de água fria porque eu esperava que minha mãe pudesse fazer um vestidinho, mesmo que bem simplesinho – porque eu sabia das condições deles – mas que fizesse. A minha mãe também ficou chateada porque ela falou: “Poxa, a gente é pobre, mas podia ter feito um vestidinho, tirar um retratinho para poder registrar, ficar guardado”, mas não foi.

 

P/1 – Depois que você passou da quarta série, na sua casa, o que vocês faziam? Voltava da aula, ajudava os pais?

 

R – Chegava da aula, tinha as tarefas de casa para fazer, ajudar a lavar louça, esquentar o jantar, porque minha mãe fazia o almoço para sobrar para a janta. A gente só esquentava. Só que a gente não lavava a louça do jantar porque estava de noite e tinha que lavar lá na bica. Então só lavava no outro dia de manhã, antes de ir à escola de novo.

 

P/1 – Porque sua escola era à tarde?

 

R – É, teve um período que era à tarde, de primeira à quarta. Depois que eu fui para o chamado Ginásio – quinta série, hoje é sexto ano – eu passei a estudar de manhã na outra escola que eu te falei. Levantava cedo, lavava a louça, arrumava a casa e ia à escola. Tinha dia que eu chegava atrasada, o portão estava trancado. Sabe o que eu fazia? Pulava o muro para entrar na escola. Hoje em dia as crianças pulam para sair. Pulava porque se eu chegasse em casa, de volta, porque eu não entrei, o bicho pegava.

 

P/1 – Como foi mudar de escola pra entrar no Ginásio?

 

R – Eu acho que acontece com toda criança essa transição de primeira à quarta. É complicada. A transição do término do Ensino Fundamental para o Ensino Médio também é complicada, eles estranham muito. Eu acredito que deve ter sido um pouco disso. Porque quando eu estava no Jardim até a quarta série, eu estava sempre entre as primeiras alunas. Quando eu fui para a quinta série, não era tão primeira aluna. E tinha uma professora que pegava no meu pé. Ela dava aula para mim e para minha irmã. Minha irmã ela endeusava, a mim ela esculachava. Eu andei tirando umas notas ruins com ela. Ela era professora de Ciências. Fiquei em dependência da quinta para a sexta série. Nossa, quase morri! Quando foi na sexta série, eu falei: “Eu vou calar a boca dessa professora, eu vou mostrar pra ela que eu não sou isso aí que ela fala”. Comecei a estudar, estudar, estudar e só tirar nota boa. Mas ela, para mim, eu acho que deve ter sido um pouco de incentivo também, um jeito que ela achou de me fazer estudar, ou me ajudar a vencer essa fase, que eu acho que é bem difícil, em geral.

 

P/1 – E os colegas, mudou bastante?

 

R – De uma escola para a outra? Mudou, mudou bastante. No começo até eu estranhava porque era escola particular, então eu era a pobrezinha de lá. Mas tinha uma outra menina que também mudou de escola na mesma época. Nós somos amigas até hoje. Ela é professora também, na Rede Municipal em Vassouras.

 

P/1 – Qual é o nome dela?

 

R – Sílvia. A gente se dá muito até hoje. Só não tem tempo para visitar. Ela morou na mesma rua que eu. De manhã ela me gritava para a gente descer junto. Era muito bom também.

 

P/1 – O que mais você lembra do Ginásio que foi legal? Você saía com os coleguinhas?

 

R – Não, eu saía da escola direto para o trabalho. Eu estudava de manhã, saía onze e meia da escola e trabalhava no restaurante – onde eu te falei que o meu irmão começou com seis aninhos limpando mesa. Quase todas as crianças de casa trabalharam lá. Eu saía da escola e ia pra lá.

 

P/1 – Você começou a trabalhar quando você acabou a quarta série?

 

R – É, com onze anos eu comecei a trabalhar, estava na quinta série.

 

P/1 – Como era o trabalho no restaurante? Você gostava?

 

R – Eu gostava porque tinha sempre gente diferente. A bolsa de estudos dessa época foi meu pai que arrumou para mim. Eu consegui outra bolsa quando eu mudei de etapa, quando terminei a oitava série, porque a bolsa que eles davam para o Ensino Fundamental era diferente da do Ensino Médio. Quando eu cheguei na oitava série eu só ouvia o comentário dos colegas. O pessoal da Direção não tinha falado nada: “Quem tem bolsa, terminando a oitava série, vai perder a bolsa, vai ter que sair da escola”. E o medo de sair da escola? Então eu fui providenciar uma bolsa. Como eu trabalhava no restaurante e conhecia um monte de gente, eu falei: “Ah, vai ser fácil.” Mas eu preferi ir até o prefeito. Cheguei lá, fui pedir ao prefeito. O destino é muito irônico. Ele disse para mim: “Para que você quer fazer Contabilidade? Você sabe quanto ganha uma Professora? Por que você não faz Normal?” “Não, eu não quero fazer Normal, quero fazer Contabilidade. Mas tudo bem, se o senhor não quer me dar a bolsa” – ô bichinho metido, com quatorze anos – “se o senhor não quer me dar a bolsa, não tem problema, não, eu vou conseguir pelos meus próprios méritos.” Saí da sala do prefeito. Consegui a bolsa com um desses fregueses do restaurante que estavam sempre lá. Com um não, com dois. Eu falei com um, falei com outro. No dia que chegou uma bolsa, chegou, logo a seguir, a outra. Eu me senti muito orgulhosa de mim mesma. E fui fazer o Curso de Contabilidade. Destino irônico: fui fazer Formação de Professores anos depois. Mas eu acho que fazia parte da minha experiência de vida, do que tinha que acontecer.

 

P/1 –  Que conquista. Como foi entrar no curso de Contabilidade?

 

R – Eu acho que foi um pouco de ilusão. As minhas duas irmãs mais velhas tinham feito Contabilidade nesse mesmo colégio. Parecia que era um ritual que a gente tinha que seguir. Para mim – hoje eu digo – parecia ser isso. Minha irmã montou um escritório e eu tinha aquela ilusão: “Não, eu já tenho trabalho. Quando me formar eu não vou ficar desempregada.” Então, eu acho que foi um pouco por isso que eu fiz Contabilidade, um pouco de influência. E imaturidade também, eu estava novinha, terminei o Segundo Grau com dezessete anos. Depois disso, no dia da minha formatura eu me casei. Era assim: na minha família tinha aquela rigidez: “Ninguém namora enquanto estuda.” Quebrei esse tabu (risos). “Ninguém vai namorar pirralho dentro de casa, não.” Quebrei esse tabu, namorei com quatorze anos, faltando pouquinho para quinze namorei. Mas tinha um vigia ali, meu irmão. Estava sempre junto, tomando conta. Meu namorado me buscava no colégio, levava-me. Mas meu irmão estava sempre junto. Namorei durante os três anos que fiz o curso de Contabilidade e a minha mãe dizia que não queria ninguém namorando antes, mas eu namorei. E não queria que ninguém casasse antes. Eu falei: “Então, não tem problema, não, eu caso no mesmo dia.” Eu marquei o casamento para o mesmo dia da Formatura.

 

P/1 – Com quantos anos?

 

R – Foi um corre-corre. Ia fazer dezoito ainda, faltavam quatro meses para fazer dezoito. Um corre-corre, um tira e põe de vestido, mas foi muito legal. Não curti a festa da formatura, mas estava com a cabeça em outro assunto.

 

P/1 – Como você conheceu seu namorado?

 

R – Ele se mudou para a minha rua, para o mesmo terreno onde a gente construiu. Mas a gente se conhecia há muitos anos. O avô dele era amiguinho do meu avô e levava a minha mãe no baile, essas coisas de famílias muito ligadas, de muita amizade. Os pais dele moravam de aluguel e mudavam muito. O irmão mais velho dele, não sei porque razão, era apaixonado pela minha irmã. O irmão do meu pai namorou a irmã da mãe dele, namorou mas não vingou. O irmão dele era apaixonado pela minha irmã, mas não vingou. Mas o nosso vingou (risos). Acabou ele morando lá, e ele era muito amigo do meu irmão, estava sempre próximo, ia na minha casa. Todo mundo pensava que ele queria namorar a minha irmã, mas não era a minha irmã, era eu (risos). Foi legal isso. Foi um tempão aquele namorinho morno de criança. Depois que a gente foi ver que era isso mesmo que a gente queria e a gente se casou. E está até hoje.

 

P/1 – Foi com quatorze anos, também, que você conseguiu pleitear as bolsas? Como você conversou com essas duas pessoas?

 

R – Eu pensei: “Eu vou falar direto com aquele que pode”. E ele não resolveu. Então eu comentei com um, que acho que era vice-prefeito, meio que lamentando. E o outro era chefe do almoxarifado. Eu falei: “Puxa vida, eu fui pedir ao prefeito uma bolsa, e ele não me arrumou. Você não consegue uma bolsa pra mim, Alemar?” “Eu consigo sim.” Eu falei: “Vou aguardar, tenho até tal dia para fazer minha matrícula.” Ele falou: “Não, eu consigo a bolsa para você, sim.” No mesmo dia que chegou a bolsa dele, eu saí logo para o Colégio para fazer a matrícula, depois chegou a outra. Eu me senti orgulhosa, porque eu não era tão desprezada assim (risos).

 

P/1 – Você foi fazendo o Curso de Contabilidade namorando?

 

R – Eu cheguei a trabalhar mais de um ano no escritório com a minha irmã. Eu pensava que era aquilo que eu queria. Não era. Como eu fui descobrindo? Ela tinha uns clientes chatos. Tinha um senhor que – eu acho que por ele ser médico – achava que sabia tudo. Minha irmã dizia a ele: “Olha, isso é assim, assim, o senhor não pode fazer, senão o senhor vai pagar multa.” “A carteira do seu funcionário você não pode anotar.” Ele anotava: chegou atrasado no dia tal. “Existe o livro de ponto para registrar esse tipo de coisa, o senhor não pode fazer anotações desse tipo na carteira dele.” E ele fazia. Depois vinha a fiscalização, ele achava que ela era culpada, mesmo ela tendo explicado tudo. Ele botava a culpa nela. Eu falei: “Não é isso que eu quero para mim, não.” Depois eu fiquei grávida, e trabalhei até o dia do meu filho nascer. Ele nasceu à noite e eu trabalhei até às quatro horas da tarde. Minha preocupação de amamentar era muito grande, eu queria porque queria amamentar. Eu não queria ter cesárea, eu falei a gravidez inteira para a médica: “Eu quero parto normal.” Porque todo mundo falava que “quem toma anestesia para cesárea, o leite seca.” Naquela época, bobinha, acreditava em tudo. Tinha um pânico de fazer cesárea. A médica tinha toda a certeza que eu não queria uma cesárea, porque eu queria amamentar. Depois que eu cumpri aquele período com o meu filho, minha irmã perguntou: “Você vai voltar para o escritório?” Eu falei: “Arranja outra pessoa porque eu não quero correr o risco do leite secar, e eu não vou ter quem leve o neném para mamar nos horários.” A gente morava longe, não tinha carro. E fiquei em casa, sendo mãe durante nove anos. Eu engravidei de novo, quando o menino estava com um ano e dez meses a menina nasceu, e eu fiquei sendo mamãezinha esses nove anos.

 

P/1 – Você estava contando desse tempo que você teve seus filhos e ficou como mãe. Eu queria que você contasse um pouco mais sobre o que você fazia, como era o seu dia a dia.

 

R – A minha casa era muito humilde. Aliás, eu morei um tempinho com a minha mãe. Quando meu filho tinha um ano e um mês eu fui para minha casa, era uma casinha de três cômodos: um quarto, uma cozinha e um banheiro. Era de telha de amianto. Eu ficava com muito calor e o que eu fazia? Ia para a casa da minha mãe, passava quase o dia todo lá, e voltava no fim do dia para casa. Um tempo foi essa rotina.

 

P/1 – O seu marido estava trabalhando em quê?

 

R – Teve um período que ele trabalhava em uma oficina mecânica ao lado, que era dele e do irmão. Depois de algum tempo, isso em 97, ele foi para essa empresa, em que ele trabalha até hoje, de construção civil.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho no tempo e queria que você contasse como foi o dia do seu casamento. Desde quando vocês decidiram casar? Quando vocês disseram: “Então vamos casar”, até a festa, com a festa de formatura?

 

R – A gente namorou durante quase três anos. Dois anos e oito meses. Quando estava com dois anos, mais ou menos, de namoro, nós ficamos noivos. Foi muito interessante. Sabe aquele pedido de noivado tradicional? O pai dele foi pedir ao meu pai. Foi assim, foi muito legal. A minha irmã, muito brincalhona, falou: “Pediu a mão, hein! É só a mão que o meu pai deu ao casamento, viu?” Fazendo piada. A gente ficou noivo durante um ano. Muita simplicidade, falta de dinheiro, a gente não fez muito enxoval, não fez muita coisa assim. E a gente não tinha casa, a gente foi morar em uma casinha alugada do irmão dele, que durou dois meses só, não deu certo. A minha cunhada não deixava a gente ter sossego, eu saí de lá e fui para a casa da minha mãe. Fiquei dois anos na casa da minha mãe. Estava lá quando meu filho foi planejado, quando ele nasceu. Ainda fiquei um ano e um mês, só então eu fui para a minha casinha. Mas você queria mesmo saber do dia do casamento. Eu estava fazendo Contabilidade e decidi marcar o casamento para o mesmo dia da formatura. Isso por causa daquela regra lá que ninguém casava antes de se formar. Eu não pude marcar para o horário que eu queria porque a formatura estava marcada para esse horário, que era sete horas. Não teve jeito, tive que marcar para às cinco horas da tarde. Teve pouca gente no meu casamento, mas não estava muito preocupada com isso, não. Coloquei meu vestido de noiva e me casei. Corri pra casa, tirei o vestido de noiva, botei o de formatura e fui para a missa da formatura. Acabou a missa, a colação de grau, aquela coisa toda, não fui à festa, fui à festa do casamento. Quase ninguém me viu vestida de noiva. Os convidados que na hora do meu casamento estavam trabalhando foram depois, para uma festinha simples que meus pais fizeram. E eu: “Não, ninguém viu o vestido de noiva, tem que vestir o vestido de noiva.” Vesti de novo o vestido, fiquei um pouco lá, tirei umas fotos. Passado um tempo, tirei de novo o vestido de noiva para colocar o outro. Naquela casa do meu cunhado, em que eu morei dois meses, a minha madrinha foi arrumar a cama, ajeitar tudo para mim. Tinha ido cedo. A minha irmã, que é uma peste, foi ao quarto e amarrou os lençóis com travesseiro, deu um monte de nó. Quando eu cheguei, estava tudo bagunçado (risos). E foram lá, para me ver chegar e me ver injuriada com aquela coisa toda amarrada. Meu marido me pegou no colo e me levou, aquela coisa tradicional. Eu escutei um barulhinho. Virei para ele e: “Amor, eu acho que tem rato aí.” Ele: “Não, não tem não, que rato, o quê.” “Tem.” “Não é possível.” Quando eu falei “tem rato” e comecei a insistir, eles não aguentaram, caíram na gargalhada. Estavam todos lá (risos). Atrapalharam minha lua-de-mel (risos). Mas foi muito engraçado.

 

P/1 – Eles ficaram lá?

 

R – Não, eu mandei todo mundo embora. Poxa (risos). Vieram só para pregar a peça mesmo.

 

P/1 – Mas você devia estar cansada. Foi um dia bem agitado.

 

R – Estava muito cansada. Nossa, foi um tira e põe de vestido. E naquela época, o casamento no civil também era no mesmo dia. Tinha sido sábado cedo. Então a gente estava exausto.

 

P/1 – Sábado de manhã você casou no civil?

 

R – É, e cinco horas da tarde na Igreja. Às sete a formatura. Foi uma jornada.

 

P/1 – E como foi escolher tanto vestido para um dia só?

 

R – Não foi muito difícil porque não tinha muita opção (risos). Tinha opção de vestido, mas não financeira, então não tinha muita escolha.

 

P/1 – E o seu marido topou a ideia?

 

R – Topou. Ele estava louco para casar. A gente não tinha muita liberdade para sair, nem nada. Eu era muito presa. Quando a gente queria sair e a minha mãe não deixava, ele sempre falava: “Tem problema, não. Quando a gente casar a gente vai sair para tudo quanto é lugar, não vai ter ninguém para impedir.” E a gente era jovem.

 

P/1 – Você falou, quando seu filho foi planejado, que você queria que fosse parto normal, queria amamentar. Foi parto normal?

 

R – Não foi. Tive uma gravidez muito tranquila, dos dois filhos. Até o dia do neném nascer, para mim ia ser parto normal. A médica não dizia nada, ela sabia que eu queria muito, mas eu acho que ela não quis me preocupar – não sei – porque o neném foi gerado sentado. Ocorre, às vezes, da criança virar na contração, mas ele não virou. Nesse dia que ele nasceu, eu trabalhei até quatro horas da tarde, fui cedo no pré-natal e estava sentindo um pouco de dor, ela me disse: “Eu vou à Mendes” – que é uma cidadezinha a quinze minutos de Vassouras – “e volto, não se preocupe que não vai dar nada errado, não. Dá tempo. Mas se a dor apertar, você vem, porque a moça vai te internar, ela já vai estar avisada.” Eu falei: “Tudo bem.” Mas não achava nem que a dor ia apertar. Durante toda minha gravidez a minha mãe me acompanhou, de perto, e falava assim: “Só não ajudei a fazer esse filho, porque o restante eu acompanhei tudo.” Acompanhou no pré-natal. Ela teve doze filhos, mas sempre disse, e diz até hoje, que dói muito para ter filho de parto normal. Durante nove meses ela ficava falando aquilo no meu ouvido: “Dói muito. Dói muito.” E ela achava que eu ia brigar, dar trabalho ao médico, porque eu era meio brigona. Ela, preocupada em eu dar trabalho, porque tem gente que maltrata gestante que dá trabalho. Deixa sentir dor, deixa sofrer. Ela tinha esse medo e foi me preparando durante a gravidez toda. Nesse dia que a médica falou: “Quando a dor apertar, você volta.” Não apertava. Para mim, aquela dor que a minha mãe falou durante nove meses não chegava. A gente estava na cozinha, eu trabalhei o dia todo, a gente foi à tarde para casa e eu não tinha almoçado, fui almoçar mais ou menos às quatro horas da tarde. A gente estava sentada, então eu fazia uma careta de dor. A minha mãe: “Está aumentando a dor? É melhor a gente ir. Está piorando?” “Mãe, calma. Ainda não está na hora.” Quem vê, assim, sabia muito. Primeiro filho. Passava mais um tempinho, dava aquela contraçãozinha, e a minha mãe: “Vamos!” “Não!” “É melhor a gente ir. Vou chamar o seu marido!” “Mãe, calma. Não está na hora ainda.” Nisso eu fui ter o neném oito e meia da noite. Quando eu cheguei, a moça falou: “Você é a Edilene?” “Sou eu mesma.” “Bom, a doutora Nádia falou que é para te preparar e te internar.” Ela me internou, ligou para a médica que estava na minha cidade. Ela foi me examinar e disse: “Aguenta que vai doer um pouquinho, mas eu preciso saber o que estou pegando. Ah, moleque danado! Eu estou pegando o pezinho dele.” Para mim aquilo não era nada, não sabia que tinha que estar em outra posição. Ela me disse: “A gente vai ter que fazer uma cesariana porque o seu neném está sentado. Se fosse um segundo filho, a gente até poderia tentar um parto normal, mas no seu caso não vale a pena arriscar. A gente vai ter que fazer uma cesariana, mas pode ficar tranquila, vai dar tudo certo.” Eu perguntei: “A minha mãe está ali fora?” “Sim.” “Eu posso ir falar com ela?” “Só se você prometer que não vai chorar.” “Eu prometo.” Já estava chorando. Fui falar com a minha mãe, porque não sabia que ela tinha contado. A minha mãe estava me dando força: “Filha, tem fé em Deus, lembra da Nossa Senhora do Parto. Lembra do Doutor Hélio”, que era um médico da cidade de total confiança de todas as gestantes, e já tinha falecido. “Lembra do Doutor Hélio, pede à Deus, que vai dar tudo certo.” Fui. A minha mãe e o meu marido ficaram esperando até a hora que eu saí da sala de cirurgia e correu tudo bem. Eu tive leite para o meu filho, para os filhos dos outros. Depois eu tive a minha filha, e o meu filho mamou junto com ela. Nunca parei de dar mamar, ele mamou até quatro anos.

 

P/1 – Você deu leite para o filho dos outros, como foi isso?

 

R – Nossa, tinha o banco de leite. Eu deixava todo dia meio litro de leite para o hospital. Era muito bom, tinha aquele prazer. E, naquela época, não tinha tanto risco, nem se ouvia falar muito em HIV. Hoje em dia é arriscado, não pode fazer isso. Mas, naquela época, os nenéns da enfermaria, todos foram meus filhos de leite.

 

P/1 – Então, todo o leite que você queria foi muito mais?

 

R – Nossa, fui abençoada.

 

P/1 – Além de você ficar nove anos cuidando dos meninos, o que mais você fazia? Você gostava de ler, ouvir uma música, ver alguma coisa?

 

R – Ouvia música, lia. Não lia muito, não era aquela leitora, não. Mas lia. Eles maiorzinhos estavam sempre me perguntando. As crianças lá em casa, em geral, alfabetizam-se muito cedo. Porque começam a perguntar: Que letra é essa? Que letra é essa?, igual eu fiz, a gente começa a achar que está na hora e começa a falar. Eu tenho uma sobrinha que tem três anos e já está escrevendo o nome. E não é fácil, é Aléxia; e ela coloca o acento no e e sabe que é o acento agudo. Porque perguntou, a mãe falou. Eu disse: “Você não está puxando muito, não?” “Não, ela perguntou, eu falei. Falei umas duas vezes, e ela não gravou.” Bem cedo as crianças começam a perguntar e a gente acha: “está curioso, está na hora.” Então começa a ensinar e eles se alfabetizam muito cedo.

 

P/1 – Como foi colocar seus filhos na escola?

 

R – Meu filho começou assim, perguntando. Eles vêem na TV a marca da TV e começam a perguntar que letra que é. A gente fala. Cedo eles aprendem o alfabeto. Depois aprendem a juntar. O meu filho estava conhecendo o alfabeto todo e, um dia, ele pegou um caderno, escreveu e colocou um monte de letra, lado a lado. E foi me mostrar: “Olha mãe, o que eu escrevi.” Eu respondi: “O que você escreveu?” Eu não li. Ele falou o que era, e tinha a ver. Foi uma pequena frase – que pena que eu não lembro que frase que é. As letras que ele organizou tinham relação com o que ele tinha dito que tinha sido escrito. Eu achei aquilo o máximo, incrível. Falei: “É hora de alfabetizar mesmo.” Porque até então ele conheceu o alfabeto. Comecei a ensinar. Eu brincava com ele: “Ah, essa palavra aqui você não vai conseguir! Agora eu vou ganhar de você!” Ele lia, e eu: “Ah, moleque safado, você me pegou, você ganhou de mim de novo!” Aprendeu rápido, com quatro anos, eu lembro porque não tem muito tempo. Eu escrevia no papelão e guardei. Ele lia quarenta palavras de quatro sílabas. Para a época dele eu acho que isso era uma coisa boa.

 

P/1 – Que horas você foi sentindo que você queria dar aula?

 

R – Quando ele começou a ler. Eu falei: “É isso que eu quero ser!” Foi através dele que eu me descobri profissionalmente, porque eu o alfabetizei. Em casa, com o meu método be-á-bá, porque não conhecia outro. O interessante é que minha filha aprendeu a ler vendo eu ensinando. E ela tira onda com isso (risos).

 

P/1 – O que ela fala?

 

R – “Eu que sou inteligente. Pensa que alguém me ensinou a ler? Ninguém me ensinou, não! Eu aprendi vendo minha mãe ensinar ao meu irmão”. Às vezes, eu estava falando com ele, ela respondia.

 

P/1 – Quais foram os próximos passos que você seguiu para fazer o Curso de Formação?

 

R – A partir do momento que eu percebi que era isso que eu queria, eu fui e fiz. Até um ano antes tinha uma prova de seleção. No ano que eu fui nem teve a prova. Foram criadas quatro turmas de Formação de Professores; no final, só três concluíram. Sempre vai dando uma peneirada. A gente ia junto para a escola de manhã, eu e os meus dois filhos. Foi muito difícil porque tinha que arrumar os dois, eram quatro e seis anos. Tinha que levantar de manhã, arrumar os dois, dar café e me arrumar. Tinha trabalhos, porque Normal tem muito trabalho. Vários trabalhos didáticos que as professoras pediam. Foi difícil, mas foi bom.

 

P/1 – Foi na mesma escola?

 

R – Na mesma escola. Nessa mesma época eu dava uns pulos, como minha mãe fazia para ajudar meu pai, para ajudar meu marido. Eu aprendi a fazer uma massa folhada; fazia doce com ela e ia para a Colônia de Férias que tem próximo, vender. O meu final de semana era vendendo doce. Segunda à sexta eu estudava. De vez em quando eu fazia uns docinhos e salgados e vendia na escola. Para arrecadar dinheiro para a formatura, também cheguei a fazer. Era uma jornada puxada, mas graças a Deus, o meu marido e minha mãe me davam força. Nos estágios, a minha mãe tomava conta das crianças para mim. Eu estava sempre à disposição da escola, falava: “Ó, pega meu telefone, se faltar uma professsora, se precisar, pode contar comigo.” Porque eu achava que aquilo era importante também para experiência.

 

P/1 – Voltar a estudar foi muito difícil, Edilene?

 

R – Não foi difícil, mesmo eu tendo ficado nove anos parada. Foi bom, eu tinha notas boas; o curso de Contabilidade contribuiu para a parte de Matemática. Por incrível que pareça, eu fui fazer Português na Graduação. Mas eu gosto também de Matemática.

 

P/1 – Quando você acabou o Curso de Formação de Professores, como foi?

 

R – Fiz um concurso dois anos depois, não me saí muito bem, passei em oitenta e poucos, mas teve uma contagem de experiência, e eu voltei umas cem casas, fui pra 185. Fiquei muito triste, muito angustiada. Trabalhei em um escritório de um mercado algum tempo. No ano de 2001, eu fui trabalhar com contrato. Por conta até desse concurso que eu tinha feito, o Juiz do Trabalho da cidade exigiu ao prefeito que só poderia contratar gente que estava na lista de espera, até ter tempo para fazer outro concurso, porque o meu concurso tinha vencido. Nessa brincadeira, eu fui chamada para um contrato e foi nesse período que eu comecei a trabalhar como Professora. Eu já tinha batalhado, mandado currículo para algumas escolas, mas não tinha conseguido nada. Trabalhei nessa escola e no final desse ano de 2001 teve concurso. Eu fiz a prova e passei em quinto lugar. Eu disse: “Agora, tem que ter vergonha na cara e passar!” Foi quando eu comecei mesmo, firme, a trabalhar.

 

P/1 – Já foi no Abel?

 

R – Entrei em Abel Machado.

 

P/1 – Você se lembra como foi seu primeiro dia de aula, lecionando?

 

R – Eu lembro o primeiro dia na escola. A diretora não é a que está hoje, ela está em outra escola. Ela e os funcionários me receberam muito bem, com muito carinho e, no dia seguinte, ou na semana seguinte, eu comecei com uma turminha. Peguei uma turma de primeira série, com uma dificuldade. Uns alunos alfabetizados, outros não. Tinha três alunos difíceis, mas foi uma experiência boa. Alguns alunos, até hoje quando me encontram, têm o maior carinho comigo.

 

P/1 – Como era o Abel Machado quando você entrou?

 

R – Em qual sentido?

 

P/1 – Como era a escola? Era muito diferente do que ela é hoje?

 

R – Não muito diferente do que ela é hoje, mas muito diferente da minha escola anterior. Aquela em que eu trabalhei com contrato. Muito maior, mais bem equipada, com a Sala de Informática, muito diferente em termos de estrutura; e também porque eu tinha aqueles colegas de trabalho, em uma escolinha pequeninha, e tem diferença em uma escola grande, onde as pessoas eram todas novas para mim. O bom é que quando eu comecei, aquela amiga que me chamava em casa, que fez primeira à quarta comigo, Silvia, também foi para lá. Ela já era do concurso anterior – eu acho. Assim, eu tive um contato com alguém mais conhecido. Mas fui muito bem recebida, muito querida na escola. A acho que ainda sou, até hoje.

 

P/1 – Qual é a disciplina que você leciona?

 

R – Língua Portuguesa; em Massambará eu trabalho com Redação.

 

P/2 – Quando você começou a ensinar, como foi? Porque você ensinou seu filho a se alfabetizar, mas com uma sala diante de você, como foi?

 

R – Quando eu comecei nessa escola em 2001, com contrato, eu senti muito medo, porque não é a mesma coisa de quando você faz um estágio, que é quase entre aspas, sem compromisso. Tem compromisso, responsabilidade, mas não é você que tem que planejar, prestar conta de nota, de nada. Quando você assume uma turma é diferente. Eu peguei uma turma em que alguns alunos alfabetizados, e outros não. Uns muito além dos outros. Alguns, quase no nível de uma pré-escola, ou início de uma classe de alfabetização. E era a primeira série. Outros, nossa, que me enchiam de perguntas muito adiante. Então era difícil, porque as colegas, as pessoas que trabalhavam antes, diziam: “Você não pode dar só conteúdo de alfabetização. Porque você vai ter que prestar conta de conteúdo de primeira série.” “É, mas como que eu vou fazer? Eu vou dar aula só para os alunos da primeira série? Só os que estão naquele nível mais adiante? Lógico que não! E aqueles outros, vou fazer o que com eles? Eu vou deixar excluídos num canto?” Assim, fiz do meu jeito. Eu alternava. A alfabetização nessa escola era com palavra-chave. Segunda eu lançava uma palavra, terça trabalhava com conteúdo, inventava uns textos para poder encaixar com aquela palavra. Quarta lançava outra palavra e quinta trabalha os conteúdos, tentando dialogar com aquela palavra. E sexta eu alternava. Na outra semana eu invertia: segunda, quarta e sexta era conteúdo da primeira série e, terça e quinta, voltado para classe de alfabetização. Deu certo. Tanto deu certo que eu tive um aluno que se tornou um aluno especial –  eu acho, pela história que eu ouvi dele. Começaram a dar um remédio forte a ele por causa de “ouvir dizer”. Sabe? Vizinha? O menino ficou assim, como se tivesse ficado um pouco retardado entre aspas. Quando eu cheguei lá, mandava ele escrever o nome dele, mas ele escrevia bolinha, bolinha, bolinha, de cima embaixo na folha. Nem era uma bolinha, não era um círculo, era uma coisa estranha. E enchia a página. Então eu comecei a fazer tentativas de desenvolver um trabalho com ele, de atenção maior. Ele conseguiu aprender a escrever o nome dele. Antes a gente fazia uma fichinha e, no começo, ele tinha a ficha, ele colocava a folha e cobria o nome dele, que estava na ficha embaixo. Passado um tempo, ele copiava; depois já escrevia sem olhar. E reconhecia as palavras-chave que eu estava trabalhando. Teve um progresso muito grande. Tanto que a psicóloga que tratava dele escreveu uma vez uma carta para mim, que eu guardo como um prêmio, dando valor ao trabalho que eu estava fazendo com ele.

 

P/1 – Como você foi pensando essas aulas? O que te influenciava?

 

R – Eu acho que aquele medo, aquele nervoso, aquela ansiedade, de dar conta do recado, eu acho que isso foi me ajudando a construir. Eu não conseguia fazer um plano para a semana inteira, eu fazia um, dia-a-dia. E voltava da escola pensando na aula do dia seguinte.

 

P/1 – Você ainda dá aula para a primeira série?

 

R – Agora eu estou do sexto ao nono, com Redação.

 

P/1 – Nesse tempo que você tem lecionando, quais as dificuldades para se dar aula, para se pensar?

 

R – Uma das dificuldades que eu acho que é grande, é tempo. Porque a gente tem que ir de uma escola para a outra, e tem também que estar se atualizando; o tempo prejudica muito. Mas Deus ajuda muito. E a gente quer, está preocupado com o aluno, então acho que isso é o tempero.

 

P/1 – Você já usou outras ferramentas em sala de aula, outros recursos pedagógicos, que não o livro?

 

R – Às vezes eu faço brincadeira, às vezes jogo. Um jogo envolvendo conteúdo que eu estou trabalhando. Com a tecnologia eu ainda sou meio arcaica (risos), mas já usei slide, levei para a Sala de Informática. Estou tentando bolar uma prova no computador. Uma prova que seria no papel mesmo, com espaços para eles completarem no computador. Estou pensando, não sei se vai dar certo, vou tentar. Estou até querendo pedir ajuda da nossa amiga Cíntia.

 

P/1 – Você me contou, um pouquinho antes, que trabalhou com poemas, literatura dentro da sala. Como você foi se interessando a fazer isso, o que você fez?

 

R – Eu acredito que eu aprendi isso na escola de Abel Machado, porque lá sempre se trabalhou com poema, poesia. E no decorrer desse período de encontrar uma turma com dificuldade, porque eu também encontrei lá uma turma com a mesma dificuldade que eu tinha encontrado na escola anterior. Misturada; alunos mais avançados, outros com mais dificuldade e outros quase a zero, vamos dizer assim, porque o nível de alfabetização era bem baixo. A escola, com biblioteca e tudo, tinha uns livrinhos da Literatura em Minha Casa, não sei se você ouviu falar, que foi distribuído para as escolas. Tinha muito poema nesses livrinhos. Eu ficava buscando aqueles poemas e busquei aquele método que eu utilizei na outra escola que deu certo. Tentava encontrar poemas que tivessem aquelas palavras. Quando não tinha eu ficava inventando texto, historinha. E quando eu encontrava, eu aproveitava os poemas. E eles gostam muito de trabalhar com poemas. Eu percebi esse gosto, então foi muito bom para mim, porque eu também gosto muito de poesia. Deu certo. Quando eu ia trabalhar um conteúdo, exemplo RR, SS, eu procurava um poema que tivesse muitas palavras com esses dígrafos, que eu acho que ajudava bastante. Uma coisa que eu fazia todos os dias, sagradinho, era ler um livrinho para eles. Um livrinho de história, logo na entrada. Isso foi involuntário, ninguém dizia para mim que isso era método, mais tarde eu fui saber que leitura influência para eles também. Eu acho que isso também deve ter ajudado muito. Eu procurava uma historinha. Por exemplo, se eu estava trabalhando numeral e eu ia falar sobre o número três, eu pegava a história dos Três Porquinhas. Se eu estava trabalhando QU, os Três Porquinhos serviam e trabalhava mais um pouquinho em cima daquela história. Eu tentava buscar esse tipo de ligação de conteúdo, naquele momento da aprendizagem deles.

 

P/1 – Você me contou também que já fez umas poesias junto com seus alunos.

 

R – Muitas dessas vezes que eu estava buscando um poema, a gente construía outro em cima daqueles. “Trabalhamos um poema, terminamos. Agora você vai escrever o seu próprio poema. Você pode tirar a base, ou você muda o final.” Trabalhava também com conto, mudar o final da história para incentivar a escrita também. Nesse vai-e-vem de atividades, a gente sempre fazia: “Ah, tem uma data festiva, vamos fazer um cartaz, um trabalho. Vamos colocar no mural”. Porque era orgulho o trabalho deles no mural, principalmente no de fora. Eu construí junto com eles um poema para a Cidade de Vassouras, porque era a época do aniversário. Fizemos um cartaz e colocamos aquele poema. Nós construímos e eu coloquei no cartaz. A Diretora viu aquele poema, ele ficou no mural um período, depois me devolveu e eu guardei o cartaz. Passado um tempo, bem no final do ano, ela recebeu um convite de última hora para participar de um concurso. Ela lembrou desse poema que nós fizemos, porque o tema era o lugar onde mora e estava falando da cidade. Ela falou: “Com esse poema, a gente pode participar.” Nem tinha idéia que podia ganhar, mas participar já era importante. Ela me perguntou: “Você não consegue desenvolver esse poema mais um pouco com eles, dando um olhar para os distritos?” Porque o inicial era o centro da cidade. Era uma fase de recuperação final, novembro. Eu respondi: “Eu vou tentar, mas não posso te garantir, não, porque estou dando recuperação.” Estava tendo prova e depois recuperação, alguma coisa assim; é um período difícil. Além disso, tinha que fazer entrevista, umas pesquisas, visitar, porque tinha que ter alguns registros. A gente tinha alguma coisa de antes, mas tinha que ter mais coisas para poder atender a todos os critérios do concurso. Eu falei: “Vamos tentar.” Peguei os alunos; alguns estavam fazendo avaliação. Eu expliquei tudinho para eles e falei: “Agora a gente vai tentar fazer crescer aquele poema que a gente tinha feito.” E conversei com eles, expliquei direitinho, alguns versos eu sugeria, alguns eles completavam. Até teve uma professora ciumenta que falou: “Isso aí não é fala de aluno, não. Aluno não falou isso!” Eu disse: “Mas o aluno não constrói sozinho, nós somos o quê? Não somos mediadores.” Porque, lógico que teve palavra que fui eu que sugeri, só que antes de colocar no poema eu perguntava: “Vocês sabem o que significa isso?” Algumas eu tinha que explicar, outras eles respondiam. Por exemplo, fazendas cafeeiras: “Vocês sabem o que é fazenda cafeeira?” “Ah, claro, né professora. É fazenda de café!”, como quem diz: “A gente não é burro, não, poxa!” A gente construiu a poesia, mandou e ganhou o prêmio, primeiro lugar. Concorremos com 23 escolas.

 

P/1 – Você lembra esse poema, Edilene?

 

R – Eu acho que sim.

 

P/1 – Você pode dizer?

 

R – Se eu gaguejar tem problema?

 

P/1 – Não.

 

R – “Vassouras, cidade linda / Pra nós o melhor lugar / Tem tudo o que é preciso / É aqui que vamos morar.” Ah, me perdi, espera que eu vou me lembrar. Vou voltar ao início; essa é a segunda estrofe:  “Vassouras um paraíso / pra nós o melhor lugar / tem tudo o que eu preciso / é aqui que vamos morar./ Vassouras cidade linda / princesinha do café / é lá na Igreja Matriz / que encontramos a nossa fé./ Tem a praça, o jardim, tem palmeiras e o chafariz / Tem o Vale do Café / que nos faz muito feliz / As fazendas cafeeiras / parte de nossa história / Vassouras o teu passado / Nosso orgulho, nossa vitória. / Com a chegada do progresso / pouca coisa é igual / Veio a Universidade / Mudar o nosso nível cultural. / Mas Vassouras não é só isso / É verdade, eu não minto / Quem quiser conhecer mais / Vá até Andrade Pinto. / Quem anda mais um pouquinho / Com certeza sempre gosta / Porque logo há de chegar / Lá em Andrade Costa. / Não podemos esquecer / De um lugar dos mais maneiros / Se você quiser saber / Estou falando de Ferreiros.” Está faltando uma. Esqueci uma estrofe, eu vou falar a última de uma vez: “E para finalizar / Você precisa conhecer / Pare em Massambará / e não vai se arrepender.” Faltou uma estrofe, não consegui me lembrar.

 

P/1 – Muito legal.

 

R – Nós dramatizamos depois. Quando recebemos o prêmio fizemos dramatização da poesia com os alunos. A apresentação ficou muito legal. Talvez se eu tivesse feito a dramatização eu não teria esquecido, da estrofe (risos).

 

P/1 – Quer fazer? Pode ficar à vontade!

 

R – Não sei se vou lembrar. “Vassouras um paraíso / Pra nós o melhor lugar / tem tudo o que eu preciso / é aqui que vamos morar./ Vassouras cidade linda / Princesinha do café / É lá na Igreja Matriz / que encontramos a nossa fé. / Tem a praça, o jardim, tem palmeiras e o chafariz / Tem o Vale do Café / Que nos faz muito feliz / Com a chegada do progresso / Pouca coisa é igual / Veio a Universidade / Mudar o nosso nível cultural. / Mas Vassouras não é só isso / É verdade, eu não minto / Quem quiser conhecer mais / Vá até Andrade Pinto. / Quem anda mais um pouquinho / Com certeza sempre gosta / Porque logo há de chegar / Lá em Andrade Costa./ Não podemos esquecer / Um lugar dos mais maneiros / Se você quiser saber / Estou falando de Ferreiros.” Ah, agarrei de novo na mesma... É Demétrio Ribeiro, não consigo lembrar. “E para finalizar / Você precisa conhecer / Pare em Massambará / e não vai se arrepender.” Não consegui lembrar aquela estrofe que fala de Demétrio Ribeiro.

 

P/1 – Nossa, que ótimo! Este poema maravilhoso você construiu com seus alunos de que ano?

 

R – A turma? Segunda série. Hoje, terceiro ano de escolaridade.

 

P/1 – E para você, que está influenciando as turmas com outras práticas, poemas e outras coisas, qual a importância da utilização desses recursos em sala de aula?

 

R – Da poesia? Eu acho que dá mais prazer, o aluno se interessa mais. Não sei, talvez porque eu floreie muito essa coisa da poesia, porque eu gosto. Tanto que, não tem a Olimpíada de Língua Portuguesa? Então, eu estava trabalhando com duas turmas com Gênero de Memória Literária. E não estava com a turma que deveria trabalhar Poesia. Não estava, mas eu ficava agoniada porque a outra professora que deveria trabalhar, também não estava trabalhando. Eu chegava a eles e perguntava: “Vocês sabem da Olimpíada de Língua Portuguesa?” “Não, ninguém falou nada, não.” “Não é possível. Então, a professora vai falar.” Eu passo uma vez por semana na sala deles, dois tempos. Na semana seguinte: “Vocês já estão fazendo a Olimpíada de Língua Portuguesa?” “Não, a professora não falou nada.” E eu cada vez mais agoniada, sendo que vários desses alunos, são esses dessa poesia, dessa turma para qual eu dei aula no segundo ano, primeira série. Eu não aguentei, eu me meti. “Ah, então vamos fazer!” Eu tinha o livro da proposta, porque na outra escola eu trabalhava com esses livros. E comecei a fazer as oficinas com eles. Não fiz todas que tinham que ser feitas porque não dava mais tempo, mas foram construídos alguns poemas lindos e um deles está lá, representando o Município de Vassouras na Olimpíada. Tem três textos de alunos meus, dois do Gênero de Memória, um de uma escola, um de Abel Machado, e um de Gênero Poesia. Ter três dos meus alunos representando o nosso município na Olimpíada, para mim é um grande orgulho. Pode até não ir além disso, desse primeiro momento. Mas para mim já é importante. Quantas escolas têm em Vassouras participando? Quase que eram quatro, a outra escola quase enviou mais um texto.

 

P/1 – Edilene, do que você gosta em ser professora? Qual é o prazer?

 

R – Eu acho que dividir o que eu aprendo. Quando eu percebo que o aluno tem interesse em arrecadar aquilo que eu levo para eles. Eu acho que esse está entre os melhores prazeres de dar aula. Quem dera se eu pudesse não precisar do dinheiro. Eu iria sem o dinheiro. Infelizmente eu preciso, mas se eu pudesse, seria professora voluntária.

 

P/1 – Para quem saiu da Contabilidade para o mundo da sala de aula, como é que está o saldo disso?

 

R – Positivíssimo. Muito positivo.

 

P/1 – Quais são suas expectativas ou planos, tanto para o plano de aula que você segue, quanto para as escolas que você atua? Você pretende continuar dando aula nessas séries, está interessada em colocar outras coisas em sala?

 

R – Estou fazendo pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Algumas pessoas falam: “Ah, daqui um tempo você vai estar dando aula na faculdade, na pós, você vai fazer mestrado” e não sei o quê. Eu falo: “Eu não pretendo parar de estudar agora, não. Mas esse sonho não está em mim, pelo menos por enquanto não está.” Eu acho que trabalhar com os pequenos e com os adolescentes me dá mais prazer. Eu tenho uma história, posso contar?

 

P/1 – Claro.

 

R – Foi no ano passado. Estava trabalhando na Escola Abel Machado, cobrindo falta de professor, com Artes e Ensino Religioso. Nada a ver, mas tudo bem. Quando a gente gosta, a gente consegue. Eram dois tempos, um de Artes e um de Ensino Religioso, por semana. Uma outra professora que já tinha trabalhado com isso falou: “Faz assim, dá quinzenal, mas você dá dois tempos de uma mesma aula. Para você não perder o fio da meada, porque com um tempo, quando você engrenou, é hora de acabar. Dá Ensino Religioso em uma semana, dois tempos, e Artes na outra semana, dois tempos. Não tem prejuízo no total de aulas e você consegue fazer um trabalho melhor.” Segui. O que eu trabalhei em Ensino Religioso foram valores, nada de salmo, de religião tal, nada disso. Primeiro, lógico, falei de Deus, da Fé, do Amor ao Próximo, e fui trabalhando valores: solidariedade, respeito, amor ao próximo, essas coisas. Quando era Artes eu pegava conteúdos de artes falando sobre cores, combinação de cores, figuras, a parte de fisionomia que a gente trabalha com os alunos: expressões fisionômicas. Tudo o que era conteúdo de artes eu ia trabalhando e tentava relacionar com aquele texto dos valores. Algumas coisas eu relacionava bem, outras, mais ou menos, algumas já não conseguia relacionar. Mas eu fazia assim: “Trabalhamos solidariedade. Agora, vamos fazer uma ilustração em quadrinhos”, estava trabalhando quadrinhos em arte, “que demonstre alguma coisa ligada à solidariedade.” Tentando fazer as duas disciplinas dialogarem e, ao longo desse tempo, quando estava se aproximando o mês de outubro, que tem festa das crianças na escola, eu propus às turmas de fazer um teatro. “Vamos fazer um teatro para gente apresentar para os pequenos? A gente vai para a quadra, apresenta para eles. A gente vai trazer uma alegria diferente para as crianças e vocês vão ser avaliados, é atividade.” Eu fiquei achando que não ia, porque adolescente tem vergonha. Mas eles toparam. Eu comecei a sugerir: “A gente pode trabalhar alguns dos textos que nós trabalhamos em sala, aqueles textos para reflexão. O que vocês quiserem. Ou então podem inventar um teatro, uma história.” A turma do nono ano resolveu montar um teatro. “Tudo bem. À medida que vocês forem escrevendo, vão me mostrando para eu poder corrigir o texto, ver se está tudo certinho, dar idéia.” Foi montado um teatro que era sobre o preconceito. Era um menino que chegou novo em um bairro e queria fazer amizade. E tem aquele grupinho formado, ele chegou e falou algo como: “E aí, galera? Alguém quer me mostrar o bairro, sou novo, quero conhecer.” E o menino era negro. O outro virou e eu falei assim: “Vamos colocar uma fala aí.” Logicamente, tinha uma função no final: “Que esse negro chamando a gente de galera, aí? Quem que ele acha que é?”. E esse menino nem era negro, era bem moreno, bem queimadinho, mas não era negro, não. No primeiro e no segundo ensaio, o menino falou: “É, quem esse negro pensando que é?” Mais ou menos no terceiro ensaio ele não quis mais falar isso. Ele se incomodou de chamar o menino de negro. Começou a ensaiar, quando ele começou a falar, parou: “Professora, não dá pra tirar essa fala, não? Eu não com vontade de falar isso, não.” Eu fiquei orgulhosa e arrepiei: “Claro, claro que pode tirar! Se você quer tirar, tira.” Eu não estava preocupada com essa fala, em nenhum momento considerei que ela seria preconceituosa, sabendo que no final da história o menino que estava sofrendo preconceito ia dar a volta por cima, ia mostrar o valor dele, porque a história estava pronta. Só que aquilo me deu um prazer tão grande, tão grande. Ver: “Poxa, meu trabalho já tem efeito.” Porque eu trabalhei o preconceito racial, vários preconceitos, na sala de aula. E como ele se incomodou em falar, sabendo que aquilo era uma encenação; para mim, aquilo já era resposta do trabalho que estava sendo desenvolvido. Fiquei emocionadíssima, mas guardei. No último dia de aula eu contei para eles. Esse menino, que não queria falar, não era dos melhores alunos da turma. E no último dia de aula eu falei: “Eu quero desejar sorte para vocês, vocês vão se formar. Não vão embora da comunidade, mas vão embora da escola. Gostaria de dar os parabéns à vocês. Para alguns, parabéns em especial. Quero dar parabéns para a turma toda por concluir; ao aluno tal por concluir, por ter um bom comportamento, sempre muito dedicado, pelas notas. Quero dar parabéns para o outro aluno também, pelo comportamento, pelas notas. E quero dar um parabéns para o Reginaldo. “O que professora? Parabéns para mim? Nem minha mãe nunca me deu parabéns.” “Eu quero te dar parabéns, sim.” “Mas, parabéns por quê?” Eu contei e chorei. Acho que eles também ficaram emocionados com a minha emoção. Contei para ele: “Aquilo para mim foi um grande exemplo e um presente. Eu percebi que pelo menos um pouco do que passei para vocês foi aproveitado, aquilo teve um valor muito grande para mim. E eu gostaria que servisse para vocês para a vida, para sempre.” No dia da formatura eu contei para todo mundo essa história, lá na frente dos pais. A mãe do menino ficou toda feliz, o menino, de novo, todo emocionado, foi muito bom.

 

P/1 – Que história maravilhosa. Depois dessa experiência com as Artes, você vai mudar da Língua Portuguesa?

 

R – Não, eu amo a Língua Portuguesa. Eu pretendo me aperfeiçoar cada vez mais, eu sei que ainda tem muita coisa que eu tenho que aprender, mas eu quero continuar nessa área.

 

P/1 – Edilene, mudando um pouquinho de assunto: Você conhece o Programa Todo Mundo?

 

R – Eu conheço um pouco porque, com essa coisa de trabalhar em duas escolas, com o horário muito contado, às vezes eu me distancio um pouco. Sempre que a Cíntia solicita, tem proposta de atividade, que dá para eu desenvolver com as minhas turmas, eu estou dentro, sempre que dá.

 

P/1 – E fora da escola, o que a Edilene faz com a família, no dia a dia, fim de semana?

 

R – A Edilene é muito moleca, sempre, fora e dentro da escola. Ultimamente, com faculdade e neto, o tempo tem sido tão espremidinho, porque a aula da pós é o dia todo no sábado. Durante a semana, de vez em quando, quando a gente tem algum trabalho mais complicado para apresentar, eu e alguns colegas nos reunimos na faculdade para estudar, para discutir idéias, depois da aula da escola, durante a semana, à noite. Domingo, de vez em... Quase sempre eu pego meu netinho, levo para casa e curto. Tem a casa da minha mãe que é pertinho da minha casa, bato cartão todos os dias lá. O dia que eu não vou, ela reclama, sente falta. Não faço muitas outras coisas, não passeio muito, não vou nada a baile porque não tenho tempo. Fora isso, é essa rotina mesmo.

 

P/1 – E como é a experiência de ser avó?

 

R – Eu não pensei que fosse tão boa, também não pensei que fosse ruim. As pessoas – eu acho que, não sei se de brincadeira comigo, ou se sério – achavam que eu ia ficar muito traumatizada por ser avó, porque estou ficando velha e não sei o quê. Nada a ver, é delicioso. Eu conto para todo mundo que eu tenho neto, faço questão de contar, mostro retrato. Eu acho que é uma experiência boa porque, de certo modo, eu volto no tempo, quando eu tinha os meus filhos pequenos.

 

P/1 – Moram hoje na sua casa você e o seu marido, algum filho mora com vocês?

 

R – Eu, meu marido e minha filha. Só que meu marido trabalha em uma empresa e está sempre viajando, ele fica um tempão fora de casa. Quem fica mais é só a minha filha e eu mesmo, durante a semana.

 

P/1 – Edilene, nessa caminhada toda que você fez, e vai continuar fazendo por mais um bom tempo, quais os aprendizados que você tirou da vida?

 

R – Eu venho aprendendo ainda. Eu tento ser uma pessoa justa, eu procuro ser. De modo geral e principalmente com aluno, porque, às vezes, eu acho que alguns não estão muito interessados. Mas acho que é porque não sabem o que estão perdendo. Muitas vezes pecar por não saber não merece tanta punição. Eu sempre me disponho para os meus alunos: “Se precisar, você telefona, vai à minha casa.” Vai para a outra escola, não é meu aluno mais, não é nem aluno da escola mais. “Não, se você precisar de mim, você pode me procurar.” E tem sempre aluno me procurando, eles pedem livro emprestado, quando tem trabalho, pedem para ajudar. E sempre que eu posso, eu ajudo.

 

P/1 – E o que você achou de dar essa entrevista para gente?

 

R – Eu acho gostoso, porque a gente percebe que alguém está interessado na nossa história. A nossa história não é sem valor. Faz a gente reviver, e quando a gente começa a contar, vai lembrando de coisas que poderiam nem ser lembradas mais. Embora não tenha conseguido lembrar a estrofe da poesia, mas uma coisa vai puxando a outra e a gente consegue se lembrar de momentos bons, que dão prazer, que deram prazer.

 

P/1 – Você conhecia o Museu da Pessoa?

 

R – Eu já tinha ouvido falar e, a partir daquela Oficina que nós fizemos há mais ou menos um mês, fiquei conhecendo mais um pouco. E adorei aquela Oficina, gostei muito.

 

P/1 – Queria agradecer em nome do Museu da Pessoa. Dar parabéns e te desejar um ótimo caminho.

 

R – Obrigada, também queria agradecer por estar aqui, por dar essa entrevista, por vocês terem interesse, não pela minha história só, mas pelas nossas histórias, porque valoriza o que a gente viveu. Obrigada.

 

P/2 – Muito obrigado.




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