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História

Vivendo do que se crê

História de: Pedro Francisco dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/02/2016

Sinopse

Pedrishna conta como foi passar a infância em Piracicaba, interior de São Paulo, numa era pré internet,  com brincadeiras de rua e comidas feitas da horta de seus pais. Ele relembra de seus primeiros estudos musicais, das bandas que montou quando adolescente em São Paulo e seu ativismo voltado a causas ambientais. Pedrishna, junto com seus companheiros, idealizou a Casa Jaya, um espaço eco cultural destinado a artistas defensores de questões ligadas ao veganismo e a ecologia, e que usam sua arte como expressão destas.

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História completa

O nome Pedrishna veio da cabeça do meu amigo Céu Azul. Ele falava que eu tinha energia de Krishna. Que Krishna é um Deus do hinduísmo, da Índia e a gente gosta muito. Apesar de eu não escolher como religião porque eu não tenho religião nenhuma, eu gosto de algumas coisas de cada uma. O Krishna tem uma energia muito de atrair coisas bonitas. E de ser meio arteiro também, o Krishna é bem criança, bem moleque, faz arte, ele é um deus todo engraçado. Não tem aquela postura de um deus sério que não erra e vai te julgar se você errar.

Nasci em Piracicaba, interior de São Paulo, assim como meu pai. A família dele veio do interior de Minas. Minha mãe veio do Espírito Santo, nasceu em Itaguaçu, mas ela só nasceu ali e foi morar em Piracicaba, onde conheceu meu pai quando tinha uns 14 pra 15 anos. Meu pai é um grande músico lá de Piracicaba, e na época minha mãe também cantava, ela era bem nova, tinha 16 anos quando engravidou. Ela foi super corajosa, um casal bem jovem, estava ali encarando mesmo a vida de pais, com uma casinha bem humilde, em Piracicaba, mas que tinha uma hortinha. Eu tive a benção quando bebê de ser alimentado só com papinhas feitas pela minha mãe com comidinhas que eles mesmos plantavam. A gente morou também num espaço cultural que meus pais criaram, de aula de música. E com dez anos eu vim morar em São Paulo. Eu tenho um irmão da parte da minha mãe, o Rafael. Ele nasceu quando eu tinha 11 anos. Fez eu ter várias reflexões, como foi a minha infância e como foi a infância dele. Pra começar pelas diferenças de como funcionava o próprio sistema. Quando eu era criança o capitalismo ainda estava numa fase muito menos consumista do que passou a ser nos anos 1990, depois do desfalecimento do comunismo, da queda do muro de Berlim e tal. O meu irmão tinha brinquedos e necessidades de consumo que eu nunca tive. Lenços umedecidos, até fralda, minha mãe usava fralda de pano. É muito menos ecológico, um absurdo o que se gasta em fralda descartável. Ele também teve que tomar leite industrializado, a papinha dele era papinha industrializada. E nessa que a gente cai um pouco nessas armadilhas do capitalismo, como que criam novas necessidades.

Eu não gostava tanto de estudar, mas ia muito bem na escola, no começo era meio superdotado, aprendi a ler e a escrever com quatro anos. A minha mãe conta a história que eu aprendi a escrever e ler totalmente sozinho. Na escola eu lembro que do começo, inclusive, eu não via muito sentido. Eu posso dizer que a escola me emburreceu bastante, isso é uma coisa que eu tenho muita consciência, que a escola conseguiu transformar uma criancinha cheia de talentos, um menininho precoce em muitas coisas, conseguiu me encaixar na média. Quando chegou a quarta série eu comecei a tirar nota baixa mais de propósito, a desencanar da escola e comecei a almejar ser o pior aluno pra ver se eu conseguia ter mais amigos, me enquadrar mais com os amigos mais legais. Daí eu mudei pra um colégio que tinha pedagogia construtivista. Foi uma ideia da minha mãe e do meu padrasto de me colocar numa escola que, que bem mais interessante. Mas ainda assim bem comum, não era aquela coisa super alternativa, então mesmo lá teve essa passagem, que inclusive uma dessas pessoas que me fez ser assim é o próprio Céu Azul que é meu parceiro.

A minha relação com a música foi de nascença, literalmente, da barriga. A minha mãe cantava grávida com meu pai em show. Minha relação com instrumentos foi de criança, na escola de música que meus pais criaram eu fazia aula, tocava flauta doce, fazia iniciação musical. Quando eu mudei pra São Paulo, logo que eu conheci o Céu Azul a gente montou uma banda, Besteirol Enlatado, nossa primeira banda, bem antes da Dupla Caipira de Reggae. Ela foi inspirada nos Mamonas Assassinas. A gente compôs uma musiquinha bobinha. Só que ninguém tocava nada, a gente já tinha até os instrumentos que eu ia tocar, eu ia ser tecladista, cada um ia ser uma coisa, e ninguém tocava nada ainda. A gente compôs músicas até, umas quatro, cinco músicas, que depois de grande a gente até musicou, pôs acorde nela, mas na época não tinha acorde, nem nada, era só cantada. E lá pra oitava série a gente teve uma banda “mais madura”, que daí já era uma inspiração mais do pop rock, uma coisa mais Raimundos, Titãs, Paralamas, inspirada nessas bandas dos anos 1990. E essa banda se chamava Calota 33. E muita gente que ia juntando a nossa família de amigos, que foi a família que fez a gente criar a Casa Jaya até.

Desde os 14 a gente acampava. No começo mais naqueles campings, e com uns 15 anos, a gente já começou a acampar sozinho mesmo, ir pra praia, no roots, pegava o busão e ia pra praia. A gente fazia muito luau, eu gostava de produzir, eu já tinha essa coisa de ser produtor de eventos, que hoje em dia eu trabalho com isso também. Eu aprendi isso, de gostar de tocar pras pessoas e sacar que é uma responsabilidade ser músico. Hoje a gente que faz música contra o sistema, contra o consumo, por mais que de uma forma bem sutil e poética, a gente está falando contra o capitalismo. A gente difunde a ideia do veganismo, como defesa dos animais, não só por dó, que é uma coisa que é muito triste a forma como eles são tratados, mas não é o único motivo, tem muitas outras questões, a questão ecológica, o tanto que se desmata de uma floresta pra fazer não só gado como a comida que o gado vai comer. Se a gente escolher comer o que vem da terra, o que vem de uma cadeia de produção, consumo e distribuição justa, com agricultura familiar, com pessoas trabalhando com amor naquilo, essa é uma escolha que eu acredito que é a escolha mais sábia. Hoje é muito mais falado, as crianças na escola já sabem da importância de reciclar. A gente tem composteira em casa, a gente composta o nosso lixo e faz ele virar adubo pras nossas plantas. O mínimo do mínimo do mínimo é você separar orgânico do não orgânico. O negócio é usar o mínimo possível de industrial, o que você usou você lava e recicla, se der reaproveita, reutiliza, faz o que quiser, usa a criatividade, mas usar na maioria das coisas o quanto possível menos embalagens.

O grupo Reciclowns nasceu em 2008 em um festival. Dentro dos festivais de música eletrônica existe um festival e tem uma cultura que é super underground, muito mais verdadeira com os propósitos que é a cultura trance, de um pessoal que está muito ligado com a espiritualidade, com a reconexão com o seu ser interior através da dança, a dança é vista como meditação. E essa cultura acaba atraindo muita gente pro que a gente chama da Nova Era. Que é essa Nova Era de paz, de Ecologia, de um mundo muito mais sustentável e tudo o mais. E muitas vezes os organizadores ligam pra isso e convidam os Reciclowns pra conscientização ambiental. E pensando nisso que nasceu os Reciclowns, de um amigo nosso que chama Goede, ele teve o insight uma vez e chamou uns amigos e criou a primeira. E a ideia era fazer performances com bom humor pra falar de ecologia, de conscientização ambiental. A gente faz canções e ações com os palhaços pra passar pra frente mensagens do que a gente acredita. Os palhaços vão nessa missão e a galera vê os palhaços super felizes fazendo isso. Então naturalmente o pessoal é tocado por aquilo: “Nossa, caramba, eu joguei o lixo no chão mesmo e ele está ali catando”. A gente sente que lá no fundo o pessoal tem uma coisa assim, de pode tocar.

A Dupla Caipira de Reggae foi a primeira banda que eu participei, que a gente compunha mesmo as músicas. E num certo momento a Casa Jaya estava funcionando e já recebia bastante shows, então começamos a conhecer bandas legais e eu só ia atrás de bandas com esse propósito, na Casa Jaya se as pessoas estivessem afinadas com o propósito de ecologia, de meio ambiente, de espiritualidade. Numa dessas de chamar o pessoal pra tocar lá que eu conheci o Pedro Ivo, que é um grande mestre pra mim. E a gente ficou como: “Nossa, Pedro Ivo!”, o ídolo desse movimento alternativo! Depois ele foi de novo lá na Jaya, e nessa época a gente tinha a Dupla Caipira de Reggae, tinha juntado com outros projetos de amigos e parceiros, outros músicos também, a gente cantava junto, fazia uma banda só tocando músicas da galera, músicas da família e a gente fazia um show por mês nesse esquema pra arrecadar grana pra fazer a estrutura de som da Casa Jaya, chamava A Banda Livre do Agora. Numa dessas chegou o Pedro Ivo pra mim: “Ô Pedrishna, essa tal Banda Livre do Agora aí, você tem um baixista?”, eu falei: “Eu já toquei baixo numa banda de reggae”, daquela banda de reggae que eu falei que eu era, eu era baixista e backing vocal. “Até backing vocal eu faço, eu toco reggae e canto”. Ele: “Pô, estava pensando em vir falar justamente com você, eu achava que você ia salvar mesmo. Bora tocar com nós então?”. Aí eu falei: “Demorou”. Daí que eu entrei pra Tribo do Sol, que é uma banda que fala muito dessas coisas também, de ecologia, de Nova Era, Nova Consciência, de buscar no interior. E foi muito legal, a experiência, é só gratidão, inclusive eu considero que eu me tornei músico quando eu entrei pra tribo porque até então eu trabalhava na Jaya, eu já tinha sentido que a música era um caminho para eu seguir mesmo de vida e tal, só que com a Dupla Caipira ainda não tinha uma estrutura de banda, a gente tocava de vez em quando, e na Tribo eu tinha que me dedicar.

Eu me considero uma pessoa realizada mesmo sendo super moleque e tendo muita coisa pra realizar ainda. Eu vou ser pai agora. Ser pai é o meu maior sonho, sempre foi o que eu acho mais da hora na vida, que eu acho mais legal é você ter uma família. Eu consegui criar uma forma de criar, inventar na raça uma forma de viver totalmente de acordo com o que eu acredito. Quando você precisa de menos coisa é muito fácil alcançar a felicidade porque está ali. A Casa Jaya foi um sonho gigante que é incrível uma coisa que meia dúzia de moleque de 20 anos fizeram. O meu grande sonho que eu posso dizer daqui pra frente é simplesmente ser o que eu já sou, mas com condições de ter conforto e uma vida boa pro meu filho que está vindo e pra minha companheira. É realmente continuar o que eu já estou que são meus projetos alcançando as pessoas, as mensagens sendo passadas, cada vez mais. O sonho maior é o que já é.

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