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História

"Vivo mais no presente"

História de: Neide Cavallari Zuppo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/08/2018

Sinopse

Neide conta como era sua relação com seus pais, diz que seu pai era mais amoroso que sua mãe, como conheceu e começou a namorar seu atual marido, sobre o momento turbulento da primeira menstruação, os métodos contraceptivos que conhecia, a educação que deu a seus filhos - diferente da que recebeu - como começou a estudar e frequentar o centro espírita. Relembra algumas doenças que seus filhos tiveram na infância, a transição de tratamentos com alopatia para homeopatia e essa nova filosofia e sobre seus cuidados com parentes em momentos de recuperação de cirurgias e/ou doenças.

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História completa

P/1- Vamos começar a entrevista, queria que você dissesse seu nome completo, local e data do seu nascimento e aí depois já o nome do seu pai e da sua mãe.

 

R- O meu nome é Neide Cavallari Zuppo, eu nasci em 27 de novembro de 1929. Meu pai chamava Affonso Cavallari e minha mãe Ida Dal Cendio Cavallari, tudo italiano.

 

P/1- Tudo italiano?

 

R- Tudo.

 

P/1- O seu pai, ele nasceu na Itália?

 

R- Não, meu pai foi o único que nasceu no Brasil, minha mãe também nasceu, mas minha avó materna teve outros filhos brasileiros. Minha avó paterna só teve meu pai brasileiro, os outros filhos eram italianos, quer dizer ela teve vários filhos, mas morreram tudo de sarampo.

 

P/1- Ah é?

 

R- É.

 

P/1- Essa sua avó...?

 

R- Paterna.

 

P/1- A senhora conheceu?

 

R- Conheci, ela chamava Catarina.

 

P/1- Catarina, como era o sobrenome dela?

 

R- Olha eu não sei o sobrenome, era Cavallari, eu sei da materna.

 

P/1- Que era?

 

R- A materna era Maria, Marieta né, que chamava em italiano, Gopi Dal Cendio, porque Dal Cendio era meu avô.

 

P/1-Então vamos voltar, sua avó paterna chamava-se?

 

R- Catarina.

 

P/1- E o seu avô?

 

R- Emílio.

 

P/1- E eles eram da onde da Itália?

 

R- A minha avó era de Mantova, eram todos vênetos, também o meu avô era de Veneza, e minha avó era de Mantova. A paterna não é.

 

P/1- E você lembra, o que o seu avô fazia?

 

R- Meu avô, para dizer a verdade, eu não sei, eu era muito pequena. Eles eram imigrantes, eles vieram como imigrantes, mas não foram trabalhar na lavoura, já ficaram aqui em São Paulo. Eu sei que minha avó era lá da Itália, ela tinha azeitonas, aquelas oliveiras, e tanto que ela era aleijada de uma perna, porque quando ela era meninota ela caiu e, naquela época, quebrou a perna e ficou... Ela tinha uma perna mais curta que a outra. Agora, para dizer a verdade, aqui eu não sei o que eles faziam, o meu avô materno tinha uma fábrica de vassouras.

 

P/1- Aqui em São Paulo?

 

R- Em São Paulo.

 

P/1- Ele também era imigrante?

 

R- Era imigrante.

 

P/1- Como era o nome dele?

 

R- O nome dele era... Hum, agora que você me pegou!

 

P/1- Não tem problema.

 

R- Porque esse meu avô... Eu era muito pequenininha quando minha mamãe já faleceu, a avó eu tive mais contato. Porque esse meu avô eu não tive muito contato porque ele bebia muito e não morava com a família, sabe? Tanto que ele morreu longe, minha avó só soube que ele morreu depois de dois anos.

 

P/2 - Ele morava em São Paulo?

 

R- Morava em São Paulo e tudo, ele era um pedaço de pão de homem, mas quando bebia ele queria matar a minha avó, os filhos aí já eram maiores e puseram ele para fora. Então para dizer a verdade o nome dele eu não lembro.

 

P/1- E todos os quatro eram italianos?

R- Todos os quatro italianos, a minha avó materna era de Padova, também é tudo da alta Itália.

 

P/1- E eles vieram para o Brasil, você lembra qual a data?

 

R- Não.

 

P/1- Também não, e eles tinham muitos filhos? Quantos irmãos tinha o seu pai?

 

R- Meu pai ficou só com dois irmãos, mas minha avó deve ter tido oito ou dez, mas naquela época, tanto que quando os meus filhos tinham sarampo meu pai ficava doente, porque na minha época não se fechava num quarto com luz vermelha, abafava tudo e meus tios morreram com dois anos mais ou menos, o meu pai contava, porque abafavam muito e eles desesperados, um deles minha avó pegou dentro de um tanque cheio de água, porque eles abafavam, davam aquele chá de sabugueiro, não sei o quê.

 

P/1- Como é essa história? Eu nunca ouvi falar, conta para mim. Isso na época do seu pai?

 

R- É, davam chá de sabugueiro. Na época do meu pai quando era pequeno, meu pai nasceu em 1899, papai era..

 

P/1- Ele já nasceu aqui?

 

R- Nasceu aqui.

 

P/1- E aí os irmãos pequenos morreram de sarampo no Brasil?

 

R- No Brasil.

 

P/1- E como era essa coisa do sarampo?

 

R- Quando dava sarampo eles davam chá de sabugueiro, diziam que era quente, fechavam todas as frestas, tudo com pano vermelho, diz que punham luz vermelha no quarto, você imagina o calor que a coitada da criança sentia. E meu pai tinha pavor, mas no meu tempo não tinha nada disso, quando tinha meus filhos a gente dava banho toda hora para refrescar, não tinha mais essa coisa, tanto que eu não perdi filho nenhum, graças a Deus. E minha mãe, minha outra avó teve treze, mas só sete ficaram vivos, inclusive a mais velha, irmã da mamãe que é casada com o José Metina.

 

P/1 - Ah tá, e os outros morreram de quê? Assim, você tem uma lembrança dos irmãos da sua mãe?

 

R - Bom, eles morreram de doença comum, minha tia Tosca, naquela época, mesmo que tivesse câncer, eu acho que foi de câncer, mas na época em que ela morreu não se falava, era proibido falar que a pessoa morreu de câncer, hoje em dia, AIDS e câncer a gente fala. Mamãe era diabética, morreu em 89, todas as minhas tias eram diabéticas, eu só tenho uma tia viva, da turma da mamãe que está com 86 anos.

 

P/1 - Mas a sua mãe era diabética desde criança?

 

R - Não, não, mamãe ficou depois de idade, tanto que meu irmão mais novo tem diabete, eu e meu irmão mas velho, nós somos em três, não temos. Já fizemos a curva glicêmica, já fizemos tudo, todo ano a gente faz exame e até hoje graças a Deus.

 

P/2- Seu irmão desde novo tem diabete?

 

R- Não, também ficou depois de moço, não sei se é hereditário.

 

P/1- É, dizem que é um pouquinho, tem tendência. Mas vamos voltar um pouquinho na sua infância. Como o seu pai conheceu a sua mãe, você sabe como foi?

 

R- Foi no carnaval.

 

P/1- No carnaval, aqui em São Paulo?

 

R- No Brás naquele tempo.

 

P/1- Eles moravam no Brás?

 

R- É, papai morava e mamãe na Mooca, e naquele tempo tinha o corso no Brás, então as moças e os rapazes atiravam confete, serpentina, lança perfume, eu sei que a mamãe contava. Primeiro ele flertou numa tia mais velha que a minha mãe, aí depois ele começou a namorar a minha mãe, e aí eles casaram no dia 31 de dezembro.

 

P/1- De que ano?

 

R- Meu irmão é de 26, eles casaram em 25. Em 31 de dezembro de 25.

 

P/1- E aí eles tiveram..

 

R- Três filhos, meu irmão é o Durval, sou eu a do meio, e meu irmão Laerte. Eu nasci em cima do convento da rua da Mooca, ainda existe.

 

P/1- Como foi isso?

 

R- Porque a minha avó era inquilina das freiras, porque até hoje existe a Divina Providência que chama o convento. E eu nasci, naquele tempo não se nascia em maternidade, nascia em casa, eu nasci em cima do convento; e como eu sou espírita, já me disseram que me viram duas vezes de freira em outras encarnações, e eu falei: “bom, pode ser mesmo, porque eu nasci em cima de um convento”(risos) Interessante não é?

 

P/1 - É interessante.

 

R- Eu tinha pavor de entrar naquele convento.

 

P/1- É mesmo? Porque a sua avó morava lá.

 

R- Então minha mãe quando casou, eu e meu irmão mais velhos nascemos lá, depois o meu irmão mais novo já tem seis anos de diferença comigo e eu tenho três anos de diferença com o mais velho, e meu irmão mais novo já tem seis anos, aí mamãe já não morava junto com a mãe [dela].

 

P/1- Ah, o que fazia o seu pai?

 

R- Meu pai era gerente de uma tipografia, chamava Assunção Teixeira, tinha também a livraria na rua José Bonifácio que agora é Saraiva e papai era gerente geral da oficina, da tipografia, era na Avenida do Estado, onde é agora o banco Itaú.

 

P/1 - E a sua mãe?

 

R - Mamãe quando solteira era bordadeira, monogramista, que naquela época ela fazia monogramas para enxovais, para gente da alta roda, ela trabalhava para a casa alemã, agora não existe mais. Naquele tempo não existia enxovais como existe hoje, então mamãe bordava monogramas, bordava muito bem por sinal, coitada, ela era ótima bordadeira, bordava na casa alemã. Minha avó quando chegou da Itália foi trabalhar em fábrica de tecido, e ela tinha horror, ela dizia que nenhum dos filhos dela iriam trabalhar em fábrica de tecido, porque aspirava aquele algodão, aquela coisa. Todos eles tiveram uma profissão, de trabalhar, mamãe era bordadeira, a mais velha era chapeleira, porque naquele tempo usava muito chapéu, minha tia Tosca eu nem sei, porque era a mais velha de todas, logo casou, ela casou nova com o José Medina, e meus tios, um era desenhista, um grande desenhista, ele teve uma grande empresa de propaganda, não me lembro agora, não sei se era Thompson, eu não me lembro o nome, e o outro era contador, a outra era fotógrafa, que tinha (Medinfer?), era Medina e Ferreira, era do meu tio. Quer dizer que todos tiveram de acordo com a época um ofício diferente da minha avó, coitada, que veio para trabalhar em tecelagem.

 

P/1- E como era na casa de vocês, você se lembra disso, da sua avó?

 

R- Lembro eu era muito apegada a minha avó.

 

P/1- Como é que ela era?

 

R- Ah, ela era um doce de pessoa, uma pessoa muito sofrida sabe, justamente por causa do meu pai, [era] praticamente sozinha, criou os filhos, porque ela não podia contar com meu avô. E ela trabalhava, costurava depois que eles eram moços, o uniforme do exército, ela morava perto da Rua da Figueira, não sei que batalhão era aquele, e ela costurava os uniformes, naquela época, dos soldados, e a mamãe conta, isso eu não lembro, ela dormia na máquina, debruçava na máquina e dormia, acordava, e para poder sustentar os filhos, depois ficaram maiores e aí foram cada qual trabalhar. Mas ela era um doce, eu nunca ouvi a minha avó reclamar isto, era um doce de pessoa, no entanto ela morreu com 62 anos e o médico disse que ela tinha o organismo gasto de 85 anos.

 

P/1 - Ah é?

 

R - É, de sofrimento, trabalho, mesmo hoje se você ver essa pessoa sofrida que trabalha, às vezes eu vejo, aparecer lá no Sílvio Santos, nessas televisões, pessoas bem mais novas que eu, falo com meu marido: “Eu estou com quase 68 anos, estou tão decrépita assim?” Porque a pessoa com 45, cinquenta anos está acabada. Deve ser o sofrimento, falta de alimento, e naquele tempo também não tinha... Agora a gente tem dentadura, maquiagem, você vê que eu não gosto de maquiagem e não sei, era mais sofrido mesmo. Eu tive uma meninice boa, papai e mamãe sempre se deram bem.

 

P/1 - Aonde vocês moravam?

 

R- Nós morávamos na Avenida do Estado, porque papai era gerente da tipografia Assunção e a própria tipografia era grande, tanto que fizeram o Banco Itaú depois lá, não é banco, é a parte administrativa. E nós tínhamos uma casa separada, moramos lá vários anos, e depois nos mudamos para Avenida do Estado, essa esquina com a Rua [Dona] Ana Néri com a Avenida do Estado, depois, quando eu tinha quatorze anos, nós mudamos para a Avenida do Estado em frente a Jonhson, até eu casar, dos quatorze anos aos vinte anos eu morei lá.

 

P/1- E na sua casa, a senhora tinha alguma diferença, a senhora arrumava a casa, seu irmãos faziam outra coisa?

 

R- Não, naquela época os homens não faziam nada, eu sei que eu estudava, só fiz ginásio, porque eu casei muito cedo, fiquei noiva muito cedo e eu entrei no ginásio do estado, naquela época era que nem fazer cursinho para a faculdade, porque tinha cursinho para entrar, naquela época só existia o Caetano de Campos, o Anchieta, e Ginásio de Estado que depois da guerra passou a Presidente Roosevel, mas eu levantava cedo para estudar porque quem arrumava a casa era eu. Eu só não lavava roupa e louça depois do almoço, a louça depois da janta eu lavava e os homens não faziam nada.

 

P/1- Nada, o que eles faziam?

 

R- Ah, eles jogavam bola, empinavam papagaio, estudavam, também não gostavam muito de estudar, no fim acabaram se formando e eu não. Eu era a única que gostava de estudar e acabei só fazendo ginásio. Depois eu fui para uma escola de freiras, naquela época ainda tinha aquele negócio de ser dona de casa, então eu fui para uma escola no Brás, acho que chamava Santa Rita de Cássia, nem sei se existe ainda. De manhã eu fazia arte culinária e a tarde eu fazia bordado, naquele tempo ainda usava bordar enxoval, porque não tinha... A gente ainda não tinha condição de comprar, para os meus filhos eu comprei tudo pronto, para as minhas filhas, depois eu fiz a singer para aprender costurar, porque naquele tempo era assim: tinham as que se formavam e tal, mas a mentalidade italiana ainda dizia: “Não, vai casar, tem que ser boa dona de casa”. Graças a Deus sempre fui dona de casa, porque eu tive cinco filhos, nunca trabalhei fora, mas reformava uma roupa de um para outro, sabe? Porque quando meu marido entrou na ilha Caixa Econômica Federal, até ele chegar a supervisor levou muitos anos, então era um ordenadinho e eu costurava, fazia reforma de roupa para fora, em casa, tudo em casa. E as pessoas às vezes davam, sabe aquelas roupas novas, “não, não quero mais”. Eu dizia: “dá para mim” eu desmanchava e fazia tudo para os filhos, agora não tem nada disso, meus netos dão roupa novinha porque agora todos filhos formados, estão mais ou menos bem.

 

P/1 - E quem cozinhava na sua casa ainda quando a senhora era criança, era a sua mãe?

 

R- Ela cozinhava. Agora chegava domingo, eu tinha treze, quatorze anos e quem fazia comida no domingo era eu.

 

P/1- E você lembra que tipo de comida vocês comiam?

 

R- Era comida italiana.

 

P/1- Qual que era, qual era a comida mais...

 

R- Naquela época a gente fazia capelletti em casa, ravioli de espinafre, ravioli verde, e o papai gostava de arroz, arroz que era da terra da minha avó, chamava arroz tastasal.

 

P/2- Como era esse arroz?

 

R- Era arroz de páscoa, da terra da minha avó, a que nasceu em Pádova e é muito gostoso viu, então era comidas italianas, alcachofra, até hoje meus filhos adoram esse arroz.

 

P/1- Eu quero a receita depois, eu amo comida italiana. E você lembra por exemplo, nessa parte em que você era criança, você ficou com sarampo?

 

R- Tive sarampo, tive catapora, tive coqueluche terrível, agora as crianças não tem mais porque tem as vacinas, meus netos por exemplo, só tiveram catapora até hoje, mas naquele tempo tinha sim. Eu tive a angina.

 

P/1- Como é que foi?

 

R- Não sei, eu sei que justamente o genro desse meu tio Medina era médico, e eu lembro que eu tinha uns doze anos e ele chegava lá no Laboratório Paulista de Biologia, era na cidade, e ele tirava placas brancas da minha garganta para examinar, disse que era angina, eu não sei, foi ele quem fez o tratamento, mas o que eu tomei eu não sei.

 

P/1- Vocês lembram se vocês iam tomar vacina em algum posto de saúde?

 

R- Não.

 

P/1- Qual era o cuidado que sua mãe tinha com vocês de saúde?

 

R- Levava ao médico, porque naquela época ainda os médicos vinham em casa, meus filhos pequenos ainda tiveram esse privilégio de médico de família em casa, mas nós não tivemos doenças graves, nem na minha família, lógico que depois de idade a minha mãe ficou doente, mas quando nós éramos pequenos tivemos doença de criança, não fomos operados de garganta, nenhum dos três.

 

P/1- Tinha alguma doença que vocês tinham medo de pegar? Lepra ou...

 

R- Olha, lepra até que nós tínhamos um pouco de medo, porque da parte do meu pai, da família da minha tia, do marido da minha tia tinha um tio que era leproso, eu morria de medo, ele não tinha a parte do nariz, eu morria de medo daquele homem, coitado, eu era pequenininha, nós tínhamos medo de... Levávamos uma vida saudável, comíamos muito bem porque nós não éramos enjoados para comer, graças a Deus papai, italiano pode não ter o que vestir, mas o que comer… Tem não é. Não teve não, nem operações trágicas não tivemos, só doencinha de criança nós tivemos. Agora coqueluche eu lembro que foi terrível.

 

P/1- Como é que foi?

 

R- Ah, aquele tosse que parecia que a gente ia morrer.

 

P/1- Vocês tiveram os três juntos?

 

R- Não, só eu e meu irmão mais velho, o mais novo eu não me lembro se teve. Agora sarampo nós tivemos, também eu e meu irmão mais velho, porque esse tem seis anos comigo e nove com o outro, então nós tivemos antes dessa época dele e ele deve ter tido sozinho.

 

P/1- Me conta, o que aconteceu, você foi para a escola lá do convento, conheceu seu marido, como é que foi?

 

R- Bom, o meu marido... Eu estudava no Ginásio do Estado, meu irmão mais velho estudava no Colégio Paulistano, eu acho que nem existe mais o Paulistano, acho que não existe, e meu irmão era colega de classe dele, aí um dia meu irmão abriu a carteira e meu marido viu a minha fotografia, meu marido perguntou quem era, ele tinha dezessete anos, ele disse: “É minha irmã” e naquela época meu marido trabalhava no Atlas, era uma travessa da Avenida do Estado e meu marido passou por onde eu morava e me viu na porta e toda hora ele perguntava: “E sua irmã, e não sei o quê..” aí uma noite, ele estudava a noite, porque trabalhava os dois no laboratório Atlas, é dos elevadores Atlas, os dois trabalhavam e estudavam à noite.

 

P/1- O seu marido e o seu irmão?

 

R- É, aí eu tinha feito quatorze anos no dia 27 de novembro e no dia 29 de novembro a noite eles tiveram exame de francês e saíram cedo, eles disseram: “Vamos ao cinema?” Lá no Cambuci tinha um cinema, não me lembro o nome agora, ele disse: “Eu vou, mas vou até em casa levar os livros, eu não vou no cinema com os livros”. Meu marido sempre foi anti-social, ele ainda é anti-social, ele não gosta muito de festas essas coisas. Meu marido disse: “Eu não vou entrar, você entra, põe os livros lá, amanhã você leva no laboratório os meus, mas eu não vou entrar”. Só que naquele tempo a Avenida do Estado tinha onze metros de jardim para depois começar as casas, não sei se ainda é assim, era uma lei que tinha, e meu irmão disse: “Bom, eu não vou deixar você aqui sozinho na porta”, tocou a campainha e quem foi abrir fui eu, aí meu marido não foi para o cinema, eles entraram e ele nunca mais saiu da minha casa (risos). Ele ia estudar junto e não saia, até meu pai dizia para a mamãe: “Ele vem por causa da Neide”. Minha mãe dizia: “Que história..” Porque eles eram muito severos, eu fui ao cinema sozinha com o meu marido depois que eu casei.

 

P/1- Ah é? Não podia sair com ele?

 

R- É, eu ia ao cinema com o meu pai, minha mãe, e meu irmão menor, sozinha nem com meu irmão menor meu pai deixava. Tanto que eu casei no civil no dia oito de dezembro, e casei no religioso dia dez, e [quando] eu casei no civil houve uma reuniãozinha só para comemorar e aí eu ia saindo para fazer as últimas compras, porque a gente sempre viaja, eu fui para pertinho, fui para Valinhos numa fazenda, e meu pai barrou meu marido na porta: “Onde vocês vão sozinhos?” Nossa, o homem quase teve um negócio, ele disse: “Eu já casei, eu já sou casado, se o senhor amolar muito eu não vou casar nem no religioso, eu vou embora agora mesmo” (risos).

 

P/1- Foi assim?

 

R- Foi assim, ele ficou bravo, ele aguentou seis anos.

 

P/1- E como é que foi ele te pedir em namoro?

 

R- Bom, foi interessante, naquela época tinha o jogo paulistas e cariocas, existia só paulistas e cariocas e eles queriam pegar um primo do meu marido que era muito ingênuo, eles queriam, ele era gamado em futebol, ele era louco por futebol, quando paulista perdia o coitado tinha um negócio. Então meu marido com meu irmão combinaram deles transmitirem o jogo dizendo que o paulista estava perdendo, e montaram o microfone, tinha a sala de vista, tinha o hall da escada e eles montaram o microfone, então meu irmão ficou conversando com o primo do meu marido e eu fiquei na sala para ouvir se o microfone estava funcionando, e meu marido em baixo da escada testando. Aí ele pediu para eu namorar com ele, através do microfone, eu ainda tenho o microfone (risos). Mas a gente era assim, muito ingênuo.

 

P/1- Aí você falou, aceito?

 

R- Não, eu falei “Ah, não sei, depois eu vou pensar”. Quer ver, no dia três de dezembro eu fui dar a resposta para ele na véspera de Natal.

 

P/1- Nossa, ele ficou vinte dias sem saber?

 

R- Eu tinha quinze anos, ele me conheceu com quatorze, mas ele me pediu com quinze anos, quinze anos a gente era muito retraída, não tinha convívio, não é que nem hoje a meninada.

 

P/1- E aí teve que pedir para seu pai para namorar?

 

R- Não, eu fui falar com a minha avó, essa minha avó materna que eu me dava muito bem, é minha protetora até hoje, e eu fui falar com ela. Minha mãe era muito severa também, a mamãe não era muito comunicativa quem nem eu com os meus filhos, meus genros, minhas noras, sou super comunicativa e a mamãe era muito austera, tanto que eu não lembro de ser beijada pela a minha mãe quando era pequena, ela achava que carinho era uma demonstração de fraqueza, eu não sei. Só depois que eu casei é que minha mãe começou a me beijar porque eu ia na casa dela então eu beijava, eu chegava, porque de criança... Meu pai não, papai era super amoroso, mas a mamãe era secarrona, então eu fiquei com medo de falar

 

P/1- Ele era carinhoso, mas era bravo também?

 

R - É, era criação sabe? Mas era mais maleável que minha mãe. Aí eu fui falar com a minha avó, minha avó chamou meu marido, chamou lá: “Escuta, ela é menina séria, é sério ou é uma brincadeira?” “É sério” É sério e até hoje é sério, 48, bota sério nisso.

 

P/1- E aí durante esses seis anos vocês namoravam como?

 

R- Ah, interessante, meu pai jogava baralho com meu marido e eu bordava meu enxoval com a minha mãe. Era assim.

 

P/1- Todo dia ele ia lá?

 

R- Ele estudava a noite e trabalhava de dia, mas fim de semana não, às vezes ele dava uma fugidinha, mas o namoro foi, às vezes a gente ficava sozinho num hall que tinha lá fora, mas era muito... Ele ia me buscar na escola escondido, é isso que eu digo, eu sempre falei para as minhas filhas, não adianta proibir, se quiser fazer alguma coisa errada, você faz, é ou não é? Hoje diz que dá muita liberdade, eu acho que liberdade não é libertinagem, porque eles estão confundindo um pouco, tanto que eu falava sempre para os meus filhos: “Eu dou liberdade, mas vocês também andam na linha porque se não a gente tira a liberdade”. Mas no meu tempo não tinha liberdade não, mas olha, não tenho queixa.

 

P/1- E aí vocês resolveram casar?

 

R- É, minha mãe começou... Ela era bordadeira, eu te falei não é? Ela começou a bordar uma colcha que era todinha recortada de richie, chamava richie, mas era inteirinha, ela levou quatro anos para bordar aquela colcha, porque ela disse que enquanto terminava... Ela fez de propósito, [enquanto não terminasse] colcha eu não casava, meu marido já estava desesperado (riso), eu tenho até hoje a colcha, é que eu não uso porque para mandar lavar, aquilo quando lava fica desse tamaninho, para mandar engomar é triste, agora a gente tem tudo bem prático não é.

 

P/2- Como é essa colcha?

 

R- É todinha bordada, meu pai ficava louco, era linho, ele dizia: “Eu comprei, gastei uma nota, e você recorta tudo”. Era linho italiano, era tudo bordado, chamava richie, agora nem usa isso, são tudo rosas, tudo recortado, é muito linda, mas está guardada.

 

P/1- Aí ela fazia aquilo, você fazia com ela junto?

 

R- É, mas eu fazia bordado na época mais moderna, porque agora voltou ponto cruz, ponto sombra, eu estou bordando para tudo quanto é neta, ontem mesmo eu dei uma toalha de banho e rosto para a minha neta, tudo com babado inglês, mas estava muito linda, é que ela fez quatorze anos minha neta. Outra que fez dezesseis já dei, agora já dei para as pequenas, agora os rapazes querem, só que eu não vou por babado inglês, mas para o meu neto eu fiz duas raquetes de tênis, ficou bonito viu, está na moda. Então mamãe só bordava em branco, é da época dela, e eu já bordava em cores, aprendi muitas coisas nas freiras, mas eu não me lembro, a única coisa que eu me lembro bem é ponto cruz, aprendi inhandoti, frivolité, filé?, mas eu não lembro nada, nada, depois que você tem os filhos é uma vida né... Depois eu tive meu sogro doente quinze anos também. Aceitei.

 

P/1- Ah, quer dizer você não ficava brava de não poder sair, nada?

 

R- Não.

 

P/1- Achava normal.

 

R- Fui criada assim, a gente é criada assim, eu acho que quando você é criada assim o ambiente é bom, você não tem que se revoltar. Meus filhos por exemplo, já tiveram mais liberdade, controlada não é, mas tiveram mais liberdade.

 

P/2- Quer dizer, a senhora casou no religioso, onde a senhora casou?

 

R- Eu casei na Imaculada Conceição, porque eu queria casar no dia oito de dezembro na Imaculada, porque é dia da Imaculada Conceição, até os 42 anos eu fui católica.

 

P/1- A sua mãe era muito religiosa? Na sua casa vocês eram muito?

 

R - Não, mamãe não era muito. O meu pai se dizia ateu, mas ele não era ateu porque ele entrava numa igreja e ele não admitia brincadeira dentro da igreja, porque ela foi coroinha no Brás, na Igreja do Brás, ele morava lá perto, ele foi coroinha do Brás e eu não sei o que é que fizeram com meu pai que ele não admitia, ele tinha horror (isso aí você não poe hein) de padre, sabe eu não sei o que é que os padres fizeram quando ele era coroinha. Minha avó materna era muito católica, essa que morava em cima do convento, ela ia todo dia à missa, naquele tempo tinha coração de Maria, era uma fita vermelha, vovó era muito, muito, muito católica, então ela que me levou para fazer primeira comunhão, o catecismo, minhas tias eram todas filhas de Maria. O papai depois que minha mãe casou já afastou um pouquinho minha mãe da Igreja, nunca ele falou nada, mas deve ter acontecido alguma coisa, porque minha avó paterna também era muito católica.

 

P/1- Ah, então foi ele que...

 

R- Foi ele que... Quando menino ele foi coroinha porque também ia na igreja, então o que aconteceu eu não sei, ele nunca contou, ele dizia que não acreditava em nada, não admitia que...

 

P/1- Mas vocês iam à missa?

 

R- Eu ia, eu ia na missa do colégio Dom Bosco, era perto da minha casa, na Rua Dom Bosco.

 

P/1- Mas por causa da sua avó?

 

R- Não, eu estudei também no Colégio São José, fiz o primário no Colégio São José, ele não era contra, quando eu fiquei moça eu fui estudar naquele colégio de freiras alemãs, não era contra, ele deixava, mas ele mesmo não gostava que minha mãe fosse, se confessasse. Naquele tempo para você comungar, você tinha que confessar, hoje em dia diz que não, hoje em dia não tem mais isso, não sei, mas ele não admitia, por isso que eu digo, deve ter tido alguma coisa na infância dele. Mas eu casei na Imaculada Conceição, só que eu casei dia dez porque dia oito como era dia da Imaculada Conceição não tinha vaga, então eu casei no dia dez e casei no cartório da Bela Vista no civil.

 

P/1- E vocês foram morar onde a partir desse dia?

 

R- Meu sogro deu uma casa para nós na Rua Heitor Peixoto, perto de onde eu moro.

 

P/1- No Cambuci?

 

R- É, é mais perto da Aclimação, porque é quase dentro do Jardim da Aclimação, na parte de trás, morei lá nove anos, aí minha sogra faleceu muito nova, com 51 anos e meu sogro já repartiu a herança, tinha uma casa e aí nós compramos o terreno de onde eu moro, meu marido era da Caixa Econômica, naquele tempo empréstimo para funcionário era ótimo e nós construímos essa casa que eu estou até hoje, eu já estou a 38 anos nessa casa.

 

P/1- E o seu primeiro filho nasceu depois de quanto tempo de...

 

R- Dez meses.

 

P/1- Ah, quer dizer a senhora engravidou?

 

R- Rápido. Bom, agora eu vou contar porque é que eu engravidei rápido.

 

P/1- Me conta.

 

R- Quando eu era menina a minha menstruação não era normal, vinha um mês, faltava seis meses, e naquele tempo não é que nem hoje que a mãe conversa com as filhas, a mamãe... Eu era noiva não é, eu acho que ela tinha coisa na cabeça, então ela me levava em tudo quanto era médico, eu não via razão, mas ela me levava em tudo quanto era médico e não tinha nada. Eu tomei muito, como é, nicotinamida, até ficava com aquele calor.

 

P/1- Isso na sua adolescência?

 

R- É, quando eu tinha quinze, dezesseis anos.

 

P/1- E os médicos achavam então que era?

 

R- Não, um deles, Doutor Arquibaldo Farnes, disse para a minha mãe que eu tinha útero infantil, tanto que eu quis desmanchar o noivado porque meu marido só falava que ele queria três filhos - teve cinco - mas queria três na época, eu falei: “então vou desmanchar o noivado se eu nunca vou ter filhos”, e quando ele falou: “Ah, não faz mal, a gente não tem”. Quando eu casei eu estava certa que não ia ter filhos, ainda bem que era útero infantil, porque eu tive cinco e perdi uma gravidez.

 

P/1- Mas você sabia quando casou se não quisesse filhos o que tinha que fazer?

 

R- Ah, sim.

 

P/1- Quem tinha te explicado todas essas coisas?

 

R- Não [foi] a minha mãe. Meu marido me deu uma coleção para eu ler, porque nem para casar eu sabia também da relação homem-mulher.

 

P/1- Não?

 

R- Não, na época... E meu marido ficou muito preocupado, então ele me deu uma coleção escondida para ler, científica.

 

P/1- Ah, como era o nome?

 

R- Ah, ele deve saber, ele tem uma memória... Eu não lembro, era Doutor não sei o que lá, mas ele me deu e aí fui aprender, porque nem naquele tempo no ginásio, não tinha aula como existe hoje em dia, não tinha, então você sabia entre colegas, bobagens.

 

P/1- Mas por exemplo, quando a menina menstruava ela sabia que ia menstruar, o que era aquilo?

 

R- Não, eu fiquei morrendo de medo quando menstruei.

 

P/1- O que te assustava mais?

 

R- Eu menstruei dia 24 de junho, eu sei até a data hein, doze anos. Sabe porque? Porque naquele tempo tinha fogueira, tinham as festas juninas e eu tinha pulado fogueira, estava na casa da minha avó, e quando chegou de noite eu falei: “Bom, eu me machuquei”, eu não sabia de nada.

 

P/1- Quantos anos você tinha?

 

R- Eu tinha doze anos. Aí eu comecei a chorar, chorar, minha vó veio me perguntar aí eu falei, minha tia mais nova, irmã da mamãe, ela tinha quinze anos de diferença comigo, ela veio me explicar, porque mamãe não explicou.

 

P/1- Aí ela veio, explicou.

 

R- Explicou o que era.

 

P/1- E o que a menina usava naquela época? Porque não existia absorvente.

 

R- Era pano.

 

P/1- Aí ela deu esse pano? Como que era?

 

R- Eram paninhos que faziam feito fraldinha, eram panos e a gente ainda tinha que lavar, hoje é bem mais cômodo não é?

 

P/2 - Eram retalhos?

 

R- É, feito fraldas, eram retalhos, naquele tempo era lençol branco, era assim naquela época.

 

P/1 - E você foi contar para a sua mãe, depois?

 

R- Não, quem contou foi minha avó. Eu lembro que todo mundo veio, meu pai veio e me beijou, minha mãe me beijou, veio me deram os parabéns. Agora as minhas filhas não, minhas filhas com dez, nove anos eu já expliquei tudinho.

 

P/1- Aprendeu a lição.

 

R- Não, eu achei muito assim, não sei, porque como eu disse, eu disse para a minha mãe depois de casada: “A senhora teve muita sorte que arranjou um genro 100%”, porque eu era tão bobinha que podia ter caído não é? Ninguém explicou nada, nada, naquele tempo não se explicava nada.

 

P/1- E entre as meninas, não se conversavam?

 

R- É, você sabe, não sei se agora é assim, mas você geralmente, quando você está no ginásio você procura uma companheira, uma amiga, mais ou menos do seu tipo, da sua formação, do seu modo de viver, então aquelas que eram mais... Não era do nosso grupo, eu tinha quatro colegas, mas que eram bobinhas que nem eu (risos). Agora minhas filhas não, inclusive minhas sobrinhas, minha cunhada não tinha coragem de falar, eu falei: “Manda a menina aqui que eu explico tudo direitinho”.

 

P/1- Eu posso fazer uma pergunta para a senhora?

 

R- Pode.

 

P/1- Se a senhora não quiser responder, não responde. Aí vocês casaram e foram viajar, você já sabia o que ia acontecer na noite de núpcias?

 

R- Não, não, sabe porque!? Meu marido tinha dezessete anos quando me conheceu, e eu quatorze, ele nunca teve namorada e nem eu.

 

P/1- Ele também não sabia?

 

R- Ele também não sabia, e perguntava para mim, na noite de núpcias lá em Campinas, porque nós fomos primeiro para Campinas no Hotel Térmico: “Como é que é?” Eu disse: “Se você não sabe, vou saber eu?” (risos). Foi assim mesmo viu, e assim mesmo levou mais de três dias, tinha medo de machucar, sabe aquela coisa toda? Ele sempre foi muito… E olha, nunca teve outra hein. Agora nós damos lição, mas foi muito interessante o nosso casamento.

 

P/1- Muito interessante mesmo.

 

R- E ele casou virgem, a turma não acreditava, minha mãe dizia: “Homem nenhum presta, homem nenhum presta.” E não é só do meu tempo, porque minha nora, [mulher] do meu filho mais velho quando casou a avó chegou para ela e disse: “Olha, homem nenhum presta viu, então você se conscientiza que o seu marido vai te trair”. Desse jeito, minha nora veio me contar. Eu falei: “Não minha filha, não na minha família, porque meus filhos todos receberam a orientação do pai, pode, pode acontecer, não vou dizer que não, quem sou, mas eles tiveram um exemplo em casa e foram orientados, tanto que meu filho já fez dezessete anos de casado e minha nora não tem queixa dele, mas ela veio com essa idéia. A família toda do lado dela são italianos, acham que o homem tem que fazer.

 

P/1- É, senão é até banana.

 

R- É até banana. Então eu falei: “Não minha filha, do meu lado não é assim, não, nós fomos criados assim, o pai ensinou eles assim, pode ser, não vou dizer que aconteça, quem sou eu não é?”

 

P/1- Aí voltando, só para a gente voltar. Casaram, voltaram, você ficou grávida, o que se fazia naquela época? Como você descobriu que tinha ficado grávida?

 

R- Ah, porque não veio a menstruação.

 

P/1- Ah, já tinha normalizado?

 

R- Já porque com o tratamento desse médico, quando tomei a nicotinamida,  tanto é que da minha filha eu não tive enjoo nenhum porque eu tinha tomado muita vitamina, nos outros quatro eu tive os três primeiros meses, mas da mais velha não senti nada, absolutamente nada.

 

P/1- Ah, mas aí não veio a menstruação e aí?

 

R- Eu fui ao médico, o Doutor Edgar Braga, é fundador da Promater, era médico da minha cunhada, irmã do meu marido, e aí eu fui, segui todo mês, e eu era muito boa para ter filhos.

 

P/1- Ah, é?! Por que?

 

R- Porque dava duas dores e a criança saltava fora.

 

P/1- Os partos foram todos normais?

 

R- Os partos foram todos normais, rápidos.

 

P/1- Em casa também?

 

R- Não, todos na Promater. Meu médico era de lá, já no meu tempo não tinha esse negócio de ter em casa, minha filha tem 47 anos, a mais velha, vai fazer agora em outubro, ela nasceu no Hospital Matarazzo, mas eu detestei o Hospital Matarazzo, então os outros eu tive na Promater.

 

P/1- E que tipo de cuidado tinha que ter nessa época? Quando uma mulher ficava grávida?

 

R- O médico dava vitamina, tinha uma vitamina, olha eu sou péssima para guardar nome de remédio.

 

P/1- Tá, não tem problema.

 

R- O médico dizia: “Olha, essa aqui você toma, mas não é para você, essa aqui é para o nenê”. E tinha os outros, eu ia todo mês, o Doutor Braga fazia exame lá mesmo, de urina e todo mês seguiu direitinho, naquele tempo não tinha ultrassom, não tinha nada. Eu tive uma gravidez... Depois eu tive vômitos e enjoos nos outros. Mas para ter filhos, ele disse que ia me dar uma medalha e ia por uma estátua minha na porta da Promater, não pôs, ele morreu e não pôs, porque eram duas dores, ele me chamava de salta caroço, tanto que eu não sei o que é, as mulheres dizem que ficam horas e horas com dores de parto, eu não sei o que é isso.

 

P/1- E tomava alguma anestesia?

 

R- Sim, da mais velha não tomei, mas do meu filho, o segundo, ele nasceu sentado com a mão na cabeça, eu levei um ponto. Você acredita, ele nasceu de bundinha, disse que é o parto mais difícil que existe, aí ele me deu uma injeção na veia e… Então eu chegava lá, a minha dilatação é feita durante um período do nono mês, ela não é feita na hora como a maioria é feita na hora. Não, meu médico me explicava que a minha era feita um pouquinho, pouquinho, pouquinho, então chegava na hora e eu já estava com um dedo de dilatação pronta, por isso que eu não tinha dores fortes. Da natureza não é, minhas filhas tiveram, todas as três tiveram partos normais.

 

P/1- Era muito comum nessa época não ter parto normal, com o nascimento da sua primeira filha, as pessoas que você conhecia?

 

R- Não, geralmente era o parto normal, das outras já tinha muita cesária, pelo menos das minhas amigas, ficavam dois dias para depois ter, agora não, agora já marcam a cesárea antes de saber se tem normal, se não tem normal, eu acho um absurdo. Agora eu fiz laqueadura, da quinta.

 

P/1- Ah, é? Porque tinha algum...

 

R- Porque eu era fácil para ter, era fácil para pegar, então não tinha método, e aí o meu médico no último descobriu que eu tinha duas ovulações por mês, então eu fazia tabelinha e não dava certo, eu fazia isso e não dava certo, naquele tempo não tinha, não tinha o diu, não tinha as pílulas, não tinha.

 

P/1- Quais eram os métodos na época?

 

R- Olha, existia umas velinhas, velas de glicerina que introduzia antes do... Mas depois a pessoa que fazia foi morar para o interior e não vi mais.

 

P/1- Era uma velinha, para o que servia essa velinha? Nunca ouvi falar disso.

 

R- É, meu segundo filho... Até a terceira, aí tem seis anos de diferença.

 

P/1- Tudo com essa velinha?

 

R- Tudo com essa velinha antes do ato sexual.

 

P/2- É de glicerina?

 

R- É, eu não sei do que é que era, parecia uma velinha mesmo, mas não sei o método, um amigo do meu marido era farmacêutico que fazia, mas depois ele mudou para o interior. Aí depois do quarto filho foi de tabelinha, ele nasceu no dia que eu falei para o médico que ia nascer, porque a gente sabia e aí ele descobriu, no meu quinto filho eu disse: “Eu quero operar”, porque eu tinha o meu sogro doente.

 

P/1- Aí ele já tinha ficado doente?

 

R- Meu sogro veio morar comigo porque minha sogra morreu quando meu filho mais velho tinha nove meses, ninguém quis ficar com ele, ele era doente.

 

P/1- Ah, ele já era doente?

 

R- Já.

 

P/1- Qual era a doença dele?

 

R- Ele tinha um rim só drenando, erro médico secou a bexiga dele, foi o médico que secou por erro mesmo.

 

P/2- Que tipo de erro?

 

R- Não sei, eu sei que ele sempre dizia. Ele foi sentar numa cadeira, diz que história começou assim, eu não conhecia o meu marido, ele sentou e a cadeira quebrou, então aquele impacto no chão afetou um rim e o médico começou a tratar, tratar e secou a bexiga dele, a urina não ia para a bexiga, a urina ia para uma bolsa que ele tinha de borracha que trocava toda hora como dreno no outro rim, porque um rim dele atrofiou e teve que tirar. Eu fervi drenos durante quinze anos, após a morte da minha sogra até a morte dele.

 

P/1- O que é isso, ferver dreno?

 

R- Porque ele tinha o rim bom, saia uma borracha que ele tinha um furo aqui e essa borracha a urina ia nessa bolsa.

 

P/1- Quer dizer, ele não urinava e ele vivia com essa bolsa?

 

R- Vivia com essa bolsa. Ele viveu e trabalhou, ele morreu eu acho que não chegou a receber a aposentadoria, quando ele foi não conseguia mais andar porque deu Mal de Parkinson, aí logo depois ele morreu.

 

P/1- Desculpa, o que é que ferver o dreno?

 

R- Porque o enfermeiro ia duas vezes por semana lá em casa, de terça e sexta, trocar os drenos porque é uma higiene, é uma coisa que podia infeccionar e quando o enfermeiro chegava às seis horas a panelinha já tinha que estar com os drenos fervidos, desinfetados, e tinham que estar quase mornos, limpava tudo separado, quem tratava daquele aparelho era eu, porque ele chegava do trabalho e o enfermeiro estava lá para fazer.

 

P/2- Ele trabalhava?

 

R - É, ele era contador de uma fábrica de lã lá na quarta parada. Eram fios de lã que faziam, ele era o contador, mas o senhor sabe que nunca, nem o dono da fábrica soube que ele tinha isso.

 

P/1- Metia a bolsa por dentro da calça então, como é que é isso?

 

R- A bolsa tinha que ser bem larga, ele estava sempre de paletó. Era o senhor Petrella, é dono de uns prédios na praça da sé, quer dizer, agora são descendentes, e nunca ele soube, às vezes ele dizia: “Hum, mas que cheiro de urina”, porque às vezes ficava urina na borracha, porque se a borracha saia do lugar aí pronto, ele tinha um gênio terrível coitado.

 

P/1- Ele era chato?

 

R- Ele era um pedaço de pão, mas era chato, porque ele ficava nervoso, numa festa, numa coisa sentado de repente aquilo estava tudo molhado, era desagradável, depois eu entendi coitadinho.

 

P/1- Mas ele infernizou um pouco a sua vida?

 

R- Infernizou. E ele dizia: “Essa italianinha é fogo”, porque quando ele começava a ficar muito bravo eu tinha que dar uns pegas nele.

 

P/1- Vocês brigavam muito?

 

R- Não. Eu só dizia: “O senhor se comporte, porque se não o senhor vai para a casa da sua filha”. E a filha não queria ele, então ele ficava comportadinho, e ele dizia: “Essa italianinha é fogo”. Agora meu marido nunca, nunca se meteu, porque meu sogro ele tinha tudo medido, o alimento dele era duzentas gramas disso, duzentas gramas daquele, e eu tinha cinco filhos, quando ele morreu minha caçula tinha quatro anos, então antes da comida dos meus filhos eu já fazia a do meu sogro, era tudo pesado. Quando ele faleceu no hospital Santa Cruz, eu levei lá e os urologistas diziam: “Minha filha, eu nunca vi um homem com isso viver tantos anos, ele foi muito bem tratado”.

 

P/2- Ele faleceu em consequência desse problema?

 

R- É, porque a uréia ficou alta, não voltou mais ao normal, porque ele tinha os repentes por causa da uréia alta, muito tratamento, muito médico, muita coisa.

 

P/2 - Ele tomava muito remédio?

 

R - Muito remédio, então o urologista dizia: “Isso aqui é ultrapassadíssimo, essa operação dele. Eu não sei como esse homem viveu tantos anos”. Também, era muito bem cuidado, a gente tinha muito cuidado com ele. E depois que ele morreu ele não saiu de perto de mim, isso que foi duro.

 

P/1- Como é que foi isso?

 

R- Eu preferia ele vivo do meu lado.

 

P/1- O que ele fazia?

 

R- Eu sentia o cheiro dele, da urina e da borracha, porque era um cheiro característico, não era um cheiro de urina normal, sabe, a urina na borracha. Depois de dois anos que ele morreu eu sentia.

 

P/1- O que? Ia dormir e sentia, como é que era?

 

R- Não, eu sentia ele durante o dia, eu estava assim e perguntava para a turma: “Vocês não sentem o cheiro?” E eles diziam que não, ninguém sentia, eu estava ficando louca, aí foi uma fase difícil.

 

P/1- Porque? O que a senhora achou?

 

R- Porque eu ficava nervosa, uma dona de casa nervosa com cinco filhos, não é fácil, e minha casa estava começando a virar de cabeça para baixo, porque eu ficava nervosa, acabava brigando, eu nunca brigo com meu marido nem nada, aí uma vizinha de frente me chamou: “vem para a minha velinha” ela disse para outra que era espírita: “O sogro dela não sai do lado dela”. Ela via, ela era vidente, ela via meu sogro, mas como eu era católica a turma tinha medo de me dizer, mas aí teve um dia que eu não aguentei, abracei a vizinha e chorei, chorei, chorei, ela pensou que tivesse acontecido alguma coisa com os meus filhos, aí eu contei para ela. Ela disse: “Ó, então eu vou te falar, teu sogro está do seu lado, não te larga”. Eu disse: “Ah meu Deus”. Eu morria de medo disso, Nossa Senhora, falava em espiritismo eu não queria nem saber, morria de medo. E aí ela me levou numa consulta, ela me levou no centro que até hoje eu estou e a medium lá não me conhecia, nunca tinha me visto e eu também não, eu sei que eu sentei lá e ela descreveu o meu sogro e tudo que eu passei com ele.

 

P/1- É mesmo?

 

R- Eu tinha que acreditar não é? Eu não conhecia a mulher, a mulher não me conhecia, não conhecia meu sogro, não conhecia ninguém, e ela disse que ele era muita revoltado com a doença, ele xingava Deus, ele era muito revoltado com a doença dele, e ela disse que ele precisava se estudar, se iluminar, aprender, porque ele tinha passado por tudo aquilo, e aí eu comecei a estudar a doutrina, estudei oito anos.

 

P/1- Para ele aprender?

 

R- É, depois nunca mais senti, depois que eu estudei. Estudei oito anos de doutrina minha filha, para entender o porquê das coisas, é duro viu, porque eu não queria aceitar não, e agora eu trabalho lá, graças a Deus.

 

P/1- Não dá para contar o porquê das coisas agora rápido, não é?

 

R- O porquê das coisas?

 

P/1- É, o que você aprendeu?

 

R- Eu aprendi que eu tinha essa dívida com ele em outras encarnações, porque ele tinha uma filha, a mais velha que não quis ficar com ele, eu era a nora caçula e eu que quis ficar com ele, porque quando a minha sogra morreu ninguém quis ficar, e ele era um homem que se deitava tinha que por papagaio e não podia levantar de repente, não era um homem que podia morar sozinho, então meu marido trabalhava o dia inteiro, só chegava a noite, eu descobri que a dívida nem era com o meu marido, nem era com a minha cunhada, era comigo, eu devo ter sido uma filha bem sem vergonha na outra encarnação que não tratou dele, e graças a Deus nesta eu cumpri minha missão e tratei dele até o finzinho. Ele morreu segurando a minha mão e dizendo que eu era filha dele, ele não conhecia ninguém, a freira perguntou quem é ela, ele disse: “Minha filha” e segurou minha mão, as lágrimas corriam assim e ele morreu segurando a minha mão no hospital. Agora, depois com estudo e tudo eu aceitei, hoje eu rezo e agradeço a ele, pelo menos nessa encarnação eu estou já pagando. Eu morria de medo, se você soubesse o medo que eu tinha (choro).

 

P/1- Mas depois você chegou a ver ele?

 

R- Não, eu sentia, eu não sou vidente, a minha mediunidade é de cura, eu só dou passe. Então eu tenho que tirar os meus fluídos porque o médium disse que se eu não desse passe, eu ia ter câncer, eu trabalhei dois trabalhos de passe porque eu tenho muita energia acumulada, é interessante o estudo viu. Eu era pior que São Tomé, tinha que estudar ali para entender o porquê das coisas.

 

P/1- Isso você tinha 42 anos, os filhos já estavam…?

 

R- É, já estavam moços, a mais velha já estava estudando, são todos formados.

 

P/1- Então vamos voltar para trás, com as crianças. Eles nasceram, todos nasceram saudáveis?

 

R- Todos, todos. Só a terceira, essa que é psicóloga, quando eu tive na Promater foi na época da talidomida. Lembra que as crianças nasciam… Eu nunca tomei calmante, nasciam com aquele toco? E eu fui pegar na mão da minha filha e ela só tinha uma mão, a outra a camisinha estava vazia, e eu levei um susto, perdi o leite, aí veio o pediatra: “ela nasceu com problema no braço”, porque era da Promater, acho que ele queria dinheiro sabe? Depois, quando você for lá no meu consultório nós vamos fazer um tratamento, ela nasceu perfeita, mas ela está com problema, aí eu chamei o meu pediatra. O meu pediatra, Doutor Sírio Ribeiro de Souza era um homem excelente, ele era do Hospital São Paulo, era do berçário não sei o quê Leite, ele era da Promater, ele foi e falou: “Só que Neide, eu não posso me apresentar como médico. Isso é antiético, eu vou como amigo”. Eu falei: “Tudo bem.” Ele foi, examinou e disse: “Isso aí é comum, a criança ficou de mal jeito no útero e nasceu com o braço dormente”, então o que ele fez? Enfaixou ela assim e eu só via toco, e eu desembrulhei ela lá maternidade, no quarto não pode, ela teve bronquite quando pequena, e o médico ficou muito bravo.

 

P/1- Qual o da Promater?

 

R- Não, o meu médico ficou bravo e foi falar com o ginecologista, porque eu perdi leite, nervoso, imagine. Nascer uma criança assim você morre e ele disse: “Olha, lá na São Paulo é tão comum nascer assim, eu ponho uma argolinha assim, amarro no berço e a mãe não fica nem sabendo, e o da Promater queria dinheiro.

 

P/1- Nessa época como é que funcionava a medicina, era tudo pago ou era tudo do estado?

 

R- Não, quando eu tive a mais velha era tudo pago, depois quando meu segundo filho nasceu meu marido já era funcionário da Caixa Econômica Federal, naquela época era ótima a parte, você podia escolher o hospital que quisesse e a caixa pagava, então era um atendimento muito bom, médicos muito bons, agora que relaxou.

 

P/1 - Era um convênio da caixa econômica, era isso?

 

R- É, o CEF, naquela época a gente podia escolher, tinham os hospitais credenciados e tinha o que a gente podia escolher.

 

P/1- Agora é ruim?

 

R- O governo tirou muita coisa. A Caixa era uma mãe viu, Caixa Econômica Federal, era uma mãe, agora não, agora é péssimo.

 

P/1- Mas em geral os hospitais eram pagos?

 

R- Não tinha o Santa Casa.

 

P/1- Mas era funcional? Porque agora todo mundo tem horror, não é?

 

R- É, tem horror, mas eu não sei, porque eu nunca fui. Eu sempre fui muito bem atendida, Promater era um espetáculo.

 

P/1- É, eu tive filho lá também.

 

R- Eu falei para o meu marido, eu queria ter filho só para comer na Promater, porque a comida era muito boa. Não sei se agora é, no meu tempo era.

 

P/1- Ah, eu achei muito bacana lá também.

 

R- Meu médico era um dos fundadores da Promater, Doutor Edgar Braga.

 

P/1- Mas então os médicos você escolhia, eram do convênio?

 

R- Eram médicos. Doutor Edgar Braga, se eu ficava doente ele ia lá em casa, naquela época.

 

P/1- Ah, o médico ia em casa?

 

R- Ia em casa, a minha pressão descia muito ele ia me visitar, o médico das crianças também ia.

 

P/1- Ele acompanhava as crianças em casa?

 

R- Não, eu ia no consultório, mas se tivesse uma doença, por exemplo a minha terceira filha, essa que teve, ela teve escarlatina.

 

P/1- O que é escarlatina?

 

R- Olha, diz que a garganta fica escarlática, na época que minha…

 

P/1- Tinha que avisar a... Porque muita criança tinha escarlatina?

 

R- Porque era uma doença de perigo, não sei.

 

P/1- Matava?

 

R- Sim, porque fechava a garganta.

 

P/2- Porque fala escarlatina, porque _________

 

R- Escarlate, parecia sarampo, mas não era sarampo.

 

P/1- Por dentro, não?

 

R- É, por dentro, tanto é que os dois filhos meus, ela é a terceira, já tinha o quarto também, eles todos tomaram uma vacina, os que não tiveram escarlatina, era da Holanda, era caríssima, mas diz que doía tanto que eles preferiram ter tido escalartina, e o sobrinho meu que estava em casa também teve que tomar, ele disse: “A senhora não conta para ninguém porque se vier a sanidade pública, a coisa de saúde, eles vão levar a menina para o Emílio Ribas”.

 

P/1- Porque para não pegar e...

 

R- Não sei.

 

P/2- Tem que ficar isolado?

 

R- Isolado, foi a única doença que meus filhos tiveram. Mesmo operações, tiveram amídala.

 

P/1- Todos tiveram operações de amídala?

 

R- Não. O quarto, a terceira fez só de adenóide, o médico Doutor Paulo Assantos era o médico deles, o médico não quis operar a amígdala, diz que estava boa, então ela tirou só as adenóides. Os dois mais velhos tiraram, o quarto não tirou e a caçula tirou. Mas de grandes operações...

 

P/2- Como é que tratou escarlatina?

 

R- Eu não sei, ele dava remédio.

 

P/2- A senhora não lembra que remédios?

 

R- Ah, não lembro, não lembro, nome de remédio eu não guardo. Eu lembro que meu filho, o segundo, tinha muita urticária então era trimeton, benadryl, que eu lembro dos nomes, porque ele adorava, acho que comia salame, acho que dava, acho que comia só para tomar trimeton porque ele achava uma delícia.

 

P/1- As crianças não pegavam muita gripe não? Meu filho por exemplo, vive com gripe, um dia atrás do outro. Eles não ficavam com gripe?

 

R- Não. Quem teve problema de garganta foram os meus netos, os mais velhos, esses que já são mocinhos, mas aí eles passaram para homeopatia e nunca mais eles tiveram, só um foi operado da amígdala, os outros não, e gripe assim não tem, é difícil pegar gripe, mas isso com tratamento prolongado de homeopatia.

 

P/1- Os seus filhos tiveram sarampo, catapora? E o que tinha que fazer com a criança quando estava com isso?

 

R- Olha, catapora, eu lembro que o médico só mandava tomar banho, ai agora não lembro, como é que chama aquele sulfato de, aquele cor de rosa, como é que chama? Cloreto não sei do que e por talco.

 

P/2- Permanganato?

 

R- É, permanganato, e por talco, ele não dava remédio, nada, e tomar bastante banho para refrescar, porque a minha filha mais velha teve uma catapora que o médico disse que nunca viu igual.

 

P/1- Muito forte?

 

R- Demais, porque ela ficou, minha cunhada foi ter neném e as duas mais velhas dela ficaram comigo, porque a família toda mudou para Brasília, foi quando fundaram Brasília e minha cunhada ficou sem ninguém aqui em São Paulo. A segunda dela estava com gripe, e ela dizia que estava com urticária, e não era urticária, era catapora, e a minha filha ficou o dia inteiro com a menina, e ela estava com febre também, a minha filha estava com gripe e elas ficaram juntas no mesmo quarto, ah se você soubesse a catapora, o médico disse que nunca viu igual, pegou em tudo e em qualquer lugar que você possa imaginar, externo e interno, tanto que eu punha luva para ela, porque ela dizia que não queria ficar feia porque isso coça, e eu ficava a noite toda segurando a mão dela, porque ela tomava remédio para dormir.

 

P/1- Para não coçar?

 

R- Ele dava remédio para dormir, para ela dormir, foi terrível!

 

P/2- Quantos anos ela tinha?

 

R- Ela tinha nove anos.

 

P/2- E como ela tratou? O que ela usou?

 

R- Só banhos, só talcos.

 

P/1- Só banhos?

 

R- Só, nada, nada, eles não davam remédios. Quantos banhos quisesse porque eu tinha a banheira, como ainda tenho, punha na banheira, ela ficava bastante tempo para refrescar e eu punha uma camisolinha bem levezinha, quer dizer, não saia do quarto não tomava vento nem nada, mas era dois, três, quatro banhos por dia.

 

P/2- E quanto tempo que durou isso?

 

R- Eu acho que durou mais de uma semana, eu acho que dez dias. E assim mesmo eu tive que ficar com as duas sobrinhas também com catapora.

 

P/1- Também com catapora?

 

R- Não, aí a catapora pegou no outro, no meu filho, na outra irmã, eram quatro com catapora, e essa minha filha, a terceira, tinha quarenta dias. Ela teve uma catapora nas costas, eu ia amamentar, porque o leite foi perdendo aos poucos, eu tinha que tratar dela neném, tinha que mudar de roupa, passar álcool para tratar dos doentes.

 

P/1- Nossa, foi uma coisa...

 

R- A minha cunhada chegou da maternidade e não podia levar as filhas, ela tinha neném recém-nascido, ela levou depois de um mês para casa, e eu fiquei com toda essa criançada.

 

P/1- A sua vida de dona de casa era uma confusão não é?

 

R- Até hoje, até hoje sabe, meus filhos são muito agarrados, eu não sei se sou eu que sou muito apegada.

 

P/1- E você que fazia, por exemplo, toda a comida deles?

 

R- Toda.

 

P/1- O que era? Eles acordavam de manhã e iam para escola de manhã?

 

R- Iam, tinha escola de manhã, tinha de tarde.

 

P/1- Aí você que levantava?

 

R- Assim, tinha que fazer o café da manhã.

 

P/1- E o que era? Tinha alguma coisa especial?

 

R- Não, eles tomavam suco, Toddy,, pão, eles não eram cheio de história não.

 

P/1- E aí tinha que fazer o almoço para todo mundo, para o seu sogro, para eles?

 

R- É, para o meu sogro era separado, agora meus filhos dependendo, depois que começaram cursinho, essas coisas, eles não tinham horário. E naquele tempo não tinha o microondas que é tão prático, você faz e esquenta no microondas.

 

P/1- Então cada um que chegava era..

 

R- É.

 

P/1- E de noite a mesma coisa?

 

R- É, e eles não comem a comida que comeu de manhã à noite não.

 

P/1- Ah é?

 

R- É, arroz e feijão uma vez por semana, tinha que quebrar a cabeça. Agora eu tenho a caçula que mora comigo com dois filhos. Ela ficou dois anos, ela ia comprar o apartamento e mudar, ela está há seis anos, o apartamento dela está alugado e ela continua na minha casa, eu tenho consultório de três filhos na minha casa, porque a minha casa é grande, eu tinha cinco filhos, quatro dormitórios, a suíte é consultório na minha casa.

 

P/1- Eles fazem o quê?

 

R- A mais velha é astróloga, da aula de astrologia e faz mapa, aquela coisa de regressão, essas coisas que eu não entendo nada. A terceira, minha filha é psicóloga, terapeuta e a caçula é fonoaudióloga, então cliente eu atendo porta, atendo telefone e não ganho ordenado, e ainda dou almoço a essa minha filha que é psicóloga, ela mora em Pirituba, em Vista Verde, ela dá aula na PUC também e hoje ela já me ligou: “Mamãe eu vou passar aí a uma hora para almoçar”. eu falei com ela: “Minha filha, uma e meia o moço vai passar aqui para me pegar”. Aí ela falou: “Deixa, deixa que eu esquento no microondas”. E ela mora em Pirituba, ainda tem que dar comida. É fogo.

 

P/1- Que educação, hein.

 

R- Ah, e eu adoro! (risos) Quando eles vão para Santos nas férias eu fico tão triste, porque fico só eu e meu marido. Meus netos moços moram perto também, de vez em quando vão para lá, a família é unida graças a Deus.

 

P/1- É bacana isso.

 

R- É, meu filho que mora longe, ele mora em Aldeia da Serra, conhece? Depois de Alphaville, esse que é engenheiro.

 

P/1- E eles sempre ficaram todos em casa, tinha muita briga?

 

R- Não, não tinha, sempre minha casa foi assim: meu filho estudou na USP engenharia e os colegas iam comer em casa, estudar e comer na minha casa. A maioria eram de fora, tinha até um que era de Costa Rica. O pai dele era dono de metade de Costa Rica, restaurante, boate, essas coisas, ele falou que ia me dar uma viagem para Costa Rica, até hoje eu estou esperando, e também ia comer lá em casa. Das minhas filhas também, não sei se é que família grande atrai, sempre os meus filhos levaram os colegas para estudar e comer em casa.

 

P/1- Puxa vida! Nesse período que seus filhos foram crescendo sempre foi só um médico que cuidou deles ou você teve outros médicos, tinha um médico da família?

 

R- Tinha o pediatra, Doutor Sílvio foi até eles terem uma certa idade, aí depois foi mudando, porque meu marido era da Caixa e tinha os médicos da Caixa, a gente levava lá, era na Praça da Sé, tinha a parte médica e a gente levava, cada vez que atendia era um médico diferente. Médico da garganta sempre foi Doutor Sérgio Paulo Assantos, também era da Caixa, e agora cada qual tem seus convênios, agora não tem um médico como antigamente, não tem.

 

P/1- E você lembra a primeira vez que você usou um antibiótico? Tinha que marcar certinho o horário?

 

R- Aquele antibiótico que tinha um líquido de um lado e a pasta do outro.

 

P/1- Ah, era assim?

 

R- Eles tomaram muito terramicina.

 

P/1- Ah, tomaram? Por que eles tomavam Terramicina?

 

R- Por causa de garganta, gripe forte, os médicos tinham mania de dar antibiótico, eu sou contra antibiótico, mas agora, não todos, eles fazem tratamento homeopático e não tomam mais antibiótico.

 

P/1- Mas eles tomavam muito quando era criança?

 

R- Tomaram, tomaram sim, tomaram bastante.

 

P/2- E um vermífugo, assim?

 

R- É, o médico dava uma vez por ano uns vermífugos, a família inteira tinha que tomar, agora eu nem sei se é assim, não sei porque não estou a par.

 

P/1- E tinha algum remédio que tinha que mandar fazer na farmácia perto de casa, ou quando se era criança?

 

R- Não, geralmente os remédios eram de laboratório, o médico não... Não lembro de médico ter mandado fazer tal fórmula não, não lembro.

 

P/1- Era tudo..

 

R- Eram remédios que tinham na farmácia.

 

P/1- Isso mudou alguma coisa nesse período desde que eles eram criança até agora, quando eles cresceram? Você mudou para homeopatia não é?

 

R- É, só o meu filho mais velho que não aceita homeopatia, mas minhas filhas, minha outra nora, todos estão tratando com homeopatia, tanto que os meus netos que moram comigo nunca tomaram nada, nenhum antibiótico, nada, o mais velho vai fazer oito anos e a mais nova seis, e eles nunca tomaram. Não é que a homeopatia é contra, mas a homeopatia diz que se der uma doença grave o antibiótico age muito mais no organismo daquele que não tomou antes do que naquele que toma toda hora, que custa mais para combater a causa, então não é que eles nunca vão tomar, se der uma doença, uma doença grave, aí o antibiótico ele age muito mais rapidamente, porque agora os médicos por qualquer coisinha dão antibiótico e agora estão combatendo até nos Estados Unidos, porque vai chegar uma época que o organismo não tem mais defesa.

 

P/1- E no dentista, eles iam sempre no dentista, tinham muita cárie?

 

R- Iam, não muito, quem teve os dentes mais fracos fui eu, talvez na minha meninice, cada vez eu ficava grávida meus dentes iam para... E não tinha tempo de tratar com sogro doente, com cinco filhos era difícil, mas eles têm dentes bom sim, meus netos também, todos eles vão ao dentista, os pequenos também. Agora fazem banho de flúor, no meu tempo não tinha essas coisas. Deixa eu ver que horas, nossa hoje eu vou chegar atrasada!

 

P/1- A gente já vai terminar. Aí os filhos cresceram, conta o que eles foram fazendo?

 

R- Estudaram.

 

P/1- Porque você sempre quis que eles estudassem?

 

R- Lógico que todo pai quer que o filho estude, mas eles sempre foram bons estudantes, eles sempre quiseram, olha só, a mais velha que estudou no Dante Alighieri só o ginásio, primário e ginásio, depois não deu para pagar, porque eram muitos, então eles fizeram, naquele tempo, ginásio do Estado, ainda era bom, e fizeram o Caetano de Campos, fizeram cursinhos e entraram em faculdades, dois entraram na USP, só dois.

 

P/1- Fazendo o quê?

 

R- O mais velho fez engenharia, e a terceira fez psicologia, na USP. A mais nova fez na PUC fonoaudiologia, o meu quarto filho é auditor da Ericsson, ele fez na FAI, falta um, ah, e a mais velha, pedagoga que fez, qual é a faculdade? Qual é o nome dessa que fica na Liberdade?

 

P/1- FMU.

 

R- FMU, depois fez astrologia, agora ela é astróloga, porque ela desistiu de lecionar, ela entrou na prefeitura e tudo mas ela não aguentou. Mandam muito longe, quatro filhos ela tem.

 

P/1- Quatro filhos?

 

R- Um por ano. Um vai fazer 21, um vai fazer 20, um vai fazer 19 outro vai fazer 18, por isso que ela não aguentou, ainda lecionava, sempre atrás de uma menina.

 

P/1- Ah, ela foi tentando.

 

R- E não teve a menina.

 

P/1- E a sua vida como ficou nesse período? Você trabalha no centro espírita, como é que foi isso?

 

R- É, três vezes por semana. Comecei por causa do meu sogro, aí eu terminei de fazer a cultura espírita.

 

P/1- Que demorou.

 

R- Sete anos, não foram oito anos, foi cinco de Kardec e três supletivos que eles falam, estuda Freud, estuda uma porção de coisas. E até o buraco negro eu estudei.

 

P/1- É mesmo?

 

R- É, e depois eu fui para uma escola de médiuns, disse que eu tinha mediunidade, mas minha mediunidade é só cura, e fui para os trabalhos que a casa indica, eu trabalho segunda a tarde com passe e faço triagem na pessoa.

 

P/1- O que é triagem?

 

R- A pessoa vai, geralmente de idade, vai, se queixa da vida, que está com isso, com isso, com aquele outro, que o filho casou, ficou viúva, não tem nada o que fazer, a pior coisa que tem é não ter nada o que fazer. Fica com tudo quanto é doença, eu falo para a turma, vai trabalhar, não precisa trabalhar em uma casa espírita, vai na Igreja Católica, você tem o que trabalhar, vai numa evangélica, você tem o que trabalhar, se você tem vontade de trabalhar não precisa de dinheiro. A turma diz: “Ah, eu não tenho dinheiro”. “Não, você vai numa casa de idosos, num asilo de idosos, vai conversar com os velhinhos, você vê como é que ele ficam felizes, eu já fui e não gasta nada. Você vai no orfanato brincar com uma criança, eu já trabalhei em creche, criança com cinco, seis anos não conhece nem cor, minha filha, então você pode fazer muita coisa. Não precisa ficar o dia inteiro em casa se lamentando. Eu não fico.”

 

P/1-Você começou a trabalhar porque os filhos tinham crescido ou foi porque…?

 

R- É porque os filhos tinham crescido.

 

P/1- Aí você sentiu falta de...

 

R- É, aí eu senti falta de atividade, porque eu sou uma pessoa muito ativa e ficar em casa sem fazer nada não dá. Tanto é que de manhã eu estou na cozinha, a manhã inteira na cozinha e a tarde quando eu não vou para instituição ou saio, eu bordo o tempo todo, eu não gosto de dormir de dia, e se eu dormir de dia a noite eu não durmo, e eu prefiro dormir a noite.

 

P/1- De manhã na cozinha fazendo o quê?

 

R- Comida. Eu faço de manhã, agora tem os freezer, e meu marido é muito enjoado para comer, ele não come alho, tanto que a 47 anos quem cozinha sou eu, eu nunca tive uma cozinheira, tenho empregada, mas cozinheira não, nem lavar verdura, ele é muito enjoado.

 

P/1- Não come alho?

 

R- Alho de jeito nenhum, cebola tem que ser dosada, então eu já sei tudo, e minha filha diz: “E se a mamãe morrer antes de você, pai, você vai morrer de fome?” Ele fala: “Ah não, eu morro logo no dia seguinte”. Eu falo: “Não é assim não meu filho, quem sabe lá em cima o dia que você vai, não somos nós”. Ele é enjoado, então eu não posso comprar comida pronta para por no freezer, eu tenho que fazer e congelar, às vezes chega um e fala: “Mãe, eu vim almoçar”. E daí,você cozinha para três e vem sete? Tem que ter reserva, e eu fico na cozinha, quarta feira de manhã eu não cozinho porque trabalho na fisioterapia.

 

P/1- Aí começou seu trabalho na instituição?

 

R- Na instituição.

 

P/1- Isso é a tarde?

 

R- Não, eu trabalho segunda a tarde, terça a noite, agora eu já estou atrasada, e quarta de manhã. Eu trabalhava quinta a tarde, eu tomava conta da lanchonete da instituição, mas depois que meu marido se aposentou eu… E meu marido faz coisas de madeira para a instituição.

 

P/1- Ele também entrou para o espiritismo?

 

R- É, ele vai comigo na terça a noite, não que ele trabalhe, ele trabalha em casa, faz coisas lindas de madeira e executivo fazer... Ele sempre gostou de mexer, faz coisas bonitas de cozinha e ele doa lá para a instituição para a gente vender no bazar de agosto, então ele também faz a parte dele.

 

P/2- Ele operou do coração?

 

R- Operou em 95. Ele teve edema pulmonar, aí nós pusemos no Cruz Azul, duas quadra abaixo da minha casa tem o Cruz Azul.

 

P/1- Ele fumava?

 

R- Ele fumou, em 81 ele teve isquemia, paralisou o lado direito de tanto trabalho, porque foi na época dos militares, não sei se foi Médici, quem que foi, negócio de política mandaram inaugurar, e ele fazia reforma de agências na capital e no interior aqui de São Paulo, mandaram inaugurar 120 agências em sessenta dias, ele alugava até garagem no interior. Você não encontra, não é, e quando chegou na centésima, que é até na Rua 25 de março, naquele travessinha onde tem a caixa econômica, foi aquela que estava, ele caiu na agência de Diadema, ele caiu duro no chão, nem me conhecia lá na UTI da UNICOR. Aí ele largou de fumar, foi em 82, assim mesmo ele levou um tempinho para largar, e sorte que se não ele não tinha se safado dessa. Já me deu trabalho e sustos, mas graças a Deus está forte ainda.

 

P/1- Ele teve isso e se aposentou?

 

R- Depois que ele teve em 81, ele ficou encostado, ficou seis meses sem trabalhar, sem falar, não podia escrever, porque pegou o lado direito, então ele fez terapia e voltou, não ficou com sequela, mas encostaram ele, e ele era chefão lá, e aí em 83 estava na época de se aposentar, se aborreceu e aposentou em 83, então ele está aposentado desde 83, há bastante tempo. E aí ele começou a fazer coisas de madeira, as primeiras eram horríveis, assim mesmo a instituição vendia, agora não, é tudo envernizado, tudo bonitinho, coisas bonitas de cozinha, a gente vai para Serra Negra, pega modelo e ele faz. Trabalha o dia inteiro, parou um ano, recomeçou agora, a operação do coração não foi fácil.

 

P/1- Foi muito complicada?

 

R- Foi, porque ele teve edema pulmonar, foi para o Cruz Azul, no dia seguinte transferiram ele para o Incor, até fazerem todos aqueles exames quando fixaram o cateterismo viram que ele estava com 85% das coronárias entupidas, aí teve que operar, nossa, o homem quase morreu.

 

P/1- Ele ficou com medo?

 

R- Ficou, porque lá não podia ficar, eu ficava das oito horas da manhã até às oito horas da noite com ele e a noite eu não ficava, não podia ficar porque tinha outra pessoa com ele no quarto, eram duas pessoas em cada quarto lá no Incor. Quando ele soube que ia operar disse: “se você não ficar comigo eu morro”, aí o sogro desse meu filho mais velho é muito amigo do diretor do Incor, aí eu consegui que eu ficasse com ele também a noite, aí ele foi, operou, passou bem, voltou para casa, no dia seguinte deu úlcera hemorrágica, quase que ele morreu de novo.

 

P/2- Por que? o que ele tomou?

 

R- Por causa da aspirina, ele tinha úlcera e ele dizia para os médicos: “Não me dê aspirina por que aspirina me faz mal”. Nunca pode tomar aspirina e deram, o pior é que eles dão, o que mais eles dão é aspirina para afinar o sangue, aí ele teve uma úlcera hemorrágica, eu sei que no total eu passei quarenta dias no Incor, mas está aí fortão, vai viver mais uns anos aí.

 

P/1 - Pensando daqui para o futuro, o que você diria para Neide que seria a coisa mais, seu desejo que viesse acontecer? O que você quer do futuro?

 

R- Da humanidade você diz?

 

P/1- Do seu.

 

R- Do meu. Olha, eu não tenho queixa do meu dia a dia e não penso muito no futuro, eu penso mais no presente, eu sou daquelas que é aqui e agora, eu faço o que tem que fazer hoje, eu não sei se amanhã eu estou aqui para fazer então eu não penso muito no futuro, agora, eu tenho medo do futuro dos meus netos.

 

P/1- Tem? Por que?

 

R- Porque não sei, parece que a humanidade, o mundo está muito violento, a gente vê cada barbaridade, no entanto eu nem gosto de assistir jornal porque é só desgraça, mas meu marido diz que a gente tem que assistir para ficar por dentro do que acontece, então a gente tem medo, e é drogas, graças a Deus meus netos não, só dois fumam, mas fumam cigarro, eles falam: “Vovó, não é pior droga”, mas eu falo: “Mas o cigarro é uma droga!” Em todo caso, antes o cigarro do que, não tem assim vícios, não são rapazes que saem, vão, não são rapazes boêmios, mas já estão na idade, não bebem, só tem dois que fumam. Eu tenho medo dessa mocidade, das meninas também, a gente não sabe, é o tal do estupro, uma coisa tão violenta, eu não sei se sempre existiu e não tinha muita... A pessoa não passava para frente, não tinha muita reportagem, eu sei que é uma coisa terrível, e diz que o fim do século vai ser terrível, e nós estamos pertinho do fim. Vamos ver se o próximo milênio vai ser melhor, eu não sei!

 

P/1- Você acha que está piorando ou melhorando?

 

R- Segundo os estudos, está sendo a peneira, porque a terra é um planeta de expiação, agora ela está passando por um período de regeneração, então o próximo milênio vai ser melhor. Por que? Porque segundo o que eu estudo, esses espíritos maus, esses assassinos, são irmãos da gente perante Deus, mas são espíritos muito inferiores, eles não vão mais reencarnar na terra, eles vão reencarnar em planeta mais atrasado, então a Terra vai ser um planeta melhor, mas isso milha só no próximo milênio, é ano toda vida, não é assim que começa o ano dois mil e já está tudo santinho, então a gente estuda. A gente estuda que nós viemos da estrela capela, era um planeta que também a turma não regenerou e quem não regenerou moralmente veio encarnar como primata na terra, e esses vão encarnar nesse outro que o americano já descobriu, esse planeta, tem um nome científico, mas nós aqui no Brasil chamamos de Chupão, até o astrólogo dos Estados Unidos deu um nome inglês para esse que está bem próximo a terra e dizem que é bem idêntico a terra quando ela começou, eu espero que se eu tiver que encarnar de novo que eu encarne na terra.

 

P/1- Agora pensando no seu passado, o que é que você lembra que foi mais importante na sua vida, e se você pudesse mudar alguma coisa no seu passado, o que você mudaria?

 

R- Não mudaria nada, passei... É lógico minha sogra morrer em cima de mim com 51 anos, ela teve derrame fulminante, eu nunca vi ninguém morrer, quer dizer, esse choque eu não gostaria de passar, mas eu não... Meu marido vive mais no passado, mas eu não, vivo mais no presente, eu não tenho saudades, gostei de tudo que eu passei e não foi trágico, a não ser coisas naturais da vida, perder os pais, mas nunca tive grandes desgraças na minha vida graças a Deus. Espero que continue assim até eu ir lá para o outro lado. Tenho bons filhos, bons netos, bons genros, boas noras, não tenho queixa de ninguém então não posso querer voltar para trás, entende? Eu quero ir para frente e trabalhando, se Deus quiser eu quero morrer trabalhando, eu falei para o meu marido: “Não quero ficar uma velha gagá hein”. Tanto que a homeopatia, eu trato quinze anos com o médico e ele me dá remédio para não dar esclerose, para não dar osteoporose, eu fiz exame agora, há pouco tempo, e não tenho não, porque há quinze anos que eu estou fazendo tratamento para não dar e tomara que não dê, porque eu acho que é a pior coisa.

 

P/1- É tratamento homeopático?

 

R- É.

 

P/1- Quando foi que você decidiu mudar da alopatia para homeopatia?

 

R- Por que eu tive um nódulo na corda vocal, aqui na tiróide, sabe aquela que vai ficando… E eu tratei muito tempo com o Doutor Deveza, fazia muito mapeamento e tal, aí chegou um dia e ele falou: “Ai Neide, precisa operar, porque eu não sei se é nódulo frio ou quente. Eu não sei qual que é o câncer”. Aí meu genro mais velho falou: “Dona Neide, por que que antes da senhora operar, a senhora não vai ao médico da minha tia lá de São Carlos?” Meu médico é de São Carlos, aí que chique! “Ela teve um problema semelhante, ela curou com homeopatia, não precisou operar”. O meu marido já estava quase aposentando, aí eu falei: “Ah, eu vou se não resolver...” aí sumiu só com homeopatia. Ele foi, foi, foi e sumiu. Tanto que o meu médico ginecologista aqui em São Paulo para fazer os exames normais da mulher ele não gosta do homeopata, o homeopata não gosta do homeopata, ele fica bobo: “Neide o que é que você tomou?” Porque ele acompanha há anos, ele não se conforma que isso aqui sumiu, e sumiu, e eu me sinto muito bem com a homeopatia.

 

P/1- Ai que bacana.

 

R- É, nunca mais, quinze anos que eu não tomo nem uma aspirina, nada, nada, eu fico gripada, eu telefono para ele, ele me dá um remédio e em três dias eu não tenho mais nada, porque eu fico fazendo tratamento de fundo, não é que eu faço só quando eu fico doente, não.

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