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História

Zé Pedreira e o repente da Bahia

História de: José Alcântara dos Santos (Zé Pedreira)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2009

Sinopse

Ainda jovem, o baiano José Alcântara dos Santos se tornou o Zé Pedreira, conhecido repentista e violeiro de sua região. Embora tenha nascido em Teofilândia, ele vivenciou dois momentos importantes de sua história nas cidades de Araci e de Serrinha: na primeira, conheceu sua mulher; na segunda, comandou por quase 20 anos um programa de rádio focado no repente. Ao falar da movimentada trajetória, que inclui sua missão como mestre griô, transmitindo seus conhecimentos às novas gerações, Zé Pedreira se entusiasmou de um jeito especial quando o assunto era música. Por vezes, respondeu cantando, como fez ao finalizar a conversa à moda repentista: “Um abraço a todo mundo, gente média, gente boa, gente que vive no alto e gente que vive à toa. E agradecer a todo mundo, sobre o Museu da Pessoa.”

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História completa

Sou José Alcântara dos Santos, conhecido como Zé Pedreira. Cresci em Teofilândia até os 20 anos. Ao nascer, não era cidade, era um distrito de Serrinha. Teofilândia ainda é uma cidade pequena, e, quando passou a cidade, não parecia ser cidade. Era a praça, umas três ou quatro ruas, alguns meninos de calça curta e os velhos carregando cabeça de boi do açougue nas costas – inclusive, meu pai. Matavam o boi, eles compravam a cabeça, levavam. Tiravam a carne, pescoço e tudo, e o resto jogavam para os urubus.

Na verdade, nós não tivemos muito tempo para brincar. Porque nós, filhos de agricultores, entramos na vida da agricultura logo cedo. Brincava de futebol de domingo. Apesar de eu ter deficiência física, desfilava no campo com a bola, atuei muito nos campos de várzea, lá na minha região. Eu, sendo o mais velho dos irmãos, mantinha uma certa liderança, não a punho de ferro como os outros. Meu pai, que saudosa memória, que, para mim, continua presente, confiava muito em mim. Se eu viajasse, os trabalhos só andavam mais quando eu aparecia. E eu pegava de igual para igual com o meu pai. Por volta de 63, comecei a fazer as primeiras estrofes. Em 64, comprei a primeira viola. E meti a cara no mundo, cantando. Apareceu um companheiro, cantando de feira em feira. Violeiro é tido como preguiçoso, cantava para ganhar dinheiro mais fácil. Meu pai disse: “Meu filho, e isso presta?” Eu disse: “Um dia, o senhor vai ver se presta.” E ele viveu o suficiente para me ver gravar o primeiro disco, ter programa no rádio AM durante 18 anos. E ele viveu o suficiente para ver se prestava ou não.

Comecei sem ser apaixonado, porque não tinha coragem de enfrentar sozinho só a música. Porque, no começo, as dificuldades para você conseguir as apresentações são terríveis. Eu cantava e trabalhava com aquilo que aparecesse. Com isso, fui levando o barco, e, em 1969, fundaram, foi para o ar a rádio difusora de Serrinha, e para lá eu me mudei. Fiquei em Serrinha, demorei muito tempo. Vim a Araci, arranjei uma namorada, a de casar, as outras foram de Serrinha mesmo. A namorada de casar que arranjei era de Araci. Estamos felicíssimos até hoje, 34 anos depois. Trinta e três de casal, e 34 de acertos para casamento.

Todo nordestino sabe. Uma grande parte tem uma tendência à poesia de repente, de violeiros, de emboladores de pandeiro, aboiadores e até bebedores de cachaça no pé do balcão. Você encontra um sujeito: “Ah, eu não gosto de cantoria, não, não quero nem ver aquilo.” Aí, você se esconde no mato, ele passa na próxima esquina, passa na próxima curva da estrada falando do verso que o outro fez, ou solfejando. Umas seis tiras assobiando. Então, ele não gosta do que está sendo a pagar. E se aquilo for de graça, ele vai.

Se você quiser ser um bom rimador, só com a prática da vida, porque a poesia você traz dentro de si desde a nascença. Vem de você. Mas, para aprender a rimar, você tem que aprender com outros que sabem. Eu aprendi muito com um cantador que não era baiano, chamado Apolônio Belo Souto, de Alagoas, o qual me ensinou o verdadeiro sentido da rima. E, daí para cá, só foi rima a minha vida.

O repente já diz: é feito de improviso. É a característica de tudo o que é feito na hora. Se passa um que você não gosta, você cuspiu de repente de lado contra aquele cara que passou. Tudo isso é repente. Agora, repente cantado também é feito na hora, e só os repentistas fazem. No Nordeste, está sua maioria, não quer dizer que no Sul não tenham também, de maneira um pouco diferente.

A viola do repentista, ela não toca. Ele não a toca durante a estrofe toda. A viola acompanha o violeiro quase que isoladamente, o repentista. Eu disse: “Ah, fulano toca muito.” Mas a viola dele tem que parar um pouco, em cada momento da estrofe, que é para a viola não vir a cobrir a estrofe que está sendo feita. Senão, ouve a viola, mas não ouve a cantoria, que é o mais importante naquele momento.

A viola talvez não sente, sente alguém que está vivo, com carinho que faço nas cordas com ela. Talvez só a mãe de meus filhos e meus próprios filhos para eu gostar mais do que da minha viola. Isso sem falar em Deus, que é assunto particular. Então, a viola é, hoje, abaixo de Deus. 

[Cantando:] “A Ação Griô para mim é, pois é tranquilidade. É integração do povo na nossa comunidade. E tá trazendo para o povo paz e mais felicidade. A interação de verdade acontece todo dia, mas com a Ação Griô, nesse sertão da Bahia, tá sendo muito cuidada e recebida com alegria. E aqui em Lençóis da Bahia, eu cheguei tranquilamente, um pouco desconfiado, mas me interei certamente. Que tudo que é bacana, da Ação Griô com a gente. E serei daqui para frente, um griô a todo dia, trabalhando dia e noite, junto com a minha Maria, para o bem do nosso povo, que é griô todo dia!”

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