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História

Foi na raça

Sinopse

Em sua entrevista, Adilson começa falando de suas raízes mineiras de Itamonte, onde a família Carvalhal residia criando gado leiteiro para fazer e vender queijo. Adilson conta sobre as lendas da região, sua infância montada à cavalo e a vida do campo. A seguir, fala da mudança de sua família para São Paulo, o dia a dia do centro nos anos 50, sua formação católica e o início de seu pai na Zona Cerealista, no comércio de laticínios. Depois, Adilson discorre sobre sua juventude, seus sonhos e a entrada no comércio de seu pai, organizando as entregas por toda a cidade. Adiante, Adilson conta como, "na raça", abriu sua própria loja em 1970: a Casa Flora. Nesta parte, fala de seus irmãos, sua família e o crescimento exponencial do seu comércio, que passou a fazer importações quando da entrada de seus filhos no negócio. Ao final da entrevista, detalha sua fé católica e suas experiências no Vaticano, em que conheceu dois papas: João Paulo II e Francisco. Por fim, nos conta sobre seus sonhos, suas expectativas para o Brasil e a Zona Cerealista.

História completa

Ali aquele polo nosso de trabalho da Santa Rosa era praticamente o que distribuía alimentação pro Brasil inteiro. Vinha gente de tudo quanto é lugar de carro, caminhão, pegar mercadoria pra levar. Sempre foi o grande centro distribuidor, o Brás. Isso que eu me lembro de moleque. Então sempre vi muito comércio, muito comércio Então, comércio, pessoas, cavalo tinha também, charrete tinha lá, tudo. Trem que passava ali, tudo isso. Feirante, muito feirante, antigamente era mais feirante, não tinha supermercado, então o comércio era feirante, era feira livre. Desde que eu comecei a empresa lá que foi muito feirante, a maioria da minha freguesia era feirante. Venda. Assinar caderneta, comprar em venda assim. Você chegava lá, fazia compra, assinava a caderneta, a gente fazia a compra, porque não tinha supermercado, então era isso. Ou então na feira. Eu me lembro bem quando fui até trabalhar com meu pai. Porque quando eu era criança eu queria ser padre, né?

Depois fui crescendo, mais jovem eu queria ser piloto. Piloto pra ir pra Guerra do Vietnã. Se falava muito em Guerra do Vietnã e então eu lia muito sobre guerra. Depois quis ser médico, tentei entrar na faculdade durante dois anos. Terminei o científico, tentei a faculdade e não consegui entrar, no ano seguinte tentei mais uma vez e não consegui entrar. Aí meu pai falou assim: “Você não entrou, vamos trabalhar”. Gozado. E eu não sabia que a minha vocação era comércio, que eu fosse gostar tanto de comércio como eu gosto sem saber, nunca pensei em ser comerciante, nada, então de trabalhar com o meu pai eu gostei. Atender o público, fazer entrega, fazer entrega nesse São Paulo inteirinho aí. Eu já tinha 18 anos então saía com uma caminhonete, com uma Kombi de entrega e trabalhei muito de entrega em todos os bairros de São Paulo, em casas de feirantes, ABC, Santos.

Comecei a trabalhar com ele, gostei, foi aí que eu comecei a gostar mesmo do comércio, atender, conversar com as pessoas, vender, embrulhar as coisas no balcão, fazer entrega, entregar mercadoria carregando mercadoria no carrinho. Então foi começando até descobrir que eu queria ser comerciante, aí eu queria ser comerciante. Aí meu pai já tinha mudado, não estava mais na Santa Rosa, já estava na primeira rua do lado ali, Benjamin de Oliveira. Chegou uma hora e eu falei: “Nossa pai”. Eu vi papai com sete filhos, a empresa era pequena, eu falei: “Pai”, eu senti que ia ser difícil papai conseguir, eu falei: “Vou tentar abrir um comércio aqui pai, pra ver se vai ajudar, pra gente aumentar o volume”. Ele falou: “Mas você vai entrar com que dinheiro?”, eu falei: “Eu não tenho dinheiro, mas vamos começar, vamos tentar começar”. E foi na raça, cara. Eu procurei o seu Antônio Araújo..aqui eu fui procurar o seu Antônio Araújo: “Seu Antônio, eu não tenho dinheiro mas eu estou com vontade de montar um comércio aí porque eu quero trabalhar. Faz um aluguel barato pra mim que eu quero começar”. Só de saber que o meu pai era um dos sócios, era eu, meu pai, o Antônio que não trabalhava comigo, mas era sócio e meu irmão Amilcar. Só de ver esses quatro nomes, o nome do meu pai, já abria o crédito. Nós montamos as prateleiras, ele me emprestou as mercadorias. Nós começamos a abrir a loja, teve toda a parte lá de documentação, abrimos a loja pra começar. Começamos assim: “Atenção, atenção” (risos). Abriu a porta e começamos. Mais varejo. Aí comecei. Nós montamos as prateleiras, peguei até no meu sogro as prateleiras que ele tinha na loja que tinha na cidade, montamos as prateleiras. Meu pai emprestou umas mercadorias pra por na prateleira e comecei. Sem um tostão, sem nada, nada, nada. Dia primeiro de julho de 1970, uma quarta-feira. Aí começamos. Começamos devagarinho, devagarinho. Eu me lembro que o primeiro depósito nosso foi, eu me lembro que era 400, não me lembro qual era a moeda que tinha naquele tempo de 70.Faz 46 anos já. Nossa, como passa o tempo, credo! (risos). Ficar velho, Jesus amado! (risos). E estamos lá. Começamos lá. Bom demais, começamos em três, eu, meu irmão Amilcar começamos a Casa Flora nesse primeiro dia em 1970. Já foi Casa Flora direto porque Flora é uma colônia, lugarejo, ali no Município de Três Corações. E ali a gente fabricava o Queijo Flora. E quando eu abri a Casa Flora eu falei: “Pai, vou por o nome de Casa Flora, não tem problema, não?” “Não, põe sim”. Aí pus o nome de Casa Flora. É um lugarejo chamado Flora em Minas.

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Publicado em 30/10/2016 por

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Memórias do Comércio da Zona Cerealista
Depoimento de Adilson José Santos Carvalhal
Entrevistado por Lucas Torigoe
São Paulo, 12 de abril de 2016
Realização Museu da Pessoa
MCZC_HV09_Adilson José Santos Carvalhal
Transcrito por Karina Medici Barrella
MW Transcrições



P/1 – Adilson, fala pra mim o seu nome, local e data de nascimento.

R – Adilson José Santos Carvalhal. Nasci em Itamonte, Minas Gerais, dia oito de outubro de 1941.

P/1 – E o seu pai, qual o nome dele?

R – Antônio Pereira Carvalhal.

P/1 – Ele nasceu em Minas também?

R – Nasceu em Minas também.

P/1 – Que cidade?

R – Nasceu em Itamonte também.

P/1 – Em que ano?

R – Papai é de 1920.

P/1 – E a família dele é de lá? Sempre foi de Minas Gerais?

R – Sempre foi dali. Fazendeiros lá em Minas Gerais.

P/1 – Fazendeiros, é?

R – É, fazendeiros.

P/1 – O que eles tinham lá?

R – Gado. Meu avô tinha gado lá. Tem uma fazenda muito linda lá em Itamonte chamada Capelinha, onde minha avó muito católica construiu uma igreja muito linda lá, por isso que chama Capelinha. Um lugar maravilhoso.

P/1 – Como é que é lá?

R – A fazenda tem um belo rio que passa lá. No nosso tempo tinha muito gado, cavalo, ficava distante seis quilômetros de Itamonte e normalmente no final da tarde a gente pegava os cavalos e ia a cavalo pra Itamonte. Ia lá assistir no cinema, acabava a luz na cidade, a gente voltava a cavalo pra fazenda lá, era uma escuridão danada (risos), era engraçado pra caramba.

P/1 – Tudo escuro e vocês andando a cavalo lá.

R – Andando a cavalo lá, no meio do mato. Tinha assombração e a assombração subia na garupa do cavalo e você tinha que levar essa assombração onde ela quisesse, depois te largava lá e te roubava o cavalo (risos). Era umas loucuradas de criança (risos).

P/1 – Ah é, tinha essas coisas de assombração?

R – Era bacana demais. Todo interior tem muita assombração, falam né, mas eu nunca vi.

P/1 – Você tinha medo?

R – Ah, todo mundo tinha um pouco de medo, mas não é que deixava de fazer as coisas por medo, não. Mas encarava o que tinha que encarar e a gente ia mesmo pra Itamonte, depois voltava à noite com um medo danado, mas ia. Não é que deixava de ir por causa de medo, não.

P/1 – Como eram essas assombrações? Apareciam?

R – Não. Diziam que existia um tal de Garupeiro e esse Garupeiro subia na garupa do cavalo e você tinha que levar ele onde ele pedisse que você levasse. Longe, alto da serra, tudo isso. Mas tudo conversa, era tudo pra pôr medo.

P/1 – E os seus avós de parte de pai e de mãe também são de Minas Gerais?

R – São. Minha mãe é de Maria da Fé, uma cidade de Minas chamada Maria da Fé.

P/1 – O nome da sua mãe?

R – Áurea Constantina dos Santos Carvalhal.

P/1 – E como é a família da sua mãe? Também eram fazendeiros?

R – Não, da minha mãe, não. O pai dela depois veio pra São Paulo, tinha um café aqui no centro da cidade, chamava Café Piratininga, na praça ali perto da Rua Direita.

P/1 – E como seu pai e sua mãe se conheceram, você sabe?

R – Como é que se conheceram? Eu não sabia, não. Mas se casaram muito novos, meu pai casou muito novo, sabe? Meu pai casou acho que com 18, 19 anos, coisa muito nova. Tanto que ele estava no Exército e quase que foi pra guerra, mas não foi porque nasceu o meu segundo irmão. Como eles se conheceram eu não sei, mas uma família muito unida, ficaram unidos até a morte dele, depois minha mãe morreu também, mas até o final, uma família exemplo.

P/1 – E você é o irmão mais velho, é isso?

R – Sou. De sete irmãos.

P/1 – Sete irmãos.

R – É, sou o mais velho.

P/1 – Você nasceu onde, na Capelinha?

R – Nasci na cidade de Itamonte.

P/1 – Foi no hospital mesmo?

R – Foi na... não tinha hospital naquele tempo. Hospital tinha, mas era parteira, nasci de parteira. Um parto prematuro, nasci em parteira de Itamonte e sobreviver é coisa rara.

P/1 – É? Sua mãe falou isso?

R – Não, não, é que você nasce muito pequeno assim, então quando eu nasci o pessoal ficou cuidando da minha mãe e me largaram no canto porque eu não ia viver mesmo. Nascer numa cidade sem luz, sem nada, de sete meses, então o pessoal esqueceu de mim, foi cuidar da minha mãe. Aí a minha avó chegou e falou assim: “E a criança?” “A criança está ali, mas não vai viver”. Ela pegou uma caixa de sapatos, pôs algodão, pôs na boca do fogão a lenha e eu consegui sobreviver (risos). Engraçado.

P/1 – E você nasceu lá e quais são seus outros irmãos, qual o nome deles?

R – Adilson, Antônio, Angela, Amilton, Amilcar, Adaílton e Arilton.

P/1 – Por que é todo mundo com “A”? (risos).

R – É todo mundo com “A”e José. Adilson José, Arilton José, Amilton José, Adaílton José. Só o Antônio que não sei por que ficou Antônio Ailton. Aquele da loja é o Antônio Ailton.

P/1 – Antônio Ailton.

R – E minha irmã, Angela Maria.

P/1 – E por que tem esses nomes?

R – Ah, a gente é muito católico, meus pais muito católicos, eu sou muito católico, então José, o pai do menino Jesus. E a Angela Maria por causa de Nossa Senhora, então, família muito católica, graças a Deus.

P/1 – Que legal! E como é o Carvalhal? Esse sobrenome vem de onde?

R – Português.

P/1 – Português.

R – É. Eu até estive em um lugar na última vez lá em Portugal, em uma estrada tinha uma placa lá: Carvalhal. Uma estância, qualquer coisa, chamada Carvalhal.

P/1 – Agora o Carvalhal na sua família, você sabe em que ponto que é português, é bisavô, é tataravô?

R – Tataravô meu, talvez. Ele veio pra cá, avô do meu pai, é. Português, veio pra cá.

P/1 – E como é Itamonte? Como era na sua infância?

R – É mais ou menos a mesma coisa, viu cara? A cidade não cresceu muito não, uma cidade gostosa pra caramba, no pé da Serra da Mantiqueira, ali perto da divisa com os Estados do Rio e São Paulo. Serra da Mantiqueira, as Agulhas Negras, por ali.

P/1 – E você cresceu sua infância inteira nessa fazenda.

R – Isso. Eu vim pra São Paulo com oito anos.

P/1 – Então vamos dividir. Até os oito anos como é que foi crescer lá na fazenda? O que você fazia?

R – Eu nasci em Itamonte, a casa seria Itamonte. Mas a gente foi criado mais de infância e juventude lá na fazenda. Itamonte era cidadezinha pequenininha então uma vida normal, não tinha muita coisa, não. A juventude mesmo nossa que era mais na fazenda, porque depois que a gente veio pra São Paulo, quando a gente já não tinha casa em Itamonte a gente ia direto pra fazenda, era pertinho, então vivia nos dois lugares.

P/1 – E nessa fazenda vocês brincavam muito?

R – Muito. Nossa. Tem o rio Poço Pereira lá, você nadava no rio, andava a cavalo, jogava futebol com os primos lá, era uma família muito grande. Carvalhal é uma família muito grande lá em Minas. Então uma família muito unida, estava sempre lá.

P/1 – Você cresceu muito na natureza então.

R – Sim.

P/1 – E que brincadeiras vocês faziam, você lembra?

R – É mais futebol e andar a cavalo, né? Nadar, andar a cavalo e futebol, era o nosso...

P/1 – O dia inteiro assim.

R – Sempre, sempre. Era gostoso demais, vivia desse jeito.

P/1 – E quem morava na sua casa? Era você, seus irmãos, pai e mãe só?

R – É, só.

P/1 – Mas como é que era a fazenda? Era uma casona, tinha capela, como é que era?

R – Era uma casa grande que cabia 30 pessoas talvez, ou mais até às vezes, entre criança e adulto. E a igreja era lá, no alto. Tinha o alto lá onde era a igreja, na parte mais debaixo um caminhãozinho assim era a fazenda lá embaixo. E do lado assim era o rio Poço Pereira, onde a gente nadava.

P/1 – Poço Pereira?

R – Poço Pereira.

P/1 – E tem alguma história que você lembra e goste de contar, que você passou nessa época, de brincadeiras?

R – Futebol... mas é aquilo que eu falei pra você, natação, nadar no rio, nadar com enchente lá, rio cheio, aquela corredeira danada, então era tudo diversão. Nossa, aproveitamos demais, eu tive uma vida maravilhosa, uma infância maravilhosa, tudo, até hoje não posso reclamar de nada. Tenho 74 anos e só posso agradecer a Deus por tudo o que eu passei até hoje, tudo. Sou casado há quase 50 anos, tenho sete filhos, o mais velho está morando ao céu, tenho 11 netos, minha vida foi assim.

P/1 – Legal, a gente chega lá então. E o seu pai, como é que ele era? Como é que era dentro de casa, sua mãe ficava mais em casa?

R – Meu pai só trabalhando em tropa, com criação, isso lá em Minas, né? Depois veio pra São Paulo pra trabalhar com comércio.

P/1 – Entendi. E a sua mãe ficava mais casa?

R – Mais em casa, direto em casa. Não tinha como ter outra coisa, não, porque tinha sete filhos, então tinha que cuidar da família lá.

P/1 – E você e seus irmãos estavam sempre juntos, pra lá e pra cá.

R – Sempre juntos, família muito unida mesmo, sempre, sempre, graças a Deus.

P/1 – Vocês vieram pra São Paulo e foram morar onde?

R – Ipiranga.

P/1 – Ipiranga.

R – Uma vila ali na rua Brigadeiro Jordão... Meus Deus. Eu sei que era uma vila perto da rua Brigadeiro João.

P/1 – Não tem problema se esquecer. E vocês mudaram pra lá, como era a casa?

R – Costa Aguiar. Numa vila.

P/1 – Uma vilinha.

R – Uma vila que tinha ali na rua Costa Aguiar, então a gente morava ali naquela vila lá. Moramos lá alguns anos, uns dois anos talvez, depois mudamos pro Cambuci e depois mudamos pra Vila Mariana, onde moro até hoje.

P/1 – Quanto tempo você ficou no Cambuci, você se lembra mais ou menos?

R – No Cambuci... nós viemos pra São Paulo em 50, em 52 a gente foi lá pro Cambuci e em 57 foi pra Vila Mariana.

P/1 – Você mudou criança, então, pra São Paulo. Foi diferente? O que você sentiu?

R – A maior tristeza era não ter a liberdade que tinha lá, isso que era triste. Ficava mais preso, apesar de que aquele tempo lá não tinha violência, mas você ficava mais preso, né? Mas aí eu fui estudar num grupo escolar lá na rua Silva Bueno, mais ou menos, não era muito longe de casa. Começamos a viver desse jeito (risos), começar a acostumar com São Paulo, né? Quando a gente mudou pro Cambuci fui estudar no Colégio da Glória, que não era muito longe de casa também, não. Então, uma vida normal, graças a Deus.

P/1 – Você gostava da escola, como é que foi a primeira escola que você entrou?

R – Grupo Escolar... Grupo Escolar Visconde de Itaúna, se não me engano, na Silva Bueno. Gostava.

P/1 – Você gostava?

R – Gostava. Me ambientei logo, apesar de ter um pouquinho de dificuldade. Porque você sair de uma cidade desse tamanhinho e ir morar em São Paulo, a adaptação é mais atrapalhadinha, mas a gente é criança e adapta fácil, não tem problema, não. Foi fácil.

P/1 – Foi fácil então a adaptação.

R – Fácil, fácil, fácil.

P/1 – Fez amigos logo lá?

R – Fazia, molecada, né, brincadeira.

PAUSA

P/1 – Você se lembra de alguma coisa que aconteceu nessa escola, como é que foi, algum professor que te marcou?

R – Desse Visconde de Itaúna eu não lembro, não.

P/1 – Você era muito novo, né?

R – Era muito novo. Depois fui pro colégio marista, o Colégio da Glória, ali no Cambuci.

P/1 – Aí você se lembra mais.

R – Me lembro mais. Depois fui crescendo um pouquinho já mais, fiquei acho que um ou dois anos no Colégio da Glória, depois fui pro Colégio do Carmo, que é marista também, ali no centro da cidade, atrás da igreja Nossa Senhora do Carmo. Ali antigamente era a praça Clovis Bevilaqua, agora acho que é tudo Praça da Sé ali, então, ali atrás onde é o Poupatempo hoje.

P/1 – E como é que você ia pra escola nessa época?

R – De bonde. Ali na praça João Mendes pegava bonde e descia ali na Vila Mariana.

P/1 – Onde era a escola?

R – Então, a escola era o Colégio do Carmo, atrás da igreja Nossa Senhora do Carmo.

P/1 – E como é que era pegar bonde nessa época, que hoje não existe mais.

R – Não existe mais. Era uma delícia. Essas coisas que hoje o pessoal não conhece. Eu costumo falar que a gente era feliz e sabia, vivia num tempo tão gostoso, cara.

P/1 – Ah, é?

R – Nossa senhora, mas era bom demais, meu Deus! Meu avô, pai da minha mãe, tinha o Café Piratininga, que era ali perto da rua Direita. Então a gente saía do Colégio do Carmo e ia lá tomar uma garapa, caldo de cana, comer um sanduíche, um misto quente que ele fazia gostoso, um sanduíche de pernil. Então não tinha perigo nenhum, você andava sossegado, não tinha violência, trânsito perigoso, não tinha nada. Pegava o ônibus ali na Praça João Mendes, descia ali perto do Largo Ana Rosa e ia pra casa ali. Putz, tranquilo, maravilhoso. Eu costumo dizer, a gente era feliz e sabia. Bom demais.

P/1 – Como é que era o centro? Você andava por ele bastante, né?

R – Andava a pé por aí tudo, tranquilo. Saía do Colégio do Carmo, lá onde seria a Clovis Bevilaqua, depois pegava ali a rua Direita ou a rua São Bento e ia sair lá no café do meu avô, era maravilhoso.

P/1 – Esse café existe ainda?

R – Café Piratininga? Não, não existe. Quanto tempo faz? Cinquenta anos talvez. Mais, mais, 70 anos. Setenta não, mas faz mais de 60.

P/1 – E como era essa escola, as escolas maristas? Você gostava de alguma matéria específica, como era o ensino lá, você se lembra?

R – Aula de religião todo dia tinha, oração do terço no começo tinha também, pelo menos uma vez por semana tinha oração do terço completa. Tinha um oficial do Exército que ia dar a ordem do dia pra nós, ensinar a gente a cantar o hino nacional, esses hinos do Exército, hino da bandeira, então a gente aprendeu a cantar tudo. E no colégio também futebol, recreio. Você olhava ali pra baixo do Colégio do Carmo assim, aquela baixada, era só mato (risos). Bacana demais.

P/1 – Só mato você via.

R – Só mato. O rio Tamanduateí passava lá embaixo. Ali do alto do recreio do Colégio do Carmo você olhava pra baixo e era só mato. Era bom demais.

P/1 – E o seu pai veio abrir comércio aqui em São Paulo, é isso?

R – Isso. Ele veio trabalhar, o comércio do meu pai chamava Casa Mussarela, na rua Santa Rosa.

P/1 – Já na Santa Rosa.

R – Já na Santa Rosa.

P/1 – Que ano que ele abriu?

R – Em 58.

P/1 – Em 58.

R – Não, em 50, desculpa.

P/1 – Em 50.

R – Eu vim com oito anos pra cá, então foi em 50 que ele abriu o comércio aqui, já veio trabalhar com comércio aqui.

P/1 – E era comércio de quê na época?

R – Laticínios.

P/1 – Laticínios. Como é que funcionava, ele comprava os laticínios de alguém?

R – Trazia de Minas.

P/1 – Trazia de Minas mesmo.

R – É. Não tinha fábrica mas trazia lá de Minas e distribuía aqui. Ele era sócio com um primo dele e foi levando, gostava do que fazia. Naquele tempo que meu pai tinha negócio na Santa Rosa, quando ele começou, ali passava um trem que ia do Gasômetro pra estação do Pari, Largo do Pari, um trem que passava. Era a coisa mais bacana do mundo, engraçado.

P/1 – Por que?

R – Um trem passando ali na rua, era gostoso de ver aquilo lá. Eu me lembro muito da minha infância porque eu curti muito isso aí. Às vezes eu vinha da escola lá de cima, da Clóvis Bevilaqua e vinha a pé, sossegado, pra rua Santa Rosa. Tinha dentista ali na Xavier de Toledo. Tudo a pé, era bom demais.

P/1 – Tudo pertinho.

R – Tranquilo, sossegado, sem perigo, sem nada, entendeu? Sem violência. Era bom.

P/1 – O que mais tinha? Como era o Brás nessa época?

R – Tirando esse trem que passava lá, no mais é igual. Comércio, tudo casa de comércio. Eu me lembro só de comércio aqui. Pode ser que talvez tivesse mais residencial pra cima da Santa Rosa, em direção onde nós estamos hoje. Talvez tivesse, tinha mais, com certeza mais casa. Mas sempre foi um bairro comercial, essa região todinha, todinha. Então.

P/1 – E tinha alguma coisa de diferente de hoje, como é que era o momento?

R – Essa região, esse polo do Brás até hoje ainda é um polo muito comercial. Ali aquele polo nosso de trabalho da Santa Rosa era praticamente o que distribuía alimentação pro Brasil inteiro. Vinha gente de tudo quanto é lugar de carro, caminhão, pegar mercadoria pra levar. Sempre foi o grande centro distribuidor, o Brás. Isso que eu me lembro de moleque. Então sempre vi muito comércio, muito comércio. Sofremos muito problema com enchente, mas aí já foi mais tarde, né? Com o crescimento da cidade aí nós tivemos muito problema lá com enchente, mas isso foi mais tarde.

P/1 – Vou te perguntar isso depois então, tá? Mas como é que era andar um dia no Brás naquela época, tinha muita carroça, muito caminhão? A Santa Rosa só tinha as lojas do jeito que é hoje ou ela é diferente?

R – Não, tinha como era hoje. Depois subiram muitos prédios, você vê, já tem vários prédios, tem alguns prédios lá na Santa Rosa. Porque naquele tempo lá onde meu pai tinha loja não era prédio, depois ficou um prédio ali. Então, comércio, pessoas, cavalo tinha também, charrete tinha lá, tudo. Trem que passava ali, tudo isso. Feirante, muito feirante, antigamente era mais feirante, não tinha supermercado, então o comércio era feirante, era feira livre. Desde que eu comecei a empresa lá que foi muito feirante, a maioria da minha freguesia era feirante.

P/1 – Ah, é? Como é que era fazer compra nessa época então, se não é supermercado as pessoas iam fazer o quê?

R – Venda. Assinar caderneta, comprar em venda assim. Você chegava lá, fazia compra, assinava a caderneta, a gente fazia a compra, porque não tinha supermercado, então era isso. Ou então na feira. Eu me lembro bem quando fui até trabalhar com meu pai. Porque quando eu era criança eu queria ser padre, né?

P/1 – Ah, é?

R – Depois fui crescendo, mais jovem eu queria ser piloto. Piloto pra ir pra Guerra do Vietnã. Se falava muito em Guerra do Vietnã e então eu lia muito sobre guerra. Depois quis ser médico, tentei entrar na faculdade durante dois anos. Terminei o científico, tentei a faculdade e não consegui entrar, no ano seguinte tentei mais uma vez e não consegui entrar. Aí meu pai falou assim: “Você não entrou, vamos trabalhar”. Gozado. E eu não sabia que a minha vocação era comércio, que eu fosse gostar tanto de comércio como eu gosto sem saber, nunca pensei em ser comerciante, nada, então de trabalhar com o meu pai eu gostei. Atender o público, fazer entrega, fazer entrega nesse São Paulo inteirinho aí. Eu já tinha 18 anos então saía com uma caminhonete, com uma Kombi de entrega e trabalhei muito de entrega em todos os bairros de São Paulo, em casas de feirantes, ABC, Santos.

P/1 – Foi assim que começou.

R – Foi assim que eu comecei, foi assim que eu sentia que ia gostar do comércio.

P/1 – Você falou de várias coisas agora, fiquei pensando como é que foi essa vontade sua de ser padre, como ela nasceu? Que período foi?

R – Família muito católica, eu sempre gostei muito de igreja, sempre participei muito de igreja, era congregado mariano, fazia parte da cruzada eucarística, então eu sempre gostei da igreja. Nesse início então, gostando de igreja, eu tive vontade de ser padre. Mas não fui pra seminário, nada não, só tinha essa vontade dentro de mim. Depois mudou pra ser piloto.

P/1 – Piloto de avião.

R – Piloto de avião, queria ser um piloto de guerra, avião de guerra, inclusive queria ir pro Vietnã lutar (risos), a loucura da cabeça.

P/1 – Nisso você já tinha o quê?

R – Nesse tempo aí? Uns 15 anos talvez.

P/1 – Quinze anos.

R – É, por aí. Aí quando eu tentei a Medicina e não entrei eu devia ter uns 18 anos, aí meu pai falou: “Então vamos trabalhar, ficar em casa coçando você não vai ficar, então vamos trabalhar”. Comecei a trabalhar com ele, gostei, foi aí que eu comecei a gostar mesmo do comércio, atender, conversar com as pessoas, vender, embrulhar as coisas no balcão, fazer entrega, entregar mercadoria carregando mercadoria no carrinho. Então foi começando até descobrir que eu queria ser comerciante, aí eu queria ser comerciante. Aí meu pai já tinha mudado, não estava mais na Santa Rosa, já estava na primeira rua do lado ali, Benjamin de Oliveira. Benjamim de Oliveira não, a primeira que tem na travessa, não é Benjamim de Oliveira, é a paralela a Benjamim de Oliveira. Aí meu pai ficou com o comércio lá. Chegou uma hora e eu falei: “Nossa pai”. Eu vi papai com sete filhos, a empresa era pequena, eu falei: “Pai”, eu senti que ia ser difícil papai conseguir, eu falei: “Vou tentar abrir um comércio aqui pai, pra ver se vai ajudar, pra gente aumentar o volume”. Ele falou: “Mas você vai entrar com que dinheiro?”, eu falei: “Eu não tenho dinheiro, mas vamos começar, vamos tentar começar”. E foi na raça, cara. Eu procurei o seu Antônio Araújo... Eurípedes Simões de Paula era onde meu pai tinha a Casa Carvalhal e Filhos, Eurípedes Simões de Paula. Aí na Santa Rosa aqui eu fui procurar o seu Antônio Araújo, ele tinha essa rua Santa Rosa, 197, onde eu comecei: “Seu Antônio, eu não tenho dinheiro mas eu estou com vontade de montar um comércio aí porque eu quero trabalhar. Faz um aluguel barato pra mim que eu quero começar”. Aí comecei. Nós montamos as prateleiras, peguei até no meu sogro as prateleiras que ele tinha na loja que tinha na cidade, montamos as prateleiras. Meu pai emprestou umas mercadorias pra por na prateleira e comecei. Sem um tostão, sem nada, nada, nada. Dia primeiro de julho de 1970, uma quarta-feira. Aí começamos. Começamos devagarinho, devagarinho. Eu me lembro que o primeiro depósito nosso foi, eu me lembro que era 400, não me lembro qual era a moeda que tinha naquele tempo de 70. O depósito que eu fiz foi no Banco Auxiliar, que nem existe mais, na esquina da Santa Rosa com a Benjamim de Oliveira e começamos ali, em 1970. Faz 46 anos já. Nossa, como passa o tempo, credo! (risos). Ficar velho, Jesus amado! (risos). E estamos lá. Começamos lá. Bom demais, começamos em três, eu, meu irmão Amilcar que faleceu quatro anos depois em um acidente de carro, foi passar um carnaval na Bahia e na volta um defeito no carro novinho, Maverick novinho, tinha saído de uma revisão de cinco mil quilômetros, acho que soltou o eixo, o carro fez assim, puf e amassou onde ele estava. Ele morreu e o amigo dele que estava do lado não aconteceu nada, e ele faleceu. E esse cara era espetacular, o Amilcar, meu irmão. Nós tínhamos começado eu, Amilcar e o Jair, que trabalha comigo até hoje, começamos a Casa Flora nesse primeiro dia em 1970. E o Amilcar morreu quatro anos depois, aí quem foi trabalhar comigo foi meu irmão Adaílton. Quando meu pai resolveu parar com o comércio aqui, foi mexer só com queijo lá em Minas, foi mexer até com igreja também, aí o meu irmão Adaílton foi com meu pai pra Minas. E o meu irmão Antônio, que você conheceu lá na loja, que trabalhava com meu pai lá veio trabalhar comigo na sociedade. Então estamos lá.

P/1 – A loja do seu pai era Carvalhal e Filhos, é isso?

R – Carvalhal e Filhos.

P/1 – Que era na Eurípedes. Agora a que você abriu em 70 se chamava Casa Flora.

R – Já foi Casa Flora direto porque Flora é uma colônia, lugarejo, ali no Município de Três Corações. E ali a gente fabricava o Queijo Flora. E quando eu abri a Casa Flora eu falei: “Pai, vou por o nome de Casa Flora, não tem problema, não?” “Não, põe sim”. Aí pus o nome de Casa Flora. Também nem sabia porque, porque por causa do queijo, da região lá onde meu pai tinha a fábrica de queijo, que nós temos até hoje. É um lugarejo chamado Flora em Minas.

P/1 – Você já foi pra lá?

R – Ah já. Nós temos fazenda lá. Meu pai depois foi pra lá, comprou fazenda lá e ficou direto lá. Ficou com fábrica lá.

PAUSA

P/1 – E como é a Fazenda Flora onde está seu pai?

R – Uma fazenda de gado.

P/1 – De gado.

R – Fazenda de gado. Meu irmão Adaílton fica lá, aquele que ficou comigo lá quando meu irmão Amilcar morreu, ficou o Adaílton comigo. Quando meu pai foi pra Minas, tinha fábrica de queijo lá e tinha uma fazenda lá, então meu irmão Adaílton foi pra lá. Aí o Antônio, que trabalhava com meu pai lá na loja veio pra Casa Flora.

P/1 – Como é que era o comércio na época do seu pai? Você falou um pouco que era pra feirante. Vocês vendiam laticínios basicamente.

R – Laticínios. Isso.

P/1 – E vocês vendiam pra quem, quais as quantidades, assim, como é que era?

R – Isso eu não me lembro bem, não, mas sei que era feirante. Recebia o queijo, eles iam lá, compravam, iam pra feira vender. Os empórios também, que era empório e mercearia, naquele tempo não tinha supermercado, então era empório e mercearia. Também ia lá fazer uma compra semanal, era esse tipo de comércio.

P/1 – Era empório dos Carvalhal e filhos?

R – Não, a empresa era Carvalhal e Filhos, que sucedeu a Casa da Mussarela. A Casa da Mussarela não é minha, depois fundou a Carvalhal e Filhos e depois eu fundei a Casa Flora.

P/1 – E como é que eram essas entregas que você fazia pro seu pai? Antes de abrir a Casa Flora.

R – Saía com uma caminhonete aí, fazíamos entrega no centro da cidade, era o Centro. Depois fazia Avenida, fazia mais ou menos a Zona Leste. E depois Diversos era mais ou menos na região de Pinheiros. Tinha três tipos de entrega. A da Cidade é da parte da parte da manhã, depois ainda na parte da manhã era Avenida e depois Diversos. Armazéns que compravam, pizzaria, loja, empório, feirante. Entregava tudo.

P/1 – De tudo.

R – De tudo.

P/1 – Você conheceu a cidade inteira.

R – Inteirinha. Eu conhecia São Paulo inteirinho.

P/1 – E era tranquilo andar de caminhonete?

R – Meu Deus, Nossa Senhora! Maravilha. Ia fazer entrega lá no ABC, aquela região de Santo André, São Bernardo, putz. Mas eu rodava tudo. Graças a Deus eu sempre gostei disso, cara, sempre gostei disso. Fazia entrega e carregava peso, entrava com aqueles canudos de queijo lá escorrendo aqui, entrava nas feiras pra levar os canudos de queijo pros feirantes. Nossa, puta, adorava! Sempre gostei do que eu fiz, sempre, graças a Deus.

P/1 – O que você acha que você gosta tanto? O que te chama a atenção?

R – Primeiro porque eu comecei a trabalhar sem saber que eu ia gostar. E à medida que eu fui trabalhando eu percebi que eu fui gostando. Então me satisfez. Sabe quando você faz a coisa que você gosta? Então você tem prazer em fazer, você gosta de fazer. Você vai, faz, procura fazer melhor, procura fazer melhor, procura fazer melhor. Nós começamos a Casa Flora tinha três funcionários, era eu, meu irmão e mais um, o Jair. Depois foi aumentando devagarinho, mas eu gostava. Eu gosto do que eu faço, tudo o que eu faço até hoje, eu procuro fazer aquilo que eu gosto. Estou aqui trabalhando hoje porque eu gosto de trabalhar. Poderia deixar meus filhos aqui que estão tocando isso muito melhor do que eu, com certeza, deram um up na empresa muito grande. Mas eu estou aqui porque eu gosto. Eu estou com quantos anos? Vai fazer quase 60 anos que eu estou na Santa Rosa. São mais de 50 anos que eu estou aqui todo dia (risos), eu gosto daqui, pensa que eu não gosto também de ir pra praia? Ah, gosto também (risos).

P/1 – Você gosta mesmo do comércio então.

R – Gosto, gosto. Eu gosto disso que eu faço. Todo dia eu estou aqui, não precisava estar aqui, mas estou todo dia aqui. Antigamente era de segunda a sábado, depois começou a ser de segunda à sexta. E agora é de terça à sexta (risos), porque quando eu viajo eu procuro voltar na segunda-feira.

P/1 – E você gosta de falar com o cliente, como é essa interação?

R – Eu gostava de servir o cliente, conversar com ele, ver como ele estava, conversar tudo que era assunto, futebol, de tudo. “Como é que está o movimento, melhorou, piorou? E o trânsito, melhorou, piorou? E a segurança, como é que anda?”, a gente tinha tudo que era assunto, né? Falava de tudo, o que acontecia. Eu sempre tive facilidade de conversar com as pessoas, eu sempre gostei de conversar, atender bem. Por exemplo, quando eu comecei a empresa lá o que eu falei pras pessoas que começaram a trabalhar comigo? Trabalhar com alegria, honestidade e mercadoria de primeira qualidade, o meu foco era esse aqui, pra ter sucesso tem que fazer isso: trabalhar com alegria, gostar do que faz, honestidade que tudo tem que ser honesto, é obrigação, e procurar trabalhar com mercadoria de primeira qualidade. Minha cabeça era assim. E com esses anos todos que eu estou aqui eu descobri que a maior malandragem do comércio é ser honesto. Porque o que eu vi de neguinho malandro, puf. Faz a malandragem e cai, não tem jeito. A maior malandragem é ser honesto, isso aqui eu aprendi. Aprendi aqui trabalhando (risos).

P/1 – E o que faz você querer ser diferente desse jeito?

R – Sei lá. A única coisa que eu tenho certeza é que eu estou de passagem aqui, né? Nascemos e acabamos, nós morremos. E uma coisa que eu vi esses tempos atrás, uma coisa que eu uso muito assim em grupo de oração, tudo, é que o homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer, nós sabemos que vamos morrer. O cavalo não sabe que vai morrer, a vaca não sabe que vai morrer, o cachorro, nada. O único ser vivo que sabe que vai morrer é o homem. Mas o homem tem que saber que ele nasce, vive e morre. E que tem que saber também, e ele se torna muito mais feliz quando ele sabe que morre mas a vida não acaba. Eu sou muito católico e procuro viver o máximo possível em grupo de oração, eu participo muito de grupo de oração, tem grupo de oração quarta-feira, quinta-feira eu faço muita pregação. Então, eu sei que nós estamos de passagem e dependendo do que a gente planta nessa vida a gente vai colher maravilhosamente bem ou então vai colher a condenação. Então, vai depender de uma escolha que a gente faz. Eu quero ir pro céu, eu quero procurar viver de acordo com o que Jesus ensinou para eu ir pro céu. Eu quero viver desse jeito. E eu tenho certeza, se a gente procurar viver desse jeito, eu tenho certeza de uma coisa, que um dia eu vou encontrar, eu tenho certeza que minha filha está no céu, porque ela morreu com quatro anos, eu procuro viver de tal forma que eu também um dia vá pro céu para poder encontrar com ela lá. Encontrar com meus pais que foram maravilhosos também, com testemunho, o exemplo que eu tenho dos meus pais, dos meus avós. Da minha avó eu tenho um testemunho que eu vou te contar, cara.

P/1 – Fala.

R – A minha avó uma vez, meu pai já tinha vindo pra cá, outros tios já tinham ido pra cá ou pra São José dos Campos, saíram pra vários lugares. E só ficaram lá um tio e uma tia. E esse tio, com 33 anos ele estava preparando a ração pra dar pro gado, soltou um pedaço da polia lá e pá, na cabeça, ele já caiu praticamente morto. E nossa, como é que vai falar pra dona Rosinha que o Abel morreu? “Não vamos falar que ele morreu, não, vamos falar que...”. Ó, estou falando isso, esse é um caso maior, é um testemunho que é até bacana quem for ouvir você vai saber desse testemunho, porque é um testemunho de fé.

P/1 – Fica à vontade.

R – Aí falou: “Como é que vamos falar pra dona Rosinha que o Abel morreu?” “Não vamos falar que ele morreu, não. Vamos falar que ele sofreu um acidente e está passando mal” “Tá bom” “Dona Rosinha, o Abel sofreu um acidente grave e está passando mal” “Ah é, meu filho?”, ela pegou o tercinho dela e falou assim: “Ah, ele tá passando mal?”, pegou o tercinho dela e saiu com o tercinho na mão e falou: “Vou lá no oratório rezar pra ele pra que ele fique bom”. E estava no oratório rezando, rezando, rezando. Aí chegou o médico lá, chegou o padre lá, uma tia minha que é freira também chegou lá, alguns irmãos que estavam lá, acho que meu pai também estava lá. “Vamos avisar a dona Rosinha que ele morreu” “Não adianta, pai, ela vai saber do que ele morreu”. Aí não deu outra, foram falar pra vó Rosinha que ele tinha morrido: “Ah meu filho” “É, dona Rosinha, ele não aguentou não” “Ai meu filho, eu estava rezando agora pra saúde dele, vou terminar de rezar meu terço aqui pela alma dele”. É um testemunho de fé, é uma coisa que fica plantada. Pô, ela não ficou desesperada porque o filho de 33 anos morreu, mas ela vai continuar rezando pra ele, pra que a alma dele vá pro céu. São testemunhos que edificam, né? Desculpa, eu nem sei se era pra entrar nessa.

P/1 – Não, é ótimo.

R – Então, é um testemunho meu que eu gosto. Essas coisas que ensinam a gente, eu estou de passagem aqui, isso eu falo mesmo, pregação que eu faço eu falo sempre isso, mas se viver de acordo com o que Deus quer que a gente viva não tem inferno, é paraíso, isso eu tenho certeza. Procuro viver, procuro passar pros meus filhos, procuro passar pra empresa. Todo final de ano encerramos com uma missa. Temos um jornal mensal na empresa que sempre tem lá uma palavra do diretor e um ensino bíblico, eu sempre procuro passar todo mês pra que todo mundo ouça. Não interessa se o cara é católico, ou evangélico, mas está lá, se ele quiser ler, não está proibido, pode ler (risos).

P/1 – Mas agora você viu muita coisa errada acontecendo também aqui, né?

R – Total, total. Desanima.

P/1 – Ah, é? O que acontece? Não precisa falar nomes.

R – Falta de Deus. Falta de Deus. Tem muita gente que pensa que... puta, ganhou bilhões roubado. Ele não precisava de tudo isso porque vai morrer daqui a pouco. E no caixão não tem gaveta, ele não vai levar o que roubou pro caixão, não, ele vai deixar tudo aqui. E aquele anseio, é uma escravidão de dinheiro, de procurar ter. Coisa errada, errada.

P/1 – Mas você diz aqui na Santa Rosa mesmo?

R – Não, eu estou dizendo do Brasil hoje. Quando eu falo que muitos deles caíram porque fizeram coisa errada, a gente conheceu muito comerciante que tentou não pagar as contas e lógico que vai perder. A honestidade, é aquilo que eu falo, a coisa mais certa que tem é o cara ser honesto, procurar ser honesto o máximo possível. Você vai dar um chapéu num cara, você vai ficar com um cara te odiando, alguém que vai te odiar, alguém que vai querer descontar em você o que você fez nele, você vai ficar marcado, entendeu? Não é legal, não é. De que adianta o cara ter dinheiro, vai morrer, vai deixar tudo ai, não fez a coisa certa, pecou contra os mandamentos da lei de Deus. E aí, cara? Vai viver uma eternidade? Não vale a pena. Tem que procurar ser honesto. Ninguém é santo, eu não sou santo mesmo, não sou mesmo, ninguém é santo, mas a gente tem que procurar viver o mais certo possível.

P/1 – Quando você começou a Casa Flora você disse que começou do zero, né?

R – Foi.

P/1 – Como é que vocês construíram o lado de dentro, como é que ficou no final o empório. Empório, né?

R – É. Começamos devagarinho.

P/1 – Vocês montaram na mão mesmo.

R – Foi na raça mesmo, foi na raça, não tinha dinheiro mesmo, montamos sem dinheiro. O cara que alugou pra nós alugou porque ele conhecia o meu pai e falou assim: “Adilson, não tem problema, seu pai...”, meu pai abriu crédito pra nós em tudo quanto era empresa. Só de saber que o meu pai era um dos sócios, era eu, meu pai, o Antônio que não trabalhava comigo, mas era sócio e meu irmão Amilcar. Só de ver esses quatro nomes, o nome do meu pai, já abria o crédito. Meu pai procurou a vida inteirinha dele, meu pai sempre andou com a cabeça levantada, sempre. Nunca teve que mudar de calçada, nunca teve que abaixar a cabeça, fingir que não viu, um exemplo.

P/1 – Ele já era bem conhecido e respeitado.

R – Meu pai sempre foi respeitado, em tudo quanto era lugar onde meu pai viveu, passou. Depois que ele foi cuidar da fazenda, todo mundo naquela região de Varginha, Três Corações, todo mundo conhecia meu pai e respeitava ele. Gostava dele por causa do testemunho dele, né?

P/1 – E vocês começaram, vocês construíram tudo com martelo, prego.

R – Nós montamos as prateleiras, ele me emprestou as mercadorias. Nós começamos a abrir a loja, teve toda a parte lá de documentação, abrimos a loja pra começar. Começamos assim: “Atenção, atenção” (risos). Abriu a porta e começamos.

P/1 – Como é que era? Tinha uma entrada, tinha uma placa.

R – Fizemos uma placa lá, Casa Flora, abrimos, suspendemos a porta lá, era uma porta só que era do lado, a primeira era no 197, começamos ali. Abrimos a porta e pessoal começou a vir um ou outro, entrava. Estamos ali, a mercadoria está exposta e nós fomos vendendo.

P/1 – Vendia o quê?

R – Laticínios, frios e conservas, foi isso que nós começamos. Começamos, começamos. Chegou um tempo, rapaz, que nós começamos a crescer, devagarinho, mas devagarinho! Pa, papa, papa, devagarinho. Mas chegou um tempo, rapaz, que a maioria dos feirantes de São Paulo, Santos e ABC eram fregueses da Casa Flora, tinha um movimento impressionante, graças a Deus. Toda semana você tinha que trabalhar, mas trabalhar demais, muito, mas muito mesmo. Aí era balcão.

P/1 – Entrega?

R – Fazendo entrega, só entrega. E o freguês também ia buscar lá, os feirantes iam buscar lá também. Chegava, tinha semana que vendia um caminhão de queijo meia cura, era muita coisa. Graças a Deus foi crescendo devagarinho, chegou num ponto maravilhoso. Sofremos muito também com assalto, coronhada na cabeça, revólver na cabeça. Enchente. Enchentes que uma vez, poxa, eu fui sair da Casa Flora não deu pé pra ir na rua Santa Rosa, vinha uma correnteza terrível que acompanhava o rio Tamanduateí, eu tinha que subir pra pegar o _0:47:23_ pra ir pra casa, eu morava na Brigadeiro Luiz Antônio. Pô, pra nadar até lá, vixi, nadava, segurávamos todos pra conseguir sair. Você não faz ideia o que nós já passamos, nossa!

P/1 – O que vocês passaram? Conta uma história.

R – Então, de não dá pé, de um rapaz que trabalha conosco até hoje, o Jair, agradece de eu ter levado ele nas costas na enchente porque ele não sabia nadar (risos). Então, um monte de coisa, cara. Passamos por tudo de assalto, coronhada na cabeça, de enchente, de canista – o cara que dá cano. Passou por tudo. Mas graças a Deus negócio de prejuízo com cano até que não foi muito não porque a gente fazia muito amizade e o cara quando você faz muita amizade com uma pessoa, a pessoa procura também não te prejudicar. E foi o que aconteceu comigo também, a gente fazia muita amizade. Todos os fregueses eram amigos, amigos de chegar: “Adilson, _0:48:25_” (barulho de aperto de mão forte), começar e cumprimentar assim. Fiz muito amigo, fiz muito, muito amigo. Os fregueses eram amigos, amigos da Casa Flora.

P/1 – Agora me diz como era o comércio na época que você começou. O ramo era esse, era importado ou o que era?

R – Não, quem começou com importação foi meu filho. Meu filho estava fazendo engenharia, mas também não gostou de engenharia então ele falou: “Pai, posso trabalhar com o senhor?”, igualzinho eu com meu pai. “Pode, vem pra cá” “Pai, por que você não importa?” “Mas importar” “A gente compra tanta mercadoria importada, por que você não importa mercadoria?” “Ah Júnior, eu não tenho nem ideia de como é que faz pra importar e nem quero saber. Se você quiser se interessar por isso”. Até coincidiu quando o Collor abriu o mercado externo, né? “Pai, por que a gente não importa?” “Ah filho, se você quiser estudar como é que faz isso a gente faz”. E desde aquele dia ele começou a importar e foi dando certo também.

P/1 – Mas no começo era só laticínios...

R – Frios e conservas. Azeitona, a gente comprava azeitona de importador, a gente comprava bacalhau de importador, tudo o que a gente comprava era de importador. E depois que meu filho começou a mexer com isso a gente começou a importar, ao invés de comprar.

P/1 – Por si só.

R – Por si. Então foi uma nova fase, uma nova época.

P/1 – Nos anos 90.

R – É, mais ou menos, um pouco antes talvez. E aí aconteceu de eu abrir a loja, então vai acontecendo. Aconteceu dele importar.

P/1 – Além do ramo que o senhor estava, o que tinha na zona cerealista, quem estava lá também vendendo?

R – Do meu lado, vizinho, que era grande, o Laticínios Vencedor. Laticinios grande, muito grande, vendia muito, o cara gente muito boa também, era vizinho também que era vizinho e amigo. Na frente da Casa Flora tinha o Natalino, que hoje está na esquina da Eurípedes com a Santa Rosa do lado esquerdo. Laticínios Samara também, que era vizinho também. Laticínios Garrafão que também eram grandes amigos nossos, que é na Eurípedes quase na esquina com a avenida perto do rio. Então muito amigo, sempre fui muito amigo, sempre fiz amigos, nunca tive uma briga com ninguém, graças a Deus.

P/1 – Mesmo competindo.

R – Mesmo competindo. Numa boa, numa boa total. Não tinha problema nenhum, nenhum, nenhum, todos amigos.

P/1 – Tinha amizade com cerealistas também?

R – Era outro ramo, a gente conhecia todo mundo também. “Ei Adilson!” “Ô Fulano”, tal. Porque também trabalhei junto com o Dadá também na Sagasp, trabalhei um pouquinho de tempo só na diretoria, ia a algumas reuniões lá.

P/1 – Mas você era mais varejo ou atacado?

R – Mais varejo. O atacado não tinha caminhões de entrega, não, tinha uma Kombi de entrega e o atacado meu eram os fregueses pegando mercadoria lá, o feirante ia buscar os queijos pra vender na feira. Então o atacado que a gente diz é isso. O varejo é o cara que vai comprar um queijo pra ele comer. Eu tinha atacado e varejo, sempre tive atacado e varejo, sempre, sempre. Hoje eu tenho varejo na loja, tem atacado e tem o varejo, então é.

P/1 – E os cerealistas eram como na época que você começou?

R – Uma grande parte. Nossa senhora, foi o que eu falei pra você, cara, centro de distribuição do Brasil era praticamente São Paulo.

P/1 – Sério?

R – São Paulo. Nossa.

P/1 – Pra todo Brasil?

R – Todo o Brasil. Descia caminhão de tudo quanto era lugar aqui. Tinha um freguês na Bahia, toda segunda-feira ele estava encostado na porta da Casa Flora. Toda segunda-feira ele estava com o caminhão encostado, João. Eu falava: “João, como é que você aguenta, João? Toda semana”. E não é que eram duas pistas, não, era estrada. Pra você ir pra Bahia, Itabuna, meu amigo, não era fácil, não. E toda segunda-feira ele estava com o caminhão na porta da Casa Flora pra fazer compra. Eu falei: “Pô, mas como é que você aguenta, João? Toda semana fazer essa viagem?”, e ele falava: “Adilson, como é que você aguenta ficar fechado aqui o dia inteiro?” (risos). Olha como são as coisas, é gostar do que faz, é se sentir bem com o que faz. Você fala: “Pelo amor de Deus pegar a estrada Rio-Bahia”, 1960, 70 e 80, pô, você é louco cara, 30 anos atrás. É. Atacado e varejo.

P/1 – E devia ser uma bagunça na rua, todo mundo se conhecia. Você lembra de algum caso que aconteceu no Brás, na rua?

R – Eu ficava triste na época das enchentes, né? A enchente, por exemplo, não sei se você percebeu lá na loja tem sempre... antigamente era dessa altura aqui era onde você fazia o estrado de mercadoria e tinha mais um tanto assim. Quer dizer, era mais alto que eu pra atingir a mercadoria. A gente tinha muito pouco prejuízo com a enchente, mas em compensação os cerealistas, meu amigo... porque a água sobe, molha o saco de baixo, cai tudo. Na Santa Rosa eu me lembro, dois, três dias depois quando começavam a limpar a rua Santa Rosa, às vezes a pilha de sujeira no meio da rua era tão grande que você quase não conseguia ver o outro lado da rua, tal a montanha de alimento perdido ali. Foi prejuízo, mas prejuízo total. Nossa, tem nego ali que conseguiu sobreviver por muito trabalho, viu? Prejuízo grande. As coisas que a gente passou lá, passou muita coisa. Passou coisa difícil, passou problema, passou crises e mais crises.

P/1 – Ah, é?

R – Teve crise de tudo quanto era jeito. Mudava moeda, vira e mexe mudava moeda, tinha muita crise, tinha muita dificuldade. Mas a gente vai vencendo todas elas. Essa crise de hoje é terrível, foi a maior que eu já vi, nunca vi igual.

P/1 – Sério?

R – Nunca vi uma crise igual.

P/1 – Mesmo nos anos 90?

R – Eu nunca senti nada igual. Hoje nós sentimos muito mesmo. Não sei se você já conversou com alguém desse nosso ramo aqui, já entrevistou alguém, todo mundo está sofrendo muito. Nós estamos sofrendo muito.

P/1 – A Casa Flora.

R – Muito.

P/1 – Baixou muito o negócio?

R – Abaixou o movimento, o custo subiu, o dólar estourou, maioria da mercadoria nossa é dólar. Tá difícil mesmo, nunca estive tão preocupado assim e triste com o Brasil. Eu estou, muito, muito, rezo muito. Eu tenho pedido muito a Deus pelo Brasil porque não está fácil, não. A quantidade de gente desempregada, cara, quase dez milhões de pessoas desempregadas. Agora você pensa, você vai dispensar uma pessoa que você sabe que tem um compromisso no fim do mês de pagar o aluguel, que tem o compromisso de prestação, que tem compromisso pra família, que tem compromisso de estudo com os filhos. Pelo amor de Deus, está triste. O que nós estamos passando hoje não está fácil, não.

P/1 – Aproveitando que você está falando disso, como é a sua relação com seus funcionários? Tem funcionário com muito tempo? Como é que é?

R – Tenho. O Jair está aqui comigo desde que eu abri. E já trabalhava comigo antes. Tem um rapaz que trabalha lá na loja com o meu irmão, um tal de Barbosa, papai trouxe ele pra São Paulo em 1952, ele está até hoje com a gente.

P/1 – Barbosa?

R – É, Barbosa.

P/1 – O que ele faz?

R – Trabalha na loja lá. Está lá (risos). Quanto tempo, faz uma coisa aqui, uma coisa ali, faz uma coisa ali, ajuda um pouquinho aqui, está lá até hoje. Tem mais de 80 anos. Está lá. É o que eu estou falando, é uma família. Uma vez alguém veio conversar comigo aqui até foi uma revista de supermercado. Ele traduziu, no meio da matéria ele escreveu lá: “Família Flora”, pra falar da Casa Flora. Porque o ambiente nosso é muito bom, a gente procura ser tudo igual aqui.

P/1 – Eu conheci o Bispo.

R – O Bispo, então. Quanto tempo ele está com a gente lá?

P/1 – Como é que é a história dele?

R – Então, ele trabalhava no mercado, eu acho. Conversando lá, ele conhece muito bem de atender consumidor, varejo, né? Muito bom de relacionamento, tudo, bom papo, veio trabalhar com a gente. Está lá há um tempão. Por que? Cara legal, que vestiu a camisa, até hoje com a gente aqui. O que tem de cara com 30 anos comigo, 20 anos aqui na Casa Flora, tem um monte.

P/1 – E como é trabalhar atrás do balcão?

R – Eu amava. Conversar com a pessoa como é que foi o momento, como está o momento, como está a família, quanto tá isso, abaixou, subiu.

P/1 – É o dia inteiro em pé, correndo.

R – Dia inteiro em pé. Era o dia inteiro em pé atrás do balcão fazendo pacote, carregando caixa, entregando carrinho, é o dia inteiro.

P/1 – Você tem cliente que marca você? Que você ficou amigo ou por algum motivo fica na sua cabeça o cliente que você gostava mais?

R – Gostava mais, não. Até tem aqueles mais antigos de feirante. Tinha um tal de Prudêncio, de Antônio, Pedrinho. Pedrinho é do tempo do meu pai, eu me lembro dele até hoje. Pedrinho era da região Leste, eu ia entregar queijo pra ele lá na feira. Prudêncio também, era aqui do Pari. São os caras que a gente não esquece. Vizinho, por exemplo, o Arthur do Garrafão. Um dos maiores comércios atacadistas que tinha aqui era o do Garrafão. Mas amigão, amigão, amigão. Depois pararam, né, mas eram fortes, gente boa pra caramba. Natalino a mesma coisa. Faz amizade com tanta gente, com freguês, com vizinho, com pessoas até que são do mesmo ramo, concorrentes, mas não tinha nada disso, se dava bem com todo mundo aí.

P/1 – Você frequentava bastante o Brás? Você já veio ver o carnaval daqui do Brás ou a Festa de São Vito?

R – Festa de São Vito. A Casa Flora é parceira da Festa de São Vito de rua, aquela de frente da igreja ali. Lá tem o grupo de oração que eu participo dele há 23 anos eu acho.

P/1 – Ah, é?

R – Grupo de oração que nós temos lá toda quarta-feira, das sete às nove. Acaba o serviço aqui e eu vou pra lá.

P/1 – Amanhã o senhor está lá.

R – Amanhã eu estou lá. Toda quarta-feira eu estou lá e na quinta-feira tem um grupo de oração perto da minha casa, na igreja de Santa Rita, que toda quinta-feira eu estou lá também, das oito às dez.

P/1 – O que o senhor sente quando está orando?

R – Paz. Está fazendo a vontade de Deus. A bíblia é o melhor alimento que existe, viu, cara? Porque você está se alimentando de uma palavra que foi vivida há dois mil anos que não mudou. Testemunho de Jesus até hoje acontece, quando Jesus falou pra São Pedro, posso falar?

P/1 – Sim, fica à vontade.

R – Jesus fala pra São Pedro assim: “Pedro, tu és pedra e sobre essa pedra eu vou edificar a minha igreja”. Isso foi dois mil anos atrás. “O que você ligar na terra será ligado no céu, o que você desligar na terra será desligado no céu”. Jesus falou isso dois mil anos atrás. Essa igreja que Jesus falou ‘eu vou edificar essa igreja sobre você’, hoje ela está edificada no Papa Francisco. E nesses dois mil anos a igreja nunca ficou sem um papa. O Papa Francisco é o papa número 265. Essa alegria que eu tenho de participar da igreja é muito grande, muito grande. Eu faço isso com todo prazer mesmo, com muita alegria. O grupo de oração da Vila Mariana tem quase 30 anos e esse aqui tem mais de 20 anos, eu estou lá toda quarta e toda quinta-feira. Procuro estar lá. Porque eu tive um chamado por Deus, né? Tive experiência. Experiência que trazemos de Deus é muito grande, cara. Minha filha, minha filha Simone com três anos foi diagnosticada com um tumor no cérebro. Durante quase um ano nós passamos no Hospital Santa Catarina, todo dia lá, todo dia lá. Tanto que nem adiantava ficar mais lá, tivemos que mudar, eu levei ela pra casa, aluguei uma cama hospitalar e chega uma hora que eu via minha filha lá, coitadinha, sem cabelo por causa da radioterapia, soro aqui no braço, sonda pra levar comida pro estômago, aquele quadro triste, rapaz. Uma madrugada lá ela estava muito brava com Deus. “Pai, você é surdo, você é cego? Você não está vendo? Será que vou ter que gritar pro Senhor ouvir? Quanta gente está rezando? Desde ontem estamos rezando pela Simone, ó como ela está!”. Eu me lembro que eu fui pro quintal de casa e eu comecei a gritar o Pai Nosso. Gritando o Pai Nosso, mas gritando, parecia um maluco lá. A hora que eu disse “seja feita a vossa vontade” eu senti uma paz muito grande no meu coração. Seja feita minha vontade. Eu senti uma paz, fazia um ano que eu não sentia aquela paz lá. Fui lá, “seja feita a sua vontade”. Cara, dois dias depois ela morreu. Eu estava naquela tristeza, uma filha no caixão, quatro anos, aquela coisa linda. Aquela tristeza chorando, chorando, chorando, quando eu ouvi alguém falar: “Tá vendo como não adianta rezar? O Adilson rezou tanto, a família rezou tanto e a Simone morreu”. Naquele momento eu ouvi essa palavra e Deus falou pra mim: “A Simone não morreu, agora que começou a vida dela. Ela está bem”. Aquilo lá me deu uma certeza tão grande do céu, rapaz, a vida eterna, que aí eu comecei a ter um entusiasmo muito grande com Deus, sabe? Muito grande com a igreja. E eu também era um alcoólatra de final de semana. Que durante a semana eu não tinha tempo de beber, trabalhava que nem um cavalo das sete às sete, quase 12 horas a gente trabalhava por dia, durante a semana eu não tinha tempo de beber, não, mas sexta-feira e sábado eu era um retardado pra beber. Nossa. Quase que eu destruí três carros em acidentes, mas batendo em muro, poste. Graças a Deus nunca bati em outro carro, nunca atropelei ninguém, nunca aconteceu nada com outra pessoa, nem comigo e nem com quem estava comigo no carro.

P/1 – Você bebia o quê?

R – Todo final de semana cerveja, whisky. A turma de futebol nossa, que a gente tinha um time de futebol maravilhoso, o Nacional Clube da Vila Mariana, mas time bom de bola, time bom mesmo. Nossa, eu já joguei contra o Vavá, que era seleção brasileira, Tupãzinho do Palmeiras, a gente tinha um timão, participava de Desafio ao Galo. Eu jogava de central, o Antônio jogava de quarto zagueiro. Então a gente acabava o jogo e ia lá pra sede e pa pa pa pa, aquela alegria, quando ia ver você estava fazendo bobagem por aí, né? E fiz assim de bater carro e eu senti uma hora que eu tinha que parar, mas eu não conseguia parar. Eu tive uma isquemia cerebral e quando eu fui no médico, o médico falou: “Olha Adilson, não pode beber, tá? Se você beber você vai acabar com o seu cérebro” “Tá bom. Eu não vou nem sentir vontade porque eu não bebo, eu só bebo fim de semana”. Ai que eu falei, o quê, não sente vontade? Eu não sabia que eu era um alcoólatra de final de semana, cara, puta, eu estava numa depressão cara, mas num estágio tão mal, como eu sofria em não poder beber. Sexta-feira, sábado, não podia beber. Um amigo falou: “Adilson, vamos rezar, vai, vamos passar, você está numa fossa danada”. O cara entrava na Casa Flora e me via daquele jeito, derrubado: “Vamos rezar, vai? Vai ter um encontro agora no final de semana em Campos de Jordão, vamos pra lá rezar? A gente vai três dias lá” “Vamos”. E nossa, lugar maravilhoso, uma casa maravilhosa lá dos salesianos. “Vamos lá, você vai sentir uma alegria lá, vai ser gostoso”. Eu fui lá, então rapaz, aquelas missas maravilhosas, aquelas pregações maravilhosas, só homem lá, você sentia a presença de Deus ali. Mas estava tão legal, rapaz, eu estava tão feliz lá. Meu casamento estava quase acabando por causa da bebida, minha mulher, já tinha seis filhos, minha mulher já não estava me aguentando mais também, eu também não aguentava mais ela. E eu falei pra Deus: “Nossa, que lugar maravilhoso”, aquela coisa maravilhosa ouvindo a palavra de Deus, aquelas missas maravilhosas. Acabou o encontro eu fiquei lá fora esperando o ônibus chegar pra pegar a gente lá pra trazer pra São Paulo. Eu estava lá, aquele sossego, aquela paisagem linda de Campos de Jordão. Eu falei: “Jesus, eu ouvi falar tanta coisa maravilhosa que você faz, eu não quero beber mais. Mas eu não consigo, eu não consigo, eu quero parar”. Isso aconteceu dia quatro do quatro de 82. Eu nunca mais tive vontade de beber. Não é que eu tenho vontade e não bebo, eu nunca mais senti vontade. E olha que trabalhando com isso, com aquilo, com vinho, tanta coisa, nunca mais senti vontade de beber. São essas coisas que mexeram muito com a minha vida pessoal, familiar, cristã e de trabalho. Mexeu, mexeu muito, muito, muito, foi uma mudança total que aconteceu na minha vida com essa graça que Deus deu pra mim, 14 anos depois de eu começado a Casa Flora. Eu falo também que um dos motivos dessa casa, do desenvolvimento nosso, é uma benção de Deus também. Então, isso que me fez voltar muito pra igreja, pra família, pra empresa, tudo isso. Também não é que eu morro de vontade de ficar milionário, não. Vou trabalhando, procuro viver bem, não ostento nada, nem posso ostentar também porque não tenho nem grana pra ostentar, não (risos), eu procuro trabalhar minha vida de acordo com aquilo que Deus permite eu fazer. Então, é isso aí.

P/1 – Tem outras coisas que eu gostaria de perguntar pra você. A primeira, você sempre gostou de futebol? Você torce pra que time?

R – Corinthians.

P/1 – Corinthians. Mesmo em Minas.

R – Minas. Não, é que eu tinha oito anos, né? É engraçado (risos), eu conto pra todo mundo e todo mundo morre de dar risada. Nós mudamos pra cá, chegamos aqui em São Paulo, eu tinha um tio que era conselheiro do Corinthians. Me levou pra ver um jogo do Corinthians. Nossa, um moleque de oito anos ver um jogo do Corinthians, Pacaembu lotado. Nossa, fiquei apaixonado pelo Corinthians, nem conhecia, mas fiquei apaixonado pelo Corinthians. Nossa! E o meu irmão, meu tio, irmão desse meu tio que era conselheiro do Corinthians falou: “Eu não vou deixar o Antônio ser corintiano, não, eu vou levar ele pro Palmeiras” (risos). Chegou pro Antônio e falou: “Antônio, você vai ser palmeirense, Antônio, eu vou dar uma bicicleta pra você” (risos). Eu até brinco muito com ele, ele é palmeirense até hoje e não ganhou a bicicleta (risos). Isso que é sacanagem, desculpa (risos). Eu brinco muito com ele: “É sacanagem o que fizeram com ele” (risos).

P/1 – Ele sofreu tanto, né? (risos)

R – A gente brinca muito com isso daí, do tio Cido ter feito essa sacanagem de prometer a bicicleta com ele e não dar a bicicleta e ele ser palmeirense até hoje (risos). Gosto, sempre joguei futebol, era central, o Antônio quarto zagueiro, tinha um time bom, cara! Nacional Clube da Vila Mariana teve uns anos aí. Nós fundamos esse clube em 1958. Jogava em tudo quanto era lugar da várzea aí, nossa! Jogava, brincava, apanhava, batia, puta, timão, time bom nosso. Então esporte eu vivi muito bem com esporte. Depois que eu operei os dois meniscos tive que colocar uma prótese nesse meu joelho esquerdo, eu tive que parar com esporte, comecei a fazer natação e durante 30 anos eu nadei todo dia, não, segunda, quarta e sexta. Até estourar os ombros também. Operei três vezes cada ombro. Até que hoje eu perdi, o que eu mais gostava de fazer em termo de esportes era natação. Quando eu saía da academia que eu falei pro pessoal lá que eu não ia voltar, que eu não podia voltar lá por causa do ombro, saí de lá com lágrimas nos olhos. Sempre gostei de esporte, futebol, depois fui fazer natação. Estourou o joelho, não podia mais. Estourou os ombros, não posso mais também (risos). Foi sacanagem.

P/1 – Quais são seus ídolos no futebol?

R – Ídolo mesmo, eu gostei muito do Rivelino. Do meu tempo de moleque aqui, Cláudio, Luizinho, Baltazar, era uma linha muito bonita do Corinthians. Gilmar, um excelente goleiro. Vavá, o tanque de aço, espetacular. Como jogador de futebol não teve igual Pelé, né? Mas Pelé me deixou magoado, você sabe até, nem vou falar, mas a atitude que ele teve com a família dele, né? Então, hoje, o maior jogador que tem hoje realmente é Neymar, Messi. Hoje no Brasil não tem um grande craque. Eu gostava muito daquele do Corinthians lá, aquele que foi hexacampeão agora, tinha um timão o Corinthians. O Carlos, o que é goleiro nosso até hoje.

P/1 – E você se lembra de algum jogo marcante que você assistiu na TV ou ouviu no rádio?

R – O Corinthians quando estava lá no Morumbi em 1967, quando foi? O Corinthians ficou mais de 20 anos na fila e eu estava no Morumbi naquele dia que ele saiu da fila depois de 20 e tantos anos sem ganhar título. Pra mim foi o top, nossa. Meu irmão, esse Adaílton que fica na fazenda hoje, eu estava na garupa da moto, _1:14:15_ bandeira. Então, nossa, estava puxando um corso, aquela buzinação lá. Porque a alegria do corintiano naquele dia lá foi demais, né? Trocentos anos sem ter título e ser campeão, pô, foi alegria total.

P/1 – Mas como é que foi o jogo lá? Ganhou?

R – Ganhou, ganhou. Ganhou com gol que quase não saiu, bateu na trave, bateu em alguém também pra depois marcar. Era o segundo jogo contra a Ponte Preta, o primeiro jogo tinha sido empate e o segundo jogo ia definir. E saiu esse jogo quase no final, do Basílio. Então foi que deu o titulo pra nós, nossa, foi uma alegria total. Nossa, fomos puxando um corso lá de torcida pra Avenida Paulista com a bandeirona lá, eu na garupa da moto (risos) e meu irmão lá pilotando a moto.

P/1 – E em jogo de várzea? Que jogos que você se lembra?

R – Esse jogo contra o Can Can que eu marquei o Vavá porque ele já era veterano, mas não fazia muito tempo que ele jogava na seleção. E o Vavá uma hora parou a bola lá, rapaz, eu parei assim pra marcar ele. A hora que ele saiu a perna dele fez assim. A hora que eu olhei pra trás o bicho já estava longe (risos). Nossa, o cara joga bola pra caramba! A velocidade que ele tinha, era chamado Peito de Aço.

P/1 – Você fazia algum gol?

R – Eu? Não. O Antônio, meu irmão, fazia. O Antônio era mais técnico, sabia jogar mais bola e eu sabia dar carrinho, bicicleta e era bom de cabeça. Mas não matar, sair jogando. O Antônio já matava, saía jogando, batia bem falta, o Antônio jogava bem.

P/1 – Você era um zagueiro que...

R – Um zagueiro que procurava não deixar tomar gol, mas que eu não tinha qualidade nenhuma pra matar bola eu não tinha, não (risos). Mas jogava.

P/1 – Mas você já faz algum gol na várzea, mesmo sendo zagueiro?

R – Eu fiz um gol de pênalti uma vez quando nós ganhamos um trófeu. E a disputa tinha sido 1 a 1 durante o jogo, então disputava em pênaltis, né? Então um bateu, marcou; o outro bateu, marcou; outro bateu, marcou; outro bateu, marcou; outro bateu, marcou; outro bateu, marcou; outro bateu, marcou. Aí eu chegava pro lado assim: “Eu não quero bater, eu não quero bater”. Mas chegou uma hora que eu tinha que bater porque todo mundo já tinha batido. Impressionante, foi uma disputa assim que todo mundo marcava. Ou quando um perdia, o outro perdia também. Então ficou pra definir, eu era o último pra bater. Cara, a hora que eu fui bater, puta, o gol ficou desse tamanhinho. O goleiro cresceu e quase que ele tomava conta do gol inteirinho. Eu fechei o olho e pum, marquei. E o nosso goleiro lá,o Leonel, que até hoje é amigo nosso, participa do nosso grupo de oração também lá, ó quantos anos faz isso, cara! Ele falou: “Adilson, eu não vou pular pra lugar nenhum que eu estou cansado e cair pra direita e cair pra esquerda, vou ficar aqui”. O cara bateu em cima dele (risos). Pum. Ganhamos um troféu bonito pra caramba. Um jogo só era o troféu, ganhamos um troféu bacana pra caramba. Isso marca, né? (risos) Não tem como não marcar você lembrar dessas coisas.

P/1 – E agora me conta, você trabalhava bastante, né, desde cedo.

R – Muito.

P/1 – Mas quando você começou a sair pra se divertir pra onde é que você ia?

R – Jovem assim tinha os bailes de formatura, né? Eu me lembro muito do Clube Homs na Avenida Paulista, o baile de formatura lá, nossa, que delícia que era, cara, meu Deus! Era tão legal que você saía do clube e voltava a pé pra casa. Chegava em frente de casa você está de smoking, você sentava no chão lá na guia e ficava conversando com os amigos lá, os que trabalham com você. Rapaz, o sossego que era, cara, nossa! O que a gente viveu, eu falo, a gente era feliz e sabia, cara. Tinha uma turma bacana do futebol. Essa turma do futebol à noite, todo final de semana, procurava fazer um bailinho. Na minha casa às vezes, na casa do meu pai tinha um quintal mais ou menos grande, então a gente fazia baile lá com a turma lá, com os amigos. Foi lá que eu conheci a minha esposa, estou há quase 50 anos casado com ela, entendeu? Quase 60 anos de namoro, nós fizemos 58 anos de namoro esses dias atrás, 58 anos de namoro. Meu irmão Adaílton que está lá em Minas fez oito anos quando começou a namorar na casa do vizinho nosso lá. Então, era uma turma espetacular, mas espetacular. Eu tenho saudades de paixão daquela turma nossa.

P/1 – Era do colégio?

R – Não, do futebol. Em 1958 nós fundamos um time chamado, começou com vários nomes. Aí chegou uma hora: “Adilson, dá sugestão, qual o nome do time que vamos por”. Lembrei do time do meu pai de Itamonte: “Vamos por Nacional Clube da Vila Mariana”. O nome ficou Nacional Clube da Vila Mariana, isso em 1958. Então nós ficamos com esse clube aí, até hoje a gente se encontra ainda. O clube já acabou, durou mais de 20 anos, jogando futebol, apanhando, batendo, jogando bem mesmo contra times bons, tudo, então, passei tudo. Era gostoso pegar um bonde camarão ali na Domingos de Moraes e jogar em Santo Amaro. Passar no meio do mato, onde tem a Avenida Ibirapuera hoje era tudo mato, passava no meio do mato pra ir em Santo Amaro jogar futebol. Putz, tem coisa melhor, cara? Então são coisas que ficam gravadas na gente, toda a nossa vida, tudo o que a gente passou, amigos. Nossa, amigos maravilhosos. Eu tive sorte, viu? Nossa, onde eu fui morar sempre dei sorte de ter uma turma boa, fazer uma turma boa. Sou casado, tenho sete filhos com a Simone no céu, tenho 11 netos. Tanto a minha família se deu bem quanto a família dela, sempre tem um entrosamento bom.

P/1 – Mas como é que você conheceu ela? Como é que foi o dia?

R – No bailinho. Subia com a turminha nossa lá e ia tomar um sorvete na Padaria ABC que é ali na Domingos de Moraes, passava em frente da casa dela, que morava na Rua Vergueiro, ia lá. Aí tem o bailinho na casa de um amigão nosso, Dario, começamos a namorar lá. Namoramos lá dez anos quase (risos). Casei com, ela tudo. E vivendo feliz. Eu não posso reclamar de nada, eu só agradeço a Deus por tudo, da filha que eu tenho no céu, do irmão que morreu no acidente, do Amilcar. Porque a pessoa sofre muito quando tem remorso de alguma coisa, né? Não devia ter feito isso porque ocasionou isso lá e você tem remorso. Aí você sofre. Mas eu, graças a Deus, até hoje, posso até ter feito muita coisa errada, mas de ter prejudicado, eu tenho paz. Não sou santo, não sou bom, mas me dou bem com todo mundo, procuro não errar, procuro não fazer bobagem, procuro e sou fiel no meu casamento. Procuro ser feliz e o jeito de ser feliz é não prejudicando o outro, né? Então a gente vai levando.

P/1 – Queria voltar um pouquinho pra questão do comércio e perguntar como é esse comércio de laticínios e agora em termos de importados. Como é que vocês fazem?

R – Nós temos a fábrica lá em Minas ainda, mas o comércio de laticínios caiu muito, pelo menos pra nós caiu muito porque antigamente, no tempo do meu pai, a gente vendia muito queijo, que o meu pai tinha um bom entrosamento lá no Pão de Açúcar, então praticamente a fabricação nossa de queijo ia toda pro Pão de Açúcar. Aí, o negócio do papai fechou e nós continuamos ainda tendo um bom comércio de queijo. Depois que o papai faleceu aí nós compramos a fábrica de queijo dele, a Casa Flora comprou a fabriquinha de queijo. E fabricamos queijo durante muito tempo lá, mas chegou um tempo que o queijo estava dando muito prejuízo, então nós diminuímos muito a produção de queijo. Temos até hoje, mas muito pequena. Meu irmão fica na fábrica lá em Minas, na fazenda, mexendo com o gado que não é muito também, não, pouco leite, mil litros de leite por dia, pouco leite que a gente usa na fábrica pra fazer queijo. Fabricamos pouco queijo, vendemos pouco queijo, mas temos uma fábrica lá. Era um gosto de meu pai, então procuramos manter a fábrica, montei a fazenda, que meu pai adorava, amava aquilo ali. O meu pai gostava, então a gente procurou manter a fábrica de queijo e a fazenda também. A molecada, meus netos e sobrinhos, todo mundo gosta muito de lá, eu e minha esposa uma vez por ano vamos lá bagunçar lá (risos). Meu irmão esses dias fez um porco no rolete lá, foi aniversário dele esses dias atrás, no sábado de aleluia tivemos porco no rolete na fazenda dele.

P/1 – Gostoso.

R – Bom demais.

P/1 – E os outros ramos, frios e conservas?

R – Foi quando eu comecei, né?

P/1 – Foi quando você começou.

R – Vendia mortadela, presunto, salsicha, essas coisas, quando começou. E lataria, sardinha, palmito, começamos assim, com pouca coisa.

P/1 – Como é vocês compram, de quem é, pra quem vocês vendiam?

R – Comprava Coqueiro, Rubi sardinha, palmito da Hemmer, comprava e vendia, calculava a margem de lucro e vendia, vamos supor 10%, 15% e vendia. É o que todo mundo faz.

P/1 – Vocês tinham contato com o Mercadão ou ele era concorrente?

R – Nós não temos muito contato. Hoje tem contato, a gente vende umas bebidas para umas pessoas lá, mas nem estou bem por dentro do nosso mercado lá dentro do Mercadão, o pessoal de venda é que cuida mais, é o meu filho que mais cuida também, eu fico mais numa retaguarda (risos).

P/1 – Nos anos 80, 90 que abriu a importação com seu filho, você falou, eu imagino que tenha ficado mais complexo o mercado, porque estavam trabalhando com outros produtos, né?

R - _1:25:42_ a _1:25:46_, eu acho que tem gente que está conosco desde o começo. E outro negócio, negócio que é bom pra mim tem que ser bem pra quem vende pra mim, né? Então esse toma lá da cá tem que ser bom pros dois. Até hoje está dando certo com o pessoal que a gente importa aqui da América do Sul, da América Central, da Europa, vai dando certo, por que não, dando bem, né? É mão dupla. “Te interessa?” “Interessa” “É bom pra você?” “É. Pra mim é bom eu ter essa mercadoria? É”. Então o cara vai, manda pra mim, é bom pra mim, é bom pra ele. Então é o toma lá dá cá. Dá certo assim, a mercadoria do mercado interno também, o que é bom pra um é bom pro outro. Freguês que é bom pra mim é bom pra ele porque eu vou procurar tratar cada vez melhor. O freguês tem que tratar sempre bem, é lógico, nossa vida depende dele, né?

P/1 – Como é que estão as vendas hoje?

R – Está muito fraca.

P/1 – Você disse que está fraca, mas o que se vende hoje, em geral, na Casa Flora?

R – Vinho todo mundo toma. Diminuiu muito porque o custo subiu muito, mas vende-se um pouco. Tudo vende um pouco, azeitona vende um pouco. Toda mercadoria que nós temos vende, mas vende pouco, não vende como vendia. Diminuiu o movimento em restaurante, diminuiu movimento em supermercado, diminuiu o movimento em tudo quanto é lugar. Por que? Porque a mercadoria tá cara, porque o poder aquisitivo é pequeno, então, é isso aí. Isso aqui é duro? É. É difícil? É. Pagar conta é, ainda mais obrigação que tem é fazer tudo direitinho. Tem horas que você quer fazer tudo direito, você sofre pra fazer tudo direito. Custa pra você, custa muito. Poucas vezes, antigamente a gente não dependia de banco a não ser pra fazer as operações corriqueiras, depósito, saque e pagamentos. Hoje você já precisa do banco pra te arrumar dinheiro, etc e tal, quer dizer que esse custo é ruim, é triste, é chato. Nem gosto de falar (risos), quem cuida mais disso é o meu filho, tenho até dó, rezo muito pra ele, pros dois, Fernando e Júnior, porque não é fácil segurar essa barra, não.

P/1 – Sei. Financeiro, né?

R – Financeiro é fogo. Financeiro e Importação. E o freguês lá de fora, o seu fornecedor, ele tem que vender mercadoria. Se você é exclusivo aqui no Brasil você tem que comprar dele. Se você não vende ele fica com a mercadoria parada porque não pode vender pra ninguém no Brasil. Então é, é difícil. Nossa, palavra de honra, eu não queria estar no lugar do Júnior e nem do Fernando, viu, porque eu sofro por fora, sem sentir na pele o que eles sentem. Nossa, é triste sim, é um momento muito ruim, viu? Pra mim nesse tempo todo, rapaz, em 46 anos eu nunca tive um momento tão chato. Mas nem nas enchentes, nem nos roubos, nem nos assaltos, nem das coronhadas na cabeça, nem na mudança de moeda, cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado, cruzado novo, tanta mudança que teve no Brasil, tanta coisa que aconteceu no Brasil, é Sunab, tabelamento, era aquela inflação terrível, mas não era tão ruim como agora. Nossa! Pra mim agora, eu sofro mais vendo o sofrimento dos meus filhos do que outra coisa. É sofrimento do Brasil em geral, a situação em que nós estamos de desemprego, acoisa mais triste é desemprego, tá louco.

P/1 – Mas como foi esse caso dos assaltos? Se você quiser falar. Você estava...

R – Estava lá. O cara entrou lá pra assaltar.

P/1 – De dia, de noite?

R – De noite, estava fechando, chega lá e pô. Entraram dois armados lá, um segurando os funcionários aqui e o outro comigo dentro do escritório, né? “Abre o cofre” (risos). Coincidiu do cofre ser novo, ai meu Deus do céu. Aí misturava a senha, meu Deus do céu. Para eu me lembrar eu tive que tomar uma coronhada na cabeça. “Abre aí, seu filho da puta!”, pó, na minha cabeça uma coronhada. Puta, como doeu, cara. Aí lembrei (risos). As enchentes, assalto, é tudo.

P/1 – E como foi esse negócio da Sunab, da inflação, eram as tabelas?

R – Aquele tabelamento. Eu nem me lembro direito, mas tinha tabelamento, tinha a inflação, você não podia vender. Era um negócio complicado pra caramba, que já passou também, graças a Deus já era. Mas eu digo, como hoje... comentário de todo mundo, não é nós que estamos sofrendo, não, todo mundo sofre. O meu freguês sofre, o meu consumidor sofre e nós sofremos.

P/1 – Qual você acha que é a importância da zona cerealista pra São Paulo e pro Brasil? Qual é e qual foi a importância dela?

R – Foi um centro de distribuição muito grande, mas você via caminhão de tudo quanto é lugar do Brasil aqui. Hoje continua sendo ainda, mas já não é tão dependente como antigamente. Antigamente o pessoal dependia mais daqui do que depende hoje, hoje já não depende tanto daqui, não. Porque diversificou, né? Tem tudo quanto é lugar. Antigamente não, antigamente se você queria comprar queijo você ia na feira, o feirante ia comprar queijo na Santa Rosa, então... comerciante ia comprar queijo na Santa Rosa. Porque aqui era o ponto, agora não, agora diversificou. É isso aí, a nossa vida aqui foi essa, desses 46 anos só de Casa Flora, nesses quase 60 anos de Casa Flora e meu pai lá, então, é longa. Setenta e quatro anos de idade também já vivi bastante aí, fazendo de tudo aí, com tudo, futebol, amigos, bailes, aproveitei muito a minha vida, louvo a Deus hoje por esse caminho que eu estou seguindo hoje completamente dentro da igreja, foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.

P/1 – E você conheceu o papa, né?

R – O papa. Estive lá. Aliás, quando o Papa João Paulo II veio no Brasil eu estava na 23 de maio lá em cima. Só de ver o carro dele passando lá embaixo me atraiu tanto a pessoa, não sei, de longe, mas me atraiu tanto que eu falei: “Preciso conhecer esse papa, preciso estar perto desse papa”. Fui pra Aparecida. Uma vez nós tivemos um encontro da renovação carismática católica lá na cidade de Rimini, lá na Itália, perto de Roma. Eu estava até numa excursão pra terra santa, lá pra Jerusalém. Então fomos em Rimini, passamos em Roma pra ir pra Jerusalém. Chegou em Roma um amigo meu que até era deputado falou assim: “Adilson, vou tentar com os cardeais amigos ver se a gente consegue uma credencial pra estar com o papa”. Eu falei: “Nossa, maravilha, cara! Vê se você consegue”. Aí ele chegou com quatro credenciais lá. Nossa, fomos comprar terno, gravata, tudo, né? “Vamos estar com o papa, maravilha!”. O pessoal continuou na excursão pra terra santa e nós ficamos em Roma. Rapaz (risos), compramos tudo isso pra encontrar o papa, pensei que fosse alguma coisa assim, nós e o papa. Mas não. Nós ia ficar num lugar perto da Praça São Pedro, era um lugar muito legal, mas longe do papa, você não ia encostar a mão nele. Mas eu falei: “Ah não, eu quero encontrar com esse papa”. E um amigo meu, sacerdote, uma vez em Roma disse: “Adilson, existe a possibilidade de você tirar uma fotografia com o papa”. Eu falei: “O quê?”, era quarta-feira. Eu falei com a minha filha que mexia com turismo: “Thais, eu preciso estar em Roma quarta-feira de manhã”. Pá pá pá pá, quarta-feira de manhã eu estava lá. Aí fomos lá no Salão Paulo VI do Vaticano: “As pessoas que vão tirar fotografia com o papa estão todas aqui?” “Estão” “Então vamos subir”. Subimos, ficamos num reservado ali, aí nós vimos que tinha uma fila que ia beijar a mão do papa. Nós não ia beijar a mão do papa, só ia ficar atrás do trono de São Pedro e tirar fotografia só. Ah, eu falei: “Não, o pessoal vai beijar a mão dele e nós não vamos?”. Eu falei pra esse padre e pros amigos que estavam lá: “Vamos entrar na fila?”, entramos na fila. Aí chega segurança lá, chega o pessoal que ia tirar fotografia. “Estão todos aqui pra tirar a fotografia?” “Não, aqueles lá foram pra outra fila” (risos). Ele foi lá e tirou a gente. A hora que estava chegando perto da fila nós corremos lá, agora não tinha jeito de tirar, né? Aí foi um momento marcante da minha vida que eu nunca mais vou esquecer. Ajoelhar em frente dele e falar assim: “Santidade, sucessor de São Pedro, eu te amo”, ele sorrir e me abençoar. Nossa, foi assim, maravilhoso. Nossa, inesquecível. E saber que ele é santo, São João Paulo II e eu tive essa graça de beijar a mão desse santo, nossa, pra mim é a coisa mais linda do mundo. Foi excelente. E o Francisco também, que eu fui beijar a mão dele, mas infelizmente não tenho essa fotografia, né? Que a menina que ia tirar a fotografia pra mim começou a chorar e não tirou a fotografia (risos).

P/1 – Você estava lá?

R – Eu estava numa missa lá em Roma só pros brasileiros, que foi na época da canonização de João Paulo II mas tem uma missa lá em louvor a São José de Anchieta, que era jesuíta. Então nós estávamos lá na igreja dos jesuítas e aconteceu do papa passar perto, eu sabia que ele ia passar perto, vi que algumas pessoas estavam beijando a mão dele: “Eu também vou”. Eu fui e pedi pra menina que estava do meu lado, deixei meu celular com ela: “Olha, tira uma foto”. Fui lá beijar a sua santidade: “Sua benção”, virei pra trás e a menina estava chorando. Falei: “Ai” (risos). Não tirou a fotografia. Ai meu Deus do céu (risos). Mas tá bom demais. O importante é que eu estive lá, beijei a mão dele, é um grande papa. Minha filha esteve na Jornada Mundial da Juventude aqui no Rio de Janeiro, ficou encantada com ele, e realmente eu tinha me encantado com ele também, né? Excelente papa. Mas o que marcou mais comigo mesmo foi o João Paulo, mais de 20 anos de pontificado dele. Nossa, eu tenho tudo marcado, guardado numa agenda minha desde que ele começou até o final dele.

P/1 – Como é que foi o dia do nascimento do seu primeiro filho? Você se lembra?

R – Lembro. O Júnior, nossa, foi um parto difícil, coitadinha, a minha mulher sofreu tanto quando ele nasceu. Mas nasceu perfeitinho, bonitão, forte. E antigamente não tinha muito, um bibelozinho pra por na porta quando nasce (risos). Eu peguei uma chuteira minha toda cheia de barro (risos) e coloquei lá na porta do quarto dela, aquela chuteira toda suja (risos). A família da minha mulher chegava lá: “Nossa, mas por que o Adilson fez isso? Não pode! Ó que coisa horrível!”, não quis nem saber, viu. Nasceu, tá a chuteirona dele lá. Só alegria quando o Júnior nasceu. Aí o Fernando quando nasceu, foi o número sete, os dois homens. Eu falei: “Agora tem uma coisinha melhor pra por, não posso por a chuteira que é chato agora”. Aí comprei um outro quadro falando do Corinthians também, uma criança saindo do ovo, o ovo abrindo assim e a criança saindo com a bandeira do Corinthians: “Graças a Deus nasci corintiano!” (risos), alguma coisa assim, então foi essa que eu coloquei na maternidade. E tive todas as minhas filhas lá, então, minha família é muito feliz, graças a Deus.

P/1 – E quais são seus sonhos hoje, Adilson, pro futuro?

R – Procurar não errar, procurar rezar muito pela família, pra família ser unida, porque o maior sonho meu é a família continuar unida até o final da vida. Família pra mim é o bem maior, você vê que a família é tão importante que Deus quando quis vir ao mundo, ele poderia ter vindo numa nave espacial do jeito que quisesse porque ele é o criador de tudo, né? Mas ele quis nascer em uma família, nasceu na família Nazaré, né? Escolheu a mãe, Nossa Senhora, escolheu um pai, São José, que por obra do Espírito Santo nasceu Jesus. Então pra mim família é importante demais. Rezo pela minha família, tem muitos casos de dificuldade na família? Tem. Minha família não é perfeita, muitos casamentos complicados com meus filhos, mas rezar e procurar que dê certo. Então é o que eu mais almejo. Comércio, procurar fazer as coisas certas, procurar não errar, pedir ao Espírito Santo pra ungir meu filho pra fazer os negócios aí, os dois filhos que estão mais à frente do escritório aqui. Rezar pros empregados todos também, pra que Deus abençoe e dê muita saúde pros empregados todos. Eu falo pra você que aqui é uma família, a Família Flora, todo mundo se dá bem, não tem muito... e ninguém quer pisar em cima do outro, não, e vamos tocando. Meu sonho é esse, procurar estar do jeito que estar, se estiver do jeito que está, mesmo sofrendo com as dificuldades está bom, mas se melhorar é melhor ainda, né? Se melhorar a situação do Brasil vai ser melhor pra todo mundo, pra você, pra você, pra mim, pra todo mundo vai ser melhor. Sair dessa crise toda, que estamos vivendo crise moral, crise que dá até medo hoje de derramamento de sangue, né? Dá até medo hoje porque tem as duas partes estão muito firmes no que estão pedindo, agora, tomara que não, né? Que Deus ajude que não aconteça, porque se acontecer vai ter abismo. Porque parece que existe um ódio entre essas duas facções, as que querem que o PT continue e os que querem que o PT não continue. Está muito triste, está muito perigoso, muito perigoso mesmo. Então tenho rezado muito pelo Brasil também, na igreja os padres têm pedido muito a nossa oração também, rezar pelo Brasil, pelo povo brasileiro, porque o Brasil não merece o que está passando, é um povo bom. Essa terra quando foi descoberta era uma terra abençoada, gente. O primeiro nome que se deu foi Terra de Santa Cruz, já pensando na cruz de Cristo. Então o povo brasileiro é um povo bom, a gente sai do Brasil e vê que o povo nosso é muito bom. E se o Brasil hoje é violento é porque infelizmente a droga tomou conta, a droga entrou, está acabando com a juventude. Você vê, a maioria dos crimes hoje, grande parte dos crimes hoje são jovens que cometem porque nem sabem o que estão fazendo. Ou então precisa de dinheiro pra comprar droga. Isso é triste. O Brasil hoje vive essa tristeza de droga, de saúde, de educação, segurança. Temos que pedir a Deus pelo Brasil, viu?

P/1 – E pra zona cerealista, o que você acha que vai ser, como você acha que vai ser o futuro dela, dos negócios seus?

R – Nosso futuro assim, pra melhorar mesmo precisa melhorar tudo. Precisa melhorar o poder aquisitivo, melhorar o poder de compra, melhorar os custos, acho que todo mundo pede isso, né? Porque quem não tem dinheiro não vai comprar. Não adianta você ter a mercadoria pra vender se não tem quem compra. E o cara não vai comprar porque não tem dinheiro. Não tem dinheiro porque ou não tem trabalho, ou porque ganha pouco ou porque o custo é alto, porque a moeda está muito desvalorizada. É uma série de coisas que precisa melhorar, viu? Eu não sei quando é que isso vai acontecer não. Infelizmente eu acho que esse ano vai ser muito difícil. Eu não também um cara que fica correndo atrás da notícia, nem de projeto, nem de plano porque eu não quero esquentar muito a minha cabeça também não. O que eu posso fazer eu faço, agora o que eu não posso fazer, perder o sono por causa disso também não vale a pena. Não é verdade?

P/1 – Agora o que é essa corrente que você está no pescoço, o que tem nela?

R – Eu tenho há mais de 20 anos isso aqui. Esse é um crucifixo aqui e esse símbolo é Cristo em grego, Χριστός. Esses dois aqui são escapulários de Nossa Senhora do Carmo. E essa medalhinha aqui é de Nossa Senhora de Guadalupe. Estive lá no ano passado. Eu estive em Fátima, estive em Lourdes, estive em Medjugorje, Aparecida, em vários santuários marianos, mas o que mais me impressionou foi Guadalupe. Quando Nossa Senhora apareceu para o índio Juan Diego, que é um santo hoje, São Juan Diego, ela fez um milagre que está estampado naquele manto dela, está a figura de Nossa Senhora lá. Eu já tinha visto tudo, essa figura linda demais, uma imagem. Eu fui lá conhecer porque me chamou muito a atenção um exame que a Nasa fez nesse manto. Nesse manto tem uma fita que está com Nossa Senhora aqui e nessa fita, naquele tempo lá, dois mil anos atrás, quem usava essa fita aqui era mulher que estava grávida. A Nasa foi fazer uma análise nesse manto. Colocou o termômetro lá, a temperatura daquele manto era sempre 36, 38 graus. Aquele manto lá é feito de um vegetal, existe há 500 anos aquele manto, sem se deteriorar, sem nada. A Nasa foi examinando, colocou o estetoscópio naquela faixa lá, que aquela faixa quem usava era mulher gráfica, colocou o estetoscópio lá e deu batida como se tivesse uma criança lá dentro, tum tum tum, batida de um coração. Quando você aproxiima uma luz dos olhos de Nossa Senhora, daquela imagem, ela contrai, a retina contrai, quando você afasta a luz ela volta ao normal. Eu encontrei uma freira lá, umas coincidências impressionantes. Aquela basílica lotada de gente, milhares de pessoas, eu vi uma freirinha no canto lá, eu tinha comprado várias coisas pra trazer pra São Paulo, então eu queria que o padre benzesse pra mim. Eu fui falar com essa freira então e ela começou a conversar em português. “Mas você é brasileira?” “Sou brasileira sim” “Mas a senhora é do sul do Brasil?” “Não, sou de um lugarzinho de Minas, eu sou de uma cidade pequenininha lá de Minas” “Ah senhora, eu também sou lá de outro lugar pequeno de Minas, eu sou de Itamonte. É pequenininha, lá do sul de Minas”. Ela falou: “Eu também!” (risos). Olha só, cara, eu fui encontrar uma pessoa de Itamonte em Guadalupe no México, lugar que tinha milhares de pessoas. Nossa! Umas coisas assim, impressionante. Mas essa cidade de Guadalupe, essa imagem de Guadalupe, eu nunca vi igual. É a coisa mais linda do mundo, eu fiquei apaixonado pelo que eu vi ali, apaixonado. E aumenta muito a fé da gente, são coisas sobrenaturais. Um tecido durar mais de 500 anos. A pintura não está colada no tecido, milímetros assim, um estetoscópio, o barulho da batida de um feto dentro do seio ali, a íris. Nossa. Lindo demais! Essa irmã até falou assim: “Adilson, Nossa Senhora está viva aqui!”. Onde ela apareceu tem as imagens dela e são aparições que a igreja confessa que aconteceram, todas essas, Lourdes, Fátima, Medjugorje, tudo isso. E essa aqui, não é mais, por ter um coração batendo ali, ter a íris, a temperatura, então aquele manto parece que está vivo ali, entendeu? De fato é maravilhoso.

P/1 – O que você achou de conversar com a gente?

R – Legal. Agora quero ver o que vai acontecer, o que acontece com isso?

P/1 – O que acontece?

R – É.

P/1 – A gente vai pegar alguns trechos e transformar em um livro. Mas você gostou, achou legal?

R – Gostei. Gostei. Tomara que você consiga tirar coisa boa daí pra dar certo na obra.

P/1 – Com certeza. Fica tranquilo, foi ótimo.

R – É?

P/1 – Foi sim. Obrigado, viu, seu Adilson.

FINAL DA ENTREVISTA

Dúvidas em trechos:

Enchentes que uma vez, poxa, eu fui sair da Casa Flora não deu pé pra ir na rua Santa Rosa, vinha uma correnteza terrível que acompanhava o rio Tamanduateí, eu tinha que subir pra pegar o _0:47:23_ pra ir pra casa, eu morava na Brigadeiro Luiz Antônio. – Página 15.

Todos os fregueses eram amigos, amigos de chegar: “Adilson, _0:48:25_” (barulho de aperto de mão forte), começar e cumprimentar assim. – Página 15.

Pra mim foi o top, nossa. Meu irmão, esse Adaílton que fica na fazenda hoje, eu estava na garupa da moto, _1:14:15_ bandeira. – Página 21.

R - _1:25:42_ a _1:25:46_, eu acho que tem gente que está conosco desde o começo. – Página 24.



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