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Viagem da vida

História de: Pier Luigi Gianni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/04/2019

Sinopse

Nascido em 1933 e educado na Itália fascista, Pier Luigi Gianni, vem para o Brasil na década em 1946, fugindo da Segunda Guerra Mundial. Lidando com os conflitos de uma criação distinta da do Brasil, o toscano reaprende a viver se consolidando junto à família na capital paulista. Se forma em direito, cuida de comércios familiares e presencia as agitações politicas e sociais que caracterizam o século XX ao redor de todo o globo terrestre. Hoje em dia trabalha como síndico no prédio onde vive, em Perdizes.

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História completa

P – Por favor, seu nome completo, local e data de nascimento

 

R – Pier Luigi Gianni, nasci em 17 de julho de 1933, em Lucca, na região Toscana, Itália.

 

P – Por que o senhor veio para o Brasil?

 

R – Vim acompanhar minha família, meus pais. Vim com 13 anos e não vim de livre e espontânea vontade. Vim acompanhando meus pais que vieram para o Brasil logo após a guerra, visto que aqui em São Paulo tinha o resto da família. Quer dizer... Os meus tios, irmãos dos meus pais, que nos chamaram para vir. Após aqueles terríveis anos de guerra vividos na Itália, vieram para ter uma chance de sair fora daquele holocausto, daquele desastre. Todo o mundo conhece, não sei se vale a pena relatar alguma coisa da guerra.

 

P – Alguma coisa que o senhor se lembre…


R – Lembro, são fatos marcantes. Por exemplo, eu tive um trauma de guerra que era o problema do avião.

P – Como assim?

R – Eu fiquei traumatizado com os bombardeios de guerra. Eu via os aviões passarem e tremia. Aqui mesmo no Brasil, quando os aviões eram ainda turboélice, eu pulava na cama. Eu lembro do exército italiano, do alemão, aquele contato com os ingleses, com os americanos. Os primeiros negros que vi foram prisioneiros de alemão.

P – Que negros eram esses?

R - Eram negros feitos prisioneiros, agora não me lembro se eram do exército americano, ou de outro. O exército americano... Na primeira linha grande parte eram negros, infelizmente. Eram jogados todos para a primeira linha de combate. Mas isso é mais uma observação empírica e não sei se era realidade. Acredito que seja. Fui marcado pela necessidade básica que uma população sofre. Entre comidas, ensino... Tudo isso foi dificultoso durante a guerra. Para mim, politicamente, eu sofri. Sou um cara que não sei se sou fascista, mas o fascismo foi uma coisa importante na minha vida, porque recebi uma cultura fascista até os 12 anos. Depois acabou o fascismo e entrei na democracia. Disse “não, tudo errado, democracia.” E vim para o Brasil, país democrático, não sei. Então ficou uma marca importante dentro da minha vida que marcou muito. Tudo na minha vida era movido pelo fascismo, partido totalitário...

P – E como foi a sua educação fascista?

R – A escola. Tudo que iniciava na escola elementar, primeiro ano do primário. Você era inscrito no partido, querendo ou não querendo. Era compulsório. Tinha todos os finais de semana, aos sábados tinha as reuniões em que vinha o chefe do partido e dava as suas aulas e preleções sobre o fascismo. Tinha desfile militar, para jovem moleque davam um fuzil de brincadeira, nós tínhamos farda...

P – Não eram os bersaglieri?


R – Não, bersaglieri era do exército. Os meninos… Eu era figlio della lupa... Da loba romana, de Rômulo e Remo. Dos seis anos até oito, não me lembro bem, era figlio della lupa. Depois vinham os Dalilas, depois vinham os vanguardistas, que eram os jovens vestidos de militar, com punhalzinho, e depois passava a jovem fascista. Isso era a hierarquia fascista. E tinha o exército, que era o exército regular, que aí era...

P – Era Balila que eu queria dizer.

R – Mas antes do Balila tinha o figlio della lupa, a Loba Romana, de Rômulo e Remo.

P – Vocês tinham uma doutrinação fascista.

P – Puxa, bastante. Tudo era em volta deles. Desde ordens militares, de encontrar o chefe e dar o saluto fascista, que era levantar o braço, tudo era movido...

P – Mas o senhor gostava, pelo jeito.

R – Eu gostei, qual é a criança que não gostaria? Eu gostei. Mas, se fosse hoje… “Você é de um partido totalitário ou democrata?” Acho que a democracia é... Até hoje, pelo que estudei, pois me formei em direito, acho que com todos os seus defeitos, a democracia ainda é o melhor governo.

P – Onde o senhor se formou em direito?

R – Aqui em São Paulo, na FMU [Faculdades Metropolitanas Unidas].

P – Interessante isso. Mas, quando o senhor fez a travessia...

R – Ah, isso foi uma outra aventura. Uma aventura bem grande. Nós saímos da Itália em 1946, com a Itália toda destruída, as ferrovias todas destruídas, as casas todas caídas, bombardeadas… A gente pensava que, a Itália, a Europa, nem daqui 100 anos iria reerguer. Depois com o Plano Marshall... Mas isto é outro assunto. Fomos para Gênova, embarcamos em um navio que se chamava Almirante Alexandrino, do Lloyd Brasileiro, um navio bem pequeno, que demorou 30 dias para chegar no Rio de Janeiro. O navio parava para conserto, ninguém percebia se ele estava parado, se estava andando. (risos) Passamos por Gênova, Napoli, Estreito de Gibraltar, ali parou. Porto, em Portugal, encheu de português, Lisboa encheu mais ainda. Os corredores ficaram lotados, dormia-se no chão, e não tinha médico, tinha só uma enfermeira. Desculpe, não sou racista, eu gosto e tudo, (risos) mas era uma negrona bem gordona, que me marcou. Eu lembro até agora.

P – O senhor só tinha visto os americanos?

R – É. Foi difícil a viagem. Apesar de que, para mim, como criança, era aventura. Não tinha piscina, não tinha cinema, não tinha nenhum divertimento. Era um naviozinho do Lloyd Brasileiro. Chegamos quase a ficar de quarentena. Teve duas crianças que morreram. Uma delas vi jogar ao mar na prancha, me marcou.

P – Mas foi doença?

P – Doença…. Vai ver era infecção, não lembro qual foi o motivo.

P – Não era peste?

R - Não, mas nós quase fomos para quarentena, modo de dizer. Desembarcamos no Rio. Nossos parentes viam telegrama naquela época, conseguiram vir ao Rio. O destino era Santos, mas eram mais sete dias e ninguém aguentava mais o navio.

P – Sete dias entre Rio e Santos?

R – Sete dias entre parada no porto. Paramos em Recife... Esqueci de falar, foi onde comi o primeiro abacaxi! Adorei, comi ele inteiro, foi uma surpresa. (risos) Então descemos para o Rio e desembarcamos. Fizemos a Dutra de terra. Chegamos em São Paulo e meu pai mais dois tios ficaram no Rio para fazer o desembarque. Naquele tempo eram os famosos baús, para mandar para São Paulo. Eles viriam de avião. Chegamos em São Paulo, tinha um jantar preparado, mas então veio uma notícia, não sei de onde, de que o avião tinha caído. E caiu mesmo. Só que meu pai e meu tio não tinham achado passagem no avião e vieram de trem. Mas até aquele tempo, a comunicação... Passamos o primeiro grande susto no Brasil. Então passei a morar três ou quatro meses no Brás, na casa da minha tia. Enquanto isso, meu pai procurava uma casa.


P – Como era o Brás nessa época? O senhor lembra?


R – É, lembro um pouco. Eu lembro que era característico, porque era dividido entre espanhóis e italianos. Tinha umas ruas de espanhóis e outras de italianos. Aqueles famosos cortiços. Naquele tempo se falava cortiço.

P – Isso.

R – Os cortiços ali da Carneiro Leão. Mas fiquei pouco tempo.

P – E como é que....

R – Mas depois vim morar na Água Branca, aqui em São Paulo. E daqui nunca mais saí.

P – O senhor morou no cortiço no começo?

R – Não, não. Moramos em uma casa, em um sobradinho, na rua Wanderkolk, no Brás. Depois, naquele tempo era difícil achar casa para alugar.

P – E na Carneiro Leão, o que era?

R- Nós só passávamos na frente.

P – Depois do Brás o senhor foi para onde?

R – Na Rua Coriolano 190, mais ou menos. Entre Água Branca e Pompeia, porque ninguém sabe ao certo as divisões.

P – Como era o bairro?

R - Chegamos em 1947. Era uma rua de terra totalmente, sem luz e sem saída. A Coriolano ainda estava interrompida no início devido a passagem de um rio, um riachinho que não era canalizado ainda naquela época. Fiquei até 1954, acho que por aí. Em 1956 fui morar na rua Clélia.

P – Como era ali na época?

R - A Clélia era uma rua bem movimentada, com duas mãos de trânsito ainda. Hoje é uma mão só. Passava ônibus para a cidade, mas era um bairro onde tem bastante de origem italiana. Muito. Água Branca, Lapa, Guaicurus... Muitos italianos de Lucca, também.. Minha turma era da Praça Cornélia, onde tem a igreja, éramos uma turma metade de origem italiana e metade de origem árabe. (risos) Tinha os árabes...

P - Como era, se davam bem?

R - Era uma turma muito boa, não havia racismo, só brincadeiras. Foi muito boa. Estudei no colégio Campos Salles, até 1952. Fiz o comércio básico, chamava na época, não me recordo. Depois por motivos de trabalho, motivo de família, precisei parar de estudar. Só trabalhei. Estava trabalhando já no White Martins, depois trabalhei na Goyana, de plásticos, e nessa época comprei um restaurante, em participação, o restaurante Bologna, na cidade.

P – Espera um pouquinho. O senhor falou que trabalhou na Goyana.

R – Goyana de plásticos.

P – Nem existe mais.

R – Não. Depois cresceu muito, foi para Anhanguera e dali quebrou. (risos)

P – Depois da Goyana o senhor foi...

P – Pro restaurante. Aliás, fui trabalhar no laboratório Carlo Erba, italiano. Que também não existe mais no Brasil.

P – O que o senhor fazia lá?

R – Sempre na parte administrativa. Depois, compramos um restaurante, eu entrei com um terço no Restaurante Bolonha, na Avenida da Luz. Grande, bom, ficamos até fechar. Fechamos por problemas familiares. É, aquelas sociedades familiares que não dão certo. E depois trabalhei com dois postos de gasolina, trabalhei com o atacado de madeira de Jacarandá, na época do Jacarandá da Bahia. Enquanto isso comecei a namorar e no fim casei com uma. (risos)

P – Ela também é de origem italiana?

R- É de origem. Pai italiano e mãe de origem italiana. Meu pai era italiano nato de Reggio Emilia, na zona do queijo. E ele tinha indústria de queijo. Fui trabalhar com ele e entrei de sócio com ele. Fiquei 30 anos trabalhando na indústria de laticínios. E neste ínterim voltei a estudar, me formei em direito e...

P – Está advogando?

R – Não, no momento, não.

P – Seu casamento foi em que ano?

R – Foi em 1970.

P – O senhor tem filhos?

R – Tenho uma filha, chama Alexandra Cocconi Gianni, está com 18 anos, cursando a faculdade de Turismo na Anhembi-Morumbi, fazendo o primeiro ano de turismo.

P - Onde o senhor trabalha atualmente?

R – Atualmente estou parado.

P – Está aposentado?

R – É... É. Mais ou menos. (riso)

P – Mas já fez muitas coisas em sua vida.

R – Fiz.

P – O senhor nunca advogou?

R – Não, porque sempre trabalhei na parte de indústria. Por isso. Estou pensando, mas não tenho coragem.

P – E a sua família toda que veio da Itália? Vocês ainda se frequentam?


R – É, viemos em 10. A família do meu pai, que era constituída por meu pai, minha mãe, eu, meu irmão Marcelo, minha irmã Lívia, meu tio com dois filhos, o Enzo e a Anita, e mais minha avó. Sendo que esses dois irmãos, que eram meu pai e meu tio, vieram encontrar mais três irmãos, todos em São Paulo. Ainda se frequentam a família, sabe. Mais ou menos, ainda dá. Mas São Paulo é muito grande, não incentiva. Cada um mora num bairro, uma distância. Enfim, é a vida. Às vezes vale mais um amigo que um parente.

P – O senhor voltou para a Itália?

R – Voltei duas vezes só.

P - O que achou de lá?

R – Primeira vez voltei em 1980. Fui conhecer a Itália, porque não conhecia. Saí de lá jovem, como falei, durante uma guerra e não conhecia nada da Itália. Fui conhecer agora em 1980.

P – Viajou toda a Itália...

R – Viajei bastante. A segunda vez voltei em 1989, viajei mais ainda. Aí levei minha filha também. Foi Itália, França, Suíça, Inglaterra, Holanda...

P – Só queria voltar um pouquinho. O senhor disse que desceu do navio e viajou na Dutra de terra, de carro.

P – De carro.

P – De quem era o carro?

R – Do meu tio, era um Nash.

P – Mas cabia muita gente?

R – Não, mas vieram dois ou três carros pegar a gente.

P – Isso para chegar em São Paulo mais depressa.

R – Não. Por motivo das condições do navio, que cansou todo mundo. Desde a comida até as acomodações, não tinha acomodações. Se eu relatar tudo o que passamos no navio talvez sofremos mais no navio que na guerra.

P – Não me diga!

R – É. Desde a comida, instalações, todo mundo tinha pago por cabine. E cabines não existiam. Eram salões em que a caminha, os beliches de ferro, trocaram os lençóis uma vez só. Se não me engano. Pagamos tudo por cabine, meu tio pagou. Não viemos como imigrantes.

P – Vocês não reclamaram?

R - O navio inteiro reclamava. Interessante no navio é que viajava conosco um corredor que foi famoso aqui no Brasil. Pintacuda. Estava no nosso navio.

P – Mas ele era simpático?

R – Ah, não me recordo esses detalhes. Nem me lembro, era menino.

P – Ele veio nessa bagunça toda?

R – É, só que ele veio numa classe ou cabine especial. Nem sei se tinha primeira classe, nem lembro, naquela época.

P – Mas é engraçado, porque quando vem pela imigração oficial, que é do governo, então são essas as condições no navio. Mas para quem paga...

R – Então, tudo pago. Mas foi o primeiro golpe do Lloyd Brasileiro, sabe que o Lloyd não era confiável...

P – Não, pode falar, tem que falar!

R – (risos) Tanto é que quebrou?

P – E vocês não tinham condições de reclamar nada.

R – Não me recordo. Eu, pessoalmente, não.

R – Sobre essa viagem de carro pela Dutra, do que o senhor se lembra?

R – Foi em dezembro, muito calor. Foi uma viagem desde manhã até à tardinha até à noite, 12 horas, por aí. Uma parada para almoçar no Clube dos 500, e paramos em Aparecida também, me lembro. Mas foi uma viagem difícil, não foi fácil. Você já imaginou fazer 400 e tantos quilômetros, estrada de terra, calor violento. Mas para nós, crianças, era tudo festa. Aquelas casinhas dos moradores, casa de pau a pique, é tudo diferente. Pra mim foi tudo aventura.

P – Em que ano foi mesmo o desembarque?

R - Dez de dezembro de 1946. Tinha 13 anos.

P – Como é a sua vida hoje?

R – Hoje, eu moro na rua Monte Alegre, aqui em Perdizes, é regular. Classe média, normal.

P – Como o senhor passa seus dias? O que o senhor faz?

R – Até pouco tempo, trabalhava. Agora, só trabalho em administrar o nosso edifício onde moro, mais outras propriedades para ver...

P – Vocês conservam o uso da língua?

R – Na minha casa, muito pouco. Costumo mais falar em português mesmo.

P – O senhor conservou costumes italianos?

R – Bastante.

P – Quais?

R - Na comida, mas na verdade sou eclético como tudo, sou de A a Z e é mais a minha esposa, que conserva, que é brasileira filha de italianos, que eu. Ela conserva hábitos, comida, a sopa, a polenta, eu já sou mais de moqueca, de feijoada. (risos). Sou muito mais eu que ela.

P – Como homem, pai de família, o que mais o senhor preserva dos costumes italianos?

R – Difícil pra mim dizer isso. Se eu conservo muito, não é isso? Vivo o momento... Não sou muito conservador. Não me julgo, pelo menos, muito conservador. Até que me dou muito bem com os jovens.

R – O senhor não é muito severo, como os italianos?

R – Dizendo como a minha mulher, sou um banana. (risos)

P – O senhor vai para a cozinha fazer molho, que é um costume italiano?

R – Não, eu até faria, faço alguma coisa quando minha mulher não está em casa. Que com mulher perto não dá para fazer nada. Terrível. (risos)

P - Então, acho que é por aí. O senhor tem alguma coisa a acrescentar?

R – Não, poderia apenas dizer que são 50 e tantos anos de Brasil. Graças a Deus tudo certo. Com os altos e baixos, como todo país. Politicamente falando, também já passei por uma ditadura, já passei aqui,( risos) renúncia, golpe de estado, enfim, faz parte do contexto sul-americano. Dinheiro então, os zeros todos. (risos) Mas graças a Deus sobrevivemos e estamos indo bem.

P – E do tempo da faculdade, o que o senhor lembra? Teve alguma coisa marcante?

R – É, da faculdade... Não foi muito marcante. Foi até normal. Porque eu pensei que devia ser uma coisa... Acho que a faculdade no Brasil ainda deixa a desejar. Porque devia ser mais aberta. É. É muito fraca, como todo o ensino, acho que está fraco. Eu estou dizendo aqui porque acompanhei minha filha aqui, não sei se lá fora também. Em outros países mudou tudo do meu tempo até agora. Aqui estou achando muito fraco. Demais fraco. Desde os professores. Acho que o ensino pago leva também a isso. Porque o ensino pago é um faturamento. Perde o princípio de saber ou não saber. Não passou, não passou... Que tem que passar porque tem que dar... Pagou? Acho que o ensino nosso é bem fraco.

P – Então é isso. Obrigada pela entrevista.

R – Foi um prazer.

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