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História

Zona sul: a vivência na vila e o universo do grafite

História de: Victor Werner Almeida Pinheiro de Sousa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/11/2013

Sinopse

Victor nasceu em São Paulo em 22 de setembro de 1988, morador da zona sul de São Paulo, no bairro Cidade Dutra. Conta sobre a sua infância na vila, local da maior parte de suas histórias. O universo do grafite faz parte da sua vida. Começou com a pichação, mas como gostava muito de desenhar se encantou pelo grafite, e hoje diz que já vê o picho com outros olhos. Aos 19 anos sofre um grave acidente de carro, passando por períodos difíceis de sua vida. Pouco a pouco vai se readaptando e conta para nós a sua história de superação, aprendizado e sucessos.

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História completa

P/1 – Por uma questão de identificação, eu queria que você falasse seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Victor Werner Almeida Pinheiro de Souza. Eu nasci em São Paulo, 22 de setembro de 1988.

 

P/1 – Victor, antes de entrar na sua vida mesmo, conta um pouquinho das suas origens, um pouco sobre os seus pais, os seus avós. Conheceu os seus avós?

 

R - Conheci só uma avó, né? Meus dois avôs eu não conheci, uma avó também não. Sou descendente de Paraíba (risos) e nordestino. Não sei se...

 

P/1 – Você lembra a história deles?

 

R - Não.

 

P/1 – Quando eles vieram para São Paulo? Você sabe essa...

 

R – Não, não. Não sei. Eu sei que foi difícil, né? Pra eles foi bem difícil que já é uma coisa muito boa onde a gente tá. A estabilidade da nossa família assim, na questão financeira. Minha mãe não tem estudo. Sabe ler e escrever, mas não terminou a escola. Hoje em dia o padrão já tá melhorando e minha irmã e meus primos também são bem estudiosos, tal.

 

P/1 – Os seus pais nasceram aqui? Em São Paulo?

 

R – Nasceram, os dois.

 

P/1 – Nasceram já aqui.

 

R – É.

 

P/1 – Você lembra como eles se conheceram? Já contaram isso para você?

 

R - Já, já. Numa borracharia, velho (risos). Minha mãe, se eu não me engano, furou o pneu da minha mãe e tal, aí eles foram na borracharia, quer dizer, eles não, né? Minha mãe foi na borracharia e daí conheceu meu pai. Agora não me pergunte como que foi a parada que eu não sei, sem maldade (risos).

 

P/1 - Beleza, beleza. Casaram faz anos? São...

 

R – Putz, velho. Eu não sei quanto tempo não que tem.

 

P/1 – Sua família, você tem irmãos, como são as outras pessoas?

 

R – Tem mais de 20 anos que meus pais são casados. Eu tenho uma irmã mais velha, 24 anos, eu tenho 21, né?

 

P/1 – Então você nasceu no Jardim Cocaia, não?

 

R - Não.

 

P/1 – Onde que você nasceu?

 

R - Eu nasci onde eu tô hoje, que é na Cidade Dutra, ali Interlagos, próximo da Robert Kennedy, próximo do Cocaia, né? E eu frequento lá mesmo, eu sou lá da Vila e fico mais por lá mesmo, difícil eu sair.

 

P/1 – Então conta pra gente um pouquinho de lá. Mudou muito nesses 21 anos, não?

 

R - Mudou, cara.

 

P/1 – Conta um pouco pra mim. Como era na sua infância ali? Como que era a Cidade Dutra ali?

 

R – O bicho pegava, velho. Quando eu era moleque o bicho pegava, aí depois as coisas começaram a se acalmar graças à Deus, né? Hoje tá bem mais sossegado lá, tá todo mundo mais em paz. Que assim, eu moro na rua de cima da onde pega o fogo mesmo, onde é quebrada, favela mesmo, então a gente não participava, né? A gente mais via, a gente não chegava a participar da violência, mais via o que acontecia. Mas era feio lá, ali a Cidade Dutra... pelo menos ali onde eu moro, próximo do Passa Rápido ali era meio complicado, só que aí com o tempo, foi entrando aí PCC, esses negócios. Daí parece que as coisas pararam. Parou de morrer gente, já não morre mais tanta gente quanto morria lá, né? Tá mais sossegado.

 

P/1 – Quando você era criança vocês brincavam no que ali, como que era? Tinha uma coisa de ir à escola e voltar pra casa. Como que era isso aí?

 

R – Não, não. Se eu ficava... Oh, eu sou rueiro, velho. Eu sou da rua, mano. Minha mãe detesta isso em mim, porque eu gosto muito de ficar na rua, meu segundo nome é rua. Minha namorada fala pra mim que meu segundo nome é rua, chamo rua. Porque desde molequeinho eu sempre fiquei na rua, cara. Sempre aprontei, sempre cacei problema, é coisa de moleque, né? Curtindo. Quando eu era pivetinho mesmo eu andava de skate, eu gostava de skate na época. Teve uma época que eu mudei pro Sesc [Serviço Social do Comércio], o Orion, o Aiambu II, morei quatro anos lá. Foi uma parte da minha vida, assim, da minha infância entre aspas que eu já era... aí 12 anos, por aí. Aí eu andava de skate, gostava mais de skate. Daí depois, fiquei... já fui ficando velho, procurando meios de ganhar dinheiro. Comecei a dar uns trampos, vender pastel na feira, trabalhar em loja de um real aí pra poder juntar uma grana e comprar uma roda de skate decente, um rolamento. Aí fui crescendo, né? Parei de andar de skate, comecei a escrever letra de rap que, hoje os meninos que... na rua onde eu morava, os moleques tão com estúdio, estúdio muito louco que os moleques conseguiram fazer na casa de um deles e já gravaram dois CD’s. Bacana, só que eu saí, né?

 

P/1 – Você tinha um grupo.

 

R - Tinha.

 

P/1 – É mesmo? Vocês ensaiavam e tal? Apresentavam?

 

R – Ah, na época cara, a gente colocava uma fita só com a batida daquela música dos Racionais, “Diário de um Detento”. A gente só colocava a batida e ficava pirando, ficava gravando porque a gente amava essa música, né? Pra gente os caras eram tipo deuses assim, entendeu? Na parada. Aí a gente fez, mas não deu certo, mano, aí eu mudei de lá, voltei pra onde eu tô agora. Que era assim, eu morava na Cidade Dutra ali, tal, aí a minha alugou e meu pai foi despedido. Ele tirou uma moeda, aí a gente foi lá pro Sesc, só que não deu certo, a casa era muito grande e então a gente voltou pra lá. E agora, se Deus quiser, a gente vai pra depois da ponte, evoluir se Deus quiser, mano. Sair um pouco do trânsito.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho pra questão do rapper. Você tava com uns amigos, foi uma iniciativa. Vocês se apresentaram? Chegaram a fazer alguma coisa assim de tocar em festa?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Era só entre vocês.

 

R – Era só entre a gente. Era mais uma brisa mesmo, uma brincadeira. A gente não levava a sério, tipo, “Ah, vamos virar rapper e tal”. A gente só brincava, não tínhamos o que fazer, né? A gente não tinha o que fazer. Se vai pra rua naquela idade, já sabe, só droga, só coisa errada e tudo. Então a gente ficava lá dentro da casa do moleque escutando um sonzinho, escutava muito Charlie Brown também. A gente gostava bastante e ia pro Sesc andar de skate.

 

P/1 – Essa questão do lazer ali é complicada até hoje, como é que vocês faziam ali? Ficavam em casa, saíam na rua, o que vocês faziam assim ali? Vocês eram adolescentes, 15 anos, não é isso?

 

R – É. Tirando, não sei nem se pode comentar aí. Tirando fumar maconha, né? A gente gostava de ficar na rua zuando, velho. Aí jogar bola assim, sem camiseta, coisa de moleque mesmo, de rua de vila, tá ligado? Só que isso aí moleque, quando a gente tava aprendendo as coisas, né? Aprendendo mesmo o que é bebida, o que é festa. O que é droga, o que é o tráfico, o que é ser trabalhador, tudo. Acho que foi essa época aí, foi a época que eu aprendi muito no Sesc, eu aprendi muita coisa no Sesc. Porque aí quando eu voltei pra Cidade Dutra eu já tava com a mente mais feita, com a cabeça mais feita.

 

P/1 – Mas você poderia contar pra gente algumas coisas. Quando você fala de revelador assim, que foi aprendendo, você poderia descrever pra gente alguma coisa que foi marcante assim?

 

R - Ah, tem várias, cara. Tem parceiro nosso que, moleque assim, entrou... começou a vender droga, morreu. A gente viu o moleque comprando roupa de marca, tirando moto e não sei em quanto tempo, pouquinho tempo já, morreu, já descobriram que tinha sumido. Teve uma vez que pegaram um moleque lá na rua e trancaram ele na casa lá, porque todo mundo sabia que ele era bandido. Colocaram ele dentro de uma casa, daí subiu, porque é assim, né? Tinha um picho lá que eu não vou citar, mas tinha um picho lá que era muito famoso na época e todo mundo queria ser desse picho. Eu mesmo carregava lata de tinta pros cara só para ter o conceito deles. Só para ser amigo dos caras. E esse menino que prenderam lá na garagem era desse picho, né? Daí subiram uns camaradas, meu, com revólver já sentando bala pro alto e tirou o moleque de lá. Isso foi muito marcante porque foi um susto, né? Quando você tá do lado do cara, o cara é seu amigo, entre aspas, a gente tá conversando, o cara é legal, aí de repente o cara do nada sobe gritando, ameaçando todo mundo porque o moleque tava lá. Aí que a gente percebe que é muita maldade que rola. Até hoje, velho, hoje mesmo eu vejo muita maldade, muita maldade. Nesse beco que eu fiz... tem um trampo meu que é o Da Vinci. Morreu um cara faz pouco tempo lá naquele beco por causa de droga. Tava devendo. A gente conhecia ele, era o carioca, que ele voltou do Rio e infelizmente voltou de um jeito que ninguém conhecia mais o cara. É isso aí. Infelizmente o dia-a-dia de quem mora em vila, né cara. Mas tem coisas boas também.

 

P/1 – Por exemplo? Manda lá.

 

R – Tem coisas boas também, pelo amor de Deus (risos).

 

P/1 – Não, com certeza.

 

R - Não, o rap foi uma coisa muito boa, mano. Pra mim até hoje assim, foi o que me ajudou a mudar a minha cabeça, a colocar a minha cabeça..., eu não curto muito TV pública de jeito nenhum, não gosto. Pra mim é só besteira, só bobagem. Eu tava até comentando com uma amiga ali porque eu não curto mesmo e foi o rap que me ajudou. O skate também. Joguei bola, joguei basquete, aí aprendi muito porque a gente aprende que você treinando, treinando, treinando, aí consegue, né? Não adianta você querer tudo de uma vez, ou querer nascer sabendo. A gente tem que batalhar e foi assim.

 

P/1 – Isso tudo você praticava numas praças lá? Tem umas praças, tem um clube? O que é que é? Escolas...

 

R – É o futebol era no Sesc. Skate era Sesc, futebol era Sesc e aí o basquete veio depois, bem depois mesmo.

 

P/1 – Tem umas festas ali também? Como é que é?

 

R – Ó, no Sesc, a gente tá no Sesc, né? Ainda. No Sesc festa, festa, teve. Teve umas bagunças lá, quando eu era moleque, não sabia muita coisa, tal, ficava mais de boa, na minha. Mas nada demais assim não. Quermesse, a gente adorava as quermesses que tinha no Sesc, lotava, velho, se pá era conhecida até por aqui, porque lá lotava bastante. E festa só isso mesmo. Tirando as cachaças que a gente tomava na casa do camarada nosso, né? Isso aí não é festa, é só um happy hour (risos).

 

P/1 – Você se apresentou aqui pra gente como um fazedor de arte com grafite.

 

R – Exato.

 

P/1 – Mas pelo o que você me falou, você já fazia uns pichos e tal. Você começou seu envolvimento com o picho? Depois foi desenvolvendo?

 

R - Isso, isso.

 

P/1 – Como é que foi?

 

R – É, não exatamente assim. O picho pra mim hoje é um vandalismo. Pra mim hoje, eu mudei a minha forma de ver completamente, né? Que eu não conhecia o grafite, não mesmo, assim, não conhecia mesmo. Pra mim era coisa de outro mundo. Era coisa da Europa, sei lá, de outro mundo. A gente não era uma facção, era um picho que tinha lá na nossa quebrada que era muito famoso, que tinha treta com outro picho da quebrada um pouquinho acima. Rolou um estouro lá que morreu um monte de gente por causa dessa aí, velho, por causa de picho. O meu primeiro contato com lata de spray foi no picho. Não posso mentir. Eu me arrependo, né? Mas a gente não conhece. Foi no picho. Mas hoje eu sei diferenciar o que é que é uma arte, o que é que é um vandalismo. A gente aprende com o tempo. Que é que é um bomb. Porque você falou e eu fiquei até com isso na cabeça agora.

 

P/1 – Voltando essa questão dos grupos, eram grupos do mesmo bairro só que diferentes por causa do picho. Você chegou a se envolver, a ter que correr...

 

R – Não, não. A única coisa que eu fiquei surpreso, eu acho que eu nunca mais vou ver isso na minha vida e nem quero, foi incrível isso aí. Na esquina da minha rua tinha uma padaria e nela tinha pichado o nome de quem ia morrer. E quando matava o homem, os caras vinham e riscavam, né? Isso aí também foi assustador, cara. Foi uma época que tinha toque de recolher, só passava ROTA [Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar] lá onde a gente morava no Sesc. Mas foi num longo período não, cara, foi num curto período, depois passou isso aí meu, também aquietou, ficou tudo mais tranquilo.

 

P/1 – Você comentou da polícia. Como é que era? Relação polícia com a comunidade e vocês ali, moradores.

 

R – A primeira vez que eu tomei uma cacetada na canela de um policial, eu tinha 11 anos, cara. Foi lá no Sesc, por besteira também. Tava atravessando a rua... de não tá mesmo, se eu tivesse eu falava... mas de não tá junto mesmo e os caras falar que tá e tal. E só também. Agora, mais pra frente teve, né? Tiveram uns casos aí complicadíssimos, só que mais pra frente.

 

P/1 – Ah, você mais velho.

 

R - É, agora. Pouco tempo aí, não na época do Sesc.

 

P/1 – Bom, do Sesc você voltou pra Cidade Dutra, não é?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que foi esse retorno? As coisas tinham mudado?

 

R - Ah, foi ruim porque eu não conhecia ninguém. Eu não conhecia ninguém na Cidade Dutra, daí comecei a estudar. A escola você já viu, sempre tem uma confusão, sempre tem uma brincadeira boba. Os caras querem montar em cima porque você é novo. Mas aí o tempo foi passando, passando. Já conheci todo mundo de novo. Eu tenho quatro, eu tenho seis primos, velho, que moram lá. Então tem um pessoal.Tem um primo meu que sumiu, que a gente não sabe para onde foi, que morava lá também, ficou doido, não sei o que aconteceu. Foi isso aí.

 

P/1 – E os amigos da velha guarda? Pessoal tinha mudado?

 

R – É, então, aí não voltei mais... voltei até pro Sesc um tempinho pra trocar ideia, ver o estúdio dos moleques tudo, mas não... as ideias nem batem mais, né? Não sei por que mas...

 

P/1 – Como é que foi essa transição do picho, que você não se envolveu muito, pro grafite? Como é que você conheceu o grafite?

 

R - Velho, eu conheci o grafite faz um ano, faz pouquíssimo tempo e quando eu conheci, que eu pensei em grafitar.... é que eu tava desenhando. Primeiro é assim, eu sofri um acidente de automóvel faz dois anos atrás, que eu tive um... eu fiquei 48 dias internado no hospital, né? Fiquei dois dias na UTI, foi um puta susto assim pra minha família, foi muita treta mesmo e eu tive que aprender tudo com a mão esquerda, cara. Eu era destro. Hoje eu sou canhoto. E as coisas mais difíceis são as primeiras coisas, as coisas mais simples de aprender que é comer e escrever. Aí eu tive que aprender a escrever e eu vi que escrever eu até consigo, só que tem que ir muito devagar. Aí eu tentei fazer alguma coisa pra ajudar na coordenação motora da minha mão. E comecei a desenhar. Pensando: “Pô, eu nunca vou conseguir fazer os desenhos que eu conseguia fazer antes”, porque sinceramente cara, você com uma mão fazer é... apontar o lápis, apagar, pintar o desenho com lápis de cor. Daí eu fui tentando, tentando, aí de repente começou a surgir. Encontrei um amigo meu que andava de skate, “Ah, tô com vontade de fazer uns grafites” e nisso eu já tinha dado uns riscos na viela, os primeiros riscos lá. Pra falar a verdade, né? Comprei uma Montana, descobri que Montana é uma marca aí de lata de spray, uma das melhores pra grafitar. Comprei, fui grafitar e vi lá, aí já era meu. Pirei, mano. Aí comecei a comprar já tinta colorida, comecei a elaborar os trampos antes de pôr na parede e já tô tentando fazer sem olhar em nada, só riscar mesmo. Esses trabalhos que você viu, meus, nenhum foi... foi tudo na hora, tirando na hora, não olhei em nada, nem foto, nem nada. Foi assim, foi assim. O grafite, ele veio como um hobby, né cara? Agora assim, pra mim. Como se fosse um hobby assim. Como uma coisa... como se fosse, não sei se um esporte, esporte seria uma palavra correta de falar, né? Tipo esporte, mas é como se fosse mesmo. É um lugar pra você tirar um lazer, meu, é um lazer que... eu não levo, que nem meus amigos, eu tô até muito feliz porque um amigo meu ele tá conseguindo já ganhar dinheiro na arte, tá pintando, tá crescendo mesmo na área da arte mesmo, né? Já vai fazer facul e tal. Eu já não aspiro tanto assim na arte, sabe? Em si. Eu gosto, né? Mas o que eu gosto mesmo é do desenho, do grafite. Eu já não penso “Ah, virar um Leonardo Da Vinci”, sei lá, uma parada dessas. Penso mais só no grafite mesmo, fazer uns trampos show. Tem uns cara que eu piro demais que são gringos, né? Tem uns trampos deles que é realismo. Que é tipo deixar o mais real possível o rosto, ou o que for que você desenhar na parede, que você colocar na parede.

 

P/1 – Várias questões na verdade.

 

R – É.

 

P/1 – Tem várias correntes no grafite, é isso? Você se enquadra no realismo?

 

R – Tem cara. O grafite, ele tem muita porta, velho. Eu não conheço nem um terço das portas que tem o grafite, apesar de eu ser... eu sou novo, né? Eu sou novo também e tem essa, tem estilos de grafite, tem letra. Eu já sou horrível pra letra, não gosto de grafitar letra, mais personagem mesmo, desenho.

 

P/1 - Eu vou voltar um pouquinho então, Victor.

 

R - Pode voltar.

 

P/1 – Que eu vi que tem um divisor de águas aí na sua história, que é justamente a questão do acidente, né?

 

R - É, exatamente.

 

P/1 – Conta pra mim um pouco desse dia.

 

R – O dia do acidente?

 

P/1 – O dia. Conta pra mim esse dia.

 

R – Ah, a gente... velho, eu falo isso todo dia, todo dia eu falo pra uma pessoa do meu acidente. Porque o pessoal vê, né? Que eu uso tala, aí o pessoal sempre pergunta: “O que é que foi isso?” e tal. Aí eu falo: “Não, que não sei o que”. Teve vez que eu já falei que... uma vez eu tava super nervoso no hospital, mas de saco cheio mesmo, porque eu usava pino externo e  tinha que limpar, né? Toda vez, é... uma vez na semana. Aí uma vez eu tava lá, injuriado, aí a tiazinha chegou em mim e perguntou. Eu já tinha falado umas quatro vezes o que é que tinha acontecido comigo pra umas pessoas que eu já não conhecia. Aí chegou uma senhora em mim: “O que é que aconteceu com você, meu filho?”, eu falei: “Eu tava no avião da TAM, minha senhora”. Que foi logo quando tinha acontecido (risos)... eu juro para vocês, velho, eu olhei pra tiazinha e falei: “Eu tava no avião da TAM, antes dele cair eu pulei da janela”. A tiazinha: “Nossa, não sei o que, não sei o que lá”. Aí a mulher me chamou e eu fui andando, nem falei pra tiazinha que tinha sido brincadeira. Vai saber se ela tinha acreditado (risos). Foi hilário, cara, foi muito engraçado esse dia aí. Entre aspas, né? Tirando as complicações. Eu acho que meu pai me falou hoje isso aí no carro: “A gente tem que tirar as coisas boas das piores coisas que acontecem”. Por mais que sejam ruins, a gente tem que tirar as coisas boas, né? Eu sou assim cara. Eu fiquei 48 dias internado, comecei a namorar a enfermeira, fiquei seis meses namorando a enfermeira que cuidou de mim. Ela passou o maior pano pra mim, que eu tive queimadura também e o papel que eles usavam pra tratar era super caro. Era tipo raro lá no hospital, eu fiquei no Hospital da Pedreira. E ela passava o maior pano, tipo, para tirar raios-X, esses bagulhos. Ela me ajudava, eu tenho muito carinho por ela também. Aí arrumei algumas coisas para distrair a mente, né cara? Os médicos me falavam que eu não ia ficar com o meu braço, que ia ser raro que eu conseguisse, que ia ser um milagre. Daí eu consegui, melhorou fazendo tratamento, eu tô fazendo fisioterapia, vou fazer uma cirurgia ano que vem. Tá longe pra caramba, né? (risos). Eu vou fazer a cirurgia ano que vem e daí estamos aí. Eu já sei que é uma batalha que eu vou ter na minha vida inteira pra estar arrumando, consertando, vendo se dá pra melhorar aqui, melhorar ali. Com fé em Deus a gente tá aí.

 

P/1 – E você tava fazendo o que nessa época? Trabalhando, você tava estudando? Interrompeu?

 

R – Eu tava desempregado, eu tava vagabundo, velho. Só rolê, rave, droga e os caralhos, mulher, só isso. Eu era novo, né? Eu tinha o que, 19 anos, é uma idade do cão. Se você passa inteiro dessa idade aí, velho, você agradece a Deus, porque não foi um acidente que eu sofri, tipo, esse acidente eu vou lembrar pro resto da vida, não tem nem como eu não lembrar. Tenho cicatriz pelo corpo inteiro, tirando o braço. E tinham cinco pessoas dentro do carro, só eu que fui o mais afetado. Teve só um menino que raspou a cabeça assim, que a gente bateu num guard rail, tava voltando de um bar, todo mundo bem louco, todo mundo bêbado. E o carro rodou, bateu a traseira, aí girou umas três vezes. Não sei quantas vezes ele capotou, porque foi feio a parada, o carro virou uma sardinha. Aí logo chegou uma ambulância. Toda vez que a ambulância passa na rua com o farol... como é que é?

 

P/1 – A sirene.

 

R – Com a sirene, né? Eu faço o sinal da cruz e dou graças, falo para ajudar quem tá lá dentro, porque se não fosse aquilo ali, já era.

 

P/1 – E quando você saiu?

 

R – Do hospital?

 

P/1 – Do hospital. Como é que foi voltar pra casa? Como foi isso?

 

R – Foi um choro do caralho, velho. Todo mundo chorou, todo mundo feliz, né? Daquele choro de alegria, só que durou pouco porque eu tive que voltar, aí fiquei mais um tempo e fiz outra cirurgia. Todo mundo rezando porque eu fiz enxerto de artéria, né? Aí se não desse certo esse último enxerto, tinha que amputar o braço. Graças a Deus deu certo. Aí eu voltei. Primeira coisa que eu fiz foi comer no McDonalds porque a comida do hospital ninguém merece. O meu pai enfiava na minha boca comida porque eu não conseguia comer. E daí foi indo, né velho? Fui voltar a escrever que foi o que eu te falei, trampar, tô trampando, faz um ano e pouco que eu tô trabalhando, cara.

 

P/1 – No quê?

 

R – Eu trabalho com informática.

 

P/1 – Você já conhecia também ou foi aprendendo?

 

R - Já conhecia. Eu já trabalhava antes, manjava, né? Manjava um pouco de Linux, de redes também. Eu trabalho com Telecom, com suporte técnico. Hoje eu manjo um pouquinho de tudo, é uma empresa fudida, cara. Arrumei um trampo legal mesmo, foi bacana também, me ajudou muito, viu? Esse trampo me ajudou muito, mudar minha mente também, me tirou um pouco da rua, né? Também.

 

P/1 – Como é que você conseguiu esse trabalho? Foi logo após, na saída, como é que foi?

 

R – Puta, também foi uma coisa legal porque eu tenho um amigo que ele era skatista. Ele era o melhor skatista da região. Aí ele teve um AVC, né? E ele ficou com a mão esquerda igualzinho tá a minha direita hoje. E eu ficava chamando ele de mãozinha. “Ei, mãozinha!” (risos). Ficava brincando, brincando, sabe? E ele não liga também, né? E daí, pelo acaso, aconteceu comigo esse acidente e quem olha assim pensa que a gente tem a mesma coisa. Só que dele foi AVC. Aí ele me indicou o lugar pra eu fazer uma entrevista, fazer uma prova. Eu fui, fiz a entrevista, conversei com a mulher, falei, tipo, igual tô conversando com vocês aqui. Contei uma história pra ela, a minha história, né? Aí ela me arrumou um trampo lá, cara. Aí eu fiz umas três, quatro entrevistas lá onde eu tô e deu certo, ainda bem. Trampando lá, bacana. Gostando de lá.

 

P/1 - E o grafite entra aonde? Nos fins de semana? Com a galera?

 

R – Eu agora não vou mentir, cara. Agora eu tô um pouquinho parado assim, mas pra mim, eu desenho todo dia, né? Todo dia, na rua, parou “Ah”, quando você toma banho com espelho eu ficava, como é que fala?

 

P/1 – Esfumaçado assim?

 

R – É. Eu vou com o dedo lá, faço um desenho e tal (risos). É sempre. E o grafite em si que é tinta, aí é bacana. É amigo, tinta, pega uma galera e vai com um objetivo qualquer. Aí só final de semana mesmo, né? Lá na CEDECA [Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente] mesmo, o pessoal vai de sexta de manhã. Eu não posso, aí eu já não vou. É mais final de semana que eu vou. Esses dias teve uma exposição de amigo meu lá, aí trombei com os amigos lá e tudo, o pessoal do grafite e eles tavam falando pra mim, “Pô mano, você sumiu, você sumiu”, eu falei: “Não, eu vou voltar, vou voltar (risos), pode deixar que eu vou voltar”. Porque tem que comprar lata, tem que fazer um corre também, tem que ir no centro comprar umas latas de spray diferentes porque o que a gente ganha nem sempre dá pra fazer um trampo bem elaborado, você tem mais dificuldade, né? Em estar fazendo. Mas dá pra fazer, a gente ganha o material, a CEDECA mesmo, ela dá o material pra gente bacana, pra tá trabalhando e final de semana. Se for pra pôr assim, o grafite mesmo é final de semana.

 

P/1 – Você podia contar pra gente uma incursão de vocês assim, que foi bem marcante pra você, alguma ação, intervenção, um dia de grafite que foi bem legal.

 

R – Oh, teve uma vez que a gente foi grafitar e comeu feijoada, foi a maior brisa, a gente foi em Guarapiranga na casa de um amigo nosso super simples, super... um moleque muito humildade que mora com uma menina, os dois são novos, têm um filho, maior batalha que a gente vê assim, né? Que é uma batalha pra eles e a gente fez o grafite na avenidona. Aí comemos uma feijoada, foi muito bom, foi a maior zueira, só tipo eu, Marquinhos, o Tiago, só quem a gente se fala mais mesmo, que eu conheço mesmo. E também tem eventos, tem os eventos do Niggaz também que foi muito show, que você via até o chão pintado, né? O pessoal pintou até o chão cara, da rua, da escola lá. Ficou muito bonito. E foi meio marcante porque eu conheci o Jonato, conheci o Mauro, que são artistas muito conhecidos. Os trampos dos caras, meu, são muito lindos. E teve também mais gente, eu conheci um monte de gente que se juntou depois pra ir grafitar de novo, foi uma puta porta que abriu pra mim, né? Ali o evento Niggaz do Cocaia.

 

P/1 – O evento Niggaz foi no Cocaia. Mas como é que foi isso? Foi uma organização, é um grupo que por e-mail se junta, como é que funciona isso aí? O pessoal já tem um grupo que se encontra em algum lugar, o que é que é?

 

R - É, já tem um pessoal que vai na CEDECA, né?

 

P/1 – Ah, a CEDECA é um ponto?

 

R – Aí avisa um pro outro, que avisa pro outro, que mora do lado, aí vai direto. Quem não mora vai pra CEDECA, depois da CEDECA vai, né? E lá no Cocaia, não sei se você já foi lá, cara. Tá parecendo uma galeria a céu aberto. Onde você vai tem um trampo e é cada trampo lindo. A gente já fez vários grafites por lá, né velho? Não dá nem pra lembrar assim direito. Mas tem muitos eventos legais lá, bacana.

 

P/1 - Mas quando que você começou a frequentar o CEDECA, alguém te apresentou, como que foi isso?

 

R - Puta, a primeira vez que eu fui no CEDECA, cara, é eu fui lá com o meu amigo, lembra que eu falei pra você do Tiago que andava de skate e aí ele “Ah, vamos lá naquela ONG ali perto de casa que tem o trampo do pato”, que tem logo o grafite do pato na porta assim, aquele ali você viu. Que é bem bonito, né? Aquele trabalho. Aí “Vamos lá, vamos lá conhecer”. Aí a gente chegou lá, foi super bem tratado, os caras foram muito legais com a gente, falou pra gente ir em tal dia que ia estar lá o tal dos grafiteiros. Aí a gente foi, conheceu o Jerry e o Tim e tava tendo oficina. Falou “Ah, entra aí e começa a desenhar, que vocês vão aprender algumas técnicas de algumas coisas”, mas uma escola assim, de grafite. Aí entrei, aprendi algumas coisas, conheci os dois, fiquei um tempinho. O Tim falou pra gente que era mais pra quem tava começando a desenhar. E tal. Que era lá no Iporanga, era uma ONG que tinha lá no Iporanga que a gente ficava lá. Era mais para criançada, tirar a criançada da rua, né? E colocar dentro da ONG assim. A gente parou de ir um pouco e nós começamos a desenhar, desenhar. Foi um dos primeiros desenhos que eu fiz assim, alguns dos primeiros desenhos que eu fiz de esquerda assim lá, aí o Jerry falou muito do desenho. Falou “Ou, ficou da hora, ficou da hora. Você já era canhoto?”, ”Não, não”, “Ou, ficou da hora. Tenta, mano, tenta mais, força mais que você pega uns detalhes ali, uns detalhes aqui”. Aí fui tentando, tentando, e comecei a passar pra parede sozinho, sem ir na CEDECA. A gente foi na CEDECA de novo, né? Aí já nos chamaram pra um evento. Agora o evento que foi, cara, o primeiro assim eu não vou lembrar, velho, eu não vou lembrar. A gente saiu várias vezes. Nós começamos a grafitar direto com o pessoal lá e também se juntar com o pessoal de lá, só que não pela CEDECA, nem tem passado pela CEDECA, a gente mesmo, né? A gente fala: “Ah não, vamos pintar, vamos pintar” e saía pra pintar.

 

P/1 – Você falou que teve alguns problemas com a polícia recentemente. Foi com o grafite?

 

R - Foi.

 

P/1 – Que é que aconteceu?

 

R – A gente ia direto, né? O grafite tem direto. Até o cara entender que aquilo ali não é pichação, velho, o cara já estragou sua lata. A gente compra... a gente paga 15 reais numa lata de spray, numa lata boa de spray. Então a gente tá pagando, a gente não é uma... o cara que picha, esse cara jamais vai pagar 15 reais numa lata pra fazer o nome dele. Eu duvido muito que tenha pichador que faça isso, porque quando eu pichava, meu Deus, pra mim Colorgin tava ótimo. Color Plic, as piores. E pra mim foi... o grafite... qual que foi a pergunta mesmo? Eu saí cara, do...

 

P/1 – Não, é que você comentou que já tinha tido uns problemas com a polícia recentemente.

 

R – Ah, tá. É verdade.

 

P/1 – Daí eu não sei se aconteceu alguma coisa, qual foi o caso...

 

R – Oh, eu nunca fui agredido não, cara. Por causa de tá pintando. Já teve amigo que foi, mas eu nunca fui, né? E eu tive um grafite, eu fiz um grafite na Papini lá perto de casa e esses dias eu passei lá, tava pintado de branco. Depois eu fiquei sabendo que era de um muro de um policial, que o cara era super chato. Eu toquei na casa, eu bati, falei, e era um muro detrás da casa e só passando para ver mesmo o muro, pra você falarem “Não, nossa. É mesmo, esse muro aí não vai incomodar o cara nunca”, não sei por que o cara fez isso e tal. Aí eu fui lá, pintei, fiz o grafite, fiz um rosto, tal, o cara foi e pintou, né? Pintou por cima, jogou tinta por cima. Ele sujou, na verdade, ele sujou o trampo que eu tinha feito. Só isso mesmo assim de... relacionado à polícia e ao grafite, só isso mesmo que eu tive de problema, né?

 

P/1 - Você comentou que vocês fazem várias incursões de grafite, né? Pela Cidade Dutra, pela Cocaia. Como é que a comunidade recebe vocês, como é que é essa relação com...

 

R – Meu, super bem, cara. Super bem. Eles dão refrigerante, dão água se você tá com sede; caso comece a chover, eles põem a gente pra dentro da casa deles. É quebrada, né velho? Quebrada você é bem recebido, se você chegou humilde... é que é assim: eu achei engraçado uma vez o Tim comentando comigo que ele falou assim: “Que é que será que o povo pensa da gente, né? A gente chega cumprimentando todo mundo, super legal com todo mundo, aí eles pensam que a gente é traficante ou sei lá, de igreja esses negócios”, porque a gente chega  cumprimentando todo mundo, com a molecada, “Ô tia, tal, fazer um desenho aqui no seu muro”, aí ela “Ah, faz uma santa”. “Não, não é bem assim, calma que a gente já tem um trabalho que a gente faz que não sei o que e tal”. E essa é... pra mim assim, é ótimo, cara. É ótimo. Pelo menos a gente fez...  foi fazer um grafite lá onde eu conheço o pessoal mesmo, que é na 20, na 19, e meu, ali a gente foi muito bem recebido cara. Muito bem recebido, o pessoal tratou a gente super bem, a gente fica a vontade mesmo, deixa a mochila lá no canto cheio de tinta e ninguém mexe, câmera, né? O pessoal sabe que a gente... só fica pedindo pra gente escrever não sei o que, não sei o que lá na parede, que o enche o saco, velho.

 

P/1 – Por exemplo?

 

R – O nome.

 

P/1 – Desculpa, a gente vai trocar só a fita.

 

(TROCA DE FITA)

 

P/1 – Ok. Então retomando.

 

P/2 – E Victor, quando você saía com os seus amigos nessas incursões, vocês têm algum tema, vocês combinam?

 

R – Tem, tem. Depende. Às vezes é desenho livre, entre aspas, né? Que sempre se junta com um grupinho assim: “Ah, vamos fazer um trampo juntos, assim, mais ou menos assim e assim”. Não é também jogou lá e já era. E tem aquele trampo que é mais elaborado e possui algum significado, que é passar alguma mensagem, que normalmente o... Que nem, o meu grafite ele não passa tanto uma mensagem, ele é mais um rosto, mais uma beleza mesmo do desenho assim. Não é que tá passando alguma mensagem, mas que nem do Niggaz. Do Niggaz tinha alguma coisa a ver, tinha uma mensagem que a gente tinha que passar. Tem alguns eventos que sim.

 

P/1 – Você comentou do Niggaz. Tinha no passado? Quem foi o Niggaz?

 

R – Niggaz foi um grafiteiro, eu não sei muito bem, viu, cara. Eu não sou o cara certo pra tá falando, mas Niggaz foi um grafiteiro muito importante lá na região do Cocaia, que foi assassinado. Ele ganhou um dinheiro, ele vendeu tipo um quadro, ganhou um dinheiro, aí assassinaram ele e tinha sumido o dinheiro, o cheque. Foi o que me falaram, né? Da carteira dele. Morreu afogado. Porque lá tem a represa, perto do Cocaia, no Cantinho do Céu. E ele era um grafiteiro muito conhecido, aí com a morte dele... E esse evento Niggaz não foi só um, tiveram vários eventos Niggaz. É que eu participei de um só, né? Mas tiveram vários que é homenageando ele, um grafiteiro que foi muito importante, como Os Gêmeos também que gastavam muito lá onde eu moro. Hoje tem os mais recentes, o Jonato, Mauro, que são os grafiteiros, entre aspas também, né? Que eles não fazem só o grafite, são mais conhecidos porque tão fortalecendo o grafite de onde eu vim. Que o grafite hoje é muito enfraquecido, né cara. Ele não é valorizado de jeito nenhum. Ele só é criticado, eu sou muito criticado até dentro de casa por causa disso, né? Mas conforme o tempo passa, a gente crê que irá virar uma Europa daqui um tempo, que o pessoal vai começar a gostar mesmo, gostar do grafite, gostar de ver. Incentivar o grafite.

 

P/1 – Você já entrou em debates sobre isso com o pessoal, já foi...

 

R – Já, já.

 

P/1 – Como funciona? Que críticas eles fazem ao grafite, por exemplo?

 

R – Ah, falam que é parda de tempo, que o negócio é trabalhar e procurar, e ter dinheiro, né? É o que toda mãe fala quando um jovem diz que escolhe uma coisa diferente, quando um jovem alternativo escolhe alguma coisa... Fazer uma faculdade, uma faculdade que os pais... Que não dê dinheiro, né? Com certeza o pai vai chegar e falar: “Meu, vai procurar um negócio que dá dinheiro”, é a mesma coisa, cara. Você tá grafitando, você perde seu final de semana. Se você tá numa época que fica dando um rolê, você não consegue fazer o grafite, você se afasta do grafite, porque querendo ou não, ele toma seu tempo, né? Aí vai de você, vai do seu momento. Já teve várias vezes que tipo, não conseguia nem desenhar. Não é que eu não conseguia, eu não tinha vontade, não tinha criatividade nem de desenhar, aí ficava uma semana, um mês sem desenhar. Aí voltava, porque você não perde o desenho, né? Você não... É como andar de bicicleta, você não perde, só que você tem que estar inspirado pra fazer, você não pode forçar.

 

P/1 – Como é que tá o seu dia a dia hoje, Victor? Conta pra gente um dia seu.

 

R – Um dia meu?

 

P/1 – É.

 

R – Ah, eu trabalho meio período, das oito ao meio-dia.

 

P/1 – Sai de casa, pega o ônibus, vai a pé?

 

R – Pego o trenzão.

 

P/1 – Trenzão.

 

R – Ali. Eu trabalho no Rochaverá, ali no Morumbi, do lado do Shopping Morumbi. Não sei se você conhece o Rochaverá, são uns prédios meio deitados assim, maior brisa aqueles prédios. Aí eu pego o trem, vou até a estação Jurubatuba, desço no SP Market, Shopping SP Market, não sei se vocês conhecem. Aí pego uma lotação, vou pra casa; chego em casa, quando eu tô no pique, eu vou pra academia, né? E quando eu não tô, eu durmo. Aí acordo, vou na frente da escola conversar com o pessoal, vou na academia, converso com o pessoal, volto. Desenho, entro na internet. Comprei um notebook faz pouco tempo, né? Aí fico lá na internet, vendo meus e-mails, desenhando, escutando Jorge Ben Jor, só umas coisas assim mesmo.

 

P/1 – Namorada?

 

R – Aí tem que ligar, né? Tem que ligar, trocar umas ideias que não pode ver todo dia, então sempre tem que ligar à noite. Namorada não, né? Ficante, que namorada não é bem o que eu diria.

 

P/1 – Você já desenhava antes do grafite, né?

 

R – Antes do grafite já, já.

 

P/1 – Você já desenhava, né?

 

R – Já.

 

P/1 – Você começou a desenhar como? Alguém influenciou? Como foi isso?

 

R – Desde moleque, né? Eu grafito... Grafitar mesmo é difícil, eu acho que o cara ali tem que ter uma idade pra estar grafitando, porque mexe com tinta, é uma coisa química ali. E o desenho não, o desenho vem na escola, a professora quando falava desenho livre, nossa senhora, pra mim era uma maravilha. Todo mundo falava “Ah...” e eu “Aê! Desenho livre”. Aí ia lá e ficava desenhando, que eu tenho um desenho na pasta, que era da 6ªE, cara, tô com 21 anos, nem sei que idade eu tinha na 6ªE. Eu não me recordo, mas eu sei que faz tempo. E eu estudava lá no Sesc, nos Santos Dias, né? Estudava lá nessa época aí que eu fiz.

 

P/1 – Victor, a gente já tá indo para uma parte de finalização da nossa entrevista...

 

R – Legal.

 

P/1 – Quais são as suas expectativas em relação à sua vida profissional, bairro, família, como é que você tá...?

 

R – É, eu tô feliz, tô bastante feliz nesse momento. Pra mim, tô feliz mesmo, tá sendo muito... tô vendo que eu tô evoluindo, não tô indo pra baixo, tô subindo os degraus. E relacionado lá onde eu moro, eu vou mudar, né? Mas eu sei que eu vou continuar lá cara, nasci ali e não adianta. Eu posso mudar pra zona leste, mas eu sei que o meu pé do meio vai tá ali, eu sempre vou voltar pra conversar com o pessoal, que eu conheço todo mundo. Se você der uma volta comigo lá onde eu moro, você vai ficar impressionado que é “E aí?”, “E aí?”, né? E lá tá melhorando cara, lá virou um Largo 13 já. A quebrada não tinha loja, não tinha nada. Lá agora tem Casas Bahia, banco pra todo lado, tem um monte de coisa lá, tá evoluindo, tá melhorando, que foi o que eu falei. Também aos poucos, que a nossa política parece uma tartaruga, aos poucos, bem devagarzinho mesmo, mas tá evoluindo. Como o Cocaia, né? O Grajaú, o Cantinho do Céu, estão evoluindo, as coisas estão evoluindo. E minha família tá feliz porque a gente... eu durmo no mesmo quarto que a minha irmã faz 21 anos cara, ela tem 24 anos, eu tenho 21. Imagina as tretas que dão, velho. Nossa senhora, você não tem noção, só falta se pegar. Só não se pega porque ela é menina e eu sou menino, porque se não, né? E a gente vai mudar pra um lugar onde tem um quarto pra mim, outro pra ela. Se Deus quiser e der tudo certo. Vai dar, né? E estamos evoluindo. Vamos morar depois da ponte, que já é uma bênção, depois do trânsito, sentido centro. E é isso cara.

 

P/1 – Tem alguma história, alguma coisa que eu não perguntei e você gostaria de contar pra gente, que foi marcante pra você, alguma história que a gente deixou passar e você gostaria de compartilhar conosco?

 

R – Ah, eu queria falar assim, uma coisa que é o período que eu passei no hospital, que eu fiquei internado, e vi muita coisa, cara, vi muita coisa. E a gente só aprende mesmo vendo, né? Tipo, a gente quer sempre estar fora de casa, mas a gente percebe com o tempo, você fora de casa, né? Eu internado assim, a gente percebe tudo, tudo assim em volta. Você tá, só de você estar andando, cara, com saúde, vendo, lendo, pensando, já é uma bênção. Porque quando você fica no hospital, você vê tanta coisa, você vê muita dificuldade. A gente às vezes reclama de uma unha quebrada ou de um tênis rasgado e acho que foi uma coisa que eu aprendi assim que eu queria passar. É isso, a gente dá valor até ao ar que respira no nosso dia-a-dia porque foi isso que eu aprendi no hospital, cara. O tempo que eu passei lá, né? Conversando. Conheci muita gente, escutei muitas histórias e a minha ficaria fichinha do lado das histórias que escutei lá no hospital. E que é isso que eu queria deixar, queria falar assim, tirando o que eu já falei de mim, né?

 

P/1 – Tem, Mariana, alguma pergunta?

 

P/2 – Não.

 

P/1 – Então a gente gostaria de agradecer em nome do Museu da Pessoa, Victor, muito obrigado.

 

R – Obrigado vocês de novo.

 

P/1 - Por esse tempo aqui, pela entrevista, obrigado.

 

R – Valeu.

 

P/1 – Valeu.

 

P/2 – Obrigada.

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