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História

Uma vida, várias cidades

História de: Ruth Dip Rossi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Ruth Dip é descendente de sírio-libaneses, nascida em Araçatuba, no interior de São Paulo. Ela nos conta sobre a mudança para a capital, ainda criança; a educação rígida do pai, que a levou a se casar somente após seu falecimento; a mudança com o marido para a recém-fundada Brasília e sobre sua gravidez inesperada, algo considerado impossível para os médicos.    

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História completa

P/1 - Dona Ruth, primeiramente obrigada por ter aceitado o nosso convite. Aliás, a senhora ligou para cá. Isso é maravilhoso, vai enriquecer o nosso acervo aqui. Eu vou repetir algumas perguntas que têm a ver com aquelas questões iniciais de identificação.

R - Tá.

P/1 - Primeiro a senhora fala seu nome completo, local e data de nascimento.

R - Ruth Dip Rossi, brasileira, nascida em Araçatuba, em 27 de junho de 1931. Moro em Santos, na Rua Bassin Nagib Trabulsi, 43, Ponta da Praia. CEP 11030-540.

P/1 - Qual é o nome dos seus pais?

R - João Dip e Adélia Baracatti Dip.

P/1 - A senhora sabe qual é a origem dos nomes dos seus pais?

R - Meu pai é brasileiro descendente de sírio, minha mãe é libanesa, mas naturalizada brasileira.

P/1 - Onde eles nasceram?

R - Meu pai nasceu em Nuporanga, perto de Ribeirão Preto. Minha mãe é libanesa, do Líbano.

P/1 - A senhora sabe a história da vinda da família dela?

R - Ela veio com, acho que oito... Sete ou oito anos, sem falar português nem nada. Aprendeu, ela falava correntemente. Meu pai era diplomado, tinha estudo e ela falava correntemente o português.

P/1 - E ela foi morar onde mesmo, quando veio?

R - Ela foi morar em Cuiabá, Mato Grosso. Veio para Araçatuba [SP] com os pais, que montaram loja de tudo, armazém geral da família. Gente que veio bem, não veio imigrante; veio para ficar, pra morar de fato no Brasil.

P/1 - Pra montar um negócio...

R - Isso, a família Baracatti, da minha mãe. Ainda não conhecia meu pai. Meu pai veio para Araçatuba. Quando conheceu a minha mãe, ele tinha serraria e fábricas em São Paulo. Veio para montar serraria em Araçatuba, foi quando ele conheceu a minha mãe.

P/1 - Essa história de um conhecer o outro… Eles contaram para a senhora como foi isso?

R - Sei, mais ou menos sei.

P/1 - E como foi isso?

R - Ela já era noiva, de uma família conhecida, que hoje são donos do [hospital] Nove de Julho em São Paulo, os Ganme. Quando meu pai a conheceu, ele estava no barbeiro - assim é a história que vou contar.  Ele estava no barbeiro e minha mãe passou. Ele falou: “Quem é essa moça?”. E ele falou assim: “É uma turquinha” – antigamente eles falavam que sírio era tudo turco. “É turquinha, mas ‘cê não mexe com ela”. Ele era todo almofadinha, de bengala, chapéu. Tudo chique. “Você não mexe, que ela é de uma família importante daqui”. Ele falou: “É essa que vou querer e é noiva”. E conseguiu, viu? Conseguiu ficar noivo e se casar com a minha mãe.

P/1 - É? Eles ficaram namorando muito tempo?

R - Noivo e tudo. Conseguiu o que queria.  

P/1 - Voltando um pouquinho... A senhora sabe alguma coisa dos seus avós maternos e paternos?

R - Sei... A minha avó... O nome, tudo direitinho?

P/1 - O que a senhora quiser registrar.

R - O nome da minha avó materna era Farid - porque eles eram sírios, vindos de lá -, do pai dela era Shibl. Do meu pai já é brasileiro, [o nome dos avós] era Antônio e Maria. Eu sou o retrato dela, então todo mundo chamava que eu era a vó Maria, que era parecida com ela, porque todo mundo é moreno e eu sou clara. Esses são os pais dele, meus avós.

Os pais dele eu não conheci. Eles tinham um negócio onde é o Correio hoje em São Paulo, que era no Vale do Anhangabaú. Ele morreu de febre amarela lá, o meu avô. Onde é o Correio de São Paulo era a loja dele, que era de sapatos, de chapéu Ramenzoni - na época se usava muito chapéu, era da Ramenzoni. E meus avós eram de Araçatuba. O avô eu conheci, minha avó não, já estava morta.

P/1 - A senhora chegou a conviver com esses avós?

R - Ele era isolado porque só falava o árabe, com o tercinho na mão. Então a gente falava: “Bom dia, ‘gido’”. ‘Gido’ em sírio quer dizer ‘avô’. Ele falava: “Tudo bem”, mas em sírio. E é só isso que ele falava. Não conversava com a gente, porque a gente não ia entender mesmo. Era assim, mas convivi com ele até  ficar doente e morrer.

P/1 - A senhora era pequeninha quando ele...

 

R - Ele levou um tombo, senão ele não morria. Velho quando cai é dureza, morre mesmo, né?

P/1 - Quantos anos a senhora tinha quando ele faleceu?

R - Eu tinha acho que uns cinco ou seis anos. E a gente ia visitar os avós, sabe? O meu pai já casado. Eu sou a segunda filha. Agora vou falar das minhas irmãs.

P/1 - Isso, quantos irmãos a senhora tem?

R - Eu tive uma irmã mais velha, falecida já...

P/1 - Qual o nome?

R - Raquel, nós somos todos com erre. São em cinco filhos: Raquel, Ruth, Reinaldo, Rubens e Rosali. Viva só tem eu e meu irmão do Rio, que é o Rubens. Eu sou a segunda e ele é o quarto filho. Só nós dois vivos.

P/1 - E qual é a atividade dos seus irmãos?

R - Dos meus irmãos?

P/1 - Ou era, né?

R - O Rubens tem dois ou três diplomas. É economista e como é que diz... de empresa?

P/1 - Administrador?

R - Administrador de empresas. O segundo meu irmão, já falecido, era advogado e era o único professor de latim que estudou, lecionou no Mackenzie. Ele e a doutora, que era a diretora da escola, falavam o latim. Era inteligentíssimo, mas um rapaz sem sorte, logo faleceu.

P/1 - Sei.

R - Minha irmã também é morta, a mais velha. Eu sou a segunda viva. O terceiro morto, que é o advogado; meu irmão do Rio, que está vivo também, esse que é administrador de empresas e minha irmã também falecida, que é onze anos mais nova que eu.

P/1 - Tá certo... Bom, agora a gente vai voltar um pouquinho. A senhora falou que seus pais se conheceram, eles se casaram e montaram uma casa em Araçatuba.  

R - Em Araçatuba, porque a serraria era lá. Morávamos na serraria. Eu fui criada no meio de madeira, colônia de empregados...

P/1 - E a sua mãe, qual era a atividade da sua mãe?

R - A mamãe era ‘do lar’...

P/1 - E a casa da senhora, em que a senhora vivia?

R - Era o único sobrado de Araçatuba naquela ocasião. Meu pai foi quase o desbravador de Araçatuba. Era dono da serraria. Não tenho fotografia da serraria, mas me lembro bem, porque me recordo do jardim. Estive lá para ver e já foi demolido tudo. O jardim está no nome dele – João Dip. O jardineiro fazia, sabe essas coisas de tradição?  É coisa que a gente lembra. A gente atravessava o jardim e via o nome dele ali. E a serraria, logo em frente da nossa casa.

Lá nasceram todos os meus irmãos, tudo na mão de parteira, inclusive eu. Só a mais velha, que tinha a serraria em Campinas, no Cambuí… Ela nasceu na maternidade. Campinas era a rainha, mais importante que São Paulo, em medicina e tudo. O resto nasceu na mão de parteira.

P/1 - E como a senhora era segunda filha, a senhora chegou a ver o nascimento dos seus irmãos?  

R - Ah, tudinho. Quando nascia um, ela fechava as comunicações do quarto, passava aquela chapeleira pra cá, só ouvia choro de criança.

P/1 - A senhora era pequenininha e se lembra bem disso?

R - Lembro.

P/1 - A casa da senhora era grande?

R - Enorme.

P/1 - Quantos cômodos tinha?

R - Tinha uma sala de visitas - tem os móveis ainda, está na minha cunhada alguma coisinha. Era fechada com capas, fechada que ninguém entrava, só quando recebia visita. O único telefone era o nosso, era embaixo da escada, daqueles telefones de fazer ainda aqueles...

P/1 - Manivelinha?

R - Em cima tinha, acho, cinco cômodos e tinha uma área bem... Uma entrada bem grande, onde punha a jarra com água, que eu não posso esquecer, para ninguém descer e beber água lá em cima. Toda noite [a jarra] era levada lá pra cima. E os quartos [eram] um intercalado no outro. Quando nascia um, a gente via que fechava uma porta e passava a chapeleira para cá e só ouvia o choro de criança quando nascia. Coisa bem antiga mesmo.

P/1 - Tinha quintal nesta casa?

R - Tudo, tudo.

P/1 - Como era esse quintal?

R - Só que era proibido a gente chegar na serraria, porque tinha caldeira. Meu pai tinha medo. E aconteceu um caso com meu segundo irmão: ele abriu a sala de visitas e se escondeu debaixo da capa que tinha. A serraria, às vezes, quando ‘coisava’ a lenha, saía muita poeira, então era tudo coberto. Ele entrou e dormiu ali embaixo. O meu pai desligou toda a serraria de medo dele ter ido [à serraria]. Nos domingos, quando a fábrica parava… A serraria, a gente ia...

Não tinha piscina naquela ocasião. A gente ia tomar banho na água quentinha da caldeira e meu pai tinha a impressão que ele [o filho] tinha entrado na caldeira e morrido afogado. Parou a serraria. Isso foi o dia todo. Quando ele levanta de tardezinha, debaixo da caldeira, ele sai da porta. Pra todo mundo já estava morto. E era perigoso onde a gente morava. Tinha as toras, era um perigo danado, mas deu tudo certo.

P/1 - Vocês brincavam muito?

R - Muito. Ele ganhou um cavalo e quem andava era eu, porque eu sempre fui muito valente. Eu andava num arreio mesmo, ele tinha medo do cavalinho, do presente que ele... O cavalinho foi dado para ele, mas quem andava [nele] era eu. E gostava de ir na colônia, comer a comida dos operários; sentava no chão, eles amassavam aquela comidinha e davam para mim. Meu pai ficava louco, mas [era] escondido dele.  

P/1 - Como que era essa colônia, era perto da casa?

R - Não era bem perto, mas a gente andava. Pra nós, era perto. Tinha tudo; os empregados moravam todos lá, com a família. Ninguém vinha de fora. Era mantido pela fábrica mesmo. Tudo ali, pertinho.

P/1 - Vocês brincavam com as crianças que eram vizinhas?

R - É, quando... Meu pai não deixava, era tudo escondido.

P/1 - E a senhora se lembra...

R - A gente batizava, mesmo pequena, batizava os filhos dele. Um dos meus afilhadinhos… O pai... O meu compadre lia sorte, tinha bola de cristal. Então, pra nós era alegria, a gente ia toda hora lá para ele ler a bola, uma bola que iluminava.

P/1 - E a senhora lembra das brincadeiras da época?

R - Corda, perna-de-pau, que os operários faziam pra nós, coisas que eles faziam pra gente, tudo quanto é diversão antiga. Coisa de circo, porque quando ia circo lá era uma festa! Aquelas pernas-de-pau que a gente andava. Não faltou árvore pra trepar, não faltou nada. Nossos filhos não tiveram, né?

P/1 - Com seus irmãos, como era a relação? Vocês brincavam, vocês brigavam? Era tranquilo?

R - Ninguém brigava. Só que eles tinham um carrinho que... Antigamente aqueles carrinhos, de vez em quando a gente queria puxar o carrinho dele com força, pensando que era alguma coisa... Um caía, machucava queixinho, a gente apanhava, essas coisas assim.

P/1 - E tinha muita história que contavam na época para vocês?

R - Ah, tinha.

P/1 - Que histórias que contavam?

R - A história que minha mãe contava quando ela veio, que ela pegou maleita no caminho... O capitão a adorava, queria ficar com ela, os pais não deixaram porque não eram de dar filho naquela ocasião. Essas histórias que ela contava da vinda dela... As coisas da loja - todo mundo conhecia a nossa família, todo mundo em Araçatuba; era a única loja da cidade também. Era um quarteirão todinho, morava todo mundo no fundo... Eram cinco irmãos que ela tinha, todos moravam perto dali. Um beneficiava arroz, já casado. Todos tinham atividade. Na loja ficava o mais velho e meu avô, quando era mais jovem, depois se aposentou. Não existia aposentadoria naquela ocasião. Ficava velho e já ficava no quintal, a casinha dele separada e tudo...

P/1 - Nossa, então era uma atividade importante para Araçatuba!

R - Era importante, tanto meu pai como a família da minha mãe.

P/1 - Foi mudando a cidade com isso?

R - Foi colonizando a cidade.

P/1 - E tinha trem na época?

R - Tinha trem que passava. Era obrigado, pra serraria, pra vir a madeira. Era um perigo, eles não deixavam mesmo... Para levar na escola, nós íamos, meu pai não levava de carro. Quando não podia, era charrete; seu Beto, o empregado, levava. A gente ia à escola de charrete, que usavam também naquela época. E a lenha que ele doava para escola, era tudo fogão de lenha. As escolas em que a gente estudava, ele levava a gente e todo mundo conhecia. Era ele que levava, porque ele fornecia madeira que ocupava pras escolas.  

P/1 - Até na casa da senhora também?

R - Também.

P/1 - Tinha algum prato que vocês comiam, que a senhora adorava quando era criança?

R - Comida síria, que minha mãe fazia, que meu pai… Os pais dela foram da cidade da Síria que tinha as melhores comidas.

P/1 - Que comidas?

R - Essas comidas que vocês conhecem hoje: quibe, esfirra, mas tudo feito pela mão de Brasil... Não essas esfirras que meu genro comeu hoje na estrada, uma esfirra fechada que chamam de linguiça. Não era… Era só de carne, de coalhada.  

P/1 - Mas a senhora se lembra disso, né?

R - Ah, lembro.

P/1 - Do cheiro...

R - Faço até hoje. Eu cheiro até hoje.

P/1 - Falando em escola, o que a senhora lembra da escola? A primeira escola?

R - A primeira escola era colégio de freira. Nós estudávamos em colégio de freira. Eu e minha irmã, porque meu irmão não tinha nascido. Ela era mais velha.  

P/1 - Era pertinho de casa?

R - Não, era bem longe, tanto é que a gente ia de carro ou de charrete. Mas não era assim uma distância… Não tinha rua, não tinha nada; era tudo terra.

P/1 - E esse colégio era grande?

R - Lindo. Fui ver atualmente, fui ver Araçatuba. Colégio das freiras, bem grande mesmo, era o único colégio da cidade.  

P/1 - Tinha muitas salas?

R - Muitas. Só não tinha elevador.

P/1 - E a senhora teve muitas amiguinhas nesse colégio?

R - Não me lembro muito, porque era uma vida de estudar e o pai esperando na porta, quer dizer, não tinha muita convivência.

P/1 - E a senhora se lembra do primeiro dia de aula, se foi tranquilo?

R - Olha, você sabe que eu lembro? Foi tudo tranquilo, porque a gente gostava de ir para a escola. Brincava muito e voltava; ficava a parte da manhã e à tarde ficava em casa.

P/1 - E as carteiras eram de madeira?

R - Antiga, de madeira. Tudo era madeira porque era da serraria, que fornecia a madeira todinha.

P/1 - Até para as carteiras...

R - É. As carteiras acho que eram feitas até na serraria, viu? Era tudo de lá.

P/1 - E a senhora tinha uma disciplina predileta, uma matéria?

R - Tinha.

P/1 - O que a senhora mais gostava?

R - Eu estudava piano. Quer dizer, eu e minha irmã. Estudávamos piano lá. Na escola mesmo, a professora [era] de lá. Depois, mais tarde, a gente foi ter particular... Maiores, né? Pra ter professora particular.

E sapateava. Aprendi o sapateado. Eu e ela saíamos de um canto a outro sapateando. Nos tempos dos filmes da Shirley Temple... Agora voltou o sapateado. Então era sapateado, tinha que sapatear mesmo, vinha visita, saía de um canto a outro sapateando.

P/1 - Mas de onde apareceu esse... A senhora já tinha alguma influência ou isso apareceu na escola?

R - Não, em cinemas que passavam os filmes. Araçatuba já estava bem, ela era a rainha do gado. Já estava bem formada, tinha cinemas bons...

P/1 - Aí no cinema a senhora...

R - É. Tudo isso vinha pelo cinema, porque não tinha televisão naquela época. Era rádio só.

P/1 - E na época da escola, quando a senhora era jovenzinha, a senhora ia com a turminha da escola ou com a família no cinema. Como era isso?

R - Amizade não tinha, mas a gente aprendia a bordar, a rezar muito. Bordava... Eu tenho bordado até hoje que a gente fazia. Aprendia-se coisas de dona de casa, para casar amanhã. Não é como hoje, que você aprende para trabalhar e ganhar seu dinheiro. Era para ser dona de casa.  

P/1 - A senhora estudou ali até que idade, mais ou menos?

R - Até quando viemos para São Paulo, em 1940. Teve uma tragédia com o meu pai, um dos operários o ameaçou com uma faca... Ele mandou fazer o serviço e na hora de prestar conta, ele enfrentou meu pai. Meu pai estava armado. Naquela ocasião, Araçatuba era sertão. E já andava armado, porque ele mexia com operários numa serraria, é muita gente. Então ele já estava prevenido. Ele tirou do armário o revólver, se defendeu e atirou no rapaz. Como ele era conhecido, os jornais o combateram. De inveja. Nós fomos obrigados a sair, em 1940. Saímos eu pequena, minha irmã e meu irmão já tinha nascido, bem pequenininho. Viemos para São Paulo, onde ele tinha serraria.

P/1 - Que lugar de São Paulo?

R - É, de São Paulo... Na Rua Anhaia, 740, que ainda hoje existe, no Bom Retiro. Foi quando viemos para São Paulo e deixamos Araçatuba, por causa desta tragédia que houve.

P/1 - A senhora era pequenininha?

R - Pequenininha.

P/1 - O que a senhora lembra desta saída? Porque lá era o interior...

R - Essa saída foi clandestina, foi à noite... Ele cumpriu a pena dele, tudo direitinho, mas com o dinheiro, sabe, a pessoa... E foi legítima defesa. O jornal combatendo. A inveja, sabe como é esta época. Foi vereador na cidade e vereador naquela época não ganhava, era o homem mais rico da cidade que era o vereador. E o jornal combateu muito ele.

Nós saímos na madrugada, eu me lembro. Deixamos tudo. E a serraria nesta ocasião também… Antes, um pouco, pegou fogo a serraria. Viemos para São Paulo, onde começou a nossa vida. Ele começou de novo a ganhar dinheiro.

P/1 - Mas vocês vieram pra uma casa ou para um sobrado também?

R - Viemos com casa de aluguel. Moramos nos Campos Elíseos, que era mais ou menos residencial naquele tempo. Moramos [ali] até ele ganhar dinheiro novamente. Nós estudávamos piano, as filhas não podiam parar; quem é rei é sempre majestade, você sabe, né? Ele alugou a casa e veio um piano alugado para nós continuarmos a tocar.

P/1 - E como era essa casa?

R - Era grande, era do bispo da paróquia. Era uma casa bem grande, para caber toda a família.

P/1 - A senhora sentiu saudade da outra casa?

R - Não, nada, pela circunstância que nós sabíamos. Eles nunca esconderam nada da gente, tínhamos que saber os problemas todos. A gente era pequeno, não entendia direito como era aquilo, só que não era alegre para a gente ver. Aí começou a nossa vida muito bem. [Por] Dois anos meu pai continuou, enriqueceu novamente, montou a fábrica novamente - ele era empregado do irmão quando veio. Pôs as coisas dele tudo em ordem, comprou nossos pianos, que eu tenho até hoje. Ficou tudo bem.

P/1 - E em casa, como era? A senhora disse que os Campos Elíseos era um bairro residencial.

R - Era.

P/1 - Como era esse bairro? A vizinhança, como era?

R - Tudo era casas, uma geminada ao lado da outra, como era antigamente. A nossa era de esquina. E, sabe, casa de esquina sempre é maior. Era a casa do bispo, toda geminada, eu lembro bem. Começamos a ter amizade. Ficou aquela vida de cidade, não mais de interior.

P/1 - E a escola?

R - A escola nossa era pertinho. Sabe que antigamente [se] escolhia uma casa onde tivesse escola para os filhos? Tudo ali, pertinho. Logo depois ficamos um ano e meio… Nem completamos o ‘coiso’, meu pai já comprou a casa da rua Pará, em Higienópolis. Subimos de nível, Higienópolis.

Hoje é um restaurante. Ficamos a nossa vida toda lá. Meus irmãos foram para o [Colégio] Rio Branco, que era perto. Minha irmã também, essa que faleceu. Eu estudava no colégio das irmãs também - [no] Colégio Cabrini, fiz o curso básico lá. Depois me formei do curso básico, aí [fui fazer o curso de] Auxiliar de Escritório, fui pro Mackenzie. Eu não completei o curso, mas fiz o Secretariado lá. Antigamente, você sabe que o estudo é hoje um... Quase uma faculdade de hoje.

P/1 - Deixa eu voltar um pouquinho na escola. Da época de escola tem algum momento que a senhora guarda, tem saudade de alguma coisa que aconteceu?

R - Da escola de Araçatuba ou da de São Paulo?

P/1 - Das duas. De Araçatuba tem algum momento?

R - De Araçatuba, uma tragédia: minha irmã gostava de fazer crochê. E quando seu Beto levava na carroça, na charrete, ela se descuidou. Aquilo foi uma tragédia. A charrete, fazendo as curvas enquanto andava… A agulha de crochê foi enfiando na perna dela. E ela falando: “Ai seu Beto, tá me doendo aqui.” “Não, nós já estamos chegando na escola”. Quando chegou na escola, a agulha já estava metade enfiadinha na perna dela. Aquilo foi uma revolução; chama meu pai, aquela bagunça toda. Tiraram a agulha, fizeram o tratamento, passou... Essa foi uma das tragédias. O resto... Era muito feliz a nossa vida. Muito conforto, muita felicidade...

P/1 - E do outro colégio, das irmãs Cabrini...

R - Ah, também.

P/1 - Teve algum momento? Não precisa ser tragédia...

R - Não, tragédia não, coisa boa.

P/1 - Isso.

R - A gente aprendia a rezar, rezava muito. Você sabe colégio de freira como é. Aquela limpeza, aquela organização, acho que por isso eu tenho mania de limpeza. Muito organizado: era hora de bordar, era hora de... Toda hora você começava uma coisa, uma atividade, você tinha que rezar...

P/1 - E dos bordados que a senhora fez? Tinha algum que a senhora falou: “Nossa, esse é o melhor bordado que eu fiz”?

R - A minha loucura era bordar. Fazia almofada… Tinha aquele bastidor, você ficava sozinha. Aquela mania de grandeza que a gente tem. Ficar sozinha bordando em chenille, que era difícil de passar para o ponto. Aquela lã de veludo, grande. Fazer uma almofada… Eu fiz diversas. E tenho até hoje uma toalha de mesa que eu bordei. Eu nem acredito que fiz aquilo. Hoje eu não acredito (risos).

P/1 - E do piano, como foi isso para a senhora?

R - Ah, de piano foi... É um complemento da nossa educação. Mais tarde eu dei aula. Quando minha irmã morreu, eu peguei os alunos dela. Ela alfabetizava, a gente ‘alfabetizava no piano’ e coloria tudinho... Crianças pequenas. Dei aula para minha filha, Tetê. O início das aulas.

P/1 - Como é ‘alfabetizar no piano’?

R - Colorir as notas. O dó você coloria de uma cor, o outro de outra cor, então guardavam pela cor as sete notas do piano.

P/1 - E tem algum aluno ou alguma aula em particular que foi importante para a senhora?

R - Tinha... Meus alunos depois faziam audição. Tocavam na minha casa, do meu piano, reuniam os pais para ver o desenvolvimento dos alunos.

P/1 - A senhora começou a lecionar com que idade, mais ou menos?

R - Mais ou menos, eu tinha... Saí da escola com 18, começavam tarde as coisas. Com 18 anos eu saí do colégio interno. Foi quando minha mãe teve meu irmão, aí [ela] me botou e minha irmã interna para poder cuidar dos outros que nasciam... Nasceram mais três. E nós, enquanto isso, estudávamos. Saímos as duas com 18 anos da escola.

P/1 - Então até os 18 anos, mais ou menos?

R - Mais ou menos.

P/1 - O colégio...

R - Do colégio já saía formada, estudando piano. Depois fomos para o conservatório, vinha fazer exame no Carlos Gomes de Campinas no final dos anos.

P/1 - E a senhora passou algum momento de nervosismo nestes exames, a senhora se lembra?

R - Nossa, na hora de pôr o pedal o seu pé tremia, mas ninguém via. A gente sentia. Fazia audição...

P/1 - E foi tudo bem? Como foi?

R - Tudo uma maravilha.

P/1 - Como a senhora tocou, a senhora lembra disso?

R - Eu lembro. Como é que chama aquela música? “Primeira Carícia”. Foi a primeira música que eu toquei numa audição.

P/1 - Dá pra fazer um pedacinho?

R - Dá. [Entrevistada cantarola]. É a primeira carícia de um filho, fazendo carícia para a mãe ou a mãe fazendo carícia para o filho... Deixa eu ver se eu lembro... Eu toco até hoje.

P/1 - Tudo bem. Uma coisa: até os 18 anos a senhora ficou… Pelo que a gente está sentindo, era muita escola...

R - Escola, é...

P/1 - E amigas? A senhora tinha alguma outra atividade de lazer, ir ao cinema, existia isso?

R - Só com meu pai. Só ele acompanhava a gente. Depois de moça, se a gente queria ir numa festa era muito difícil. Tinha que pedir dez, vinte vezes para poder ir. Ele mandava até mentir. Às vezes ligava amigo convidando: “Não, fala que você está doente, que não está bem”. Ele prendia muito a gente. Basta dizer que a gente se casou só depois que ele morreu. Ele era um ditador, queria o filho pra ele.

P/1 - Então a senhora não chegou a andar pela cidade...

R - Não, sozinha não. Sempre com eles.

P/1 - Com ele?

R - Fazíamos distração. Não faltou diversão para nós. Duas vezes por ano, eu me lembro…. Ele tinha carros importados; como não cabia a bagagem de cinco filhos, ele mandava naqueles baús grandes, botava roupa e mandava para Lindoia, a gente ia muito [lá]. E chegava, às vezes antes da gente, às vezes depois da gente. A gente chegou uma vez primeiro e teve que comer sem roupa, só com a roupa da viagem e era uma poeira danada! No carro, ele botava... [Era] Lama que tinha, não tinha asfalto. A gente passava no meio de ‘coisa’ [lama] e ele punha correia no carro pra não derrapar porque não tinha estrada. Eu lembro que a gente falava: “Olha pra trás!” Quando entrava no mato, você olhava pra trás e fechava o mato. Quer dizer, desbravava aquilo tudo, fazia caminho com o carro.

P/1 - Ia pra Lindoia? Águas de Lindoia.

R - Duas vezes por ano, era sagrado. Ele prendia a gente, mas estação de água não faltava.

P/1 - Como era esse carro do seu pai?

R - Tem a foto. Era uma dessas limusines antigas. Trouxe foto para vocês verem.

P/1 - E vocês, quando crianças, brincavam no carro? Tinha isso?

R - Brincava, [ele] dava liberdade pra gente. Dentro de casa. Tudo que [a gente] queria: tinha balanço, tudo - dentro de casa.

P/1 - Como era o dia a dia na sua casa? Se você levantava de manhã, o que fazia?

R - Bem rigoroso. Era bem ditador mesmo, mas tudo com muita ordem. Café da manhã não era que nem hoje, que cada um toma num horário. Era mesa posta, todo mundo sentado, sem muita prosa. Tudo quietinho, só falava o principal. [No] Almoço, todo mundo junto, bem vestido; nunca nenhum de pijama, sem camisa. Tudo em ordem, bem organizado.

P/1 - Ele saía pra trabalhar e vocês ficavam em casa?

R - Saía pra trabalhar e a gente tinha as atividades. Minha mãe nas coisas de casa, administrando os empregados...

P/1 - E vocês, pra escola?

R - [Em] Horário de comida, ele estava sempre em casa. Nunca foi um pai ausente, sempre bem família.

P/1 - Não tinha televisão na época?

R - Não.

P/1 - O que vocês faziam à noite, antes de dormir? Vocês conversavam?

R - Dormiam todos. Conversava, tinha a hora de brinquedo, de tomar banho e de dormir. E de levantar, né? Cada um tinha a sua atividade, normalmente.

P/1 - Você dormia muito cedo?

R - Tudo muito cedo. Interior, naquela época, almoçava e jantava cedo, [às] seis horas todo mundo estava jantando.

P/1 - Tá certo. Então com 18 anos a senhora começou a lecionar, não é isso?

R - Isso.

P/1 - A senhora lecionou até que período, mais ou menos?

R - Olha, bastante tempo. Já tinha professor em casa, já tinha estudado no conservatório, depois saímos do conservatório. Tinha professora em casa e ela dava muita audição. Esses poetas modernos, nós conhecíamos todos na casa dela.

P/1 - Quais os poetas que a senhora se lembra?

R - Sabe que eu estava lembrando na minha casa hoje o nome... Ele está vivo até hoje, eu vi outro dia. Me lembro dele bem mesmo. Então, a gente tocava piano, eles faziam recital, declamavam... Era Maria de Falco de Brita e a irmã dela, que tocava no Teatro Municipal violino. Ela tocava piano... Eu tenho foto em casa.

P/1 - Tudo bem. Como era o conservatório essa época?

R - Ah, era lindo aqui em Campinas. Era o Carlos Gomes aqui de Campinas, tinha que prestar exame. A gente vinha de trem, naquela ocasião.

P/1 - Como era essa viagem de trem?

R - Todos os alunos vinham todo ano fazer exame. Não vinha com pai, porque vinha com a professora. Ela era severa!

P/1 - Aí o pai da senhora permitia..

R - Permitia, claro, porque era para a educação dos filhos.  

P/1 - E a viagem era longa, como...

R - [Que] Nada. Era o tempo de fazer o exame e já regressava.

P/1 - O percurso de trem.

R - E cantava. Tinha o Orfeon também, a gente fazia parte do Orfeon e cantava... Eles faziam, depois dos exames, uma audição pra todo mundo no teatro do ‘coiso’. Não me lembro muito bem como era.

P/1 - Era um dia só mesmo?

R - É, um dia só...

P/1 - E já voltava?

R - Já voltava.

P/1 - Era uma diversão?

R - Era uma delícia. Saía daquela ditadura de casa. Era um ar de liberdade para nós.

P/1 - E a senhora lembra do próprio trem em si? Esse percurso, a paisagem?

R - Lembro. Tinha que fechar todos os vidros porque era uma maria-fumaça; saía aquela coisa e queimava a roupa da gente, entrava fagulha também dentro [da roupa], então a gente via quase toda a paisagem fechada. Medo daqueles trens de madeira, que ainda soltavam fagulha.

P/1 - Os bancos também eram diferentes...

R - Tudo era de madeira, não tinha aquele conforto de um trem. Hoje quase nem tem mais trem.

P/1 - E demorava quantas horas para chegar?

R - Bastante tempo. Até Campinas e Araçatuba é longe. Mil e tantos quilômetros... Mas era uma delícia.

P/1 - A senhora falou também que vocês chegaram a ver apresentações no Teatro Municipal...

R - Vimos.

P/1 - A senhora se lembra da primeira vez que foi ao Teatro Municipal?

R - Não. Eu lembro só de mim tocando, o nervoso que eu passava. Eu ainda era meio desinibida. Minha irmã nunca tocou em público; ela gostava de estudar à noite, ninguém a ouvia tocar. Eu era uma sem-vergonha, tocava mesmo. Mas ela só estudava de noite. Nunca nós podíamos morar em apartamento por causa de piano, mas nem tinha apartamento naquela ocasião, era casa mesmo.

P/1 - E essa apresentação em público era tranquila para a senhora?

R - Era tranquila.

P/1 - A senhora lembra como foi isso?

R - Não. Nervoso a gente passava, só de ver aquele monte de gente... Mas ia tudo bem. Se errava, ninguém percebia ou fingia que não percebia, aí ia tudo bem. O negócio era fazer audição.

P/1 - Certo. Então a senhora tocava o piano. Como entrou o sapateado também na história?

R - O sapateado é do tempo do meu pai, lá em Araçatuba mesmo, porque a gente era pequenininha. Depois de grande, ninguém sapateava. E ele tinha um sapateiro que botava ferrinho nas pontas [dos sapatos] para fazer aquele barulho. Não tinha esses sapatos próprios de fazer... Tinha que pôr aquele ferrinho na ponta do sapato.

P/1 - E nessa juventude, a senhora tocando piano… A senhora chegou a ter algum namorado, a conhecer alguém nesta época?

R - Não, nada.

P/1 - Nada?

R - Nada.

P/1 - Porque enquanto...

R - Olhava, flertava quando ia pro clube, sabe essas coisas? Mas eu nunca namorava firme.  

P/1 - Que clube era esse?

R - Era o clube de Araçatuba.  

P/1 - Ah, isso lá em Araçatuba?

R - Em Araçatuba. Em São Paulo não frequentávamos clube nenhum. Eram dentro de casa as visitas, porque se recebia muito dentro de casa. Os amigos de Araçatuba que tinham casa em São Paulo também vinham... Os do Hospital Nove de Julho que eram muito amigos, os pais dele, nós que visitávamos. Era quase todo dia uma visita. Não era ambiente de clube. Era social, mesmo dentro de casa.

P/1 - Só pra eu entender um pouco: vocês tinham uma casa nos Campos Elíseos, mas vocês iam para Araçatuba ainda? Quando jovens?

R - Não íamos mais.

P/1 - Não iam mais?

R - Não, passou uma temporada bem grande. Eu fui agora pra rever nossas vidas lá.  

P/1 - O pai da senhora faleceu quando a senhora tinha quantos anos?

R - Meu pai faleceu com 54 anos. Parecia que ele era velho, porque ele proporcionou tanta coisa pra gente. Trabalhou tanto, lutou tanto que, pra nós, era um pai velho. Hoje eu, com 78, não me sinto velha. Agora é que dei valor para ele, da idade em que ele morreu.

P/1 - A senhora tinha quantos anos quando ele faleceu?

R - Eu tinha... Já foi a fase que não foi da minha infância. Eu já estava namorando, já... Porque eu me casei tarde, casei com 29 anos.

P/1 - Mas a senhora começou a namorar...

R - É.

P/1 - Como começou a namorar? Como foi isso?

R - Ah, como foi?

P/1 - Isso.

R - Deixa eu ver. Olha, firme mesmo foi o meu marido, viu?

P/1 - Por que? Teve outros antes?

R - Teve...

P/1 - Que não eram firmes?

R - Coisinha de clube, mas namoro não. Também foi rápido o casamento. Foi casar e namorar, porque eu falava: “Meu pai é bravo”. Ele morria de medo.  

P/1 - Nessa época, antes da senhora conhecer a pessoa que foi o marido mesmo da senhora, vocês saíam, se divertiam?

R - Fomos para a rua Pará, lá estudamos; eu estava mais adulta. A minha irmã mais velha trabalhava com meu pai. Já estávamos grandes, ela tinha seus 18 ou 19 anos e eu estava… Sou dois anos mais nova. Ela começou a trabalhar com meu pai, já estava formada.

Ela comprou na Cincinato… As famílias começaram a mudar das casas grandes para apartamento, aí meu pai vendeu a [casa da] Rua Pará e fomos para a casa de aluguel; com o dinheiro da [casa da] Rua Pará ele ia comprar o apartamento de lá.

Foi na Rua Itajubá, no Pacaembu, que ficamos com uma casa grande. Era uma casa enorme. O Pacaembu é todo assim, montanha; tinha a casa embaixo, a casa em cima, até construírem a [Rua] Cincinato Braga.

Foi nesta época que minha irmã namorou. Viemos pra Santos, de temporada; ela conheceu o marido dela. Foi casamento rápido também. Tanto é que [quando] ela morreu, o enterro saiu desta Rua Itajubá. E ela foi quem comprou o apartamento da Cincinato Braga pro meu pai, que viajou. Ela, como trabalhava com ele, foi uma briga danada. “Como vou morar em apartamento, sair de uma casa?” Hoje é um senhor apartamento. E ela faleceu, com seis meses de casada ela morre. Foi um sofrimento...

P/1 - O que foi que aconteceu com ela?

R - Os médicos mataram. Foi um aborto, naquela ocasião não tinha higiene. Ela ficou na Beneficência Portuguesa, o médico estava viajando, ela se sentiu mal e faleceu. Veio a falecer tragicamente. Meu pai então [ficou] desesperado, foi por isso que ele morreu cedo. Perdeu uma filha, que é um problema muito grande e [era] uma companheira de trabalho dele. E uma morte estúpida, levou o filho junto. O neto... Foi o sofrimento dele, ele morreu mais cedo. Ela está enterrada no [cemitério do] Araçá, que é nosso túmulo agora. Ele deixou um túmulo para cada filho, construiu lá. Depois disso ficou pronto… Ela não chegou nem a ver o apartamento que tinha comprado.

Nós nos mudamos para a Cincinato Braga, foi onde lá eu me casei. [De] Lá saiu o enterro do meu pai. Era um apartamento muito bom, construído lá na esquina da [Avenida] Brigadeiro Luiz Antônio. E [de] lá saiu o enterro, no salão de festas saiu o enterro do meu pai. Nesta ocasião eu conheci meu marido, eu abri um salão com o meu casamento e fui embora para Brasília.

P/1 - Como a senhora conheceu seu marido? Como foi isso?

R - Como eu conheci?

P/1 - É.

R - Eu fui comprar uma roupa. Quando morreu a minha irmã, meu pai comprou um metro só de tecido preto - usava-se luto naquela ocasião - e mandou fazer roupa para nós todos. Preto, para minha irmã que estava com mais de 18, eu também já estava com 17... Minha mãe toda de preto e ele com aquela coisa preta. Quando ele tirava a camisa era aquela faixa preta, que naquela ocasião se usava.

Eu fui para aliviar o luto. Fui para a [Rua] 25 de Março com as minhas duas amigas, que foram colegas nossas de escola. Amigas e vizinhas na Rua Pará. Fui comprar um vestido; comprava pano para a costureira fazer, branco e preto, para aliviar o luto. Foi quando conheci meu marido. Ele passou de carro, eu falei: “Comigo não é, que estou toda de luto. Deve ser [com] minha amiga”. Ela era uma loira, chamava a atenção. Era com ela o negócio, não era comigo. Eu estava tristonha, toda de preto e comigo é que não era.

Era comigo mesmo. Ele deu a volta pela Rua Boa Vista, que não tinha caminho para voltar. Chegou a parar o carro e falou comigo: “Dá o seu telefone?” Eu falei: “Olha, se for para coisa triste, se você...” Era velho, mais velho que eu, tinha até meio cabelo branco. Falei: “Se for para tristeza, se você é homem casado, nem me ligue, porque eu saí da minha irmã morrendo...” Ele tinha perdido a mãe naquela ocasião, estava de luto também. Estava com a faixa preta aqui. Ele disse: “Tudo bem”. Falou, passou. Não é que ele me ligou depois, de tarde?

P/1 - E como foi isso?

R - Era sinal que ele não era casado.  

P/1 - É (risos).

R - Era velho, mas não era casado.

P/1 - E o que ele falou para a senhora quando ligou?

R - Ligou, falou que queria sair comigo... Eu repeti pra ele que se fosse casado… Que eu andava em tristeza. Aí ele contou que a mãe tinha morrido. Nessa altura, estavam fundando Brasília e ele era metido com a política; lá foi ele embora para Brasília. Ele vinha e voltava. A vida dele era muito, a vida dele já... A minha era boba demais para a vida dele.

Ele tinha um apartamento na avenida São João naquela ocasião. Recebia muito, jogava, fazia cassino na casa dele. Ele tomava conta do cassino do balneário aqui, então vivia naquele meio que, pra mim, meu pai nunca ia aceitar. E era funcionário público. Então eram duas coisas: velho, jogava e funcionário público ainda. Não servia para a filha dele. Ele foi para Brasília, ficou um tempão lá e eu conheci a família dele. Morreu um cunhado dele e eu fui ao enterro. Ele era diretor do Álvares Penteado em São Paulo.

P/1 - Irmão do...

R - Cunhado, casado com a irmã dele mais velha. Era de família nobre, da Itália também.

P/1 - E a senhora tinha contato?

R - Eu fui com ele. Cheguei de madrugada, porque fui ao velório e depois ao enterro. Cheguei tarde e a Rua Itajubá não tinha saída, então ele veio me trazer de carro. Meu pai no portão, esperando. Eu já tinha conhecido uma pessoa velha, um amigo nosso de família e ele queria me namorar para casar, porque ele também era velho. Meu pai falou: “Não, eu vou mandar você para Araçatuba”. Foi quando eu voltei para Araçatuba. “Porque ele é velho, não serve para você, você é muito menina para se casar ainda, sua irmã nem se casou ainda”. Me mandou pra Araçatuba; fiquei um ano lá. E mandou buscar uma sobrinha da minha mãe, que estava solteirona, para casar com esse moço que era meu namorado. Se eu me casasse com ele, ficava viúva outra vez, porque ela também ficou viúva. Aí fez o casamento. Fiquei um ano lá; aprendi a costurar, a bordar, que eu já sabia… Um monte de coisa, até fazer o casamento dela. [Quando] Ela se casou, eu voltei.

P/1 - E aí quando a senhora voltou...

R - Passaram os anos, continuei a minha vida. Foi aí que eu conheci meu marido.  

P/1 - Que conheceu nesta ocasião que estava passeando pela Rua Boa Vista?

R - Nesta ocasião. Era o segundo velho com que eu ia me casar, pensei em unir uma coisa com a outra. [Meu pai] Viu meu marido me trazendo e a rua não tinha saída, quando eu falei: “Meu pai está no portão”. Ele embocou no mato. Ele [meu pai] entra e fala: “Sua filha vem com um velho no carro entrando no mato”, pensando que eu ia namorar dentro do mato. Era tarde da noite porque eu tinha ido ao velório. Então, eu falei para ele: “Você vai embora, porque meu pai não vai aceitar”. [Quando] Cheguei, uma briga: “Outro velho, já me deu trabalho, ainda arranja um velho, porque não sei o quê”.

Ele foi embora pra Brasília. Viu que não tinha chão pra ele. Ficou lá até a fundação de Brasília; em 61, ele foi. Em 63 eu me casei. Um dia eu estava no ônibus na avenida, foi um dia que...

P/1 - Mas ele chegou a conhecer o pai da senhora?

R - Só de ver no portão.

P/1 - Só no portão.

R - Mas ele sabia. Eu já falava pra ele que meu pai era severo, era bravo. Ele já sabia que comigo era só casamento, que ele não tinha chão. Ele tinha que se desligar do mundo dele para chegar até mim. Como ele não se desligou por um tempo, foi para Brasília com o Juscelino. Eram todos da terra de mineiro; ele era [também], então lá foi ele com aquela cambada toda de político.

Eu conheci o pai dele no velório e ele ligava de vez em quando para mim. Queriam que ele se casasse com uma moça de família, não com as mulheres que ele vivia. Ele levava uma vida mais independente... Sozinho, né?

P/1 - Lá em 63...

R - É. E um dia, eu tomando o ônibus com as minhas amigas, minhas duas amigas com quem eu o conheci, ele entra imundo, sujo - porque ele trabalhava no Ministério das Comunicações. Era telefone, luz e... Eletricidade, era uma coisa só. Ele trabalhava em Brasília com comunicações. O fax, essas coisas, foi tudo ele que fez em Brasília. Foi fazer o serviço dele em Brasília, que era onde ele trabalhava no governo. Chegou todo sujo; tinha o canteiro de obra, ele não andava limpo porque tinha os operários dele.

Um dia, o pai dele ligou e eu falei: “Como vai o Nelson? E Nelson?” O apelido dele era Nelson. Nessa ocasião, quando ele era solteiro - eu ainda não o conhecia -, ele tinha casa de automóvel. Ele se chamava Antônio de Araújo Rossi, mas a casa era Nelson Automóveis; todo mundo o chamava de Nelson, inclusive eu. Era outra fase do serviço dele, antes de ser funcionário [público]. O pai dele falou: “Nós fomos num casamento na Aparecida porque o Antônio se casou”. Falei: “Pronto”.

Quando eu o vi no ônibus, eu fingi que não vi, porque falei: “Está casado, que eu vou fazer com esse homem casado?” Meu pai já tinha morrido e ele sabia que… Ele sabia de toda a minha vida, que eu namorava um alemão, que eu saía com ele, que ele era alto, que chamava a atenção… Ele sabia da morte do meu pai e estava voltando pro apartamento dele na São João, quando falou para mim: “Onde você vai?” Eu falei: “Vou tomar lanche na casa das minhas amigas.” “Não, você não vai. Você vai ficar comigo, depois eu levo você pra casa”. Minhas amigas me cutucaram e falaram: “Vai, vai”, então eu fui.

Eu cheguei lá e perguntei: “Se você está casado, não adianta começar tudo de novo, porque eu não quero saber”. Ele falou: “Mas eu não me casei coisa nenhuma”. Ele mostrou os documentos dele. “Eu não estou casado.” “Mas seu pai falou pra mim”. E fui embora.

Cheguei na minha casa, já estávamos morando no apartamento. Eu falei pros meus irmãos… Minha mãe já estava viúva. Eu falei: “Escuta, o velho vem amanhã falar com vocês”. Ele falou pra mim: “Amanhã eu vou conversar com seus irmãos”. Criou forças, porque meu pai já tinha morrido. Ou já estava com a vida estacionada, livre dos embaraços da vida dele.

Dito e feito: Ele tocou a campainha, entrou na minha casa e me pediu em casamento pros meus irmãos. “Só que eu vou voltar para Brasília, porque eu tenho que arrumar apartamento pra nós”. Naquele tempo, tinha que arrumar apartamento. “Depois eu me caso, só venho no dia do casamento”. Demorou para chegar, porque veio a trupe toda de Brasília e demorou, o avião atrasou. Meus irmãos diziam: “O velho não vem, você vai ficar aí?”. Meu coração batendo: “Vem, porque vem”. E veio, tremendo, mas veio. Tremia na igreja, acho que de medo, quando o padre falou: “Tem algum, alguém...”, a mão dele balançava. Ele estava com medo que alguém viesse fazer [objeção ao casamento], porque a vida dele era toda atrapalhada.

P/1 - E onde foi o casamento?

R - Foi na igreja da [Avenida] Brigadeiro Luiz Antônio, na Imaculada Conceição. Minha casa, meu apartamento era aqui, mas tinha que dar a volta, porque era contramão a Rua Cincinato Braga e a igreja [era] na frente.

P/1 - E o vestido, como foi isso?

R - Ai, foi lindo. Foi maravilhoso.

P/1 - Como era o vestido?

R - Eu era gordinha, como sou até hoje. E era todo de babadinho com tudo de... Como é que chama? Como é que chama aquelas coisas que têm? Aquelas coisinhas...

P/1 - Era franzido?

R - Era cetim branco com dourado, todo de franja; era moderno naquela ocasião. Da União Fabril, que era a loja mais chique de São Paulo. Era todo de franja, era lindo, o vestido.

P/1 - E aí, o...

R - Só de véu entrava na ponta da Brigadeiro Luiz Antônio… Só de véu minha mãe gastou… Meus irmãos, que na ocasião tomavam conta da serraria, da fábrica de tacos - não era mais serraria, já era [fábrica de] tacos de chão. Até em Santos, o fórum de Santos [foi] meu pai que ganhou a concorrência. No fórum de Santos é toda madeira da fábrica dele.

Era tão grande que saía da porta da Brigadeiro, o véu. Fiz um véu pra minhas filhas quando nasceram, que eu morei em Brasília. Lá tinha muito pernilongo, essas coisas. No comecinho de Brasília, eu fiz do meu véu dois cortinados pra elas, de tão grande que era meu véu de casamento.

P/1 - E do casamento a senhora foi direto pra Brasília? Como foi isso?

R - Foi, mas foi surpresa. Ele não avisou ninguém, pros meus irmãos, que ia me levar embora. Nos últimos dias é que ele falou pra mim: “Eu vou pra Brasília. Já comprei, pus o apartamento, nós vamos morar lá”. Minha mãe já estava viúva, mas não me impediu porque todo mundo gostava dele. Era um gentleman, de beijar a mão. No prédio as senhoras gostavam; sabe esses homens cheio de gentileza, cheio de abrir porta? Um homem vivido. Foi uma boba que nem eu… Fui uma boboca, me casei.

P/1 - Em poucos dias depois do casamento a senhora estava em Brasília?

R - Com três meses me casei. Foi o tempo de fazer os programas. Ele não tinha mais que casar, já estava com 44 anos.

P/1 - E como foi a chegada em Brasília?

R - Foi do tempo que não podia nem usar roupa vermelha. No meu enxoval, eu fiz um vestido de cetim como está usando agora, vermelho, que eu nunca pude usar.

P/1 - Por quê?

R - Por causa da ditadura. Você não podia usar vermelho. E a gente frequentava as ‘coisas’ de Brasília.

Com ele, fiquei dois anos sem filho. Os médicos falaram para mim que eu nunca tive menstruação, que nunca ia ter filho. E eles falavam para mim: “Já que você casou com velho, põe a culpa nele”. Quando acabou, era de mim mesmo. [Por] Dois anos eu passei frequentando as ‘coisas’; nunca pude pôr aquele vestido porque era o tempo da ditadura. Eu peguei Jânio Quadros, o finalzinho da ditadura, que foi o Médici, né? Médici? Foi.

P/1 - Você pegou toda a ditadura?

R - Toda, um pedaço da ditadura que eu não podia usar vermelho. Peguei o ‘Jango’ Goulart, um pouquinho no final dele, Jânio Quadros. Qual é o outro, que eu não me lembro?

P/1 - Mas então, a senhora viveu toda essa época?

R - Juscelino...

P/1 - Quantos anos faz que a senhora vive em Brasília?

R - Oito anos. Sete a oito anos. Eu vim no meio do ano.

P/1 - Então a senhora está...?

R - Graças a Deus.

P/1 - E como era a casa da senhora em Brasília?

R - Era apartamento, o único apartamento em condomínio. Ele nunca ia me levar nesses apartamentos assim, porque eu saí da Brigadeiro Luiz Antônio, da Avenida Paulista, para ir em apartamento ‘Iaptec’, aquela coisa de funcionário.

Era o único que o Paulo de Tarso tinha construído. Não era muito grande; era de dois dormitórios, mas pra nós estava bom. Meu piano entrou - eu trouxe meu piano, entrou lá dentro. Era bem grande.

P/1 - E era muito diferente? A senhora estranhou a paisagem?

R - Não tinha ainda, era só o meu prédio e do lado era o terreno do príncipe que o governo doou. Ficou mato por muito tempo. Nunca puderam construir, porque o príncipe só tinha nome, mas não tinha dinheiro para construir.  

P/1 - Quem doou pra quem?

R - Do príncipe. Do lado do meu apartamento era o terreno do príncipe, que [foi] doado pelo governo. Era o único prédio que tinha e estavam construindo, então peguei a construção.

A loba, que é o símbolo do zoológico de Brasília, foi achada na minha quadra. Enterrei uma empregada lá; essa empregada gostava muito de sair à noite. Ela veio de madrugada, tocou a campainha: “Seu Rossi, Dona Ruth, tem um cachorrão atrás de mim”. Eu falei: “Você está com mania de chegar de noite. Da próxima vez, não vá assustar a gente. Você vai dormir no capacho”, falei pra ela. Ela falou assim: “É um cachorro”. Era a loba que estava atrás dela, que é o símbolo do zoológico de Brasília.

P/1 - Nossa, então, na época tinha ainda esses...

R - É, o meu era o único apartamento em condomínio. O resto era tudo… Estava em construção ainda, era o terreno em que o Paulo de Tarso estava construindo... De São Paulo, esse engenheiro de São Paulo.

P/1 - E nesse período...

R - Era um mato só. Eu de luva, sapato, bolsa, toda chique e passava na colônia dos empregados das construções pra ir ao cabeleireiro. Lá, cabeleireiro era tudo na quadra, mas minha quadra não estava ainda formada porque era quadra em condomínio. As outras já estavam, as outras quadras.

Lá tinha escola, ninguém punha em escola que era longe dali, como é Brasília hoje. Mas a minha estava em construção ainda. Hoje é o mais chique de lá; fui pra lá ver, com a Tetê. Fomos lá pra ver; fui ao meu apartamento. Minha vizinha era sogra do ex-governador que roubou muito em Brasília.

P/1 - E como era o dia a dia da senhora neste apartamento?

R - Em Brasília?

P/1 - É, seu marido continuava trabalhando...

R - Trabalhando.

P/1 - E a senhora fazia o que durante o dia?

R - Ficava com a minha empregada. Ela contando a vida dela. Ela veio do Ceará casada, o marido a abandonou, ela veio para o Distrito Federal atrás do marido, mas [a capital] era no Rio de Janeiro ainda. Ela veio parar lá em Brasília, então ela, toda descontrolada, namorava Deus e todo mundo, tadinha, para esquecer aquela mágoa. O filho dela, que ela teve na minha casa, era do mordomo do cônsul da Alemanha, que morava no outro bloco. Eu estava dando lição de moral para ela toda hora e falava: “Escuta, eu estou casada há quase dois anos, não tenho filho, você...” Ela: “Se eu encostar, eu pego filho. É dito e feito”, ela falou.

Eu a enterrei lá, tem o túmulo dela. Ela teve nenê, aí eu falei: “‘Cê vai levar...”  Era filha única de um pescador no Ceará. “Você vai escrever pro seu pai dizendo que tem um filho, que nós vamos mandá-lo pra lá”. O Rossi arrumou avião, tudo, pra mandá-lo. “Você quer mandar seu filho pra lá?” Eu escrevi para o pai dela, ele aceitou. Era filha única e único neto. Estaria com a idade da Tetê, dois anos a mais que ela, se eu tivesse pegado. Eu quis criá-lo, minha mãe não deixou. Eu falei: “O médico disse que eu não vou ter filho. Vou criar o filho dela”. Ela faleceu. Parece brincadeira, ela dizia pra mim: “A senhora vai ter filho”. Eu falei: “Você está tendo filho a torto e à direita e eu, que sou casada, não tenho filho.” “A senhora vai ter filho mesmo.” Dito e feito.

[Quando] Ela morreu, já estava grávida de outro. Já tinha mandado o filho pro pai. O pai aceitou, mandei o menino pra lá, tudo direitinho. Ela voltou rápido. Eu falei: “Mas por quê?”

Eu vim pra São Paulo porque montei minha butique. Já que eu não ia ter filho, eu peguei no outro quarto, falei pra ela: “Vem”. Eu vendia perfume importado, viajava muito com ele pra lá, pra cá; não tinha filho. Ele gostava de viajar; eu ia pro Paraguai, montei a minha vida, organizei minha vida sem filho. [Por] Dois anos.

Montei minha butique noutro quarto. Viajava muito. Numa dessas viagens, ela foi levar o menino e eu fui pra São Paulo fazer compra. Ela me liga quatro dias depois: “Eu estou voltando.” Eu falei: “Mas o que aconteceu?” “Não, depois eu conto pra senhora”. Acho que ela começou a... Estava grávida de outro. Não me falou, senão eu iria lá; iria levar bronca. Foi levando um, já estava grávida de outro e nessa viagem desses ônibus, como é que chamava? Que levava cachorro, gato, passarinho… Não tinhas essas… Não tinha avião nessa ocasião. Eu acho que chacoalhou, a viagem não fez bem para ela. Eu não sabia que ela estava grávida... Ela chegou e falou pra mim: “Eu vim porque estou grávida, não queria que meu pai soubesse, eu tô levando um...” Muito bem, ficou. Ela falou assim: “A senhora não vai me mandar embora?” “Eu não vou mandar embora, mas agora chega de filho, nós vamos ver esse, se vai dar”.

Estava indo pra padaria comprar pão pra mim de manhã; ela levantava, já era... Tinha bem longe a padaria, então ela ia toda manhã. Eu já deixava o dinheiro pra ela, ela comprava o pão. Nesse dia, ela não voltou mais. Eram 11 horas, eu liguei pro meu marido: “A Francisca não voltou, o que será que aconteceu com ela? Será que ela fugiu, me deixou?” Daqui a pouco ligam do Hospital Distrital. O médico que atendia meu... Meu médico de Brasília, ele a atendeu, estava de plantão. Ele perguntou com quem ela estava trabalhando.  Ela falou: “Com o Seu Rossi e a Dona Ruth”. E liga pra mim: “A sua empregada está aqui, passando muito mal”.

Eu senti uma tontura, quase que desmaiei. Eu já estava grávida de seis meses e não sabia. Seis meses esperando a Tetê e não sabia, porque todo mundo dizia que eu não ia ter filho. Eu senti uma coisa diferente. Ia pro médico -  antigamente faziam o teste com o coelho -, dava negativo. Diziam que eram gases. Quando ela morreu e levei aquele choque, senti tontura; fui pro médico, fiz exame, estava grávida de seis meses da Tetê. Aí eu liguei para minha mãe. E fizemos o enterro… Eu nem fui porque estava tão passada, já sabendo que eu estava ruim e ela morreu, faleceu... As freiras, o último namorado dela era empregado das freiras. Lá fizeram… As freiras fizeram aquela roupa preta pra ela; meu marido fez o enterro dela como se fosse da nossa família.

Nunca mais soube desse menino. E com o tempo eu perdi… Com minha mudança pra Santos, perdi o endereço dele. Às vezes lembro que ele podia ser um filho meu, mais velho. Hoje estaria morando comigo, já pensou?

P/1 - Mas como foi essa gravidez da senhora?

R - A minha foi tão pouca... Liguei para minha mãe. “Mãe, eu estou grávida, não acredito que...” Meu marido era mineiro - a mãe, a irmã dele adotou três, quatro filhos mineiros, tinham mania de adotar. [Minha mãe] Disse: “Minha filha adotou filho”.

Lá veio a minha mãe de avião - tem a fotografia dela -, pra ver se eu estava grávida mesmo. Ficou comigo mais três meses. E mais meses porque a Tetê nasceu pequenininha, miudinha. Ela falou assim: “Nunca tive um neto”.

Meu irmão já tinha se casado. Um neto tão pequeno era a Tetê. Mas chorou, vingou, não precisou ficar nada lá [no hospital]. Acho que minhas ‘coisas’ estavam voltando ao normal. Alguma coisa virada dentro de mim porque eu estava grávida, minha filha. Até hoje nunca tive menstruação... E fiquei grávida.

P/1 - A senhora teve, então, a sua filha? Só para registrar: o nome da filha...

R - Tereza Cristina Dip Rossi.

P/1 - E essa menininha nasceu então em Brasília?

R - Em Brasília, no Dom Bosco, hospital deste ‘tamanhico’. “Vamos pra São Paulo”. Falei: “Em São Paulo mataram a minha irmã”. Aquele trauma ficou em mim. Talvez, esse trauma de dois anos fosse da morte da minha irmã. Porque o médico viajou, a deixou na mão de enfermeira e toda hora fazendo toque, ela teve infecção e morreu.

Eu falei: “Em São Paulo eu não vou, mataram minha irmã em plena Beneficência Portuguesa. Eu fico aqui, num hospital deste ‘tamanhico’. Você sabe que Brasília é deste tamanho”. Na mão do doutor - eu trouxe fotografia até dele - tive a Tetê, num hospital pequenininho. Feliz, pequenininha, mas com saúde e chorona. Quando ela...

P/1 - O que mudou na sua vida depois? Como é que foi seu dia a dia sendo mãe?

R - Tudo. Pro meu marido foi a maior felicidade do mundo, o sonho da vida dele era ter um filho. Ele estava já com 46 anos. Imagina naquela época, né? Quando a minha filha mais velha, Tereza, fez um ano, eu já estava grávida da outra e não sabia também. Já estava com três meses, estava barriguda sem sentir nada. Se você perguntar qual é a dor de parto, eu não sei. Eu sou uma mulher feliz, até neste ponto de vista.

P/1 - Teve pouca diferença então, de uma gravidez...

R - O tempo de ter... Que eu tive a outra. Minha perna começou a estourar. Rebentou porque Brasília é uma terra seca… Tudo artificial, até o lago; eu nunca me dei muito bem lá. E sempre estava indo de lá pra cá. Depois, com filho, era só Brasília, então o segundo filho arrebentou minhas pernas todas.  Tive até trombose da segunda filha.

P/1 - Qual o nome?

R - Você vê que eu estou com meia de varizes? Eu tive trombose há pouco tempo, outra vez.

P/1 - Qual o nome da segunda filha?

R - Tatiana Dip Rossi.

P/1 - Esses nomes que a senhora... Como a senhora escolheu esses nomes?

R - É do “Sítio do Pica-pau Amarelo”. A Tatiana Belinky, que era a escritora... [o livro original era] do Monteiro Lobato, né? No tempo da televisão. Eu escolhi Tatiana, era a única Tatiana de Brasília. Hoje tem milhares de Tatianas.

P/1 - E o nome Tereza?

R - Tereza da minha irmã, que era Raquel Tereza. Pra não dar Raquel, pra eu não me chocar, ficou Tereza Cristina.

P/1 - Certo. A senhora teve dois filhos?

R - Duas meninas. Meu marido operou, porque estava velho demais e falou: “Filho, eu não quero mais”. Contentou-se com duas mulheres, já gostava de mulher... Mais duas filhas (risos). Ficou as duas, não tive mais filha.

P/1 - A senhora viveu em Brasília cuidando dos filhos?

R - Guardando as duas. Fiquei sete anos, sete pra oito anos, vim [embora] no meio do ano. Vim embora pra São Paulo. A Tetê pegou micróbio, a mais velha, eu punha no solzinho de Brasília. Tinha muito pombo porque o Jânio Quadros fez um pombal em Brasília. E as pombas no meu prédio invadiam. Todo dia a empregada pegava o esguicho, vinha o esguicho de não sei quantos metros pra pôr - era tudo planejado em Brasília, terraço em todos os prédios. As pombas faziam cocô ali. E eu a punha depois do banho pra tomar solzinho, deitadinha ali, porque não dava pra sair na rua, não tinha calçada para eu passear com ela. Eu passeava com o carrinho dentro do prédio, só. Não dava muito para ela tomar sol onde era a garagem, porque em Brasília não tinha calçada para eu passear. Era tudo terra e mato.

Eu punha ela de fraldinha, tomando sol. A pomba deixou micróbio nela e eu vim embora por causa dela; ela ia morrer em Brasília. A pomba tem um microbiozinho na ‘coisa’, aí ela ficou deformada, [com] cabeça grande; fazia exame, teste do que fazia mal pra ela, nada fazia. [Quando] Vinha pra São Paulo, a menina melhorava. Aí meu marido pediu a transferência dele... Bahia, Santos, Ribeirão Preto... Eu escolhi Santos para ficar perto da minha mãe.

P/1 - E sua mãe já estava...

R - Eu gastava uma fortuna de telefone pra falar com ela. Falei: “Então vou escolher Santos, que é pertinho”. Vim pra Santos, foi quando eu vim pra cá. Tetê tava com sete a oito anos, menos até. A Tatiana [estava] mais pequenininha. Vieram pequenininhas para Santos comigo.

P/1 - E a senhora já conhecia Santos?

R - Já conhecia de vir fazer temporada porque todo ano meu pai alugava casa em Santos; quando não ia para Lindoia, alugava casa em Santos, então a gente conhecia. Quando a minha irmã se casou, ela se casou com o marido voltando da praia. Eu falei de vir pra Santos… Já conhecia, ele achou que minha irmã não estava morando bem.

Ele [o marido] era contador da Nestlé. A Nestlé era ‘deste tamanhinho’; ele achava que era inferior a nós. Ela quis se casar, então ele [meu pai] fez o casamento. Não implicou - ela trabalhava com ele, ela fazia falta pra ele. Ele pensou: “Vou alugar uma casa grande...” porque gostava de Santos. “Vou alugar uma casa grande, ela vai morar lá e na temporada, quando eu tiver vontade, a gente vai pra lá”. Não deu tempo. Ela sabia que meu pai ia fazer isso para ajudá-la, pra ela sair de onde morava e morar melhor em Santos, numa casa bacana, em que a gente podia vir também. A gente era muito unida, ele queria ver os filhos perto dele. Ela não chegou a vir, ela foi para o [Cemitério do] Araçá. Isso fazendo uma pausa.

P/1 - Tá certo.

R - Eu vim para Santos, já conhecia. Você perguntou se eu conhecia; já, porque ele vinha muito pra cá.

P/1 - Mas era casa ou era apartamento?

R - Era apartamento. Fiquei procurando apartamento. Ficou quase seis meses minha mudança na Afinc(?). O governo pagava tudo. Nós vendemos o apartamento. Não era vendido - como a gente recebia o décimo-terceiro, o ‘coiso’, não sei como se chamava aquilo, quando a gente ia... Quem fosse para Brasília recebia um décimo-terceiro, então a gente vendeu a ação só, mas a propriedade ficou. Com isso, compramos o nosso apartamento e eu tinha recebido a herança do meu pai, que era o apartamento de Santos, onde eu ia com as meninas. Eu tinha um apartamento que era herança do meu pai.  

Eu morava em Brasília. Pra minha irmã, ficou em São Paulo e pra mim, ficou em Santos, a herança do meu pai. Aí eu vendi, o dinheiro que eu trouxe de Brasília e o meu… Eu vendi e comprei o meu, mas demorou porque meu marido queria casa; as casas eram todas aquelas casas antigas de Santos alta, você olhava pra cima. Via fio pra tudo quanto é lado e eu não queria casa, queria apartamento. Sorte que eu peguei esse apartamento; na minha rua não tinha nada. Eu falei para o corretor que eu queria uma rua tranquila, que era a Trabulsi. Ali só tinha o meu... Não tinha Pão de Açúcar, não tinha nada. Hoje é uma zona, tem tudo na rua. Era residencial, não tinha nada. Eu fui pra lá.

P/1 - O que a senhora viu de mudança? Quais as mudanças que foram acontecendo nessa rua que a senhora observou?

R - Era uma delícia. Quando eu cheguei para Santos, adorei! Estava perto da minha família, dos meus irmãos...

P/1 - A rua era asfaltada?

R - Era calçada. Não tinha a parte da frente, que é o [supermercado] Pão de Açúcar, aqueles apartamentos. Do meu lado era do Trabulsi, por isso que a rua tem um nome. Era da Dona Maria Trabulsi, de São Paulo; ela construiu aquele prédio. O meu era o único prédio grandão que tinha lá, o resto era mato. Depois veio o Pão de Açúcar. Construíram o apartamento em que ela conheceu o marido dela; ele tinha um apartamento de temporada lá na frente.

P/1 - E era grande esse apartamento?

R - O meu é grande, até hoje. É grande e eu pequena lá dentro (risos).

P/1 - Quando a senhora mudou para Santos, mudou bastante a rotina?

R - Mudou. Eu tinha que pôr minhas filhas na escola porque elas não podiam, eram pequenas. Foi dureza. Arranjar uma escola boa pra elas. Como a minha vizinha, que morava do lado, era diretora... Meu marido a conhecia como político; como ele trabalhava no correio, conhecia toda essa gente. Eu trouxe apresentação de Brasília. Ela falou: “Olha, a escola é boa.” No Ministério da Educação, ela trabalhava. “A escola boa daqui pra pôr as meninas é na Ofélia…” Como é que chamava o colégio da dona Terezinha? Que era na [Rua] Januário dos Santos, ali pertinho. Ela indicou a escola pra nós, aí pus as duas lá. Porque elas estavam... Eu vim de Brasília, não conhecia ninguém. Elas tinham que ter uma escola, pra ter amizade. Foi quando elas foram, pequenininhas, na escola. O uniformezinho era a coisa mais linda, todo xadrezinho. A Tetê chorava pra entrar. A outra ficava. Apanhou muito, viu? Falei: “Olha, vou dar na frente de todo mundo em você, se você não fizer.” Não queria me largar. A outra mais nova entrava e ela ficava, daqui a pouco as duas não queriam ir. Deu trabalho e hoje ela é uma estudiosa de marca!

P/1 - E as meninas estudavam de manhã ou à tarde?

R - À tarde.

P/1 - A senhora acompanhava o que elas faziam na escola?

R - Tudo era estudar. Minha irmã caçoava de mim. “Você é louca, ficar aí estudando com as meninas”. Eu ficava e era sagrado, minha filha. Eu queria fazer delas gente mesmo. E consegui.

P/1 - Só pra voltar um pouquinho, aí a gente já volta pra Santos...

R - Tá.

P/1 - A senhora falou que lá a senhora chegou a ter uma butique.

R - Eu tinha em Brasília. Quis trazer pra cá também, mas eu as coloquei na escola… Comecei a pensar que eu queria ter uma butique outra vez porque eu tinha espaço - eu tinha três dormitórios, tinha o quarto da empregada, era grande meu apartamento. Eu tinha que fazer alguma coisa. Eu queria lecionar piano, ninguém tinha piano em Santos naquela ocasião. Em Brasília também, ninguém tinha piano. Eu queria lecionar, eu lecionava piano, senti falta.

Eu tinha que emprestar meu piano, é caro - é [do tamanho de] uns cinco pianos alemães, até de cauda. Eu não queria que ninguém tocasse no meu piano. Eu não ia ter paciência, via um entrando na minha casa, sem estudar. Então não pude lecionar. Em Santos, a mesma coisa. Eu disse: “Lecionar não é comigo mais”. Aí botei as minhas maiores [na escola], ensinei para elas, depois botei professora, aí montei minha butique. Eu tinha que fazer alguma coisa.

P/1 - E como era essa butique?

R - Eu comecei a trabalhar no consulado argentino, mas meu marido… Acho que era ciúme, não sei. Eu perguntava pras meninas se ele tinha ciúmes, elas dizem que não.  

P/1 - Mas começou a trabalhar quando estava morando em Santos?

R - Em Santos. Foi antes de abrir butique. Eu tinha que fazer alguma coisa, minhas filhas na escola, eu levava de manhã e à tarde. À tarde e de manhã, o que eu ia fazer? Minha mãe veio ficar uma temporada comigo. Falei: “Mãe, é hora de a senhora ficar aqui comigo.” Minha irmã vendeu a casa dela, que era [perto] do aeroporto; era barulho de avião, essas coisas… Estava construindo a casa pra ela. Minha mãe não podia mais ficar com ela, veio ficar comigo. Falei: “É hora de eu começar a trabalhar.” Fui trabalhar no consulado argentino.

 

P/1 - Mas como foi isso? Como que foi essa ideia de ir até o consulado argentino?

R - A minha cunhada, a tia dela aqui em Santos, trabalhava no consulado argentino. Estavam precisando de uma pessoa. Ela falou: “A Ruth quer trabalhar, ela vai trabalhar lá”. E lá fui eu. O meu trabalho era pegar o telefone pra falar o dólar, a valorização do dólar do dia. Era isso que eu fazia: a cotação do dólar, atendia as coisas, mas meu marido… O correio era perto, na praça, e eu ia com o carro. Já tinha aprendido a dirigir; eu deixava [o carro] na vaga dele, no correio. Ele não se conformava de eu ir e ficava...

O cônsul morava perto de mim e vinha me trazer. Ele não se conformava. Acho que ele pensava que eu estava namorando com o cônsul, mas ele era velho. Como ele era velho também, ele pensou: “Vai ver que...” Então ia todo dia me buscar. Às vezes, eu estava no expediente e ele aparecia lá. Eu falei: “Sabe de uma coisa, mãe? Eu vou deixar tudo e ficar dentro de casa”. E larguei, falei: “Agora vou montar a minha butique e acabou”.

Peguei minha joia, taquei na Caixa Econômica, não queria nem o dinheiro dele. Taquei minhas joias na Caixa Econômica, fui fazer compra e botar a butique dentro da minha casa porque eu era independente, não podia depender de ninguém. Queria fazer alguma coisa. Queria lecionar porque sabia e não pude fazer, nem lá, nem aqui. Fui trabalhar, não deu certo. Falei: “Mãe, eu vou tacar minhas joias lá, vou fazer dinheiro e vou viajar”. E deu certo.

Minha aposentadoria do INPS [Instituto Nacional de Previdência Social, atual INSS] é da minha butiquezinha. Trazia coisa do Paraguai, viajava, ia pra Petrópolis - meu irmão morava no Rio e punha à disposição o motorista dele pra mim, ele trabalhava na Blindex do Rio. Tinha facilidade de fazer alguma coisa, tinha quem me ajudasse a fazer. Minha aposentadoria, eu recebo a do meu marido morto e recebo a minha. Eu queria fazer alguma coisa, não era mulher de ficar parada.  

P/1 - E como era a butique?

R - Era uma delícia. Vendia cashmere, que naquela época [a moda era] era cashmere, eu vendia em Brasília. Vendi joia também. Eu dava aula de piano em São Paulo, que eu tinha deixado, e meu aluno era da companhia de aviação libanesa que fazia aquele trajeto de Brasília. Eu comprava joia, essas pulseiras são do Líbano. Anel, que eu tenho de pérola... Eu comprava, vendia essas coisas. Fiz dinheiro, comprei meu carro, as minhas coisas. É isso, minha vida.

P/1 - Mas a senhora começou a dirigir? A senhora não contou, como foi isso?

R - Dirigir? [Comecei quando] Solteira, quando fazia 18 anos a gente dirigia. Eu queria fazer surpresa pro meu pai. Ele dizia pra minha mãe… Morávamos no décimo-quinto andar, na Brigadeiro Luiz Antônio. Meu pai dizia: “Vem um homem de Fusca buscar sua filha todo dia”. Eu estava aprendendo a dirigir, porque ele já tinha tido enfarto e não podia mais dirigir; ia para fábrica só de vez em quando examinar e ficava à tarde em casa. E quando o filho saía, ele já olhava na janela, para ver aonde ia e quem era que saía.

“Sua filha, vem todo dia um homem buscá-la num Fusca.” Não dava pra ver que era a autoescola, no décimo-quinto andar não dava pra ver mesmo. Eu queria fazer surpresa porque ele não estava dirigindo mais. Meu irmão, que dirigia até o caminhão da fábrica, já tinha morrido. Eu falei: “Vou fazer surpresa pro meu pai, vou aprender a dirigir”. No dia que marcaram meu exame, estava saindo, meu pai tinha morrido. Não chegou nem a ver minha carta de motorista. Não viu. Não viu um neto.

P/1 - Em relação à butique, como eram essas compras para a butique? A senhora ia sozinha e comprava?

R - Não, com meu marido. Ele era meu companheiro de ‘coisa’, viu? Eu não sabia quanto custava um pão, ele fazia tudo pra mim. Pra essas meninas também.

P/1 - E as freguesas? Como era a relação da senhora com as freguesas?

R - Minhas freguesas foram aparecendo, uma falando pra outra. Vendia muito maiô, muita coisa, coisa que vendia... Tinha bastante freguesa.

P/1 - É?

R - Basta dizer que eu pude... Com meu dinheiro eu comprei um carro naquela ocasião.

P/1 - E a senhora tinha paciência? Nunca chegou a acontecer algum problema com nenhuma freguesa?

R - Problema era com meu marido, porque ele falava: “Ruthinha”. Toda hora me chamava. Eu estava com as minhas freguesas, não sabia se o atendia ou se atendia... Foi um sacrifício, mas durou! Dava pra fazer lição com as minhas filhas, fazia comida; desligava a panela, atendia freguesas que não tinham nada o que fazer, que tinham cozinheira, que vinham de manhã. Era dureza, eu mandava só vir de tarde, mas vinham de manhã.

Sabe o que é fazer tudo de uma vez só? E eu queria fazer. Quando a gente quer, consegue. E deu tudo certo.

P/1 - E a butique funcionou durante quanto tempo?

R - Olha...

P/1 - E tinha um nome, a butique?

R - Tinha. Tem os cartões até hoje. Fiz tanto cartão que... era Ruth Novidades. E o nome da minha rua... Meu telefone era 333333, naquela ocasião.

P/1 - Nossa, era fácil de guardar.

R - É.

P/1 - Então, quanto tempo funcionou a butique?

R - Bastante tempo. Deixa eu ver... Depois eu me aposentei por idade... Quando eu fiz 60 anos, me aposentei do INPS por idade. A Tetê dizia: “Mãe, paga mais dois anos, mãe”. Ele começou a ficar doente... Não tinha convênio de saúde, porque ele era funcionário federal e tinha aquele maravilhoso hospital em São Paulo, então nunca ele quis fazer um convênio... Estavam em greve quando ele morreu em 1990, num apuro desgramado. Falei: “Eu vou me aposentar do INPS, já estou com 60 anos e vou comprar um convênio de saúde dentro do hospital em São Paulo”. Meu convênio, fui eu que comprei dentro do hospital porque ele estava sem nada, foi o maior sacrifício da minha vida. Você sabe, sem convênio hoje e o INPS de greve naquela ocasião, aquela greve bárbara no INPS e ele morre naquela ocasião do Collor, que pegou o dinheiro. Só pude tirar 1,5 mil de cada banco e ele morto, fazer enterro… O governo pagou, mas demorou meses pra pagar. Foi um sacrifício danado, mas pensei que não fosse vencer na vida e estou aqui, morando sozinha no mesmo apartamento. Viajando, passeando, estou aqui.

P/1 - Mas ele ficou doente, o que aconteceu?

R - Câncer. Tanto é que eu recebo a pensão integral pela doença. Cinco meses e ele morre. Operou, pensamos que ele ia viver cinco anos e ele morre em cinco meses.

P/1 - E assim...

R - A Tetê, minha filha, já estava casada...

P/1 - A Tatiana também?

R - A Tatiana não, solteira. Foi ela que acompanhou o pai, quando nasceu o primeiro filho dela. Foi o único neto que ele segurou no colo e não aguentava nem segurar o filho dela. Ela morava em Mogi [SP].

P/1 - E depois que ele faleceu, a senhora tocou ainda por um tempo a butique?

R - Não, acabei com tudo. Ele me acompanhava com tudo, né?

P/1 - A senhora parou?

R - Acompanhava... Acabei [com] minha butique.

P/1 - Você colocou aqui viagem, como é isso pra senhora? Essas viagens? Que viagens são essas?

R - Pra fazer compra?

P/1 - É.

R - [No] Final de semana, eu ia com o ônibus da agência da Bernardino de Campos. Já ia todo… Não tinha esse ‘coiso’, desses camelôs viajar. Eram chiques os ônibus, tinha até lugar pra jogar baralho de noite. Era uma delícia, minha filha, era uma diversão. E ele, indo comigo também...

P/1 - E hoje em dia como é a vida da senhora?

R - O meu dia?

P/1 - É, como é o dia da senhora?

R - É o dia de uma aposentada, que não faz mais nada. Uma vida tranquila. Sou uma mulher feliz.

P/1 - E a senhora gosta de passear?

R - É, eu passeio mais com as minhas filhas. Viajo muito com a Tetê. Viajei duas vezes de navio… Duas, três vezes. Fui com minha irmã, essa que faleceu. Passeio bastante, mas não sou assim, [de ter] vontade de sair, não. Ele gostava muito de sair e eu não gostava de sair, porque às vezes eu começava a fazer minhas coisas de casa, nunca tinha tempo pra nada…

Hoje eu sinto remorso. Hoje, [se] eu quero, ponho meu carro às cinco horas na garagem, tenho vontade de sair à noite e não tem com quem sair. Saio de manhã, vou pra banco, faço minhas compras, faço minhas coisas… Às cinco horas ponho o meu carro na garagem, porque minha garagem é em prédio antigo, não é coletivo, não, é minha. O meu carro é grande, então eu ponho... Tem três blocos que cabe o meu carro. Às cinco horas estou lá, pra não brigar lá dentro. Quando eu fui pra lá, só tinha um Fusca. Era o único Fusca da garagem. Mas hoje meu carro é grande, não tem lugar pro meu. Só três garagens.

Então chego às cinco horas e fico na minha casa. Fico vendo televisão. E não abro nem meu piano. Hoje me arrependo. Antes, eu punha a culpa nos filhos, no marido, não abria o piano. E não podia lecionar. Hoje, que tenho a vida minha, não abro o meu piano. De vez em quando, quando estou triste, eu fico tocando. Mas fico cansada, me dá dor nas costas. Fico enjoada, está na hora da minha novela, então... Eu fico escrava da televisão.

P/1 - Desta fase mãe, que a senhora.... Uma perguntinha pra senhora...

R - Faz, faz...

P/1 - Se a senhora não se incomodar.

R - Pois é, você não fez pergunta, só eu que falo! Meu Deus...

P/1 - Mas é assim mesmo. A senhora deve ter visto o meu roteiro, porque a senhora falou tudo que a gente ia perguntar.

R - Vi nada.

P/1 - Então ela não precisa de roteiro! (risos)

R - Mas fala seu roteiro, quem sabe esqueci de alguma coisa.

P/1 - Não, a senhora não esqueceu nada. Olhando a sua vida – o que a senhora relembrou dessa fase mãe, em que a senhora teve as duas filhas?

R - Olha, não foi tão ruim. Teve os seus tropeços, falta de dinheiro, mas foi tudo superado. Coisinhas assim, mas não é uma vida maravilhosa. Ninguém é feliz por inteiro.

P/1 - Sim. Mas...

R - Tem os seus ‘coisinhos’, mas fomos vencendo, eu e ele.  

P/1 - Que momentos dessa fase a senhora diria que foram muito marcantes? Ou dos seus filhos ou da senhora, coisas que aconteceram...

R - É.

P/1 - Que a senhora se lembre? Tem...

R - Marcante?

P/1 - É.

R - Foi a doença da Tetê, que sofreu muito, que eu fiquei... Foi a única vez que eu emagreci na vida. A doença dela…[Medo] De perder uma filha. Era impressionante como deixam uma criança. E foi bem na perninha, a gente via a marca, ela não sabia o que era aquela marca. Era onde a pomba a mordeu. Ela ficava de fraldinha, tomando sol.

Foi impressionante a minha vinda pra cá. Hoje, se estivesse em Brasília, talvez eu tivesse uma ‘lojona’. Todo mundo que ia à minha casa queria abrir [loja] pra mim. Os bancos que iam abrindo, os gerentes de banco que a gente conhecia… Talvez hoje eu tivesse uma ‘lojona’, mas não tenho remorso de nada, minha vida foi até feliz. Com queda aqui, faltando dinheiro ali, mas foi tudo vencido.

P/1 - A senhora se lembra dos momentos em que as suas filhas começaram a andar, começaram a falar?

R - Lembro demais. Elas andaram em cima da Catedral de Brasília. Ele queria mostrar tudo, gostava de sair toda hora. Sair era com ele mesmo! [Tem] muita foto, muita fotografia dessas meninas pequenas, era a paixão da vida dele. [No] Carnaval, fantasia; botava costureira para fazer roupa para essas meninas, depois você vê as fotos. Era uma coisa, era a paixão da vida dele.

P/1 - A senhora chegou nesta época a pular Carnaval?

R - Nossa! Os carnavais de Brasília… Os homens se vestiam todos de mulher.  Eu tinha meu enxoval; meus irmãos, quando iam lá, minha cunhada, todas se vestiam com as minhas camisolas de mulher. Era bem animado mesmo.

P/1 - E a senhora também se fantasiava?

R - Ah, tudo.

P/1 - O que a senhora... Que fantasias a senhora chegou a vestir?

R - Não, eu não punha a fantasia. Eu sou frustrada porque eu gostaria de ter uma bela fantasia. Fiquei sócia do Caiçara [Clube], pra pôr aquelas fantasias do Caiçara, que fazia aqueles bailes. Quando nós entramos como sócios, faliu o Caiçara. Sou frustrada para pôr uma bela fantasia, mas em compensação, minhas filhas botavam.

P/1 - E de músicas de Carnaval que a senhora lembra? Tem alguma marcante?

R - Todas. Teve agora a novela daquela artista… Eu cantava todas, minha filha.

P/1 - Tem uma preferida?

R - Você viu? Você assistiu a novela?

P/1 - A Dalva [de Oliveira]?

R - Coisa mais linda, viu? Tudo.

P/1 - E tem alguma música predileta?

R - Ah, eu? Música minha com meu marido. Quando nós fomos para o Rio, eu já o tinha conhecido, mas não estava firme o namoro.

P/1 - Como que é essa?

R - E quando a gente... “É tão claro”, do Moacir Franco. Conhece?

P/1 - Canta um pedacinho.

R - [Entrevistada canta]. “É tão claro à noite, a noite é de nós dois, ninguém amou assim...”. Ah, não vou cantar...

P/1 - Ah, é tão linda (risos). É pra registrar mesmo.

P/1 - Que lindo. Nossa, então a senhora aproveitou bastante essa época!

R - Era feliz… Era feliz...

P/1 - A senhora, olhando essa trajetória… A senhora fez muita coisa, aprendeu muita coisa...

R - Vi uma cidade crescer. A gente tem que fazer três coisas na vida: ver uma cidade crescer, plantar uma árvore e ter filhos. Eu vi uma cidade crescer: Brasília hoje é a capital do Brasil.

P/1 - E além de ter visto Brasília, a senhora viu Araçatuba.

R - Araçatuba também. Isso na minha infância, mas a que marcou mais foi Brasília, onde eu fui, fiz a minha vida sozinha. Formei a minha família lá.

P/1 - E se a senhora pudesse dizer de lições que tira nessa trajetória, que lições a senhora...

R - Morar em Brasília, eu não moraria mais, se bem que está linda. De lição? Tanta coisa... O que eu vou dizer?

P/1 - Aprendizado? O que a senhora aprendeu?

R - Eu aprendi tudo. Minha vida, tanto da parte sexual que eu não conhecia nada, nunca pensei que um dia eu ia... Era restrita essa parte. Tudo conheci com meu marido. Se foi boa a minha vida, eu também devo muito a ele. Um homem vivido me ensinou tanta coisa boa. Os defeitos dele eu quis corrigir;  deixei, selecionei, mas não corrigi tudo, porque era muito antiga a vida dele. Ele cedeu muita coisa. Jamais jogou, mas baralho ele pegava todos os dias; hoje eu sinto aquele barulho do baralho, quando fico sozinha na minha casa. Jogava paciência. Se ele fosse do tempo do computador, ele largaria o baralho e ficaria jogando o baralho no computador. Ele deixou de jogar, não frequentou mais cassino...

Ele era mágico. Ele foi da polícia marítima de Santos; ensinaram essas mágicas pra ele. Era mágica mesmo, assustadora. Ele pegava o baralho, não saía do lugar. [Em] uma das mágicas, ele falava: “Você quer se casar com loira, morena?” Aquilo aparecia. Essa é uma mágica mais comum, mas a dele, a mágica que impressionava mesmo… Ele pegava o baralho e falava: “Vamos buscar este baralho lá em cima do piano, embaixo do travesseiro” e o baralho estava lá, sem levantar. Era impressionante.

O homem falou pra ele: “Eu vou ensinar, mas você nunca vai ensinar pra ninguém”. E ele levava cigarro. Ele prendeu o homem, foi quando levou uma pancada também na perna, ficou com uma ferida até que... Isso ele conta pra mim, não era do meu tempo. Que custou… Num navio, quando ele foi prender o homem, ele se machucou naquela coisa de ferro da escada de ferro do navio. Ele levava cigarro pra ele; era um homem que o que era dele, dava pra todo mundo. O que pudesse ajudar, ele ajudava. E ele [o homem] ensinou pra ele essas mágicas. Era impressionante, de assustar mesmo. Não posso perguntar pra ela [a filha], ela assusta até hoje (risos). Todo mundo lembra do Rossi fazendo as mágicas dele.

P/1 - Olhando a sua vida, se a senhora pudesse pensar numa imagem, que imagem que simbolizaria sua vida? Ou um cheiro que lembra a sua vida?

R - O cheiro era o dele. Até hoje, de vez em quando eu sinto, sabe? Quando eu penso nas coisas dele. Era aquele perfume… Ele era perfumado, usava perfume como água, então [era] aquele cheiro de perfume que fica na minha casa. E a gaveta que é só dele, ainda. Os baralhos... está tudo lá. O baralho dele eu dou, as minhas filhas brincavam com eles, a gaveta que ele ocupava guardava o baralho, ele punha...

A minha mesa era a mesa que veio do meu pai e é toda trabalhada, antiga... Hoje minha casa é o retrato do meu pai. Tudo ficou com meus irmãos; eles foram morrendo, veio pra mim. Hoje a minha casa é o retrato da casa dos meus pais. É linda, a minha casa. Os móveis antigos… Eu falo pras meninas: “Ou compro um sítio pra levar tudo aquilo ou doa para a Globo, que ela compra, ou vai pro Museu do Ipiranga, porque no Museu do Ipiranga os móveis são do Liceu de Artes e Ofícios. Só no Museu do Ipiranga tem duas cadeiras. Quando eu levei minhas e meus netos [ao museu], falaram: “Vó, olha a cadeira da sua casa”. Eu falei: “Se ninguém quiser os móveis, manda em nome do meu pai pro Museu do Ipiranga”.

P/1 - E cada móvel tem uma lembrança?

R - A minha irmã morreu; a cama dela está comigo. Ficou apertado no quarto.  Tenho medo de bater a minha perna por causa destas minhas meias, nas minhas varizes, mas está tudo lá. Os criados-mudos custaram pra chegar. Este ano foram os criados-mudos dela.  

P/1 - Nossa! E cabe tudo lá?

R - Tudo, tem que caber. É a casa do meu pai. Quando eu me for, elas vão… Eu já recomendo: “Faz isso.” Tudo recomendado. O piano é da Tetê, o carro ficou pra outra do pai. O meu, não: é meu ainda, é pros meus netos. Eu não pago IPVA, é um carro antigo, tem 65 mil quilômetros só. Só foi meu, nunca ninguém dirigiu. É pra vender como antiguidade, novinho ele está. Onde eu vou, vem um cartão de um homem querendo comprar. É pros meus netos. O resto está tudo dividido. O piano é da Tetê, que estudou, a outra não quis estudar e o carro ficou com o pai. Hoje ela já vendeu, já comprou outros...

P/1 - Olhando essa trajetória que a gente pôde fazer aqui, o que a senhora diria que foi uma realização na sua vida?

R - O que eu quero na minha vida?

P/1 - O que a senhora realizou? Depois a gente...

R - O que eu realizei?

P/1 - É.

R - Acho que tudo, não me faltou nada.

P/1 - E pra realizar?

R - Pra realizar? Eu vou pra Argentina. Quero ir pra Argentina. Eu ia pro Paraguai, ia pro Uruguai, mas eu quero ir pra Argentina. De avião, não quero ir de navio; quero ir de avião, pra ir à noite. Dormir de dia e sair para ir na noite do tango, porque ele cantava tango, meu marido dançava tango. A Tetê dançava tango com ele porque eu era uma péssima bailarina. Nunca tive perna boa, usei muito aparelho ortopédico, por isso que arrebentou minhas pernas.  Não foi tanto de Brasília não, eu usava muito aparelho e minha perna ia batendo uma na outra, foi coagulando sangue, foi me dando trombose. Mas eu quero ir para a Argentina e acabou. Não quero ir pra nenhum lugar, não quero ir de navio nem nada. [De] Navio já viajei três ou quatro vezes, não quero ir mais. Quero ir pra Argentina.

P/1 - E está programado?

R - Está programado, estou esperando agora. Já me deu a passagem.

P/1 - Então, o sonho está prestes a realizar?

R - A realizar? Não sei se vai realizar. Nós vimos… Veio a gripe lá da Argentina, não fui. Falei: “Será que eu vou antes de morrer pra Argentina?” (risos). Não quero ir em sonho, quero ir mesmo.

P/1 - A gente está finalizando. Tem alguma coisa, você quer falar alguma coisa?

R - Bom, eu quero dizer o seguinte: que eu sou feliz com as minhas filhas... (choro)

P/1 - Pode parar. Você quer falar alguma coisa, Marina? Pode beber água...

R - Não dependem de ninguém, trabalham, ganham o dinheiro delas. Tanto a Tereza como a Tatiana. Formada, é psicóloga, pedagoga de deficiente, hoje é a diretora de uma escola no Guarujá. Eu reclamo porque ela trabalha muito, ela diz: “Mãe, eu faço o que eu gosto.” “Então faz.” Só que ela está largando os filhos um pouco. Estão na mão do marido, que está aposentado. [São] Dois genros maravilhosos que eu tenho, viu? Essa trabalha muito, outra trabalha muito, os maridos têm que ajudar. Eu falo: “Vocês são abençoadas.” Mas elas são independentes, ganham o dinheiro delas. O que mais eu quero, fala?

P/1 - E têm um exemplo. Uma mãe que batalhou.

R - Eu não preciso delas. Ele me deixou a pensão dele, eu tenho a minha. Elas têm a vida delas, não precisam de ninguém. Se um dia uma fatalidade acontecer… Não vai acontecer, se tivesse que acontecer, já tinha acontecido.   Hoje os filhos estão quase moços, já estão na faculdade, que mais eu quero? Nada mais. Sou uma mulher feliz.

P/1 - Só uma coisinha... E os netos? A senhora falou de netos...

R - É.

P/1 - Quem são, qual o nome dos netos? Quantos anos?

R - São quatro netos: três homens e uma mulher. O mais velho é Caio; o outro é João, que é o nome do meu pai. Foi a única que deu o nome do meu pai, João Vitor, como ela recebeu o nome da Tereza Cristina, da minha irmã. O outro, da Tatiana, é a Júlia, a menina; e o Ivan, que é filho da outra também. São dois da Tereza e dois da outra.

P/1 - E a avó... E quanto a avó?

R - Como, avó?

P/1 - A gente sabe da experiência de mãe. E a experiência de avó?

R - Experiência de avó? Eu sou uma avó que não vai muito na casa dos meus netos. A Tatiana disse: “Mãe, os meninos vão esquecer de você”. Eu falei: “Não vão esquecer de mim porque ela fala no telefone comigo: “Vó, eu amo você”. Não sou avó de ir lá. Eu quero chegar na casa dos meus netos [como] visita, é a hora que eles vão gostar mais de mim. Não sou avó presente. Na Tetê, vai fazer quase um ano... Eu venho mais na Patrícia porque [quando] morreu minha irmã, ela me adotou como filha. Agora eu tenho mais uma filha.  

Elas trabalham o dia inteiro. [Pra ficar] Sozinha, eu fico na minha casa, você entendeu meu problema? A outra trabalha o dia inteiro. Eu vou ficar olhando a cara da empregada? Eu não vou. Quando eu posso, quando fico doente, meu genro é que me leva nos médicos. Quando é médico de urgência, como minha perna, ele me leva porque a outra está trabalhando. Como é que eu vou na casa das minhas filhas? Mas eu fico feliz, porque elas têm a vida delas. Estão se realizando, pelo jeito. Se elas estão trabalhando, é porque gostam de fazer o que fazem.

P/1 - Como a senhora mostrou, fazer o que gosta.

R - Como na época não pude trabalhar, tive que ter a minha butique para satisfazer meus desejos. Não pude lecionar, trabalhar fora, então... Mas quando eu trabalhei - trabalhei num banco também, mas fiquei muito pouco tempo, fiquei um ano. Só que morreu o meu pai e eu tive que ficar com a minha mãe, então não consegui trabalhar fora.

Trabalhei no Bonfiglioli, no banco. Fazia cálculo de juros, mas fiquei um ano só. Gozei minhas férias em Lindoia com o meu pai. Com o meu dinheiro, as minhas férias. Então, foi o que eu pude. Logo depois ele morreu, eu tive que ficar com a minha mãe.  

P/1 - A senhora não tinha contado isso pra gente. Foi seu primeiro emprego?

R - Foi o meu primeiro emprego.

P/1 - É, mas como foi isso?

R - Depois de casada, eu trabalhei também pouco tempo no... Nem pude ser registrada. No banco eu fui registrada.

P/1 - Que banco que a senhora trabalhou?

R - Auxiliar de São Paulo, de Bonfiglioli. Os filhos acabaram com o dinheiro dele também.  

P/1 - Então quantos empregos a senhora teve?

R - Eu tive dois.

P/1 - Foi esse primeiro...

R - É. O Bonfiglioli foi um [emprego] que eu cheguei a gozar férias; logo depois o meu pai morreu. E esse em que eu trabalhei pouco tempo também, no consulado argentino em Santos. O resto, por minha conta. Eu era dona de mim mesma.

P/1 - E essa autonomia, que passou um exemplo pras suas filhas.

R - É, não era uma grande coisa, mas pra mim foi muita...  

P/1 - Muita coisa, bastante.

R - Eu me realizei. Um pouco, mas me realizei. (risos)

P/1 - A senhora gostaria de deixar mais alguma coisa registrada?

R - Não, não tenho mais nada. Que eu sou feliz.

P/1 - E o que a senhora achou de dar um depoimento aqui pra gente ajudar, construir o acervo?

R - Eu vir aqui? Olha, eu estou esperando… Há um ano a Tetê me falou, sabia? Nunca coincidiu. Como agora eu estava... “Mãe, venha, que agora está mais perto pra senhora vir”. E ela vai me deixar lá outra vez. Vou pra Lindoia com eles também, passar cinco dias lá, depois vou embora pra minha casa.

P/1 - Que bom. A gente agradece demais o seu depoimento...

R - Eu que vou agradecer vocês... Todo mundo, meus netos, está todo mundo esperando isso, viu?

P/1 - Pra gente é uma honra ter o depoimento da senhora aqui...

R - A honra é minha, meu Deus. (risos)

P/1 - Obrigada mesmo, muito obrigada.

R - Obrigada a vocês também.


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