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História

Vivendo o café

História de: Eduardo Hayden Carvalhaes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/02/2005

Sinopse

Infância em Santos. Casa da família e casa da avó. Praia. Clube de Pesca. Curso de Engenharia em São Paulo. Opção para o trabalho no comércio de café. Primeiro emprego com familiares. Os dois anos de aprendizado: da florada do café até a bebida. Primeiros tempos. Especulações na Bolsa de Café. Classificação do café. Relacionamento com clientes. Regiões produtoras. Mercado internacional. Café gourmet. Trabalho atual com os três filhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Eu me chamo Eduardo Heiden Carvalhaes. Sou santista, nasci aqui no dia 10 de maio de 1925.

FAMÍLIA
Nome dos pais Meu pai e minha mãe também eram santistas, Leônidas Carvalhaes e Judite Heiden Carvalhaes. Avós e família Meus avós maternos, conheci minha avó bem, aliás era minha madrinha. Paternos, eu conheci minha avó também, chamavam de Bibi Gardner Heiden falecidos há mais que 30 anos. Minha avó, Adelina Carvalhaes, materna, era uma senhora realmente muito interessante, muito inteligente e que tinha 12 filhos, seis homens e seis mulheres. E foi sempre moradora aqui de Santos, desde o tempo em que se morava na cidade, até a mudança do pessoal pra praia. Na praia, ela tinha uma casa muito grande, não era de frente pro mar, era perto do mar, onde hoje é a Rua Sampaio Moreira. Era uma casa térrea, com bastante visitas, porque era uma pessoa conhecida. E minha avó paterna era Bibi, o nome dela era Otávia Gardner Heiden. Morava, quando eu a conheci, com uma filha chamada Carmita Moraes Barros, na avenida da praia, Bartolomeu de Gusmão, número 36. Eram senhoras de casa, evidentemente, naquele tempo não se trabalhava fora, senhoras da sociedade, senhoras muito conhecidas, muito prendadas, levavam quase que uma vida santa as duas, e lidavam muito com os filhos. A família Carvalhaes era uma família muito unida. Nessa época de festas, aniversários, era uma verdadeira romaria. Mais tarde eles construíram uma casa na Almirante Cóchrane, número 7, que é Canal 5, uma casa grande também que era freqüentada por todos da família, até virem, lentamente, com o correr dos anos, a falecerem. Hoje nenhum deles mais é vivo, só tem uma tia que foi casada com o último Carvalhaes, o Breno Carvalhaes. Os outros todos tiveram família numerosa, família grande, teve dois ou três que permaneceram solteiros. É uma família, realmente toda vida ligada ao café, toda a vida trabalharam com o café, houve alguns que tiveram cargos, caso do Breno Carvalhaes, foi diretor do D.N.C., Departamento Nacional de Café, depois substituído pelo I.B.C. E os outros trabalhavam também em café, o José Carvalhaes, um dos mais velhos, o Leônidas, meu pai, fazia parte do grupo Lara Campos, e o Nelson e o Álvaro foram fundadores do Escritório Carvalhaes, que eu tenho até hoje, que é onde eu trabalho, onde eu me movimento e que entrei lá pra trabalhar em 1942, em setembro de 42. É uma organização muito antiga, muito conhecida, principalmente no interior. Trabalhamos em café do Paraná até a Bahia, passando por Rondônia também. Com isso, tivemos conhecimentos enormes no interior todo. Há cidades, caso de Mococa, que conheci aquele pessoal todo, a vida inteira. E outras, como Marília, Garça, Vera Cruz, Ribeirão Preto, a mesma coisa FAMÍLIA Origens da família A minha mãe tinha antecedentes franceses, a vovó Bibi, como chamava, tinha antepassados, do lado da mãe, franceses. Agora a família Carvalhaes era toda brasileira. Olha, tinha parentes antigos, muito antigos, do lado alemão, Rossman. Mas desde que eu me conheço por gente, a família Rossman foi diminuindo, diminuindo, hoje é uma gente que já não existe mais ninguém.

INFÂNCIA
Eu comecei morando no Canal 5, número 7, a residência dos Carvalhaes. Com o tempo, o quintal da casa era muito grande e o fundo dava pra Rua Sampaio Moreira, que é a primeira casa que meu pai construiu, então dava os fundos com a casa da minha avó. Ele construiu uma casa e nós passamos a morar lá, isso foi ao redor de 1932, 33, porque a família aumentou, nasceu meu último irmão, que foi um médico muito conhecido aqui em Santos, Dr. José Ildefonso Carvalhaes, que faleceu infelizmente ele e a senhora num desastre de automóvel há 24 anos atrás. Iam pra Campos do Jordão, na altura de Mogi das Cruzes, atravessaram a pista e bateram de frente com um caminhão. Mudamos pra essa Rua Sampaio Moreira porque com o nascimento do Tuca não havia mais possibilidade de morarmos todos juntos na casa da minha avó. Minha infância foi uma infância normal, eu gostava muito de praia, sempre que podia ia à praia, eu morávamos pertinho, a 20 metros da praia, e fazia o que todo menino nessa idade faz. Jogava muito futebol, tinha amigos ali das redondezas, gente conhecida nossa. Freqüentava o Clube XV, era um clube muito bom aqui de Santos, o Tênis Clube, e o meu pai nessa ocasião foi um dos fundadores do Clube de Pesca. Meu pai foi o segundo presidente do Clube de Pesca, que adquiriu no tempo da guerra a Ilha das Palmas, que é um passeio até hoje muito procurado.

LAZER
Clube de Pesca O Clube de Pesca era um clube que foi fundado por elementos do comércio que todo sábado à tarde se reuniam. Eles tinham como lugar inicial da reunião um sítio do Nívio Ribeiro dos Santos, que ficava naquele caminho Santos-São Vicente, ficava exatamente na altura que hoje é aquele quartel militar que tem ali. O Nívio tinha um sítio muito bonito e eles iam pra lá. Agora, acontece que, como pescadores que eram, alguns tinham barco de pesca pra pescaria, eles resolveram se aproximar do mar, porque ali não tinha mar. E então, no tempo da guerra, eles compraram a Ilha das Palmas, e o clube passou pra lá. E teve esse progresso, que até hoje tem, é um clube muito bem dirigido eu acho, eu recebo sempre os balanços mensais do que eles fazem, é um dos clubes que está mais concentrado, é um clube que realmente não tem problemas. Um clube que tem lanchas de transporte pra levar os sócios pra lá, lá tem almoço, tem jantar, tem até lugar pra quem quiser ficar e dormir lá. Tem diversos apartamentos para a família dos sócios. É um clube muito interessante. LAZER Clube XV O Clube XV, infelizmente, teve diversas mudanças, mudou da Rua Sete de Setembro lá pro Gonzaga, onde é aquela Caixa Econômica hoje, na esquina da Rua Marcílio Dias. Era uma sede muito boa, muito bonita, muito freqüentada. Mas resolveram vender e compraram a atual, que foi agora desmontada, certamente você leu no jornal. A sede do Clube XV eles venderam, vão fazer lá uma programação de apartamentos, alguns andares ficando com o Clube XV, vai ter embaixo um supermercado, um shopping. E era onde nós íamos, onde dançávamos, onde encontrávamos todo mundo, e realmente é uma das coisas que eu lembro bastante. Sinto pena do que aconteceu com o Clube XV, porque se ele tivesse ficado na sede antiga, nada do que está acontecendo teria acontecido, certamente.

FAMÍLIA
Irmãos Eu tinha dois irmãos. Um morreu em desastre de automóvel e o outro é vivo até hoje, é o José Teodoro Carvalhaes. José Teodoro foi negociante de café e fechou a firma há uns 15 ou 20 anos atrás, hoje vive de outras coisas que ele tem, inclusive tem uma fazenda belíssima em Cordeirópolis, e eles aproveitam bastante, têm filhos que moram lá, uma fazenda com uma sede enorme, com uns 12 ou 14 apartamentos internos, têm mil e uma coisas. É uma fazenda de cana-de-açúcar. É uma zona de laranja, mas ele lá tem cana-de-açúcar. E o Tuca era um médico, muito conhecido. Não é elogiar, não, porque até hoje eu tenho conhecidos que, quando chegam perto, têm qualquer problema de saúde na família, eles se queixam: "Olha, se o seu irmão não tivesse morrido, talvez eu tivesse uma assistência como ele dava e um conhecimento como ele tinha." E é uma morte lastimável até hoje porque era um rapaz muito alegre, tinha uma roda muito grande de amigos, que ainda são vivos hoje, e que sabia viver, tinha um controle absoluto da sua família e vivia muito feliz. É o que eu posso dizer. José Teodoro ficou viúvo, o segundo irmão, esse que é vivo, ficou viúvo há muitos anos atrás, casou uma segunda vez, não deu certo e hoje está vivendo sozinho.

EDUCAÇÃO
Estudos no Ginásio Santista Me lembro bem da escola. Em frente à minha casa, no Canal 5, tinha um pequeno colégio, que era da família Guimarães. Era um velho senhor aqui de Santos, corretor de imóveis e que tinha três filhas e um filho. E as três fizeram um coleginho na casa. E eram pessoas muito simpáticas, e que eu fiz ali talvez o que chamam hoje de pré-primário ou pré-infância, e minha professora chamava-se Sílvia. Era uma moça realmente inteligente, interessante, e em seguida passei para o Ginásio Santista. Comecei no Ginásio Santista no segundo primário e fui até o quinto ginasial. Fiz todos os anos, graças a Deus, não fui reprovado em nenhum, e em seguida meu pai resolveu, queria que eu fosse engenheiro. Naquele tempo, você sabe como era, ao redor de 1942. Fui matriculado no pré-Engenharia do Mackenzie, em São Paulo. O Mackenzie naquela época, ainda hoje, era um colégio de bastante fama, um colégio de boa freqüência, um colégio que tinha um nome muito bom no país. Mas não era o que eu queria. Eu passei do primeiro pré para o segundo, nessa altura o meu pai ficou doente e eu, talvez por fraqueza dele, que ele enfraqueceu um pouco, eu consegui largar a Engenharia.

TRABALHO
Primeiro Emprego Eu queria fazer Comércio. Eu queria fazer, trabalhar em comércio, queria começar a minha vida. E morava em São Paulo, na casa de um tio meu, o Breno Carvalhaes, esse que a tia é viva até hoje, na Rua Itaçucê, número 60, no Pacaembu, lá perto do estádio do Pacaembu, um bairro residencial muito bom naquela ocasião, hoje é quase só comércio. Era uma casa ótima, e eu morava com ele. E esse meu tio, como eu disse, tinha altos cargos no Departamento Nacional do Café, e eu cheguei em casa, falei: "Eu resolvi que eu vou embora". Ele já estava mais ou menos desconfiado e telefonou pra Santos, pro chefe do D.N.C. aqui em Santos, pedindo pra me arrumar um emprego. Era um senhor muito conhecido aqui, chamado Aguinaldo Amaral. Ele morava no morro de São Vicente, tinha uma casa lá em cima, não é o morro de Santa Terezinha, o morro de São Vicente. E então, pediu: "Olha, eu tenho aqui um sobrinho, o Eduardo", ele me conhecia, que ele tinha diversas filhas e eu me dava com elas, "e o Eduardo não quer mais estudar Engenharia, quer ir pra Santos e eu quero que você arrume um emprego pra ele". E ele na hora disse: "Manda esse burrão pra cá, porque vai largar uma vida como esta, de estudante em São Paulo, morando num lugar formidável como vocês moram, para vir aqui pra Santos." Eu vim, quando desci do ônibus já passei no D.N.C. e o Aguinaldo, depois de fazer um discurso, me disse quanto eu ia ganhar e me pediu uma única coisa. Era meado de setembro e ele me disse: "Você vem aqui dia 1º de outubro, fica mais fácil pra você arrumar sua vida, carteira de trabalho" e outras coisas que se usavam naquele tempo. E eu fui pra casa. E os Carvalhaes todos, como eu disse pra você, eram todos muito ligados e todos moravam quase que vizinhos naquele Canal 5. Encontrei meu tio Álvaro e o Nelson Carvalhaes, que eram os donos do Escritório Carvalhaes, e eles perguntaram: "Como é que você vai trabalhar em café, se você nunca viu café? É melhor, nesse prazo de 15 dias, você passar a ir ao escritório, porque assim ao menos você chega lá tendo a idéia da cor de café, que café é redondo." Porque eu não sabia nada. E foi assim que aconteceu. Quando chegou o fim do mês, que era hora, eu avisei: "Bom, agora eu tenho que ir embora, porque amanhã eu assumo lá o meu lugar que o Aguinaldo me arrumou, no Departamento Nacional de Café." E o Nelson Carvalhaes falou: "Não, não, você não vai" Quer dizer, todos eles se davam com o Aguinaldo, o Aguinaldo era uma pessoa conhecida e eles também. E ele falou que queria que eu ficasse no Escritório Carvalhaes porque eu tinha, nesses 15 dias, ajudado muito e eles viam que eu tinha algum potencial pra trabalhar lá. E telefonaram, e eu fiquei muito aborrecido, me lembro, porque eu ia ganhar no Departamento Nacional do Café do governo três vezes mais do que eu comecei ganhando no escritório. Era pra ficar, fiquei, e começou assim. Antigamente, era diferente, porque quando você pegava um moço, você ensinava tudo a ele sobre café. Hoje, eu pego lá os meninos que eu emprego, no dia seguinte eles estão com uma latinha de café na mão e vão trabalhar, freqüentar os exportadores. Evidentemente, nós sabemos quem são os moços, são colocados lá depois de uma boa seleção que nós fizemos lá pra colocar os rapazes. Mas eu fiz tudo quanto foi curso que se podia fazer sobre café.

CORRETAGEM DE CAFÉ
Primeiras lições sobre as qualidades de café Primeiro de tudo, eles me ensinavam as qualidades de um café, a fava de um café, o tipo de um café, a safra de um café. Tudo. Começou assim. Depois eu fui para os aperfeiçoamentos, que levaram uns dois anos. O aperfeiçoamento era mais ou menos o seguinte: começava indo pra uma fazenda, pra você ver a florada do café, depois de ver você ver a florada com os agrônomos, o pessoal da fazenda, ter uma idéia do que era um pé de café, como era tratada uma florada, você voltava para assistir à colheita do café. Era outro aprendizado que você fazia. Eu vi isso tudo, por memorizar. CORRETAGEM DE CAFÉ Primeira visita à fazenda de café Eu fui pra Vera Cruz, pra fazenda de um dos homens mais poderosos que houve em café, e que os filhos dele são meus amigos, são meus fregueses até hoje. E ele foi um dos grandes fregueses do Escritório Carvalhaes. Chamava-se Alcides Beluzo. Era um fazendeiro muito grande que tinha na Alta Paulista. Naquele tempo, o que estava em grande evidência era a Alta Paulista, e estavam com o Paraná Novo, o Paraná produzindo as primeiras safras. Então eu fui pra Alta Paulista, estive lá na fazenda assistindo isso tudo e quando vi tudo de fazenda passei a freqüentar um comprador de café. Aí já é em Garça. Garça é pertinho de Marília, é pouco mais que daqui a São Vicente. E fiquei lá num comprador que, aliás, se tornou um grande amigo meu, um grande freguês, naquele tempo ele já era amigo dos meus tios, na máquina do seu Jairo Morais Barros. Ele tinha uma firma de café. Então a gente começava a ver como é que ele fazia pra comprar o café, como é que ele recebia o café, como é que ele descascava o café, como é que ele acomodava o café no armazém dele. Você ficava ali, junto com ele, olhando aquilo tudo. Vinham aqueles fazendeiros, com aquele saquinho de café em coco, vender o café. Ele mostrava como é que fazia a renda pra comprar o café, porque tem cafés que dão um quilo a mais, um quilo a menos de renda, conforme a casca, conforme o ano. E aquilo tudo foi explicado. Fiquei lá com o Jairo, Jairo é um sujeito fantástico, Beluzo também, é um sujeito modelar. CORRETAGEM DE CAFÉ Trabalho em Santos Quando acabou aquilo, eu vim pra cá, pro Escritório Carvalhaes. Mas só que eu não fiquei no Escritório Carvalhaes. Eu fui para uma firma de um outro tio meu que tinha uma grande firma exportadora em Santos, chamava-se Souza Carvalhaes. Era do Amintas Carvalhaes, que era meu tio, e do Manoel de Souza Varela, era um português que tinha aqui em Santos, muito conhecido, e eles tinham uma firma de café muito boa. E eu fui lá aprender, porque não é como hoje, que a gente tem todo esse processo eletrônico. Os livros eram em cima daquelas mesas altas, eram livros grande, você tinha que fazer o diário, com conta corrente, com razão, o caixa. Ele tinha os funcionários pra fazer, mas cada mês eu ficava com um pra aprender. Tanto que tem um, daqueles antigos contadores que tinha lá, disse: "Olha, tem um livro na minha casa que tem a sua letra, do tempo que você fez. Quando houve a derrubada, o fechamento de tudo, eu queimei tudo, mas guardei aquele pra dar." Mas eu não fui buscar até hoje. E aprendi então a fazer aquele movimento todo de escritura, balanço da firma, e fui matriculado à noite no Colégio José Bonifácio, ali na Conselheiro Nébias, pra fazer o curso de Comércio, o curso de contador. E fiz o curso. Quando acabou isso, eu: "Bom, agora eu vou ficar quieto." Não, mas eles me puseram nos armazéns gerais. Armazéns gerais são armazéns que tinham muito aqui em Santos, hoje tem pouco, que eram, recebiam o café do interior todo, porque o interior embarcava o café pra cá e conforme podiam entrar, porque tinha ordem cronológica, tinha retenção pra chegar aqui, porque movimentava duas, três, quatro safras, em percentuais. "Entra da safra 45, entra 20%, da safra 46 entra 30." Entravam e ficavam todos depositados aí, à ordem do dono do interior. Os cafés eram financiados, depois eu aprendi e fiz muito financiamento pro pessoal do interior, talvez até lá da região de Mococa. Eu tinha procuração, uns dez anos depois, e financiava o café pra eles. Eles me mandavam com uma procuração, eu levava aos bancos. Naquele tempo, quem trabalhava muito em financiamento de café, ou era o Banco do Brasil ou era o Banespa. Como eu acabei de fazer os livros, aprendi alguma coisa, fui para os armazéns gerais, Armazéns Gerais Riachuelo. Era pra ver como eles recebiam o café quando chegava aqui, como é que eles faziam aquele serviço, tudo. Então, isso tudo levou tempo, levou um ano e meio talvez, dois anos. Hoje não se faz mais nada. Você pergunta pra um moço que trabalha em café, ele sabe que ele tem que fazer aquele serviço determinado por seu patrão, mas não acompanhou isso tudo.

Produtos
Financiamento de café O Banco do Brasil fazia um trabalho de autorização com descontos dos bancos particulares em cima dele, com percentual, não me lembro mais se eles podiam descontar 60 ou 70% em cima do Banco do Brasil. E eles mandavam pra mim, embarcavam o café, faziam o conhecimento do café e me mandavam uma procuração pra que eu financiasse esse café aqui no porto pra eles. Porque o café vinha para o Armazéns Gerais, ficava depositado aqui. Eu, com aquela procuração ia ao Banco do Brasil, ou ao Banespa, ou ao Itaú, diversos bancos. E com aquele documento eles me davam o que o Banco do Brasil autorizava, normalmente era 70% do valor calculado do café. Vamos dizer: se o café valia 100 reais, eles davam um financiamento de 70 reais. Eu pegava aquele dinheiro, pegava não, tinha aquilo creditado na conta e passava no mesmo dia pro dono do café lá no interior. Quer dizer, era uma coisa de grande confiança, que eles não podiam fazer com todo mundo, porque se não fosse bem feito poderia haver desvio de dinheiro. Eu tinha naquele tempo, me lembro bem, um maço de procurações dessa altura, do pessoal, uma folha em cima da outra. O pessoal do interior mandava o café, mandava a procuração e eu mandava o dinheiro pra eles. A responsabilidade minha era que o sujeito era bom, eu não fazia com qualquer um, como não fazemos negócio com muitas pessoas hoje. Eu conhecia o cadastro do sujeito, conhecia a vida do sujeito. Aqueles que nós julgávamos que devíamos fazer. E assim foi feito o financiamento. O Banco do Brasil dizia qual era base do financiamento e passava pra outros bancos, que ajudavam ele a operar. Você escolhia se era 90 dias, 120 dias, um ano. Porque hoje você põe qualquer café do interior do estado no porto em poucas horas, com caminhão. CORRETAGEM DE CAFÉ Warrant Antigamente, o caminhão não funcionava pra café. Funcionava estrada de ferro, era todos warrant. Aquilo, você ia ao armazém que recebia o café e ele te entregava um documento que o café estava depositado, o peso do café, as características todas do café. E isso se chamava warrant. E com esse documento, esse warrant, procurava o banco e financiava o café. Isso se usou muito.

ARMAZENAGEM
Estoque de Café nos Armazéns Gerais por ordem cronológica Agora, o sistema do café vir direto, aconteceu muitos anos depois, porque houve um ano em que as cooperativas de café, quando foram fundadas, conseguiram junto ao governo, junto ao I.B.C., que os cafés das cooperativas descessem por caminhão, quer dizer, não obedeciam à ordem cronológica, porque naquele tempo que existia ordem cronológica o estoque oficial da praça de Santos, aqui, em Armazéns Gerais, eram 2 milhões e 200 mil sacos. Porque tinha café pra trás que não tinha descido, então ele punha percentuais por ano, onde entrava de 1997, 20%, entrava de 1998, 20%, entrava de 1999, 20%. Aquilo tudo era documentado. E vinha para os Armazéns Gerais aqui, mas entrava aqui desde que o estoque não passasse de 2 milhões e 200 mil sacas. Quem fazia esse controle da ordem cronológica era o I.B.C., no caso. O próprio I.B.C. fazia, de acordo com, porque quando começava a safra, antigamente, aparecia o regulamento de embarques. Esse regulamento de embarques era um documento grande, pra ter uma idéia, que ocupava a página inteira do jornal. Seu pai lia muito isso. E tinham aquelas resoluções todas, de permissão de circulação de café, além do café naquele ano. Então você trabalhava dentro daquele negócio. É um negócio muito trabalhoso, pra quem queria fazer bem feito. O café realmente é um negócio muito interessante, foi um negócio muito grande pro país. Houve horas do país depender da exportação de café num percentual muito alto. Hoje é muito baixo, hoje o café tem um percentual de 4% nas divisas, nas exportações do país, e no momento temos até menos, porque esse governo que está aí errou muito em café. Vocês devem ter lido, a retenção foi um crime que ocorreu contra a comercialização de café. Basta dizer que nos primeiro dia que eles fizeram a retenção, eu tenho esse documento, nós escrevemos no nosso boletim, que é feito pelo Duda, meu filho que está ali atrás, dizendo que a retenção não iria funcionar, que aquilo era um absurdo, que nós íamos dar campo para os nossos competidores todos, que nós íamos dar campo para os competidores tomarem nosso negócio no comércio exterior e o mercado, que já não era bom, ia entrar numa crise. Porque é aquilo que foi apresentado por diversos órgãos da comercialização do café, e eles tinham, se não tinham um crédito total, uma parcela de crédito junto à lavoura. Então se dividiu: os que eram contra agora estão falando, os que eram a favor da retenção e os que eram contra. E nós fomos contra desde o primeiro momento. E agora, há um mês e meio, dois meses atrás, acabaram a retenção, e os próprios que fizeram a retenção confessam que foi um engano, que foi um erro tremendo, que eles nunca deviam ter feito. E o que aconteceu com o café, nós éramos os primeiros exportadores para os Estados Unidos, demos campo pra que a Ásia passasse a mandar, é hoje o primeiro a entregar café nos Estados Unidos, nós estamos em quarto lugar. Foi um erro lastimável. PRODUTO Retenção e o Funcafé A retenção era o seguinte: todo café que você embarcava 1000 sacas de café, tinha que ter retido 200 sacos, aqui no Brasil. E o governo dizia que financiaria isto. Mas ele fez o financiamento com um dinheiro que tinha guardado, do dinheiro do Funcafé. Funcafé é um dinheiro que devia ser gasto em coisas para defesa da lavoura. Foi um dinheiro que foi obtido com algumas taxas pequenas e, principalmente, com o confisco de café. O governo, na ocasião, muitos anos seguidos, fez o confisco do café. O confisco era o seguinte: você vendia um saco de café por 100 dólares por outro lado, o governo te confiscava, conforme o ano, um percentual disso. Houve anos até de nós termos confisco de 50%, sobre o que você conseguia vender. Então, esse dinheiro que deveria reverter pra lavoura, reverteu pra caixa do governo, pra caixa de café, a conta de café do governo. Então esse dinheiro eles diziam que era pra futuramente atender a lavoura de café, esse dinheiro foi gasto numa porção de coisas, foi gasto na compra de estoques, mal comprados, que nós temos até hoje um estoque com 20, 25 anos, café de 20, 25 anos, comprados com dinheiro do Funcafé. PRODUTO Conservação de café O café é um produto que pode se conservar muito tempo. Eu vi, uma ocasião, muitos anos atrás, um homem que tinha muito café, de Tietê, na Sorocabana, me mostrou o café compromissado, em Cartório, com 80 anos, o café guardado. Esse homem chamava-se Raul Arruda. Ele me mostrou um café com 80 anos. O café tem processos de modificação quando guarda. Quando o café é colhido bem colhido, bem seco, dentro da temperatura que deve ser seco, o café é verde, verde-cana. Você conserva o café mais no interior do que aqui, aqui no porto o café perde as características mais rapidamente. Esse café, com dois anos, ele fica branco. Ele começa a ficar esverdeado, com dois anos fica claro. Com quatro anos, cinco anos, ele começa a ficar marrom, cor de chocolate. E esse café todo que eles vendem são cafés todos brancos, e realmente nessas intervenções do governo, houve alguma coisa que não era certo. Eles tinham uma programação de tipo de qualidade, mas nem sempre era obedecido isto. Você obedecia num lugar, noutro lugar entregavam um café completamente diferente. ARMAZENAGEM Fiscalização de tipos Esses cafés ficavam no interior. Esses cafés estão em reguladores, estão em armazéns do interior, deles, que o armazém é do governo. Ele recebia esse café em muito lugar. Esses cafés nem sempre eram bem protegidos, porque o café dentro dum armazém, você deve ter visto, é coberto, num lugar seco, não deve ficar perto de uma porta, café que fica perto de uma porta, tomando ventilação, sempre clareia mais depressa. E esses cafés, hoje em dia, são fracos, mas era mais barato. As torrefações compram esses cafés quando podem. Agora há, simbolicamente, no momento, um leilão que eles fazem por mês, um leilão simbólico, isso não adianta nada, de 20 mil sacos desse café. Eles põem pelo sistema de leilão, um sistema eletrônico, eles põem em leilão e as firmas que tiverem interesse vão comprar, podendo comprar cada uma no momento, isso é agora, nos últimos meses, o total vendido de 20 mil sacas, cada firma dessas que fazem café pra torrar tem direito de comprar 500 sacos de café. É muito pouco. Houve ocasiões, normalmente, de eles fazerem leilão de 200, 300. Aí atrapalhava, foram coisas que atrapalharam muito o mercado de café. O mercado, que já não era bom, às vezes era atrofiado por leilão de café do governo, que não passava, vamos dizer, de café da própria lavoura, porque era o dinheiro do Funcafé que estava ali.

TRANSPORTE
Transporte de café O café chegava ensacado. Havia companhias que transportavam, companhias de caminhões, conhecidas aqui de Santos que tinham um contrato cada uma com os armazéns gerais, porque esse café já vinha indicado do interior, pelo dono do café, o armazém em que deveria ficar. A turma lá de Mococa usava muito a Continental de Armazéns Gerais, uma companhia praticamente deles lá. E essa Continental, tinha um contrato com alguma firma transportadora. No dia, que eles sabiam que chegava o café, os caminhões estavam naquela estação da cidade, perto do Valongo, tiravam e levavam pro armazéns gerais. Eram transportados já em sacaria, em sacos pesando 60,5 kg. Um saco de café oficial pesa 60,5 kg, são 60 de café e 500 gramas de sacaria.

SACARIA
Preparação para exportação Aqui, quando ia pra exportação, o café passava num maquinário e era reensacado para exportação. O exportador aqui, quando queria comprar um lote de café, recebia aquelas amostras que o corretor levava. Ele estudava, via, estava lá "Continental", vamos dizer, e ele fazia aquelas ligas dele pelo número que as amostras entraram, passava o trabalho pro armazém e o armazém fazia o serviço que eles pediam pra exportar e passavam pra uma sacaria nova, oficial. Se você me pergunta por que não vinha em sacaria, porque essa sacaria nova, oficial, naquele tempo era muito mais cara do que uma sacaria de primeira, segunda, terceira viagem. Sacaria de primeira viagem é aquela que tem um furo do furador costurado, a de segunda é a que tem dois furos costurados, a de terceira tem três furos costurados.

PRODUTOS
Mistura - ligas de café O exportador tinha suas vendas, e muitas vezes eles faziam ligas de café da Mogiana com café do sul de Minas, café da Paulista com café da Araraquarense, café da Araraquarense com Noroeste. Cafés parecidos, que eles tinham aquela liga deles, e que o outro lado sabia, quando comprava de uma firma, sabia como ia receber aquele café, quando comprava de outro, sabia. Então, vinha aí o classificador das firmas, ficava olhando o café, e aí entrava a função do corretor. Eu ia lá, mostrava o café que recebia, ele me fazia uma oferta, dentro da idéia que eu tinha.

SISTEMA DE COMUNICAÇÃO
Dificuldades para realizar vendas Antigamente, as comunicações eram dificílimas, porque um telefonema que você pedisse aqui pro interior, muitas vezes você pedia às 8 da manhã e tinha ligação à noite na casa do dono do café, nas fazendas que tivessem telefone. Telegrama, então Eu me lembro de uma ocasião, eu vendi um lote de café, até era da família Haidar, em Olímpia, era um fazendeiro, uma família muito grande de café na região de Olímpia. Chegou o café de um deles aí e eu passei o telegrama pra ele, eu não lembro mais a moeda: "seu café vale hoje 80 reais favor instruções mercado assim". Eles recebiam semanalmente nosso boletim, mas o correio atrasava o boletim, quatro, cinco, às vezes uma semana. Hoje, você põe ali na aparelhagem e cinco minutos depois o boletim está no interior inteiro. Mas naquele tempo eu me lembro bem, eu mandei um telegrama, e o mercado de café, antigamente, oscilava muito com resoluções criadas pelo governo, muitas vezes em câmbio. Eles criavam uma resolução mudando qualquer coisa que eles tivessem feito ou o câmbio subindo um pouco e desvalorizando a moeda, e aquilo mudava o preço do café. Eu me lembro que nessa ocasião eu passei 80, eu não sei o que era. E o sujeito me telegrafou de lá: "Venda". Mas o mercado havia mudado, havia triplicado o preço do café aqui. E eu fechei o café por 200, 200 e qualquer coisa, e vendi por tanto. Passou um dia, o sujeito veio aí saber: "Olha, houve um engano". "Não, não houve engano. Você vendeu seu café por 200 e tanto, o mercado melhorou." Muitas vezes aconteceu isso com seu pai e comigo, de ele mandar vender o café e não ter mais. Porque aí é que está a vantagem de você ter uma pessoa de confiança no leme do negócio, porque você ficava na mão desse sujeito. Havia pessoas que não agiam assim, essas pessoas sumiam em pouco, porque é fácil você enganar uma pessoa uma vez, duas vezes, enganar por 10, 20 anos é impraticável, o sujeito acaba vendo. PRODUTOS Consumo de café Tinha consumo interno. O consumo de café no Brasil não era o que é hoje, hoje nós temos um consumo em elevação. Há grandes firmas de torrefação no Brasil. Ainda agora a Sara Lee, que é uma das grandes torrefações do mundo, comprou a União aqui no Brasil. Hoje o consumo do café no Brasil está ao redor, consumo, consumo marcado, porque há muito café que eles fazem negócios sem nota, negócios, e não se sabe bem no interior como é que eles fazem, café, escolha, resíduos, eles vendem a qualquer preço, eles fazem aquela liga, esses pequenos torradores do interior e vendem. Hoje tem no interior de São Paulo, eu não sei quantos torradores de café tem, mas tem uma vastidão enorme. Agora, o consumo do Brasil hoje, escrito, deve ser de uns 13 milhões de sacas, quer dizer, tem uma parte da safra, agora, normalmente, o café velho, de dois ou três anos atrás é o café que eles compram pra fazer. Agora, tem algumas torrefações que já estão passando pra cafés especializados. De modo geral, a qualidade que nós bebemos melhorou muito. Ainda existem aí no interior cafés sem controle, cafés fracos, cafés. Mas a maioria, qualidade, melhorou muito.

PRODUTO
Qualidade do café A qualidade interna, eu acho que começou a melhorar de uns oito, dez anos pra cá. Aconteceu porque, primeiro de tudo, é mais fácil você vender um café de boa qualidade. Se você vende um café de qualidade ruim, o sujeito compra uma, duas vezes e procura outro. Agora, e também devido às produções brasileiras, que têm sido maiores. Os preços que eles podem pagar por nosso consumo são perto muitas vezes iguais aos preços de exportação. Então, muitas vezes o café que nós estamos bebendo é um café hoje praticamente igual ao exportado.

EXPORTAÇÃO
Exportação de café O café de exportação era muito melhor, mas muito melhor O resíduo, o café baixo, era o que nós bebíamos aqui. Eles torravam aquilo, havia fiscalização, mas muitas vezes essas leis de fiscalização não funcionavam bem, eles juntavam cevada, juntavam milho, você deve ter lido muito isso, há anos atrás, não sei se vocês lembram. Hoje não, o café hoje é um café sadio, é um café que pode ser de café fino ou pode ser de café que não é muito fino, mas é café, inteiro. E os cafés velhos que se tem, normalmente a gente vende pra torrefação. Os cafés descansados, às vezes eles preferem. E as torrefações grandes, hoje têm seis, oito, dez marcas de café diferentes. Você pega uma União, que hoje é a Sara Lee, você pega o Café do Ponto, esse negócio melhorou muito internamente, a qualidade de consumo do café. Tem ainda qualidade ruim. E eles não podem vender café tão barato como eles estão vendendo no supermercado, é realmente uma concorrência que pode não ter conseqüências boas. Eu me lembro de uma ocasião quando eu era menino, havia aqui em Santos duas linhas de navegação e tinha uma viagem pra Espanha. Eu conhecia um desses donos de linha. Eles fizeram uma concorrência, tal, entre si, que no fim estavam dando passagem gratuita. É como café, que você dá bonificação, não sei o quê.

PRODUTOS
Amostras para venda Hoje em dia, 80% do café já vem ligado em bica corrida. Bica corrida é o seguinte: quando o fazendeiro, no interior, vai descascar o café, ele não põe as peneiras mais, porque não há uma grande vantagem nisso, não melhora o preço e custa pouca diferença no interior, mas é menos trabalhoso, o café em bica corrida. Porque o exportador faz esse serviço, porque cada país compra uma parte da amostra do café. Sua amostra de café, o seu lote de café todo, você não pega o lote de café e manda pra Itália, você não manda. Eles fazem, eles conhecem, eles têm os padrões deles do outro lado, eles recebem essas amostras de café e preparam no interior. Há firmas no interior especializadas nisso que fazem esse serviço muito bem feito. Quando eles querem, eles mandam pro armazéns gerais, que tinha bons maquinários, e já chega aqui o café todo separado aqui. Há firmas que despacham o café, quando é um comprador que não é tão exigente em qualidade, eles passam numa ventilação pra tirar bem os cafés verdes, os cafés chochos, as cascas de café. Uma casquinha de café sempre passa, uma pedrinha ou outra sempre passa. Há firmas que mandam tirar as pedrinhas, passam num catador de pedras, há outras que mandam dar uma ventilada pra tirar uma casquinha ou outra. E há o serviço de máquinas eletrônicas, catadeiras, no interior, que passa o café e o café muda do tipo 7, 8 pro tipo 4. O café pode ser limpo de diversas maneiras, cada um tem seu maquinário.

PRODUTO
Classificação de café Essa classificação 7, 8, é o número em defeitos. O café é classificado do tipo 2 ou do tipo 8. O tipo 2 são quatro defeitos, é um café raríssimo que não existe mais. Há uma tabelinha. O tipo 3 são 12 defeitos, o tipo 4 são 26 defeitos, e assim até o tipo 8. E esses cafés são chochos, são verdes, são cascas, são pedras. Até pedacinho de pau às vezes passa e vem dentro de uma amostra. Uma amostra de café, você classifica uma amostra de café numa latinha de 300 gramas. Você põe aquele café, abre em cima da mesa e cata os detritos que tem e marca então tipo 3, tipo 4. Normalmente, depois de um certo tipo de café, a maioria nem cata mais porque bateu os olhos, ele acerta, quem trabalha com café há muito tempo. E ele tem a bebida do café que é mais importante. Você tem que ter uma sala de provas, você tem que ter um torrador, você tem que ter uma mesa pra pôr o café, depois de torrado ele é moído, tem um moinho do lado do torrador e você põe, tem um ponto certo pra torrar, não é o ponto que se bebe, é um ponto um pouco mais cru o café, pouca coisa mais crua, você põe a água fervendo, deixa chegar no ponto que você possa provar. E aí vem o seu classificador, especializado, que bebe o café e diz se o café é mole, se é apenas mole, se o café é duro, se o café é riado, se o café é rio. E há craques nisso. Nós temos contrato lá pra fora, nesses dez anos, pra gente que nós já mandamos 1 milhão e meio de sacos, nunca teve reclamação num saco. Nunca teve reclamação. São técnicos realmente confiáveis, eles fazem aquele serviço de bebida perfeita. E muitas vezes do exterior mandam gente aqui pra aprender, já tive no meu escritório, das mais diversas nacionalidades, pessoas que vieram pro Brasil aprender a classificar, pedindo pra levar, esse caminho todo que eu fiz, pedindo pra ver florada, pedindo pra ver isso, pra ver aquilo em fazenda de café. Agora, esses bebedores são realmente, é uma parte realmente muito especializada. Tem pessoas completamente confiáveis. Quando eles dizem e você põe "café riado", você põe o café na rua e mostra pra vinte exportadores diferentes, a não ser um ou outro erro de exportador, a pessoa vê aí, o que não tem muito bom. O exportador vai beber novamente. Eu pego uma latinha de café, tenho os meus funcionários que andam na rua, eles vão na firma A, a firma disse que quer beber o café. Você deixa lá o café pra beber. Ele bebe o café e depois, mediante o que ele bebeu, se o café confirmar o que ele espera, ele faz a oferta dentro do que você julga o que vale o café que você pretende. Para beber o café eles torram a amostra. PRODUTO Manipulação da amostra Ele pega a amostrinha de café, põe em cima de um papel: há uns papéis pretos, nós mandamos fazer muito desse papel, mandamos pro interior inteiro. Eles têm o nome da firma em cima e têm os defeitos em baixo, então você cata aqueles defeitos e vê o que é o café, e o exportador depois marca o tipo de café. Hoje é tudo menos completo que antigamente, antigamente esse tipo tinha muita importância. Hoje eles até nem ligam pro tipo. Sabe como eles fazem a contagem de defeito? Eles pegam todos os defeitos que têm numa latinha de 300 gramas e pesam. Tem uma balança, toda firma de café tem balanças ultra-sensíveis. Eles pesam e te dizem assim: "Vai quebrar 8%, vai quebrar 12%, vai quebrar 30%." É sinal que se eles mandarem preparar esse café, passar nas tais máquinas que eu disse que eles usam, pra esse café ficar limpo, dá uma quebra de tanto. Então eles calculam o café limpo num preço que eles pretendem pagar, que eles podem pagar e calculam os defeitos dentro de um preço pra jogar lentamente dentro desses cafés antigos, que nós bebemos, que são torrados. Esses defeitos que aparecem são grãos verdes, são grãos mais fracos, grãos mal granados. Isso é pesado hoje em dia, hoje em dia você não vê mais falar. O certo é como antigamente, mas você não vê mais falar "é um tipo 2, tipo 3." Diz: "Olha, vai quebrar 12%, vai quebrar 13%." É como eles se referem a um lote de café.

EXPORTAÇÃO
Venda Bom, o exportador te faz uma oferta, você recebe um lote de café e você olha o café, conhecendo o café. O processo nosso é o seguinte: no mesmo dia, o café chegou, realmente o café é entregue a amostra é entregue pelo Sedex, chega às 11 horas no escritório. Quando é mais ou menos às 4, 5 horas da tarde, esses cafés todos que chegaram já estão todos classificados. Então a telefonista chama o dono desse café no interior, conversa comigo ou com um dos meus filhos, dependendo da pessoa que é, porque tem um grupo que trabalha comigo, um grupo que trabalha com o Sérgio, os meus três filhos. Um de nós quatro faz a ligação e diz pra ele: "Olha, chegou aqui a sua amostra de tantos sacos de café hoje, e esse café bebeu isso, esse café tem esse número de defeitos, eu acho que a saca está boa, eu acho que a saca não está boa, eu acho que esse café podia ser melhor por causa disso ou pior por causa disso." Então a pessoa fica no interior com uma idéia que o seu corretor deu sobre o café. E o valor do café, que é o mais importante, deve ser hoje de tanto. Ele diz pra você: "Eu não pretendo vender já, esse preço pra mim não serve. Você aguarda um pouco, quando houver uma mudança, faz favor, me avise. Ou quando eu resolver o contrário, se não mudar, eu te aviso." E é como funciona o negócio de café.

PREÇO
Não há preço mínimo. O preço oscila conforme as condições do mercado mundial. No momento, nós temos preços muito ruins. Mas o preço do café é o seguinte: o preço oscila. Pra você ter uma idéia, nesses dois últimos anos, o preço do café caiu de R$ 250,00 um saco de café, hoje um café bom vale de 100 a 110. Veio pra baixo da metade, aí está a crise da cafeicultura. Agora, este preço é dirigido pelo interesso que é constatado lá fora, e lá fora há Bolsas. A Bolsa de Nova Iorque é um termômetro. Todo dia você tem um quadro na frente, como estou vendo aquele ali, que me dá as cotações de café na Europa, nos Estados Unidos, me dá o câmbio, me dá a Bolsa de São Paulo. E estes preços é que são regidos, que regem a conversão do preço aqui. Por exemplo, hoje, nos Estados Unidos, um café deve valer, um café bom brasileiro vale mais ou menos 45 centavos. 45 centavos ainda há um deságio dentro da Bolsa pro café brasileiro, há um deságio lá. Tem horas que não há esse deságio, dependendo do interesse. Mas no momento dessa crise, além de o preço ser baixo, há um deságio, no momento não tenho certeza, mas deve ser ao redor de 10 centavos. Então esse preço de 45 passa pra 35. Aí você multiplica pra saber quantos dólares dá um saco de café, você transfere pelo valor do dólar e você vê quanto vale um saco de café hoje. Agora, há qualidade de cafés, que eles chamam de gourmets, cafés especiais, que não entram nesse cálculo. Você consegue vender café gourmet, é o café mais fino que existe no Brasil, um café que eles catam até o pensamento de defeito, não é nem defeito, e são vendidos em parcelas muito pequenas, pra muitas pessoas não resolvem. Porque você vende pra gourmet 50 sacos, 100 sacos e obtém um preço recorde do outro lado. Você manda essa amostra superpreparada, de super-qualidade pra um gourmet dos Estados Unidos, da Europa e eles te pagam um preço muito acima, às vezes o dobro do que está relacionado com o preço que vem da Bolsa. E há compradores especiais, no caso a Illy Café, por exemplo, vocês ouviram falar. A Illy Café, nós somos representantes no Brasil desde que eles se instalaram aqui, há dez anos atrás, eles trabalham conosco. Nós somos partners dele, sócios dele no Brasil. E o café que eles recebem lá é um café que você apresenta, 100 lotes pra eles servem. Eles pagam um preço bem acima disso. Pra você ter uma idéia, hoje um café bom vale na rua 110, 120, a Illy Café paga 210 um saco de café. Mas são cafés que não têm defeito. Seu pai o ano passado vendeu café pra ele, uma parte do café. São cafés superespeciais, cafés super-gourmet, que a gente não pode até o momento levar muito em consideração, a não ser pra fazer uma média. Um sujeito que produz 2 mil sacos de café tem a felicidade de colocar 150, 200 sacos de gourmet, então faz uma média, 200 sacos lá em cima, sempre melhora um pouco a média. O resto é preço de combate. Mas é assim que se faz, é mediante o que está ocorrendo lá fora. O mercado de café na Bolsa de Nova Iorque está muito afetado porque ele não é mais dirigido por grupo, aquilo é uma cobertura de fundos, todos os fundos dos Estados Unidos trabalham na Bolsa de Café, fazem, vamos dizer, especulações na Bolsa de Café. E normalmente eles estão sempre vendidos, estão sempre pressionando o mercado. É uma dificuldade, porque hoje um sujeito normal do café pode fazer 20, 30, 50 contratos na bolsa de Nova Iorque. Isso é menos que uma gota de água no oceano, porque se os fundos fazem 25 mil contratos num dia, quem é que pode? Eles podem mais do que o governo de todos os países produtores de café juntos, eles dominam todos juntos. O mercado de Nova Iorque é pressionado sempre por esses fundos. Aliás, pra vocês verem como o café está barato, é fácil. O Brasil, com uma safra de 30 milhões de sacos agora, vamos pôr um número, acho que é até um pouco menos, mas vamos pôr 30 milhões agora, você vendendo café no preço que nós estamos vendendo, se nós vendemos uma safra inteira é menos do que um avião de combate deles que cai. Você não pode comprar um avião de combate, o café está de graça.

PRODUTO
Café por regiões Bom, o café do Paraná é considerado, num ano de chuva, porque o grande adversário do café, a chuva precisa pra produzir, é um elemento, mas o grande adversário do café é chuva na hora da colheita. Porque na minha opinião uma das coisas que atrapalha muito a qualidade do café é você derrubar o café e vir uma chuva e você pegar com cinco, seis, dez dias e o café no chão, sem poder levantar o café do chão. Esse café fica todo chuvado, fica todo com gosto de terra. A chuva é um adversário enorme do café. As regiões de café se dividem, há exceções, gente muito caprichosa, gente que teve sorte de não ter uma chuva, pessoas que têm grandes agrônomos, o agrônomo cata quase que um grão por grão. Mas normalmente o café do Paraná é um café de médio pra ruim. Tem café bom no Paraná, mas é exceção. No Estado de São Paulo, as regiões de Alta Paulista, de Noroeste, de Araraquarense, de Sorocabana, Sorocabana pode cair pro café ruim do Paraná, mas nessas regiões são considerados cafés médios. E a Mogiana em São Paulo, e o sul de Minas e principalmente uma região nova que é chamada do Cerrado de Minas são cafés finos, habitualmente são finos. São finos por quê? Porque a produção é mais moderna, são cafezais mais novos. O terreno não sofre, é um terreno árido, que tem a vantagem de ser café fino, mas em compensação um café no Cerrado, se você não adubar substancialmente num ano... Agora, por exemplo, aumento de crise, o sujeito pára de adubar um café no Cerrado, o pé de café praticamente morre. E nas outras regiões, você diminui a comida do café, adubo, tudo, porque está tudo muito caro e o preço do café é muito ruim o cafezal fica meio parado, mas vive. Daqui a dois anos, quando acabar essa crise, ou três anos, eu acredito que essa crise do café só acabe em 2004, quando acabar essa crise do café, você trata daqueles cafés da Mogiana, do sul de Minas, eles com o tempo voltam. Do Cerrado, se você ficar sem dar comida pra ele, até acabar a crise, não tem nem mais um pé de café lá. E são regiões que precisam ser aguadas, por pivôs, eles têm chuvas artificiais por cima dos cafezais. Quem tem isso no Cerrado colhe muito mais do que quem não tem, porque é uma região árida, que não há praticamente inverno, é uma região que tem pouco perigo de geada, quase nenhum, já houve, mas quase nenhum. E dentro dessas condições, as regiões vão, com o trato que eles vão fazendo, com as inovações, com agrônomos modernos vão melhorando as condições. Por exemplo, antigamente se falava em Zona da Mata de Minas era a mesma coisa que falar no diabo, era só café rio. Hoje em dia, na Zona da Mata, os cafezais novos, dentro dessa técnica nova, tem café finíssimo na Zona da Mata. E o Espírito Santo, que está aumentando muito a produção dele nestes anos, produz 9, 10 milhões de sacos de café, ele tem 8, 9 milhões de café muito ruim, de rio. São os tais robusta que está baratíssimo., O café arábica está neste preço que eu contei a vocês, de 100, 120 reais, o robusta está 40, 50 reais. Essa diferença é porque é um café de qualidade inferior, é um café que não se pode comparar, pra quem conhece qualidade, aos cafés de zona fina. Então eles são vendidos pra compradores do outro lado que pagam menos e compram o robusta. Ultimamente, como tudo progride, há um tratamento para esses cafés quando chegam na Europa, o meu filho Nelson viu, viu um em Trieste, outro em Hamburgo, eles fazem, vamos dizer, não é uma lavagem do café. Eles fazem lá uma pulverização nesses cafés que eles melhoram muito. Porque os cafés de região ruim, de robusta, quando eles saem da lavoura, você tem medo até de pôr a mão no saco. Depois de eles fazerem esse serviço na Europa, eles não mudam a qualidade, mas eles mudam o aspecto. Eles vão pra essas firmas de limpeza desses café, uma espécie de lavagem, de pulverização, que os cafezais melhoram muito o aspecto. E para baratear, em algumas regiões do mundo, eles estão fazendo ligas desses cafés entrando 30, 40% e 60 a 70% dos cafés mais caros. Então o café fica mais barato.

PRODUTO
Café orgânico A minha firma, acidentalmente comercializa. O café orgânico é pra aqueles países, aqueles compradores especializados que acham que a matéria ou o café orgânico não tem problema nenhum de adubo ou produtos químicos que entram normalmente na plantação de café. Mas ainda é um percentual muito pequeno no país. Agora, os preços, o café é feio, o café não é bonito, mas você tendo, porque há laboratórios no Brasil que são registradas essas fazendas que produzem café orgânico. Elas são poucas, mas há. Você tendo um documento desse, você consegue vender, o Japão principalmente gosta muito disso, japonês é muito minucioso. O Japão gosta muito de café orgânico e paga o dobro por esses cafés. Agora, a produção, como é natural, sem adubo cai, porque fica dependendo da terra ser boa e do tempo chover. Porque não tem adubo, não tem nada, a produção é muito menor. Às vezes você acha que está vendendo um café por 200 reais, orgânico, mas acontece que um cafezal que produz 40 sacos por 1000 pés de café, o orgânico são a metade, a terça parte do que produz. Por isso que o café orgânico é caro. Mas dentro dessa crise tem pessoas que estão tentando fazer um pouco café orgânico pra frente, porque não gastam adubo que eles não podem gastar, não querem gastar, não têm condições de gastar e querem ver se pelo menos em dois, três anos, sem adubo eles produzem esse orgânico e vendem melhor. Eu conheço pessoas que estão fazendo isso. PRODUTOS Tipos de café O café rio, o rio, o mole, o apenas mole, o duro são características de bebida. E o rio é, na classificação, o último da lista. Agora, é rio o nome disto porque este café, antigamente, ele era produzido no estado do Rio e era produzido no caminho pro Rio. Vamos dizer, antigamente o café estava na central daqui pro Rio, estava em Taubaté, estava em Pinda, estava em São José dos Campos, hoje não tem um pé de café mais lá. E esses cafés todos eram de bebida rio. Há pessoas que gostam de rio, eu já vi, um tio meu me contou uma vez que foi ao Rio, pegou um amigo, disse: "Eu vou levar você num lugar que tem um café ótimo." Levou num lugar que tinha um café bom, o sujeito foi lá, achou ruim o café: "Ah, porque eu vou levar você num melhor." O café era rio. Depende muito de você acostumar, como quase tudo depende de gosto, de acostumar. O café rio é originário do Estado do Rio, a terra lá que produzia café, e desse São Paulo central, de Taubaté pra frente. Antigamente tinham cafezais, hoje não tem um pé de café mais lá, tinham cafezais enormes, e talvez por ser perto do Rio de Janeiro, condições de terra iguais, eram produzidos café rio nessa região. Tem, porém, quem goste de rio. São poucos, mas tem. Se todos gostassem do amarelo, do verde, como é que ia ser com as outras cores?

EXPORTAÇÃO
Exportação de café O comércio de café, o ponto que eu faço, o meu ponto de especialista é o de corretagem do café, e ultimamente é que nós temos essa firma de exportação, que exportamos tudo pra Illy. Tem relacionamento, mas não é um relacionamento estreito, e isso tudo se modificou. Hoje um percentual enorme, talvez 70, 80% dos cafés, seja embarcado em containers. Santos está com poucos armazéns gerais, todos fecharam. Os cafés já vem preparados do interior, o café vem em containers e são colocados a bordo direto, eles pagam o que tem que pagar, tem o contrato que tem que pagar, tem o Siscomex, que é o órgão de registro do Banco do Brasil de café. E a nossa presença dentro do porto é importante, mas é pro especializado em exportar café. O corretor pouco contato tem, a não ser ver o que o exportador está fazendo com o material que ele compra. Evidentemente, eles sabem quando tem vapor, quando não tem vapor, quais são as regras de embarque. Isso eu prefiro não participar. PORTO Outros Portos Hoje em dia nós temos o porto seco de Varginha, temos Vitória, temos Paranaguá muito pouco, temos o Rio de Janeiro, temos diversos, na Bahia. Mesmo no Norte há portos que põem o café pra fora. Porque o café produz mais nessas regiões que nós estamos falando, mas tem outras regiões, eu tenho café de Pernambuco, eu recebo de lá café. Tem café de Rondônia, tem o robusta de Rondônia. Bahia está se tornando um grande produtor de café. Por enquanto ele está exportando por aqui ou pelo Rio de Janeiro, mas futuramente, dentro de cinco, dez anos vai estar exportando tudo pela Bahia, muito mais econômico. Você já imaginou exportar isso tudo pra cá, o quanto não fica? Aliás, uma das coisas que é muito caro hoje, e tem também um problema que atrapalha muito, são problemas de cobranças de ICM nos estados. Você sabe que cada estado, os ICM não são iguais em todos os Estados, eles vão para lugares diferentes e, um dos problemas com a Bahia no momento é a questão do ICM, o ICM de lá é um ICM difícil de ser aproveitado aqui. É feito um esforço muito grande, mas há um deságio grande pro café, apesar de a qualidade do baiano estar melhorando otimamente. Os baianos estão fazendo cafezais, cafés, ótimos lá. Agora, tem os problemas, é evidente, a distância, o ICM e as estradas do Brasil, como vocês sabem, não oferecem garantia nenhuma. Aliás, hoje um dos grandes problemas, que nós não falamos ainda, é a questão do transporte do café, porque os furtos de café são constantes, são quase que diários. Nem comentam mais, mas há seguradora de café, todo café, ele é embarcado pra vir pro porto com seguro. E além do seguro não há mais transportadora que mande café pro porto sem ser acompanhado de uma segurança atrás, uma perua com segurança, homens armados, porque senão roubam o café. E às vezes roubam até dentro de armazéns gerais. Na minha opinião, o armazém geral mais completo que eu conheço no momento, mais tranqüilo, é o Plínio Leme & Leme, é um armazém fantástico. E o Plínio Leme, há questão de uns dois anos atrás, roubaram 12 carretas de dentro do pátio dele, entraram lá com metralhadora. E isso tem sempre. Uns seis meses atrás, eu tenho um amigo de Uberlândia, um sujeito adiantado, não é bobo, um sujeito que faz viagens, e as viagens que ele gosta de fazer, por exemplo, no momento ele está levando a bicicleta nas costas e vai andar de bicicleta na Guatemala. Ele já andou de bicicleta na Ásia inteira, grupos que vão do Brasil pra esquiar. Outro dia, entraram na fazenda dele em Uberlândia e roubaram 3 mil sacas de café dele, prenderam todo mundo e roubaram 3 mil sacas. Esse problema de distância é muito importante. Santos ainda é o porto que mais exporta café, depois vêm os outros longe de Santos. Temos Vitória, o Rio de Janeiro, o porto seco de Varginha. E Paranaguá hoje não se usa mais pra café, ele despacha muita coisa, soja, milho, o diabo, mas café hoje, o movimento pelo porto de Paranaguá é mínimo. Aliás, o estado do Paraná, principalmente com a última geada do ano passado, praticamente ele sumiu como produtor de café. Produtor de café são muito poucos lá. Hoje o Paraná, este ano o Paraná produz 500 mil sacas de café na safra de 30 milhões, que é zero.

BOLETIM
Nós temos um boletim que é o mais antigo e único no Brasil. Ele é produzido, ininterruptamente, desde 1933, toda sexta-feira. Pode acontecer o que acontecer, que o boletim sai. Muitas vezes já morreram pessoas chegadas do escritório, e de qualquer jeito o boletim sai. E o boletim nosso é um boletim despretensioso, que procura marcar o que aconteceu de mais importante naquela semana anterior, todos os fatos. Por exemplo, quando chega, por exemplo, agora uma pessoa no escritório e me pergunta: "E em setembro de 45, o que houve?" Eu vou lá, vejo e digo o que aconteceu naquele dia, naquela semana e digo os preços daquela semana. É o único órgão brasileiro existente, não há outro, nós conhecemos, podemos mostrar tudo o que aconteceu em café desde 1933 até agora. Troca o presidente do I.B.C., a gente marca "caiu fulano, saiu sicrano", troca o presidente da República, houve golpe, houve geada, as geadas todas quem vai saber, as flutuações todas de preços, em todos os países. O governo não tem um troço assim, volta e meia eles telefonam perguntando.

CLIENTES
Perfil da clientela Bom, os clientes, nós temos clientes no escritório, novos. Aparece cliente sempre, pra não dizer todo dia. No início da safra, depois que o sujeito colhe o café, vamos dizer, julho, agosto, setembro, começam a aparecer bichos novos, que a gente não conhecia, gente nova. Você tem que saber, nós temos os que nós queremos trabalhar e os que não convém trabalhar. É feito um estudo, normalmente 90% o pessoal passa e nós trabalhamos. Mas existe um grupo que as informações não são boas, e nós, com delicadeza, com jeito, nós estamos muito atrapalhados, com muito serviço e que ele seria mais bem servido com outro. Isso é raro, mas acontece.. Agora, eu tenho freguês no escritório, já não a pessoa, mas neto dessa pessoa, que eu me lembro do avô dele, no primeiro dia que eu cheguei ao Escritório Carvalhaes ele estava lá. É uma família muito grande, de Sacramento, no sul de Minas, que eu trabalhei com o avô deles, era um sujeito honestíssimo, fantástico, trabalhei com o filho dele, que era melhor e estou trabalhando há 20 vinte com os netos e indo pros bisnetos desse sujeito. E o concorrente dele, é gozado, porque é uma cidade pequena, tem dois sujeitos que trabalham em café e eles são amicíssimos, são concorrentes e são amicíssimos. Quer dizer, na mesma data eu tenho essa gente. Eu tenho freguês no escritório de mais de 60 anos e tenho freguês que se apresenta todo dia. E de modo geral, a não ser pequenas incompreensões em café, que a gente vê que o sujeito não tem o conhecimento certo da questão, não há problema nenhum. Não há problema nenhum, eles trabalham certo, e tudo se consegue acertar. Eu não lembro, no meu tempo de café, no meu escritório, que alguém tenha deixado de pagar um café, de dificultar um café, de atrasar um café. Tudo correndo direitinho. Quando café é vendido, eu tenho uma moça lá que trabalha conosco, depois de fechar o negócio comigo, ela telefona, pega os dados de banco, dá a data de vencimento, dá tudo direitinho, além do fax que vai sempre avisando. Funciona tudo muito bem. A única coisa que nos últimos anos existem às vezes alguns problemas, é na questão das amostras de café, porque aí vem de gente inexperiente. Porque tem alguns que entram no negócio e não têm experiência e são honestos, tudo, mas diferença de café da pessoa que manda, porque o exportador, quando compra o café e recebe os dados, ele vai ao interior, na fazenda, é dado o nome da fazenda, a localização, como é que ele chega lá, ele vai lá e fura o café, picota o café, como eles chamam, pra ver se bate com a amostra que eles têm aqui. Agora, é raro, bastante raro, mas a coisa que às vezes acontece é uma diferença entre a amostra que o sujeito manda e a amostra que ele tem lá de café. Mas muitas vezes, quase sempre, é falta de prática, não é mal intencionado. E também precisa ver porque dentro dessa crise que nós estamos todo mundo corta despesas e hoje em dia os exportadores não têm mais os funcionários necessários pra mandar pro interior, pra ver o café lá. A gente nota que muitas vezes eles pegam essas amostras com furadores das companhias transportadoras. E esses funcionários que ganham por amostra que tem, é uma amostra em Mococa, é outra amostra em Guaxupé, eles, para ganharem mais, vão no saco, furam três ou quatro sacos, o que não exprime a verdade, e vão pra frente, fazer outro serviço. Algumas vezes que a gente vê isso, não pode ser assim. Isso tem que ser assim: eles mandam de novo e conferem o negócio. Negócio de café ainda é um negócio muito honesto. Evidentemente tem os desvios de muita gente, mas é um negócio que você pode trabalhar, é um negócio honesto. Eu trabalho com exportadores muito bons, tudo corre muito normal, a única que não é normal às vezes é essa conferência de café. Dos grandes exportadores que têm aí hoje, o maior exportador de café no Brasil, no momento, é o Tristão. Tristão é uma firma de gente de Vitória, que eles trabalham bastante lá e nas regiões de cafés finos. Depois deles tem outras, tão grandes como ele, por exemplo, a Unicafé, que é do Jair Coser, é uma grande firma de café. Todas essas firmas que eu estou falando exportam mais que um milhão de sacas por ano. Outra firma muito grande é a Exportadora Guaxupé, que é do Olavo Barbosa, que é meu amigo particular. É uma grande firma de café também. A Cooperativa de Guaxupé é a maior cooperativa do Brasil, ela tem ano de receber mais de 2 milhões de sacas de café. E assim tem umas dez firmas que fazem juntas, por ano, de 800 a 1 milhão e 200 mil sacas de café, é uma firma grande. Agora, estão com os quadros de funcionalismo reduzidíssimos, cortando despesas como todo mundo tem que cortar. A firma que antigamente tinha 50 funcionários hoje tem 20, porque as margens de café estão muito estreitas, estão cada vez mais estreitas. Eu estava até com pressa de ir lá pro escritório, porque tinha um caso lá de um menino de Amparo, um rapazinho que eu não conheço, um rapazinho que está muito triste, ele contou na quinta-feira, véspera de feriado, porque ele toma conta de uma fazenda da avó, que era da avó, vai ser da mãe, gente muito boa, gente de primeira, e ele me disse que não sabe mais o que fazer. "Sabe, seu Carvalhaes, o negócio de fazenda aqui está tão ruim", é um rapaz formado, "que eu entrei num curso pra tratorista, vou dirigir os tratores da fazenda". Isso me disse, fiquei com pena do menino, um menino de 27, 28 anos, casado há seis meses, com uma moça que trabalhava em café, e está lá que não sabe o que fazer, e quer que eu resolva o problema dele porque o que ele tem é café pra vender, e dentro desses preços o prejuízo é muito grande.

PRODUTO
Café Solúvel É um outro mercado, completamente a par. É um café que o Brasil sofre penalidades do outro lado em cima dele. E o mercado de café, mercado de solúvel é um mercado relativamente pequeno, é um mercado que há esperanças de que a hora que a China entre tomando café, o que ainda está muito em início, é a mesma coisa que zero, e que a Russía beba mais café, esse café solúvel é feito em grande percentual pra Rússia. O café já vai em latinhas, é o pessoal dos Coimbra. Hoje o chefe aí é o Sérgio Coimbra. O Sérgio é um moço adiantado em café, conhece bem café, o pai dele tinha fazenda, tinha vários negócios de café. Mas é um negócio difícil principalmente por causa das notações dos impostos, das restrições que o café brasileiro sofre do outro lado. Ele está trabalhando, já conseguiu aliviar algumas coisas, vai acabar nos próximos anos. Eu vejo o mercado como de difícil penetração e eu vejo quando houver entrada de países populosos, porque o café, pra quem não conhece bem o solúvel é muito mais fácil, ferve a água, joga o café, está pronto. Não é como os outros. Mas é um mercado relativamente pequeno pro Brasil, muito pequeno. É um mercado que o total do solúvel deve estar ao redor, de exportação, interno, tudo, umas 250 mil sacas por mês só. É um mercado que não é fácil, não. Agora, quando a China entrar, porque todos os estudos que se fazem é da China vir a comprar muito café do Brasil nessa altura solúvel. Aí nós poderemos ter uma fonte nova, mas por enquanto não é fácil não. Esse pessoal do solúvel, ganha muito dinheiro, porque eles são muito fortes, o pessoal do Brás Coimbra, mas não é um negócio fácil.

VENDAS
Maiores compradores O grande comprador de café do Brasil era os Estados Unidos. Agora, no momento, quem compra mais café do Brasil, o Brasil vende café pra muita gente, quem está comprando mais café do Brasil é a Alemanha. Depois a Itália compra muito café do Brasil. Depois nós temos Suécia, Noruega, Dinamarca, França, muita gente que compra café do Brasil. Os Estados Unidos, nos últimos anos, devido a essa bagunça que nós fizemos de retenção e outras coisas antes, nós passamos de primeiro entregador de café lá pra quarto lugar. Isso é passageiro, nós vamos voltar, se não pra primeiro pelo menos ao segundo lugar, mas no momento o grande comprador que nós perdemos. Nós estamos em quarto lugar lá. Agora, a Alemanha, em compensação, aumentou bastante. A Alemanha tem feito lá um comércio que ela recebe o café do Brasil e ela, vamos dizer, põe aquele, trabalha aquele café, cria condições de café e está virando exportador de café na Itália, na Europa, recebe o produto brasileiro e hoje a Alemanha reexporta muito café. Mas bebe muito café, o alemão gosta muito, o italiano também bebe muito café. E o italiano é exigente, o café que vai pra Itália é finíssimo. Eu trabalho com a Illy Café há dez anos, desde que eles se instalaram no Brasil, nós mandamos pra eles, anualmente, de 150 a 200 mil sacos dos melhores cafés que há no Brasil. A minha firma. Todo ano nós mandamos de 130 a 150 mil sacos. Os melhores que existem no país. VENDAS Preços de venda Eles compram qualidade melhor, então eles pagam um pouco mais. Mas, ultimamente, devido à aproximação do fim do poço, os preços são mais ou menos todos parecidos. O Olavo Barbosa tem compradores de cafés finos, ele paga às vezes bons preços pra café, tem o Lavaggio da Itália que trabalha com ele, tem firmas. Acontece que a gente nota é que alguns que pagam cafés a preços um pouco melhores, não são muito melhores, quando se tem uma diferença grande é 10%, 12%, são firmas que trabalham muito pouco, você vende uma quantia muito pequena pra elas. Os cafés, as firmas que trabalham mais em café são firmas que normalmente trabalham com cafés médios. Por exemplo, a Unicafé, eu acho, na minha opinião a Unicafé é uma firma com grande potencial, hoje está atrás do Tristão mas, ela vai voltar pro primeiro lugar, foi uma fase anormal agora durante a retenção, e a Unicafé trabalha com cafés médios paulistas. A Unicafé ,ela manda para fora de 1 milhão e 200 a 1 milhão e meio de sacas ano. Desses cafés médios do estado de São Paulo, houve um ano que eu vendi num mês pra eles mais que 100 mil sacas num mês. É uma firma muito forte. Eu acho que nós vamos ter uns anos duros com esses preços, mas devido a nós começarmos a abandonar café aqui e os outros também lá fora estão abandonando, o pessoal da Ásia que fez café apesar dos salários de lá serem baixíssimos. Lá um homem que trabalha em café ganha 1 dólar por dia, eu acho que eles não vão parar de ser produtores de café. Porém, nos próximos anos, eles vão ter uma diminuição muito grande de produção também. Eu tenho a impressão que 2004, 2005 nós estamos com a vida da cafeicultura nacional novamente em evidência, procurando melhorar. Agora temos que ficar preparados para este fim de ano, 2002, talvez 2003, termos preços muito ruins pra café. Esses preços são completamente nefastos, não há quem possa no país produzir café com esses preços. Eu conheço e lido com grandes produtores de café e vejo a média de custo, todo café é vendido abaixo de 80 reais, 90 reais, são cafés grandemente deficitários. A lavoura de café está numa situação muito, muito difícil.

SISTEMA DE TRABALHO
Mudanças Antigamente, até uns 20 anos atrás, o negócio de café era todo feito aqui, porque o café era transportado e vinha para os armazéns gerais aqui. E de uns 20 anos pra cá, grande parte do negócio de café é feito pra liquidação no interior. Isso foi uma mudança muito grande. E eu noto que no sistema de escolher café, de classificação de café, a não ser os gourmets que continuam, hoje em dia eles são menos rígidos no trabalho de café do que eles eram antigamente, antigamente eles faziam um negócio mais, com mais certeza, tudo. Hoje em dia você vê amostra de café que você acha que não vai conseguir e acaba conseguindo, e outras que você pensa que vai conseguir e não consegue. Eu noto que uma das coisas que pesou muito no comércio de café, como tudo, é comunicação. Eu acho importantíssimo porque hoje você pega o telefone, você fala no Japão em um minuto, você pega o telefone você fala na China em um minuto, você pega o telefone, fala na Bahia, fala em Rondônia. A comunicação foi importantíssima na comercialização de café, é talvez o fato mais importante. E isto faz com que tudo seja conhecido rapidamente. E hoje, você chega agora lá no escritório, eu tenho lá em cima da minha mesa, fora a televisão me dando Bolsas do mundo inteiro, há órgãos especializados em café que te mandam comentários, oito, dez, quinze por dia. Quer dizer, a informação que você tem do mundo inteiro sobre comercialização de café é muito grande, boletins especializados, quer dizer, criaram serviço pra muita gente. Eu acho muito importante, o fato mais importante que eu vi foi a rapidez na comunicação.

PRODUTO
Problemas com geadas Na minha opinião o maior fenômeno que eu vi em café até hoje foi a geada de 75. A geada de 75 foi devastadora, a geada de 75 acabou com quase todos os cafezais do Brasil. Foi um fenômeno porque eu já vi mais que 15, 20 geadas, mas nenhuma como a de 75. Acho que foi um marco do café a geada de 75. Porque na década de 40 foi fundado o Paraná e os cafezais do Paraná eram muito produtivos, todo mundo ia fazer fazenda no Paraná porque a média de produção deles era o dobro da Mogiana, era o dobro de qualquer lugar. E com a geada de 75, este povo, mais que 70% dos fazendeiros não voltaram, porque não tiveram condições, porque a geada foi até no chão, matou. E em São Paulo a mesma coisa, em Minas a mesma coisa, mas esses outros estados tinham poder de resistência maior que o Paraná, que tinha sido feito na década de 40. Foi o maior fenômeno que eu vi até hoje. Agora, houve passagens tremendas de crise. O suicídio do Getúlio foi um momento de grande crise na cafeicultura. Porque, como sempre, nós estávamos com o plano errado. Nós mantínhamos um preço de 80 centavos pra vender café pro outro lado, 80 ou 83, e nessa altura a Colômbia vendia café pela metade do nosso preço. E nós estávamos com Osvaldo Aranha no Ministério da Fazenda e ele segurava o preço, garantindo que o Brasil, nós ficamos parados muito tempo. Quando nós estávamos que não agüentávamos mais, houve o suicídio do Getúlio, Osvaldo Aranha caiu, o plano foi abandonado e o mercado de café caiu de 80 pra 18, houve uma grande crise. Foi aí que começou a desvalorização da moeda perante o dólar. Foi tombo no preço e tombo na moeda, porque você tinha preços menores no café e pra cumprir os seus negócios você tinha que comprar o câmbio cada dia mais caro. Então os negócios que estavam feitos trouxeram problemas, houve quebras tremendas de café. Foi em 54. Agora, fora essa, tivemos várias crises. Em 49, o preço do café do Brasil subiu de 500 mil réis pra 1 conto, dobrou de preço, e isso não foi bem explicado, não foi bem compreendido nos Estados Unidos e as donas-de-casa fizeram uma revolução contra o café, passaram a diminuir as compras de café. Nós trouxemos dos Estados Unidos as donas-de-casa pro Brasil. Elas andaram pelo interior inteiro vendo que nós não tínhamos o café que elas pensavam que nós tínhamos, foi em 1950. Mas deu um trabalho das Arábias. Quem trouxe essas donas-de-casa pra cá foram as associações de classe, a associação comercial, as associações do interior de São Paulo. Vieram aquelas velhas, todas de chapéu, naquele tempo. E estiveram por aí tudo, você tinha que levar, foi determinado que determinado grupo levasse cá, outro pra lá, ficaram aí uns dez dias pra se convencer, pra convencer. Iam às fazendas. Pra convencer. Convencer que não tinha tanto café, que a alta de café não tinha sido uma especulação. Que a alta de café era devido à pequena produção, consumo maior. Houve aí crises tremendas, houve há dez anos uma crise seríssima em café que foi chamada Operação Patrícia. Operação Patrícia porque o Ministro de exportação da Fazenda era o, nome dele, o primeiro nome dele nem me lembro mais, foi no tempo da, logo depois que acabou a ditadura militar, era Rio Branco o nome do ministro não sei o que Rio Branco. E ele criou também uma forma que os exportadores brasileiros podiam comprar café na Bolsa de Londres, que se eles não conseguissem sair do café o governo do Brasil ficava com o café. E como é natural, enquanto interessou, que o mercado ia subindo, o exportador entrava, ganhava dinheiro, saía, era dele. Na hora que o negócio travou, que o exportador ficou com o café engasgado, eles entregaram pro governo e está em discussão até hoje, o governo quer que eles paguem o prejuízo e eles dizem que não pagam porque eles foram autorizados a fazer isso, a mandado do governo. Chama-se Patrícia porque no dia que começou a operação, o Castelo Branco tinha uma filha que fazia não sei quantos anos e ele chamou de Operação Patrícia. Foi uma crise terrível essa também. E temos tido muitas crises, governos que dão palpites errados do outro lado, que ficam em desavença com os consumidores. Porque em todo comércio tem que haver uma ligação entre o produtor e o comprador, não adianta você ter só o comprador ou ter só o vendedor, você tem que ter os dois.

VENDAS
Bolsa Oficial de Café A Bolsa é o termômetro da doença. Ela marca a febre, vamos dizer, a tendência, a Bolsa é marcadora de tendências. A Bolsa, quando o momento é de alta e escassez, ela marca a alta diariamente, às vezes cai um dia, sobem três. As Bolsas ultimamente lá fora não exprimem grandemente a verdade, como eu disse a vocês, porque não há possibilidade de nenhum cafeicultor do mundo, nenhuma associação de café do mundo poder trabalhar contra os fundos nos Estados Unidos. A Bolsa de Café aqui de Santos, no momento, ela está muito bonita, foi reformada, tem lá o Museu do Café, ela nunca esteve tão bonita. Mas a Bolsa não funciona, a Bolsa não tem mais. Já funcionou, a Bolsa funcionou um largo período, depois esteve um largo período fechado, tentaram abrir, aí que eu não lembro das datas que se vocês tiverem interesse eu posso dar depois, e voltaram a funcionar. Mas desde 60 pra cá, a Bolsa de Santos não tem um funcionamento normal, porque havia um mercado paralelo aqui em Santos que não requeria margem, você entendeu, começou assim. Chamava-se mercado de entrega direta. Eles faziam o mesmo serviço da Bolsa, só que sem margem, então as firmas todas, no lugar de operarem na Bolsa, operavam no mercado de entrega direta, que faziam o mesmo contrato de café, tudo, só que era registrado na caixa de liquidação, que era uma caixa de registros e quando chegava a hora do vencimento as firmas fechavam mês a mês os contratos, porque os contratos eram feitos por cada seis meses, o período usado na entrega direta era janeiro a junho ou julho a dezembro. Quando chegava em janeiro, estamos em janeiro ou dezembro, anterior, uma firma procurava outra por intermédio de seus corretores e acertava: "Olha, estou vendido em tantas sacas. Preciso comprar". Não precisava ser do mesmo que vendeu, comprava de outra firma. Eu acho que o grande adversário naquela ocasião da Bolsa, a Bolsa não funcionou melhor por causa da entrega direta. Agora, havia às vezes surpresa, porque em café, evidentemente, pode uma firma ser boa hoje e daqui a um ano não ser. Houve alguns prejuízos na entrega direta, e com o tempo gente que não pôde cumprir o que fez, contrato registrado na caixa de liquidação, tudo. O negócio foi morrendo, porque eles foram unicamente escolhendo negócio entre o que chamavam firmas "papo-amarelo", quer dizer, as grandes firmas. E ficou um mercado muito restrito, e o mercado de Bolsa era difícil porque as margens da Bolsa eram sempre muito grandes e os operadores pequenos, os operadores operavam pouco na Bolsa. Então a Bolsa foi indo, foi indo, acabou fechando, por desinteresse dos operadores. Agora, a Bolsa de São Paulo, que abriu nos últimos anos, esta não está com pleno funcionamento em café, mas tem um funcionamento melhor. Aqui, a Bolsa não funcionava direito nos últimos anos. Agora a questão de data que fechou, que encerrou, eu tenho que ver, porque eu não me lembro a data. Inclusive eu me lembro, eu tenho uma fotografia que posso mostrar a vocês da abertura da Bolsa pela segunda vez, a última vez antes de ela fechar, houve um grande almoço que estava a praça inteira. Foi no Clube da Bolsa. Era um restaurante que era no segundo andar da Bolsa, houve um grande, está lá todo o pessoal que naquele tempo trabalhava na Bolsa, estão todos lá sentadinhos, todos engravatados.

CASAMENTO
Bom, eu fui, como todo moço, namorador. Namorador. Inclusive eu conheci seu pai em São Paulo por intermédio de uma moça, que ele gostava muito dela, mas acabou não casando com ela porque ela não queria morar em Mococa. E dessa turma de São Paulo, que eu ia muito lá e vivia com aquele pessoal todo do Colégio Sion, festas em casas de particulares, não havia fim de semana que você não tivesse uma família que não te convidasse pra uma festa. Mas era gozado, porque o negócio era dançar e naquele tempo o pessoal era todo, ficava meio de lado, não dançava. E conheci minha mulher, eu era muito moço, com 20 anos, aqui em Santos, uma família muito conhecida, o pai dela tinha uma grande firma exportadora de café, os tios também tinham outra, Companhia Leme Ferreira e Ferreira da Silva. Eram duas firmas, tais de "papo-amarelo", que disse a vocês, quando ela entrava. Conheci numa festa do Clube de Pesca, na Ilha das Palmas, e casei um ano e meio, dois anos depois, e sou casado até hoje, casei em 8 de dezembro de 47, ela se chama Helena Ferreira da Silva Carvalhaes.

FILHOS
Tenho quatro filhos, a primeira é a Lúcia Helena e os três meninos, cada um no seu ramo, é um colosso. O Duda, vocês vêem ele sempre aí envolvido em tudo quanto é governo, presidente do Museu do Café, é presidente do Centro Vivo, foi o último presidente do Rotary de Santos, e uma porção de coisas de café, é presidente do departamento de corretagem do café na associação comercial e outras que eu nem sei. O Sérgio é casado, o Duda tem dois filhos, dois meninos muito bonitos, muito inteligentes, muito estudiosos. Um está no quarto ano de Direito em São Paulo, na PUC, e outro vai fazer exame agora pra Medicina. Tenho a impressão, pelo que ele é, que ele vai entrar. Depois vem o Sérgio, o Sérgio é o do meio, é o que trabalha há mais tempo comigo. O Sérgio, outro dia numa reunião de cafeicultores, um japonês que era dono do Café do Ponto, o Sato veio na festa: "Olha, eu queria saber de você, você tem três filhos que trabalham consigo a vida inteira. Eu quero saber qual é que trabalha melhor". Eu disse: "Olha, Sato", Sato é um japonês conhecidíssimo, era dono do Café do Ponto, vendeu agora pra Sara Lee, "eu acho os três trabalhadores do mesmo jeito, agora acho que, dos três, o que trabalha mais parecido comigo, gosta mais de corretagem é o Sérgio, o do meio." É o do meio. O Sérgio tem uma loucura pelo negócio de café, ele tem um monte de cursos. O Duda é engenheiro formado, trabalhou dez anos em firma de engenharia grande em São Paulo, depois pediu demissão porque queria trabalhar em café. O Sérgio tem um monte de diplomas de economia, de tudo, de direção de firmas. E o último é o Nelson, que parece mais velho que o Sérgio, porque ele é mais forte, mais alto e está começando a ficar careca aqui atrás, então todo mundo acha que ele é mais velho que o Sérgio, mas não é, ele é o último. O Nelson trabalha comigo há muitos anos, ele é formado em Direito, antes de trabalhar comigo ele trabalhava num escritório grande de advocacia em São Paulo, Demarre de Almeida. Ele veio trabalhar comigo, ele fica mais em exportação, ele toma mais conta, porque o serviço é muito. e então, está mais ou menos dividido por quatro, fora os funcionários que agente tem. O Nelson trabalha mais no setor de exportação e apesar da firma que trabalha com a Illy ser minha e eles um percentual, ele lida com a Illy dia e noite. Ele faz não sei quantas viagens por ano, viagens de exportação pelo mundo inteiro. Ainda agora, ele ia, quarta-feira passada, pra Europa, não foi por causa desse problema de avião, resolveu não ir. Mas vive viajando o mundo inteiro, atrás de negócio de café. e tem uma grande prática em qualidade de café. Ele toma parte, é convidado em tudo quanto é reunião de café, inclusive aquele grupo Pensa, em São Paulo, eles quando têm qualquer problema relativo à comercialização de café, é com o Nelson mesmo. Se eu não me engano a moça lá chama Sílvia. De maneira que, eu fico muito orgulhoso quando eu vejo os amigos chegarem por todo lado e dizerem: "Olha, você é um sujeito invejável." E eu digo: "Mas por quê?" "É, por ter três filhos com essa capacidade de trabalho que você tem."

FILOSOFIA DE VIDA
Filosofia de vida sobre comércio O comércio pra mim é um meio de vida, não um meio de morte. Eu acho que a gente deve fazer o melhor possível, estar o mais possível atualizado, o mais possível informado, Ter o máximo de tolerância com todo mundo. A gente vai ficando velha, vai ficando tolerante, sabe? Eu, hoje em dia, fico com muita pena de todo mundo. Às vezes eu vejo um menino, tenho vontade, um boy, um menino, tenho vontade de chamar a atenção, qualquer coisa, prefiro conversar depois com ele, que chamar a atenção, porque a vida é muito difícil pra todo mundo. O comércio, sendo um comércio que você conhece, é muito agradável. Agora, tem as fases boas e tem as fases ruins. Você tem trabalhar do mesmo jeito nas duas fases, porque o café é cíclico, agora nós estamos na fase ruim. Agora, eu já assisti fases de grande euforia. Já vi fases de grande euforia em café, já vi passagens muito engraçadas. Uma ocasião, eu estava na Bolsa e o mercado estava numa crise, não era uma crise como a atual mas, era uma crise. O governo determinou que o Wallace Simonsen viesse pra Santos defender a Bolsa, a Bolsa estava em funcionamento. O Wallace Simonsen tinha uma firma de café grande e era um elemento chegado sempre ao governo. E ele determinou, ele conhecia bem, que o Wallace viesse intervir na Bolsa pra não deixarem derrubar mais a Bolsa de Café, que era um termômetro do negócio. E eu estava sentado na minha cadeira, o Wallace estava perto e eu estava ouvindo. E tinha aqui em Santos um especulador pequeno, e a firma dele chamava-se Eugênio & Cia. E ele era um sujeito que falava o que lhe vinha na cabeça dele, ele falava. E era um vendedor conhecido, um predador do mercado, conhecido. E o Wallace estava atrás e disse: "Olha, seu Eugênio, eu vim pra Santos, estou hospedado no Parque e vim com roupa de inverno, pra passar o inverno todo aí. O senhor vai ter que me agüentar muito tempo". Sabe o que o Eugênio disse pra ele? "Dr. Wallace, eu o respeito muito, mas se o senhor abrir as entradas de café no porto, eu vendo tudo o que o senhor quiser comprar. É só senhor não cortar a entrada no porto". O Wallace ficou olhando pra ele, porque o Wallace era um big e o Eugênio era pequenininho. Mas ele disse: "Olha, o senhor abre as entradas de café no porto e tudo o que o senhor isso que o senhor quer comprar eu vendo mais barato pro senhor". Eu vi fases aí no porto tremendas. Eu tinha um cunhado, já morreu, era um irmão acima da minha mulher, era mais velho que minha mulher e que eu. Mas era um menino tremendo, e ele tinha mania de especulação de café. tinha mania de especulação de café. E ele ia pra Bolsa, e quando avisavam que ele ia chegando, o mercado muitas vezes mudava, ele era altista sempre. Mudava de baixa pra alta. Eu ouvia falar, estava lá dentro: "Olha, o Flávio está chegando". O mercado passava de vendedor pra comprador. Tinham um medo terrível dele, porque ele tinha muita força no mercado de café. Então, ele entrava na Bolsa, sentava, olhava assim. A unidade era de 250 a saca. E ele dizia: "Compro, é tal preço". Comprava, porque queriam vender. Depois ele: "Compro mais 10 mil sacos nesse preço. Compro mais 20 mil. Compro mais 200 mil". E ele era um homem que tinha uma mania de alta terrível, acabou quebrando com o café. Ele quebrou. E um dia tinha lá um gaiato, um sujeito chamado Neves, que era também um especulador tremendo. Eu estava perto. Teve isto. E ele disse pro Flávio: "Olha, Flávio, o mercado de café vai a tanto". Um preço absurdo. O Flávio olhou assim pra ele e disse: "O dia que o mercado de café for a tanto, eu dou", ele tinha um Cadillac conversível, amarelo, muito bonito, capota preta, aquele rabo de peixe antigo, um carro caríssimo naquela ocasião. Ele olhou pro Neves e disse assim: "Neves, se o mercado for a tal preço, eu dou meu Cadillac pra você". Sabe que o mercado foi e ele entregou? Foi uma festa nesse dia. O mercado foi e ele entregou o Cadillac pro Neves Fatos assim que a gente não esquece mais. Deve ter muita coisa, como essa que eu lembrei agora no fim, do especulador, do Eugênio e do corretor, o apelido era Tostão, porque ele era muito baixinho, pequenininho. O apelido era Tostão. E acabou, na morte do Getúlio, quebrando. Houve essa grande degringolada que eu falei, ele quebrou. Mas era interessante porque ele gostava tanto de Bolsa... Uma ocasião, esse grande freguês que eu contei a vocês que tinha 500 mil sacos de café, o Flávio queria meter ele na Bolsa. Ele disse pro Flávio assim: "Flávio, eu tenho coragem de comprar 500 mil sacos de café. Não tenho coragem de comprar um contrato da Bolsa". Bolsa é uma coisa sem liquidez, vem aí o que eu disse, que a Bolsa foi substituída pela entrega que tinha lá em liquidez. Mas o Flávio perguntou pra ele: "Mas como, seu Raul?" "Como é o seguinte: eu me meti uma ocasião numa especulação de algodão, me meteram numa especulação de algodão na Bolsa de São Paulo. Sabe o que aconteceu comigo? A hora", porque a Bolsa tinha uma hora que era dez, onze horas, que telefonavam pra pedir por sujeito depositar mais naquele dia, o seu Raul disse, "porque quando da Bolsa de Algodão de São Paulo me telefonavam, eu saía correndo pro banheiro, me dava dor de barriga, eu não quero ter dor de barriga de novo". Um homem que especulava com 500 mil sacos de café tinha medo de um contrato na Bolsa. Casos como esse tem às dezenas, centenas, a gente tem, não lembra mais.

AVALIAÇÃO
Entrevista Eu gostei, só que tem muita coisa que eu poderia contar pra vocês, mas é porque eu não lembro no momento. Eu tenho boa memória, eu não lembro agora os fatos e datas. Se vocês tiverem interesse de saber datas, vocês podem me telefonar que eu procuro lá nos meus arquivos e encontro essas datas todas. Encontro essas datas todas.

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