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Criar

História

Lidando com a rotina

Sinopse

Natalia Theil viveu sua infância no bairro Vila Romana, em São Paulo, e conta como foi criar e manter uma rotina de tratamento e controle do diabetes, bem como o surgimento das dificuldades durante sua adolescência e vida adulta. Com uma vida agitada e sem horários fixos, Natalia descreve como é viver e gerenciar o diabetes em meio à correria do seu dia a dia.

História completa

“Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea e sou diabética”, eu utilizava muito essa frase na minha infância e na escola como um álibi para conseguir novos amigos.

Meu nome é Natalia Teil, eu nasci em São Paulo, no dia 29 de agosto de 1987. Minha mãe é mãe solteira e bem nova, ela engravidou novinha quando morava com os pais. Trabalhadora, maravilhosa, difícil, ela é bem difícil, mas é mãe né? Toda mãe tem aquele lado mais sério. Ela é bem ativa, adora sair, adora me ligar todo dia, gosta que eu vá visitar e gosta de vim na minha casa porque eu moro na Frei Caneca e ela gosta de uns barzinhos que tem na minha rua.

Eu tenho uma irmã gêmea que chama Priscila e teve uma época, na infância que a minha mãe vestia eu e minha irmã iguais e não tinha problema, mas depois que cresce, aí vai falando: “Não, mas a gente já é igual, você já tem o mesmo tênis, já tem as mesmas coisas” e começa a questionar o porque a gente teve sempre muitas coisas parecidas. Teve uma época que a gente andava tudo junto, dividia a roupa e teve a hora que começou a se separar, porque nós duas quisermos. A gente fazia tudo junto e aí, quando você vai crescendo, você fala: “Não quero mais, chega. Eu já vejo você todo dia, já durmo com você, praticamente”, porque a gente tinha um beliche, então a gente fazia muita coisa junta. Aí quando mudamos para a escola pública, lá pela quinta série, pedimos para ficar em salas separadas e a gente foi se separando, cada uma seguiu o caminho de uma personalidade. Eu brincava de Barbie com ela, mas eu também tive a época do Power Ranger, que ela não teve, ela não gostava do Power Ranger, então já foi daí que começou a se separar. Eu queria ficar jogando bola e ela não queria ficar jogando bola comigo. Quando começou a criar mais a personalidade, eu comecei a ter os meus brinquedos que eram totalmente diferentes. E depois, começou a acrescentar umas coisas novas como o clube. Íamos juntas para o clube, mas ela fazia vôlei e eu fazia futebol e handebol. Então, a gente começou a se separar com o tempo, mesmo.

Eu morei a maior parte da vida, até os 24 anos na casa onde a minha vó morava. Na época morava a minha vó, meu vô, eu, minha irmã e minha mãe. Ela fica na Rua Caio Gracco, é Vila Romana, entre a Lapa e a Pompeia. E tinha o meu tio também, ele morreu quando eu tinha uns quatro anos, então, eu não lembro de muita coisa dele, mas eu lembro dele buscar a gente na escolinha de moto, uma lembrança gostosa. Depois disso, meu avô morreu quando eu tinha uns sete anos, então não lembro também muita coisa, ele lembro que ele era bem sério, falavam que ele era um típico alemão. A minha vó sempre foi mais presente. Ela era dura também, mas ela bajulava, coisa de vó. Meus avós eram muito ativos, a maior parte do tempo eu e minha irmã ficávamos com eles, porque a minha mãe trabalhava.

Antes da primeira série e depois da creche a gente estudou num parquinho que tem na esquina da casa da minha mãe e da minha vó, onde eu morava. Ficamos lá até a idade para ir para a primeira série. Falavamos que era um parquinho, porque a maior parte dele era um parque mesmo. Depois disso, fomos para uma escola particular, minha mãe conseguiu uma bolsa nessa escola e era uma escola pequenininha, ficava bem na Pompeia, o nome era Externado 15 de Outubro e ficamos 04 anos lá, da primeira até a quarta série. Depois teve um período que minha mãe não pode mais pagar a escola e eu e minha irmã fomos para a escola pública que ficava na Rua Faustolo com a Tibério. E no começo foi bem diferente, porque saímos de uma escola pequena para a escola pública que tinham muitas salas, era outro mundo. Era uma escola muito legal e quando eu estava no meio da quinta série, quase pra sexta foi quando eu descobri a diabetes. Eu comecei a ter muitas câimbras, não conseguia voltar da escola mais, mas eu não fazia ideia do que era, minha vó era diabética já, e o meu vô também era, só que o meu vô já tinha morrido. Eu ajudava já a minha vó, já sabia de algumas coisas, ajudava ela a pegar insulina, às vezes, aplicava insulina nela, enfim, fazia ponta de dedo nela, só que na hora que começa a acontecer, você não assimila, porque começou do nada, eu estava bem em um dia e no outro, eu comecei a acordar três vezes de noite para ir ao banheiro, comecei a ter câimbras, e em um período de uma semana, emagreci dez quilos. Nesse mesmo período, eu tive um problema de vermes com uma lombriga, então a gente ficou preocupada com isso, em nenhum momento chegamos a pensar que era diabetes, mesmo com o contexto todo da minha vó e do meu vô. Fomos ao médico fazer exames e ele pediu de sangue e de fezes. No exame de fezes não deu nada, só que no exame de sangue deu uma alteração. Fui encaminhada para um endócrino e no dia da consulta fizemos uma ponta de dedo e deu 495. E eu já saí do consultório com uma receita pra comprar insulina. Como eu já ajudava a minha avó, no contexto geral, quando você é nova, você fala: “Ah tá bom, vou fazer só o que a minha vó faz, que é tomar insulina”. Você não entende que tem uma questão séria por trás, você só acha que é legal.

Só que nessa época, era super atrativo, eu utilizava como álibi para conseguir novos amigos. Eu chegava à escola, tirava meus medicamentos e aparelho e as pessoas já faziam assim: “Nossa, o quê que você vai fazer?”, aí furava o dedo, falava: “Agora vou tomar insulina, aí tomava insulina e todo mundo queria ser meu amigo. Antes eu tinha a desculpa: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea”, aí todo mundo já faz: “Nossa, que legal que você tem uma irmã gêmea”, aí passou a ser: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea e sou diabética”, aí: “Nossa, mas como que você faz? Você tem que tomar isso?”. Era muito engraçado.

Depois de um tempo eu conheci a ADJ e ficou mais fácil quando eu fui até lá, porque eu encontrei um monte de gente tão nova quanto eu, da mesma idade ou mais velha, que tinha acabado de descobrir ou já sabiam, mas que estavam na mesma situação que eu. Eu comecei a frequentar, tem acompanhamento de uma médica ou enfermeiro para dar orientação de como ensinar o melhor lugar para aplicar a insulina, como é que você vai furar o dedo, coisas básicas. Eles te recebem para te explicar que o seu mundo não tá perdido, você vai continuar, mas só que vai ser um pouquinho diferente. E me falaram que eles faziam um acampamento só para criança diabética, de nove a 16 anos. Você ia, ficava sete dias num acampamento super conhecido, chamado Nosso Recanto, com acompanhamento de médico, psicólogo se precisar, enfermeiro, monitores, professor de Educação Física, dentista e tudo. E aí, eles vão te mostrar como o seu dia a dia pode ser, mostrando que você pode ter um dia normal com a diabetes, comendo normal, fazendo controle normal e o acampamento funciona mais como educacional mesmo. Informações que você não faz ideia e que fazem toda a diferença. E eu fui, paguei um valor simbólico que era a ajuda de custo pra tudo, porque você vai fazer exame, você não leva a sua insulina, tem a insulina lá, comida e outros fatores. Nesse primeiro ano que eu fui, eu não fiz muitos amigos, eu conversei com todo mundo, mas eu não fiquei com alguém marcado, sabe? Eu participava dos grupos na Associação, de sábado, fiz vários amigos, virei monitora do acampamento, eu fui dois, três anos como monitora, aí foi quando eu comecei a fazer ativamente o trabalho de voluntária, passava o dia inteiro lá na Associação. A Associação era perto do palmeiras, que era onde eu frequentava também, então eu ia na Associação, ficava um pouco lá, depois, ia para o Palmeiras e depois para casa.

Sobre a escolha da minha faculdade, teve uma época na escola que eu gostava muito de desenhar. Eu tive uma fase no terceiro colegial que eu cheguei a ter um pouco de complicação na reta final do terceiro ano do colegial, de pegar nota vermelha e nessa época, minha irmã já fazia cursinho, porque a minha irmã queria Medicina e a minha mãe não conseguia pagar o meu cursinho e o cursinho dela. Então eu falei pra minha mãe: “Paga o da Priscila e quando eu terminar o colégio, no ano seguinte do colégio, eu fico só com o cursinho, ela já vai ter feito um ano de cursinho”. Foi então que eu arranjei um emprego de telemarketing e comecei a conhecer as faculdades, não fazia ideia do que eu ia prestar. E naquelas revistas que tem as profissões eu achei um curso de Desenho Industrial e lembrei de uma visita na escola que eu fiz na FAAP, uma exposição na FAAP e no andar de baixo da FAAP, era onde ficavam as salas de desenho industrial. Eu lembrei desse dia e comecei a pesquisar, só que descobri que o curso da FAAP era muito caro e que a chance de bolsa era muito pequena. Por isso, comecei a pesquisar onde eu poderia fazer o tal do Desenho Industrial e encontrei o curso do Mackenzie, que eu sabia que era caro também, mas que tinha mais chance de bolsa. E enquanto eu trabalhava no telemarketing, comecei a fazer cursinho e pagar o meu cursinho por causa do telemarketing. Com quatro meses de cursinho, veio a segunda chamada no vestibular do Mackenzie, porque eles têm um vestibular no começo do ano e no meio do ano e eu me inscrevi no vestibular. Saiu os resultados, na primeira chamada, não tinha o meu nome, aí um dia, eu cheguei lá no etapa e falei: “Moço, pode ver onde tá o meu nome?” ”Parabéns, você passou”, eu: “Hã?” “Você passou na segunda chamada. Aí, liguei em casa, falei: “Oi gente, parece que eu passei no vestibular”. Aí foi quando eu comecei. Fiquei quatro anos e meio lá e hoje trabalho com isso e gosto muito.

Hoje meus sonhos são de viajar, estudar inglês, porque eu não tive a oportunidade de estudar até então, casar, ter um cachorro e seguir a vida. 

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Publicado em 08/11/2016 por

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P/1 – Natalia, vamos começar com o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

R – Natalia Teil, eu nasci em São Paulo, mesmo, aqui na capital, 29 de agosto de 87.

P/1 – Natalia, e o nome dos seus pais?

R – Minha mãe é mãe solteira, então não tenho registro de pai. Só tenho nome de mãe, então é Patrícia Teil.

P/1 – Fala um pouquinho da sua mãe, descreve ela pra gente, um pouquinho da sua relação com ela.

R – Hoje é um pouco mais distante porque eu moro sozinha já faz uns cinco anos, mas a minha mãe é bem nova, minha mãe fez 50 anos na semana passada, minha mãe engravidou bem nova e morava com os pais e tinha um namorado, enfim, trabalhadora, maravilhosa, difícil, ela é bem difícil, mas é mãe, né? Toda mãe tem aquele lado mais sério, mais cobrança, ela é super ativa, ela adora sair, ela adora ligar todo dia, ela gosta que eu vá visitar, gosta de vim na minha casa, porque eu moro na Frei Caneca, ela gosta de uns barzinhos que tem na Frei Caneca e por aí vai…

P/1 – Você tem irmãs, irmãos?

R – Eu tenho uma irmã gêmea.

P/1 – Nossa, que interessante! Fala o nome dela.

R – Ela chama Priscila.

P/1 – Natalia, e como é que foi a infância de vocês, ainda mais tendo uma irmã gêmea? Conta um pouquinho, o quê que você se lembra daquele período? Suas primeiras lembranças.

R – Tinha vezes que a gente brigava porque, tinha uma época que a minha mãe vestia a gente igual e aí, não tinha problema, mas depois que cresce, aí vai falando: “Não, mas a gente já é igual, você já tem o mesmo tênis, já tem o mesmo coiso, e aí, você vai lá e coloca a mesma borrachinha no aparelho”, porque a gente teve sempre muitas coisas parecidas, por exemplo, a gente usa óculos, a gente tem o grau parecido, o grau só inverte o lado. Quando a gente pôs o aparelho, as duas colocaram, então teve tudo isso, sabe, e aí, teve uma época que a gente andava tudo junto, dividia a roupa e tal e teve a hora que a gente começou a se separar, que ela também quis e eu também quis, tipo: “Chega, a gente já estuda na mesma sala…”, a gente estudava na mesma sala quando gente estudava numa escola particular que era minúscula, a gente estudava na mesma sala até a quarta série, não aguentava mais e não tinha outra sala, porque era uma escola minúscula, então a gente se via em casa, na escola, fazia lição, fazia tudo junto e aí, quando você vai crescendo, você fala: “Não quero mais, chega. Eu já vejo você todo dia, já durmo com você, praticamente”, porque a gente tinha um beliche, então a gente fazia muita coisa junta. Aí quando a gente foi para a escola pública, lá pela quinta série, a gente foi na reunião e falou para a diretora: “Olha, a gente vai vim, tal, mas a gente não quer ficar na mesma sala, a gente quer ficar em turmas diferentes porque não dá” e aí, a gente foi se distanciando, não se distanciando, mas a gente foi se separando, sabe, cada uma seguiu o caminho de personalidade e por aí foi.

P/1 – Antes da gente chegar lá na escola, deixa eu só voltar um pouquinho. Onde vocês moravam?

R – Morava, eu morei a maior parte da vida, até os 24, 25 anos na casa onde a minha vó morava, então, morava a minha vó, meu vô, eu, minha irmã e minha mãe.

P/1 – Onde que é essa casa?

R – Ela fica ali na Rua Caio Gracco, é Vila Romana, entre a Lapa e a Pompeia.

P/1 – Fala um pouquinho dos seus avós, porque se sua mãe teve você nova e morava com os pais dela, eu imagino que os seus avós eram muito presentes na sua infância, né?

R – E tinha o meu tio também, mas é que o meu tio morreu quando eu tinha uns dois, morreu em 91, uns quatro anos, quase quatro anos. Então, eu não lembro de muita coisa dele, eu lembro de alguma coisa dele buscar a gente na escolinha de moto, porque eu não sei, mas eu tenho essa lembrança. A única lembrança é disso, da moto dele e tal. Ele morreu num acidente de moto. E aí, depois disso, ficou só nós cinco, eu, a minha avó, meu vô. O meu vô morreu quando eu tinha uns sete anos, então não lembro também muita coisa dele, ele era bem sério, eles falavam que ele era um típico alemão, mesmo, sabe? Porque a descendência da família dele é alemão com húngaro, então ele era muito sério, ele ria, mas ele era muito sério, na maior parte do tempo ele era bem sério. Ele trabalhava num clube que fica perto do Pico do Jaraguá, chama Clube Campestre do Jaraguá, ele era do almoxarifado, lá, então a gente ia buscar ele, ele tinha uma Belina, então a gente ia buscar ele. A minha vó sempre foi mais presente, porque a minha vó morreu faz uns oito anos, sete, oito anos, então é mais recente isso. Então a minha vó era dura também, mas ela bajulava, coisa de vó, né? Você chegava lá: “Vó, preciso de dinheiro para fazer isso”, ela ia lá e dava, aí ela ficava lá e brigava, eles eram muito ativos, a maior parte do tempo era com eles, porque a minha mãe trabalhava, né?

P/1 – Sua mãe fazia o quê?

R – Minha mãe trabalhou uma época na Folha de São Paulo, acho que eu não sei que parte que ela trabalhou na Folha de Saio Paulo, mas eu era bem nova. E aí depois, ela trabalhou na Credicard, ali na esquina da São João com a Ipiranga, como atendimento. Ela ficou quase dez anos lá, e aí, ela teve tendinite e teve que operar, ela operou os dois pulsos e aí, ela é hoje autônoma e aposentada por LER, né, por Esforço Repetitivo.

P/1 – Você falou que fazia muita coisa com a sua irmã gêmea, que era tudo igual, etc., mas conta um pouquinho dessas coisas. Do quê que vocês brincavam, o que vocês faziam dentro de casa no ambiente familiar, ou vocês tinham algum hábito, algum costume de…?

R – A gente ia muito no clube, a gente não brincava tanto, a gente brincava uma época. É que assim, teve uma época em que eu brincava de Barbie com ela, mas eu tive a época do Power Ranger, que ela não teve, ela não gostava do Power Ranger, então, teve uma hora que começou a se separar, mesmo, por exemplo, eu queria ficar jogando bola e ela não queria ficar jogando bola comigo, mas a gente tinha jogos de tabuleiro, então a gente jogava junto, a gente jogava Stop, desenhava. Ela não era muito fã de desenhar, eu gostava já mais de desenhar, mas a gente fazia essas coisinhas, quando começou a criar mais a personalidade, eu comecei a ter os meus brinquedos que era totalmente diferente, né, Power Ranger não conversa com a Barbie dela, mas a gente tinha pipoqueira, a gente fazia praticamente tudo juntas quando era menor, até criar personalidade que aí, a gente vai se distanciando, sabe? Aí depois, a gente começa a acrescentar umas coisas novas, tipo, clube. “A gente vai junta pro clube, mas eu não vou fazer a mesma coisa que você”, porque ela fazia vôlei e eu fazia futebol e handebol, mas a gente ia o caminho inteiro no clube, esperava até a hora, depois, voltava juntas. Então, a gente começou a se separar com o tempo, mesmo.

P/1 – O quê que você tem mais saudades da infância?

R – De ficar em casa, mais tranquila, né? De não ter cobrança, de chegar em casa da minha vó, do meu vô.

P/1 – Qual que é a lembrança ou uma das lembranças mais especiais que você tem dessa época? Especifica, não um hábito. Uma passagem, um episódio…

R – Putz! De cabeça assim…

P/1 – Algumas, não precisa ser uma especifica. Uma que se destaque na sua recordação.

R – Tem esse negócio do meu tio, que não sei o porque, mas eu lembro muito nítido disso, dele buscar a gente de moto. De infância? Acho que da comida da minha vó, talvez. Não consigo lembrar de alguma coisa especifica. Teve uma vez que ela brigou comigo porque eu dei uma resposta grossa para a minha mãe e ela me bateu e foi a única vez que ela me bateu, foi pesado, tipo, mão pesada, sabe? (choro/emoção) Desculpa.

P/1 – E a escola? Me fala das lembranças da escola. Quando você foi pra escola com a sua irmã, você já começou a falar um pouquinho disso, que vocês eram da mesma classe, depois mudaram de classe, mas fala primeiro da primeira escola que vocês foram estudar. Qual é essa escola e o quê que você traz de lembranças de lá?

R – Tem um parquinho que era tipo uma creche, não, depois da creche vem o… eu nunca lembro, antes da primeira série entre a creche e a primeira série…

P/1 – Tipo um maternal, assim, alguma coisa assim? Jardim?

R – Talvez seja isso, mas é antes da primeira série, depois da creche. A gente estudou num parquinho que tem na esquina da casa da minha mãe e da minha vó, onde eu morava. E aí, a gente estudou lá, mas ficou até idade para ir para a primeira série. Então, a gente ficou lá bastante tempo e ele era um lugar enorme assim, a gente falava que era um parquinho, porque era… a maior parte dele era um parque mesmo, aí tinham uns trenzinhos, tinha uma quadra de futebol, tinha uma estátua que todo mundo queria ficar na estatua, não fazia sentido nenhum, porque era uma estatua de uma criança, mas todo mundo queria ficar pendurado na estátua. Tinha um tipo bolsão de areia, que todo mundo ficava, eu lembro que a gente tinha uma hortinha também. Eu não lembro se a gente estudava na mesma sala nesse lugar, porque como é público, talvez não, talvez a gente não tenha ficado na mesma sala, eu lembro das refeições, do café da manhã, de alguns amigos e por coincidência, foram amigos que eu estudei depois ainda, no colégio que não são meus amigos mais, hoje, mas eu tenho eles no Facebook, tal, se precisar a gente conversa, mas não somos amigos que estão na rotinha do dia a dia, às vezes, encontro… quando eu morava coma minha mãe, a gente encontrava as professoras depois que cresceu, e elas lembravam da gente. Aí depois disso, a gente foi para uma escola particular, minha mãe conseguiu uma bolsa numa escola particular, mas era uma escola pequenininha, ficava bem na Pompeia.

P/1 – O nome dela?

R – Externado 15 de Outubro, acho que era isso. E aí, ele ficava só… eram umas lojas embaixo, aí você subia uma escada, ele ficava só na parte de cima, assim, só que era grande, porque tinha uma quadra, tinham as salas, a cantina, o refeitório era… era um lugar grande, um galpãozão, só que só na parte de cima. Aí, a gente estudou por quatro anos lá, da primeira à quarta série. A minha mãe tinha bolsa por causa das duas, senão ficava muito pesado, aí tinha uniformezinho, bonitinho, ia de perua, voltava de perua.

P/1 – E você estudava junto com a sua irmã, na mesma sala?

R – Aí, nessa época aí…

P/1 – Teve alguma professora que foi mais marcante?

R – Eu tenho uma amiga da minha mãe que era uma professora minha, não lembro se ela foi nessa escola, mas eu acho que foi e eu tinha uma outra professora que a filha dela estudava com a gente. Eu não lembro o nome dela, acho que era Mara. Ela dava acho que aula de Geografia, de História, alguma coisa assim, eu não lembro muita coisa, eu tenho memórias mais de coisas especificas, sabe? Tipo, local da escola, como eu ia, que eu gostava quando a perua atrasava, porque eu ficava brincando mais um pouco. Não consigo lembrar das pessoas. Eu não lembro nem das pessoas que eram da minha sala.

P/1 – E depois, quando você mudou de escola, na quinta série?

R – Aí sim, eu lembro mais. Que aí, eu fui para a escola pública. Minha mãe ficou um pouco apertada de grana, porque ela era mãe solteira, nunca recebeu pensão, nada e aí, ela conversou com a gente, disse que não ia dar mais pra pagar e aí, a gente foi para a escola pública que ficava na Rua Faustolo com a Tibério. E aí, a gente chegou lá… só que é outro mundo, né? Você sair de uma escola particular, que você tá numa sala, você chega numa escola pública que você tem cinco, seis salas e tem muita gente. E aí, quando eu cheguei lá, o horário que tinha disponível lá era só… a quinta série só tinha à tarde. “Como assim, a tarde só? Eu preciso do horário da manhã”, aí o pessoal: “Não, é muito disputada, eu não tenho horário da quinta série de manhã, só a tarde”, aí a gente começou a estudar lá e fez um monte de amiguinhos, era uma escola muito legal, porque lá, eles tinham classe especial, então tinham crianças altistas lá, também. Eles tinham as salas deles, mas na hora do intervalo, eles faziam o intervalo com a gente, isso era muito, muito legal. E aí, quando tava no meio da quinta série, quase pra sexta, acho que foi quando eu descobri a diabetes. Eu era muito ativa na Educação Física, então, eu conversava muito com todo mundo da sala, mas mais com os meninos, porque eu jogava futebol no time dos meninos. Então, eu tinha muito amigo menino, muito! Aliás, eu acho que os meus melhores amigos são meninos, até hoje. E aí, quando eu descobri a diabetes, a gente pediu um laudo e pediu uma alteração para o período da manhã por causa dos médicos, porque senão, eu ano ia conseguir ir no médico. Então, a gente pediu pra escola mandar a gente para o horário da manhã. Aí, a partir da sexta série, a gente foi estudar de manhã.

P/1 – Vamos só entender melhor essa passagem da sua vida. Como que se deu essa descoberta, o diagnóstico do diabetes?

R – Eu comecei a ter muitas câimbras, não conseguia voltar da escola mais, mas eu ano sabia ainda o que era, minha vó era diabética, já, e o meu vô também era, só que o meu vô já tinha morrido. Eu ajudava já a minha vó, já sabia de algumas coisas, ajudava ela a pegar insulina, às vezes, aplicava insulina nela, enfim, fazia ponta de dedo nela e só que na hora que começa a acontecer, você não assimila, porque começou do nada, eu tava bem num dia e no outro, eu comecei a acordar três vezes de noite pra ir no banheiro, comecei a ter câimbras, e aí, num período de uma semana, uma semana e meia, emagreci dez quilos e nesse mesmo período, eu tive um problema de vermes com uma lombriga, então a gente ficou preocupada com isso, tipo em nenhum momento a gente chegou a pensar que era diabetes, mesmo com o contexto todo da minha vó e do meu vô. Minha mãe ficou: “Meu Deus, tem alguma coisa ainda ai”, e aí, a gente foi no médico fazer exames e aí, o médico pediu exame de sangue e de fezes, e aí, no exame de fezes não deu nada, só que no exame deu uma alteração. Aí ele falou: “Deu uma alteração, é melhor você procurar uma endócrino”, porque esses exames, normalmente, você faz primeiro no clinico e aí, ele não dá o diagnóstico, ele te encaminha para o endócrino. E aí, eu fui um dia à tarde, minha mãe falou: “A gente vai lá no médico, lá na Brigadeiro, tá bom?”, eu falei: “Tá bom”, aí eu comprei um chocolate, peguei uma coca e fomo indo, como se nada tivesse acontecido. E aí, a gente chegou lá, esperamos, esperamos, só que não tinha mais… não estava tendo câimbra naquele dia, nada, estava só tomando a coquinha. E aí, chegou, a mulher falou: “Deu uma alteração, a gente vai fazer uma ponta de dedo agora e se der mais de tanto…”, acho que era 490, eu não sei nem porque hoje… hoje, eu fico pensando porque 490, se desse acima de 240, você já podia me medicar, moça, mas ela falou 490’. E aí, deu 495, aí eu sai de lá com uma receita pra comprar insulina e ela falou: “Você vai começar a fazer isso, isso e isso”. Era uma insulina que poucas pessoas usam hoje, não sei, talvez, mais as pessoas tipo 2 que é uma insulina bem antiga, chama NPH Humana e ela tem um pico diferente, tal, são poucas as pessoas que devem usar. Eu, por exemplo, não conheço nenhum amigo meu que usa ela. A minha irmã usava… a minha irmã usa ela, ainda, minha irmã usa ela, mas é porque o tratamento dela lá em Brasília… vou chegar no ponto que ela descobriu a diabetes depois. Tratamento dela em Brasília é diferente. A minha médica aqui é mais atualizada, mais por dentro de tudo. E aí, eu descobri e comecei a tomar essa insulina.

P/1 – Mas aí, você descobriu, como que a médica deu o diagnóstico pra você, para a sua mãe? Você era uma criança, né?

R – Ela falou só que teve uma alteração e que a partir de agora, eu ia ter que tomar insulina. Só que como eu já ajudava a minha avó, então, no contexto geral, quando você é nova, você fala: “Ah tá bom, vou fazer só o que a minha vó faz, que é tomar insulina”. Você não entende, acho que ainda, sei lá, eu tinha 15, 14, 15 anos, você não entende ainda que tem um negócio sério por trás, você só acha que é legal, claro, você vai ter que… nessa época aí, o que falaram pra mim é que eu teria que cortar todo o açúcar da minha alimentação, que no começo, eu teria que tomar cuidado, tipo não é assim: “Hoje, vamos comer isso”, sabe? Não poderia ter mais a coca normal, teria que ter que trocar a coca por outro refrigerante, teriam exceções, festinha de criança, mas naquele momento, era tipo: “Não pode”, sabe? E a, eu voltei pra casa, comprei insulininha, acho que eu comprei um aparelhinho, ganhei um aparelhinho do amigo da minha mãe, porque esse aparelhinho na época era caro, ele continua meio caro, ainda, mas naquela época era mais caro, então acho que um amigo da minha mãe, que era um vereador, deu o aparelhinho pra gente e aí, eu comecei. Só que nessa época, era super atrativo, sabe, eu chegava na escola, tirava aquilo, as pessoas já faziam assim: “Nossa, o quê que você vai fazer?”, aí furava o dedo, falava: “Agora vou tomar insulina, aí tomava insulina e todo mundo queria ser meu amigo, eu usava isso como: “Porque eu sou diabética e aí, eu faço isso…”, antes eu tinha a desculpa: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea”, aí todo mundo já faz: “Nossa, que legal que você tem uma irmã gêmea”, aí passou a ser: “Oi, eu sou a Natalia, tenho uma irmã gêmea e sou diabética”, aí: “Nossa, mas como que você faz? Você tem que tomar isso?” “Tenho, agora eu tenho que furar o dedinho para ver isso, aí vou no médico”, e aí, eu comecei… aí começa também, uma ajuda da minha mãe, que a gente foi no postinho de saúde, porque as pessoas do postinho de saúde falaram que tinha um grupo de adolescentes com diabetes, era tipo uma ONG, uma associação, na verdade. E aí, falaram: “Vai até lá”, então ficou mais fácil quando eu fui até lá, porque eu encontrei um monte de gente tão nova quanto eu, da mesma idade, mais velha, que tinha acabado de descobrir ou já sabiam. Eles fazem até café da manhã no seu primeiro dia lá, para entender mesmo o seu processo, porque depois de muito tempo que eu vi que na real, minha adaptação foi muito tranquila em relação a isso, mas tem criança que não aceita. Eu aceitei tomar… eu acho que na primeira vez, talvez não, mas depois de um mês, eu já tava aplicando eu sozinha, porque eu já aplicava na minha avó, então pra mim já tava ok, entendeu? Só passavam as orientações e eu aplicava mesmo e eu achava aquilo o máximo.

P/1 – E como que foi nessa associação, o que você descobriu lá? Você viu pessoas que estavam vivendo situações parecidas com a sua, mas fala um pouco mais sobre isso, o quê que te surpreendeu lá, teve alguma amizade mais forte que você fez ali, ou algum caso que tenha sido mais emblemático naquela situação?

R – Eu comecei a frequentar lá, então as primeiras vezes que eu fui, eu fui com a minha mãe, aí a gente fez o café da manhã, que é normal, que é… eles falam que é a primeira atividade da Associação, lá, faz um café da manhã, as pessoas se conhecem, tudo normalmente deles tem acompanhamento de uma médica ou enfermeiro para dar uma orientação de como ensinar o melhor lugar para aplicar a insulina, como é que você vai furar o dedo, coisas básicas. Eles te dão… eles te recebem para te explicar que o seu mundo não tá perdido, você só vai continuar, mas só que vai ser um pouquinho diferente. E aí, logo que eu fui pra lá, em julho, foi mais ou menos isso, em julho que eu descobri, eu fui em julho, agosto e aí me falaram que eles faziam um acampamento só para criança diabética, de nove a 16 anos. Aí, você ia, fazia sete dias lá num lugar maior legal, num acampamento super conhecido, chamado Nosso Recanto, aí você fica sete dias lá com acompanhamento de médico, psicólogo se precisar, enfermeiro, monitores, professor de Educação Física, dentista e tudo. E aí, eles vão te mostrar que o seu dia a dia… é que assim, seguindo a regra, o seu dia não vai ser que nem o dia do acampamento, mas é para mostrar que você pode ter uma dia normal com a diabetes, comendo normal, fazendo controle normal e ele funciona mais como educacional mesmo, então tipo, a criança chega lá, eles vão explicar porque você precisa manter o controle agora, porque o que vai acontecer mais pra frente é pior do que pode acontecer agora, então, você precisa manter porque o negócio é a longo prazo. Então, você manter um controle agora, o quê que acontece se você tiver esse controle e machucar o pé, quando comprar um sapato? São coisas que você não faz ideia e faz toda a diferença. Então é isso. Você vai pra lá, você tem uma rotina e eu fui. Eu paguei acho que 300 reais que era a ajuda de custo pra tudo, porque você vai fazer exame, sei lá, sete, oito vezes por dia, você não leva a sua insulina, tem a insulina lá, comida e tal e eu fui, só que para mim foi bem estranho fazer amizades num lugar onde eu não tinha o álibi, que era a diabetes, então eu fiquei um pouco travada no começo. Aí, fiquei num quarto com umas meninas, então conheci os monitores e tal. Nesse primeiro ano que eu fui, eu não fiz muitos amigos, eu conversei com todo mundo, mas eu não fiquei com alguém marcado, sabe? Porque eu tava meio tímida, era nova, não tinha o álibi, viajar sozinha, tudo isso, sabe? Mas aí, você começa a conhecer as pessoas, aí você conhece a pessoa da Associação, você conhece a médica, foi onde eu conheci minha médica, que não era a minha médica na época, mas foi onde eu conheci ela e por aí, vai. Aí na segunda vez, como era de nove a 16, eu podia, sempre que desse, eu podia ir. Desde que eu tivesse nos critérios deles, porque também é muita gente se escrevendo e não dá pra ir todo mundo, então eles filtram, tipo, quem nunca foi tem prioridade, tal, aí no ano seguinte, eu continuei nos grupos na Associação, de sábado, eram os grupos que tinham de jovens no sábado, que é a mesma coisa, a gente vai conversar, vai falar sobre alimentação e tal e aí, na segunda vez, sim, aí eu lembro de tudo, fiz vários amigos, eu tenho vários, vários e vários amigos, virei monitora do acampamento, eu fui dois, três anos como monitora, aí foi quando eu comecei a fazer ativa o trabalho de voluntário, passava o dia inteiro lá na Associação. A Associação era perto do palmeiras, que era onde eu ia, então eu ia na Associação, ficava um pouco lá, depois, ia para o Palmeiras e depois, ia para casa.

P/1 – E nessa interação com outras crianças, adolescentes como monitora, ou mesmo antes de virar monitora nesse acampamento ou na Associação, de modo geral, quais experiências ou histórias você conheceu lá que foram relevantes para a sua vida, para a sua convivência com o seu próprio diabetes?

R – Eu tava contando que eu tenho uma amiga que depois que eu conheci ela, ele virou um dia pra mim e falou assim: “Eu tô fazendo uns exames e tal, deu uma alteração…”, eu conheci ela no acampamento, falei: “Mas é perigoso?” “É um pouco porque é na vista”, falei… ele tem 23 anos e 22 de diabetes e nessa época aí, eu era um ano mais velha que ela, dois anos, a menina tinha 23 anos e 22 de diabetes. Aí, você fala: “caramba, se eu tava achando ruim que a coca diet era ruim, imagina ela que há 22 anos não tinha nada disso, nem 1/3 do que tem hoje”, porque você reclama, você chega numa sorveteria, você não encontra nada, é difícil, hoje você tem lugar específico pra ir, vai ter algum sabor lá que vai te… mas imagina há 22 anos atrás? Que vinha tudo de fora, importado, que ninguém tinha acesso a nada. Nem sei que insulina que ela tomava 22 anos atrás, sabe? Tinha uns amigos assim, vi muita criança, bebê ir até a Associação tomar insulina, porque a mãe não conseguia dar, acho que a mãe não tinha coragem de dar, criança de colo. Tem muita criança que não consegue aplicar insulina, que não tem… tem uma trava que tem que fazer tratamento, tem que ter acompanhamento, tem que conversar, vai viajar, tem que viajar com alguém porque não consegue aplicar insulina. Eu tenho uma amiga também que a gente não conversa tanto, hoje, que além da diabetes, ela tem uma deficiência na perna, então ela foi operada… não sei, acho que mais de 15 vezes, já. Ela tem um problema bem na bacia, desse osso que liga com a bacia, então ela foi uma pessoa que eu fiquei bem próxima também porque sempre tudo tava ruim, sabe, já não basta isso, ainda tem isso, muita dor na perna, enfim… tem um amigo meu que a mãe dele morreu logo depois que a gente voltou do acampamento e por aí vai. Esses são os meus amigos que eu lembro muito mas que eles não estão tão presentes na minha vida, mais, mas eles estão ali, conversa, liga…

P/1 – O quê que você mais aprendeu lá convivendo, frequentando a Associação?

R – Acho que conhecer seu corpo, conhecer como é que você vai reagir com tal alimento, conhecer o que pode acontecer, mesmo você sabendo de tudo isso, você ainda faz tudo errado e por aí vai, eu acho que é conhecer mesmo a diabetes e entender o quê que isso vai fazer na sua vida.

P/1 – E o quê que você acha que você fez de diferença lá, assim, algum momento, algum gesto seu que te fez pensar: ‘fiz a diferença para a vida de alguém ou ajudei alguém como já fui ajudada na minha vida convivendo com diabetes’?

R – No último ano que eu fui como acampante, era o último mesmo porque estava no limite da idade, já, e eles… foi quando eu conheci essa minha amiga que tinha deficiência. Então, a gente ficava… e é o último, você já tá um pouco mais velha, você não tem mais saco pra atividade, tipo, depois do almoço tinha atividade, sabe? Dança, teatro, taco ou jornal. Moço, eu quero dormir, sabe, porque você tá ficando um pouco mais velho, mesmo, essa é a sua rotina da escola, chegava da escola e dormia depois do almoço, então, eu já tava mais velha e já tava com um pouco menos de paciência para algumas coisas do acampamento em si, principalmente, no período da tarde. Então, a gente ficava dando uma volta, eu e ela, não podia andar muito, porque ela tinha esse problema na perna, né, ou a gente dormia e se encontrava e aí, a gente se aproximou muito, né, e isso me marcou bastante. Você vê a diferença, na verdade, nada muda, as pessoas continuam sendo pessoas independente do que aconteça com elas, se ela tem uma perna ou não, se ela tem uma deficiência ou não, enfim, e eu me aproximei bastante dela. Aí nesse ano, eu não fiz nada de atividade, eu ficava só dormindo à tarde e passeando perdidamente pelo acampamento que a gente foi no segundo acampamento, que eles têm dois acampamentos esse NR, tem o menor e o maior, a gente foi no maior e o maior para 80 crianças dava para dar vários perdidos, porque tipo, era pouca gente para o espaço gigante e tinha monitor suficiente? Tinha, mas era um espaço gigante, mesmo se você fosse um pouquinho mais pra lá, ninguém ia te ver, então a gente ficava andando muito, sentava no laguinho, ficava de boa, sabe? E aí, eu não fazia nada e aí, eu comecei a conversar com todo mundo, a gente ria à noite, não dormia, ficava fugindo de dormir e aí, na festa, foi quando eu virei monitora e eu nem imaginava que isso ia acontecer porque eu tava sentada e aí, todo… na penúltima noite, na última noite, eles fazem um encerramento, sabe, o acampante que se destacou na atividade cultural, na atividade de esporte, no ballet, tal e aí, eu tava sentada e aí, começaram assim: “Agora a gente vai premiar os dois acampantes que foram destaque do ano no acampamento”, aí eu comecei a rir para as meninas,. aí as meninas: “Quem será que vai ser?”, eu falei: ”Gente, não sei, mas eu não, porque eu fiquei dormindo o negócio inteiro, não fiz nada”, aí as meninas: “Você não, é muita cara de pau sua, você querer isso, porque você não fez nada”, e aí, a gente começou a conversar, tal, aí daqui a pouco, alguém me cutucou e falou: “Alguém falou o seu nome” “Meu nome?” “É, o seu nome”, eu falei: “O meu nome, não. Como o meu nome?”, aí eu olhei assim, tava todo mundo olhando pra mim, aí fui eu e aí foi o menino que a mãe morreu, o menino teve uma temporada bem complexa, porque a mãe dele já tava internada e ele não queria ter vindo e nos sete dias, a mãe dele piorou, então foi bem ruinzinha a temporada para ele e ele também teve uma temporada de destaque, mesmo ele triste, ele também se destacou e as pessoas ficaram meio assim com ele, sabe? Acharam que poderia ser uma forma de confortar ele isso, então a gente ganhou isso e no ano seguinte foi quando a gente foi como aspirante, que eles chamam, né, que é a primeira ida como monitor. Mas aí você fala: “Eu não fiz nada” “Fez, você fez a diferença para alguém que tava ali, toda pra baixo, alguma coisa assim, sabe?”, eu ficava com as crianças menores, enfim, acho que foi isso. Aí depois, eu fui como aspirante. Aí é diferente o negócio, porque você vai como responsável, tem que cuidar de um quarto, eles me colocaram num quarto com as menores, então tinha criança de oito, nove anos, que tudo que elas vão fazer elas perguntam se elas podem fazer: “Titia, posso ir no banheiro?” “Minha filha, vai”, elas me divertiam horrores, mas é bem diferente quando você vai para se divertir e quando você vai pra trabalhar, né?

P/1 – O que você teve de mais dificuldade nesse período como monitora?

PAUSA

P/1 – O que foi a dificuldade que você enfrentou como monitora? Porque é responsabilidade, né?

R – Acho que com as crianças nem tanto, porque as crianças, tudo que elas queriam fazer, elas perguntavam: “Titia, a gente pode jantar?”, sabe? Acho que foi mais… criança é uma coisa meio complicada, quanto mais nova, mais perguntas estranhas acontecem, então você tem que contornar isso, por exemplo, quando eu fui, eles pediram pra eu esconder as tatuagens, nessa época, eu tinha uma tatuagem só e aí, era nas costas, tanto que eu falei: “Gente, ninguém vai ver a minha tatuagem nas costas”, você tá de blusa, né? Mas aí, acontece que você tá no banheiro e tinha um chalé que tinha um banheiro junto com o chalé, as outras crianças ficam num sacarão que o banheiro é compartilhado, mas as crianças menores ficam num chalezinho com o próprio banheiro delas e aí, eu ia tomar banho, alguém: “Titia, o que é isso nas suas costas?” “Não é nada minha filha, vamos”, mas eu acho que foi entrar na rotina deles, ver mais de perto a criança que não toma insulina. Tinha uma criança no meu quarto que ela não tomava sozinha insulina, que a enfermeira tinha que todo dia de manhã explicar para ela como fazia, aplicava e: “Olha, no dia seguinte, a gente vai tentar de novo”. Teve um dia que ela tentou, mas foi meio tenso pra ela e entrar na rotina deles, né, como eu falei e deixa eu ver o que mais, tem um lance muito criativo, nessa época, eu ainda não fazia faculdade, então tem um lance de criatividade, a tia tem que pensar numa musiquinha, tem que pensar numa gincana. No final, você tem que preencher um questionário falando de cada criança, então você tem que observar tudo, porque todo dia à noite, tem o questionário perguntando como a criança se comportou, são seis crianças. Claro que você presta atenção em tudo, mas é diferente, é difícil, você tem que responder questionário: o quê que ela brincou, mas eu não perguntei pra ela do quê que ela brincou hoje.

P/1 – E alguma experiência menos prática e mais emocional, digamos assim, que tenha te sensibilizado a condição de alguém que tava sob os seus cuidados?

R – Não, acho que só foi essa menininha, que ela teve dificuldade mesmo, de não querer se aplicar, não se aplicava, mas aí, as enfermeiras eram muito fofas, então todo quarto tem uma enfermeira, então uma enfermeira para seis crianças é bem tranquilo, sabe? Então, ela tem o tempo suficiente para explicar isso. No segundo ou terceiro dia, ela já se aplicou, mas ela chorou. Acho que esse foi o único caso. Mas isso é uma coisa mais de você conversar, falar: “Eu já fiz isso, não dói, é só fazer certinho”, doer dói, às vezes, porque pega uma veinha e tal, mas… se você não troca a agulha com frequência, dói. Mas se você faz tudo direitinho não dói. É uma picadinha, não dá nem para sentir, é diferente. Então, foi mais acho que só essa menininha, mesmo. Do resto, meu quarto era bem tranquilo.

P/1 – Natalia, e a convivência com a diabetes fora desse ambiente da Associação? Você descobriu, você era uma pré-adolescente, digamos assim, né? Como que foi seguir a vida na escola, como é que você foi tocando a sua vida? O quê que mudou na prática na sua rotina? Quais eram os principais desafios ou dificuldades que você tinha?

R – Na verdade, na rotina, ela muda muito pouco. Você tem que estar atento, por exemplo, quando vou fazer atividade à tarde lá no palmeiras, você tem que tá atento que você tem que fazer um lanche, porque senão, você pode passar mal durante o exercício. São coisas mais especificas, de resto, bem no começo, era tranquilo, sabe? Você cria uma rotina, você… tipo, vira automático, você tem que acordar, fazer a ponta de dedo e tomar a sua insulina, você não pode esquecer a sua insulina, então já tava tudo ali, sabe? Tudo fica perto da bolsa pra você não esquecer a insulina. Então no começo assim, nessa parte da adolescência, foi bem tranquilo. Ela pega um rumo diferente quando você sai da adolescência e vai para a vida adulta, porque você começa a ingerir álcool, você começa a dormir menos, você come mais porcaria, então aí já é um outro estepe, você tem uma época que… acho que eu tô nessa época de novo, você tá um pouco rebelde, você não aguenta mais furar o dedo, não tenho mais paciência pra isso, você fica cheia de marquinha. Nessa época, quando você é jovem, você não liga pra isso, você acha isso o máximo. mas depois, você começa a ficar com uns roxos no braço, porque você pegou uma veia, você esquece insulina em casa e vai trabalhar. Porque ele faz parte da sua rotina, você sabe que tá ali, mas tipo, a cabeça tá em outro lugar, não sei, acho que é diferente, as responsabilidades mudam também.

P/1 – Antes da gente chegar nessa parte adulta, digamos assim, você contou pra gente um pouquinho antes aqui desse bate-papo de como naquela primeira fase, as colegas achavam divertido, curioso, você até usava isso como um álibi pra interagir, etc. A gente fazendo essas entrevistas aqui, a gente se deparou com situações que são infelizmente o contrario disso…

R – Sim, todo mundo me fala isso…

P/1 – Preconceito ou de uma certa aversão…

R – Ah não. Então…

P/1 – Você se deparou com essas situações?

R – Sim. Acontece. Na escola, não, porque é tudo criança, criança é meio sem noção mesmo, então tipo, tá tudo magico ali. Mas já aconteceu sim, de eu estar numa lan house e ter comido um chocolate e eu precisava tomar insulina e nessa época, eu tinha uma seringa e seringa e assustador, todo mundo acha que é outra coisa a seringa, a pessoa não vê que é uma seringa de insulina, porque ela é diferente, ela é fininha, ela é pequenininha. Não, a pessoa já começa a pensar que é droga. Eu tenho duas coisas que aconteceram, essa vez da lan house, que eu ainda tava na fase da adolescência, que eu fui tomar uma insulina e o cara ficou olhando muito, muito, que ele viu a seringa. Eu tentava muito ser discreta o suficiente, não tomar num lugar público, porque as pessoas ficavam olhando. É uma seringa, é feio, até eu olharia. Se eu não soubesse o que é. Porque com o que eu me deparei muito na adolescência e ainda passo hoje é que as pessoas não sabem o que é, as pessoas só acham que você comeu açúcar demais, que tipo: “Tem que tomar isso? E quando você come açúcar? E quando não pode? Não, mas você vai comer açúcar, meu Deus! Você é diabética”, então as pessoas não sabem os tratamentos, elas não sabem, não tem educação para isso, o governo não fala muito disso, é uma dificuldade você saber detalhes sobre isso, não é uma coisa clara, sabe, tipo, você entra e fala: “Ah tá, e o quê que eu tenho que fazer?”, não tipo uma gripe que você vai lá e todo mundo tá sabendo o que é, entendeu? É diferente. Então, isso dificulta muito mais as pessoas… o poder de entendimento, então a pessoa vê uma seringa, ela acha o quê? Que tá se drogando, é só isso que ela consegue pensar. Mas foi essa vez da lan house e teve uma vez que quando eu morei com uma amiga, antes de sair da casa da minha mãe de vez, ela tinha uma empregada e nessa época, eu já recebia do governo, tudo, mas eu recebia seringa, porque não tinha canetinha ainda e eu tinha uma gaveta que só tinha seringa, pacotes e pacotes de seringa e aí, ela ia arrumar o meu quarto e aí, um dia, eu acho que eu deixei a gaveta aberta, ela viu e não falou nada. Em outra situação em que eu tava em casa, ela chegou e ela viu que eu tava mexendo e ela viu que eu tava preparando, ela olhou pra mim e falou assim: “Nossa, o quê que é isso?”, eu falei: “Não é droga não, é insulina” “Ah tá”, porque a pessoa não sabe, ela prejulga isso mesmo, sabe? Mas hoje não muito, porque é diferente, não uso mais seringa, uso uma canetinha que é bonitinha, que é mais delicada. As pessoas olham? Olham, as pessoas não falam: “Nossa, o que você está fazendo?”, diferente da reação quando era com a seringa. Acho que a seringa era o lance que dava o…

P/1 – E o monitoramento de glicose? Como que você encara isso?

R – Hoje, eu esqueço quase sempre. Eu esqueço, na verdade assim, de manhã, toda manhã eu lembro de fazer e tal, mas às vezes, eu tô numa reunião na agencia e aí, eu vou sair direto para o almoço e aí, o aparelho ficou aqui e eu já tô lá. Tava contando para a Luiza que quase não vim hoje porque eu sai às três e meia da manhã ontem. Aí, se você perguntar para mim se eu fiz monitoramento às duas horas da manhã sendo que eu tava… não, mas na época da adolescência, ela era muito constante, muito, era tipo rotina mesmo. Eu sabia que aquela hora eu tinha que fazer aquilo, bonitinho. Então, era mais certinho.

P/1 – E picar o dedo te incomoda?

R – Não. Na verdade, nada disso me incomoda do processo. É que hoje, eu tomo a insulina que eu tenho uma leve alergia, então é um pouco dolorosa pra mim, mas eu só tomo ela um vez por dia que e a insulina importada, a LANTUS, ela dói um pouquinho para tomar, é uma dor, ela fica latejando um pouquinho, eu já mudei de lugar, já mudei de seringa, já fiz tudo, mas ela fica latejando um pouquinho, só. Só isso que me incomoda.

P/1 – E essa história de você hoje reconhecer que esquece de fazer o monitoramento por causa da corrida do dia a dia, e etc., isso te incomoda? isso te deixa preocupada?

R – Sim. Tudo me preocupa. Esses dias, eu tava conversando com a minha irmã, a minha irmã falou: “É só não esquecer a insulina”, quantas vezes eu já não fiz isso? Você acha que tá na bolsa, sai correndo, pega o estojo, mas a insulina tá na cama, aí você chega lá no trabalho, a insulina, só tá o estojo, a insulina ficou em casa. O aparelhinho, já esqueci também. Mas é que o aparelhinho, eu tento ser mais rigorosa possível com ele, porque assim, eu preciso disso pra comer, teoricamente, mas a maioria das vezes, à tarde, você tá ali trabalhando, aí você pega alguma coisa pra comer, já comeu. Não adianta fazer o monitoramento, já comi. Vou fazer o monitoramento do quê? já enfiei a comida pra dentro, que é tudo muito rápido, sabe? Acho que é mais questão do dia a dia, da rotina que hoje a gente tem, que é muito mais complexa do que antes.

P/1 – Agora voltando um pouquinho antes lá na sua adolescência, entrada na… quando que a sua irmã foi diagnosticada também com diabetes? Foi mais ou menos naquela época ou mais recente?

R – A minha irmã vai fazer acho que quatro anos.

P/1 – Tá. Então daqui a pouco a gente chega nela, então. Você tava vivendo a sua vida adolescente, etc., como é que você foi encaminhando para fazer as suas escolhas profissionais? O quê que você queria fazer da sua vida? Chegar na faculdade, independente da questão da diabetes. Conta um pouquinho dessa fase da sua vida pra gente.

R – Eu tinha uma fase que eu gostava muito de desenhar. Então, eu fazia uns desenhos, fazia uns envelopes desenhados e vendia na escola, e ganhava tipo, uns dinheirinhos pra comprar bala e pirulito e tal. Minha mãe dava o dinheirinho, mas aí, eu comprava… eu vendia cho que 30 centavos o envelope desenhado, tinha essa época, as pessoas adoravam isso e aí, você vendia e comprava um pacote por um real, aquele monte de envelopes, eu juntava o dinheiro e pra mim era divertido, porque eu ficava desenhando e pintando e tal e eu gostava muito de desenhar. E eu continuei seguindo isso e aí quando chegou lá no terceiro ano do colegial, eu tive uma fase que eu fiquei um pouco isolada da escola, que eu me afastei um pouco da escola que eu ficava desenhando muito e eu tive problemas em algumas matérias, que a professora ficava brava que na aula, eu ficava desenhando e aí, chegava na prova, eu ia bem e ela não se conformava porque eu continuava desenhando, mas eu cheguei a ter um pouco de complicação na reta final do terceiro ano do colegial, de pegar nota vermelha e tal, mas a professora falou que não ia me deixar de DP porque eu nunca tinha tido nota vermelha, então tipo, colégio entrou num consenso, eu ia fazer uma prova de cada matéria, porque eu acho que eu tinha ficado com cinco notas vermelhas no último ano do colegial e aí, eles olharam e falaram, assim: “Olha, você não tem nenhuma nota vermelha, como é que eu vou repetir você de ano se você nunca teve nota vermelha? Então, a gente vai fazer uma prova aqui, uns exercícios e aí, a gente vê o que dá pra fazer, tá bom?” “Tá bom”, aí eles viram que era só uma distração e que realmente, eu tava naquela fase de terminar, sabe, de não aguentar mais aquilo, tem aquela parte da rebeldia, né, mais ou menos a idade da rebeldia, estava querendo sair. Nessa época aí, minha irmã já fazia cursinho, porque a minha irmã queria Medicina e aí, minha mãe não conseguia pagar o meu cursinho e o cursinho dela, porque a gente não trabalhava ainda, então eu falei pra minha mãe: “Paga o da Priscila e aí, quando eu terminar o colégio, no ano seguinte do colégio, eu fico só com o cursinho, ela já vai ter feito um ano de cursinho” “Tudo bem”. Aí, eu arranjei um emprego de telemarketing e comece a ver as faculdades, não fazia ideia do que eu ia prestar. Comecei a ver o curso de Publicidade e aí, eu comecei a ler sobre o curso, falei: “Não, mas não é isso”. Aí, naquelas revistas que tem as profissões lá, eu achei um curso de Desenho Industrial e aí, eu lembrei de uma visita na escola que eu fiz na FAAP, fui ver uma exposição na FAAP e no andar de baixo da FAAP, de cima, bem onde ficam as exposições para descer ali para o teatro, era onde ficavam as salas de desenho industrial da FAAP, então você vai passando… você passa a exposição, aí você vai entrando nos corredores, vai vendo os trabalhos pendurados, aí você vai vendo os móveis, vai vendo protótipo de carro, vai vendo tudo isso. Aí, eu lembrei dessa dia e falei: “Olha, parece ser legal”, aí eu comecei a pesquisar, só que aí eu descobri que o curso da FAAP era muito caro e que a chance de bolsa era muito pequena e aí, eu comecei a pesquisar onde eu poderia fazer o tal do Desenho Industrial e aí, eu achei que em Bauru tinha, falei: “Gente, mas morar em Bauru, não sei se eu quero…”, eu tava namorando na época, falei: “Não, eu acho que não”, e aí eu encontrei o curso do Mackenzie, que eu sabia era mais caro, mas eu sabia que eles tinham mais chance de bolsa, só que ele não era tão caro que nem a FAAP. Porque o problema da FAAP não era só a mensalidade, era como você ia viver a vida dessas pessoas, sendo que você não tem como acompanhar, é muito caro, acho que era dois mil reais o curso, fora o custo de material que é absurdo nesse curso. Então, eu não ia dar conta, fora o investimento, fora acompanhar o ritmo deles. Então, eu fui lá no Mackenzie e vi o curso, aí eu vi a grade do curso, vi o caminho que o curso levava e eu gostei muito e aí, eu arranjei um trabalho no telemarketing e comecei a fazer cursinho, aí comecei a pagar o meu cursinho e o telemarketing. Trabalhava… telemarketing era à tarde e depois, eu ia para o cursinho, que era na Frei Caneca. Trabalhava na republica e o cursinho era na Frei Caneca. E aí, com três, quatro meses de cursinho, veio a segunda chamada no vestibular do Mackenzie, porque eles têm um vestibular no começo do ano e no meio do ano. Aí, meu cunhado que já tava na UNESP, minha irmã que tava no cursinho, porque minha irmã não fez só um ano de cursinho, porque ela não passou na Medicina no primeiro ano e a minha mãe falava: “Presta pra ver qual é que é”, porque tem prova especifica, o curso de Desenho Industrial, mesmo… eu não sei na FAAP, mas na UNESP também tem prova especifica, porque além do vestibular, tem a prova especifica. Aí eu me inscrevi no vestibular, fui para a prova especifica, então são três dias de vestibular, um dia da proves especifica que você leva o material que você quer de desenho, eles dão um tema, você tem quatro horas para desenhar, para criar, pintar e tal, fazer o que você vai fazer, você entrega, sai da sala. Aí no dia seguinte, você vai para prova de alternativas e depois, para a redação. Então, fiz três dias de vestibular. Aí, um dia eu cheguei lá… aí, saiu os resultados, na primeira chamada, não tinha o meu nome, aí um dia, eu cheguei lá no Mackenzie e falei: “Moço, pode ver onde tá o meu nome?” ”Parabéns, você passou”, eu: “Hã?” “Você passou na segunda chamada. Aí, liguei em casa, falei: “oi gente, estão dizendo que eu passei no vestibular”, aí minha mãe já ficou desesperada: “Meu Deus, como é que a gente vai pagar esse Mackenzie?”, que é caro também, né? Falei: “Calma, a gente faz o seguinte, a gente vai lá e vê quais são as possibilidades da bolsa”. Aí, a gente foi até lá, aí a mulher falou: “Olha, a possibilidade… tem três tipos de bolsas aqui, bolsa PROUNI, a de atleta, que é muito forte e o de…”, eu falo que é o de atestado de pobreza (risos), que é quem realmente prova que não tem condições de pagar e eles têm esse tipo de bolsa lá também. Só que para isso, você tem que pagar a matricula e aí, depois você entra com o processo da bolsa. “Tá bom, moço, mas quanto é a matricula?” “Ah, é mil e duzentos reais” “Meu Deus, da onde eu vou tirar esse dinheiro?”, nessa época, eu ganhava 400 reais no telemarketing. Eu falei: “Meu Deus, minha mãe não tem esse dinheiro, o que eu vou fazer?”, aí minha mãe falou assim: “Então, eu não tenho esse dinheiro, sua vó não tem esse dinheiro, mas tem uma irmã da sua vó que pode te ajudar, vai lá falar com ela”, aí fui até lá, falei: “Oi tia, tudo bem? Passei no vestibular e tal e eu queria ver se vocês podem me emprestar esse dinheiro e eu vou pagando a longo prazo, que eu trabalho, mas eu ganho pouco, mas vou pagando, sei lá, dez em 12 vezes…”, aí eles falaram: “Não vai dar, a gente não tem esse dinheiro, aí eu fiquei meio chateada e eles saíram da sala. Aí quando eles voltaram, eles falaram assim: “Quer saber…”, aí entregou o cheque assim, e falaram: “tá aqui o dinheiro. Vou te dar mil reais, tá bom? Os outros 200 você dá um jeito. E eu não quero devolução, tá aqui o seu dinheiro” “Não, mas tia, eu devolvo” “Não, tá aqui, porque você vai estudar, eu sei que é difícil, só que se você não conseguir bolsa, eu não vou poder fazer nada sobre isso”, falei: “Tá bom”. Peguei, fui lá, fiz a matricula no começo de agosto, aí levei toda a papelada que eles solicitam, é muito papel, você assina um termo que pode receber visita de assistente social, é muita coisa. E aí, esperando a resposta, matriculada, as aulas não tinham começado ainda. Vem um boleto de mil e trezentos reais da primeira mensalidade. Eu falei: “Moça, o quê que eu faço com isso?”, ela falou: “Você tem que pagar” “Não moça, mas não saiu o resultado da bolsa” “Mas você tem que pagar. Aí, se você paga isso e sair a bolsa, eles restituem o valor, mas você tem que pagar. Eu falei: “Onde eu vou arranjar mil e trezentos reais de novo, né?”, aí, eu tinha uma namorada nessa época e a irmã dela me deu esse dinheiro, falou: “Não, tem que estudar e tal, depois você me devolve quando eles restituírem esse valor”. Aí, eu peguei e paguei e duas semanas depois, saiu o resultado da bolsa. Aí começaram as aulas e aí, saiu o resultado da bolsa de 75% do valor, então tipo, eles devolveram 75% do valor, eu depositei de volta pra ela, depois eu fui pagando o restante, aí eu fiquei acho que um semestre com esse 75% de valor, porque rola muita coisa ali dentro, muita politicagem, uma hora é 75, é 25, 50, 75 ou 100. Aí, uma hora o governo cai, sei lá quem cai para 50 e 100, então eles começam a arredondar, sabe? Nessa época, eu tava lá no telemarketing ainda, então telemarketing, Educação Física, porque a Educação Física era obrigatória no Mackenzie e o Desenho Industrial à noite. Aí foi quando eu comecei. Fiquei quatro anos e meio lá.

P/1 – Como é que foi essa experiência universitária?

R – Foi ótima. Eu era um pouco nerd, porque como eu não pagava a faculdade, eu não matava aula, era raro, situações raras de você me encontrar no bar, assim. Ou era porque eu tinha uma janela, ou é porque eu podia faltar, porque eu ainda tinha os 25% de falta, alguma coisa assim, fora isso, eu não matava aula, porque eu pagava. Eu não tinha tempo também, eu trabalhava o dia inteiro e aí, depois eu ainda tinha que… telemarketing não era de seis horas, eu trabalhava nove horas, então era o dia inteiro e depois, ainda tinha que ir para casa fazer trabalho, sabe? No primeiro, segundo, terceiro semestre, tudo é bem ok, as matérias são ainda mais… eles estão só mostrando para você, então a matéria é Desenho geométrico, tudo ali, só. Quando começa entrar matérias mais complexas, História da Arte começa a ficar complexo. Tive um professor de História em Quadrinho que era um demônio, que ele pedia um negócio de terça para quinta, criar uma história em quadrinho de terça pra quinta, sabe, ficar virando à noite para fazer isso? Eu comecei a… tinha aula no Mackenzie começava às seis e meia pontualmente e acabava 11 e quinze, então tinha semestre que eu tinha de seis a sete matérias, então começou a ficar muito apertado, eu peguei umas DPs porque eu não tava dando conta, principalmente por causa do professor de História em Quadrinhos, eu peguei DP dele e aí, no semestre que eu consegui 100% de bolsa, eu tive DP e tive que pagar DP, aí pagava o valor da DP, da aula só. Mas eu continuei com a bolsa.

P/1 – O quê que foi de melhor que você encontrou no Mackenzie nesses anos de faculdade, assim, nessa experiência ou a aula, ou o professor?

R – Acho que tem professor que eu converso até hoje, que depois de muito tempo, ele foi meu orientador, depois de muito tempo, eu descobri que ele faz aniversario no mesmo dia que eu, e ele é super meu amigo, mesmo, de mandar recado: “Hoje vai ter um negócio…”, ele tem um estúdio de design: “Hoje tem um negócio aqui no estúdio, vem cá ver”, os meus amigos eu tenho amigo até hoje de lá, esse ano faz dez anos que eu entrei no Mackenzie, né? Então, tenho amigos até hoje de lá, amigos e a rotina que era, porque era uma rotina super legal, sabe, quem vai pra faculdade… tinham as aulas chatas, mas quem para a faculdade desenhar? Era tipo, terapia, mesmo sabe? Tinha aula chata? Tinha muita aula chata, História da Arte, você acha que eu lembro de alguma coisa de História da Arte? não, porque eu não vou usar o contexto grosso da História da Arte, você lembra de referência visual, mas da história mesmo, você não lembra. matemática, eu tive Estatística, você não lembra, sabe? Mas o grosso da rotina de você ir até lá, tanto que quando eu terminei, eu passei meses de dificuldades, porque eu não conseguia entender que eu não ia mais pra lá e depois que eu terminei, eu tava morando na Maria Antônia, só depois que eu terminei o Mackenzie, eu mudei para Maria Antônia. Morava na Pompeia com a minha mãe, aí quando eu terminei o Mackenzie, eu fui morar na rua do Mackenzie e aí, eu falei: “Gente, o que eu vou fazer agora?”, o professor falou: “Pode vir assistir as minhas aulas”, esse professor que é amigo. Aí, o Mackenzie era aberto, nessa época, ele era aberto. Agora, tem catraca e tal, eu posso entrar, mas é um pouco mais complexo entrar. Antes, era livre, entrava qualquer hora quem quisesse. Aí, eu pegava e aí assistir aula do professor toda quarta, fiquei uns quatro meses assim, toda quarta, ele: “Hoje eu vou dar aula para aquela turma lá, chega ai”, aí eu sentava do lado dele e ficava assistindo a aula dele até eu entender que eu não tinha mais que ir lá, levou uns quatro meses para isso.

P/1 – Deixa eu aproveitar essa história do seu período universitário e tudo o que isso implica de transformação de vida, de você logo depois ter saído da casa da sua mãe e também, tudo que isso implica, eu queria aproveitar esse contexto e retomar uma coisa que você já falou um pouco mais en passant anteriormente, que é essa transformação etária e de hábitos de vida e o que isso implica na convivência com o diabetes. retoma isso um pouquinho pra mim, fala um pouco mais detalhadamente do quê que mudou mesmo na sua vida, as dificuldades que você enfrentou, os novos desafios…

R – Relacionados ao diabetes?

P/1 – Isso.

R – Eu acho que tudo engloba a rotina. Na época da universidade, eu conseguia ser mais controlada, mas eu tinha horários loucos, né, eu acordava às seis e meia da manhã, entrava às oito no trabalho, que aí, eu fui mudando de estágio, estágio, o meu último estágio antes de me formar era numa agencia que eles mandavam trabalhar das nove às seis, mas eu nunca saía às seis, só que era do outro lado da cidade, era lá no Brooklin, como é que chega às seis e meia no Mackenzie? E aí, eu comecei a entrar mais cedo lá, então tipo, rotina, ter que acordar muito cedo, passar o dia inteiro fora de casa, o dia inteiro, chegar em casa 11 e 40 da noite, aí ter que fazer trabalho, ainda e dormir às três horas da manhã. Então, acho que tudo tem a ver com a rotina, mesmo, sabe? A mudança é o tanto de horas que eu não durmo, é o tanto de horas que eu trabalho, porque é uma coisa muito louca esse negócio de agência de publicidade. Teve a época que eu pegava muito freela, então eu nem saía de casa, ficava só fazendo freela, eu trabalhava e freelava, não tinha mais a faculdade, mas trabalhava e freelava, esse horário louco, sabe, de virar à noite porque assim, tem que virara à noite na agência também, então tem tudo isso, sabe, que atrapalha muito quando você cria mais responsabilidade.

P/1 – Como que no meio disso tudo, eu queria que você contasse um pouquinho, como que ficou por exemplo, o seu monitoramento de glicose, as aplicações de insulina a sua alimentação, atividade física? O seu estado de saúde, mesmo?

R – Atividade física, ela não existe mais (risos), eu não consigo, é uma falta de vergonha na cara, minha médica diz, mas eu ainda não consegui ela nos meus horários, porque eu não consigo acordar cedo, eu não gosto de academia, eu preciso por conta da diabetes e porque eu ganhei peso também, então eu sei que eu preciso, mas eu não consigo encaixar porque eu sai de casa… chego na agência às dez horas da manhã: “Mas você poderia acordar cedo“ “Poderia, eu concordo que eu poderia acordar cedo, mas não consigo”. Então, o exercício físico quando era mais jovem, ele tava na rotina todo dia, todo dia eu ia para o clube, só de segunda que não, porque o clube não abria, mas terça eu fazia handebol, quarta, eu fazia futebol, quinta eu fazia handebol e na sexta, fazia futebol, aí eu almoçava e ia para o clube à uma da tarde e tudo isso era cinco horas da tarde, eu ficava da uma até às cinco jogando alguma coisa com os amigos, pingue pongue, conversando, andando e aí, fazia o exercício e voltava para casa, fora a Educação Física que eu fazia, era ativa em Educação Física. Eu jogava no time da escola, fazia Educação Física no Mackenzie, quando era obrigatório, eu tinha a liberação, mas eu consegui encaixar no meu horário, porque eu saía cinco e 15 do telemarketing, Educação Física era das cinco e meia às seis e meia, eu consegui encaixar, tomava banho e ia para a aula e aí, depois disso, você vai pra uma… acho que o extremo dali foi a agência de publicidade, porque quando eu trabalhei em empresas, por exemplo, eu fiz estágio no Buscapé, eu tinha hora pra entrar e hora pra sair, eles me expulsavam: ‘Natalia, você não vai pra aula?” “Daqui a pouquinho” “Não, vai agora, senão você não vai chegar”. E a agência de publicidade não, eles não estão nem aí se você é estagiário e por que você continua? Porque eu gosto. Eu gosto do que eu faço lá, o design não é valorizado no Brasil, as pessoas ganham muito mal com Desenho Industrial/Design e todo mundo tem conta pra pagar, daí a gente continua nesse mundo bolha que fica só girando, assim, você fica tipo 18 horas na agência, 12 horas na agência e aí, sua rotina quebra muito, você fica… sua vida é baseada no horário da sua agência. Ontem eu sai da agência era duas e meia da manhã, eu jantei? Não. Eu não jantei porque eles queriam jantar pizza e eu tava meio mal do estomago ontem, falei: “Gente, não vou jantar pizza”.

P/1 – Eu queria… como é que você no meio dessa loucura toda, como é que você cuida do seu diabetes?

R – Um pouco errado, ultimamente. Bem errado, na verdade. Esses dias, ela anda bem estranha, aí eu mandei mensagem pra Denise, ela falou: “Já foi lá para pegar o aparelhinho?” ‘Não, ainda não. Eu vou na quinta-feira”, aí ela falou: “Então pega porque a gente vai ver onde que tá errando a dose”, a gente se entende muito bem porque eu conheço bem a dosagem e os pontos que a minha glicemia não tá boa. Então, poderia ser só um erro de dosagem? Nesse caso, poderia, tem alguma coisa que tá faltando. Pela minha glicemia, eu consigo sentir isso. “Mas a glicemia tá ótima” “É porque eu tô tomando insulina demais” “Tem que diminuir uma dose de insulina”, então a gente conversa muito sobre isso. Eu conheço, realmente, o meu corpo. Só que por exemplo, eu não faço que nem no acampamento que se fazia seis refeições certinhas, eu não faço seis refeições certinhas, hoje. Porque o tempo é outro. Eu não acordo sete e meia, oito horas da manhã pra tomar café, eu não tomo lanche das dez e meia, que nesse caso tinha no acampamento, você não almoça ao meio-dia… hoje, nessa agência que eu tô, eles têm frutinha, então eu consigo tomar café às oito da manhã, aí como uma frutas às dez e meia, onze horas, ok, com o meu monitoramento e aí, eu almoço uma hora da tarde. Mas aí, depois do almoço pra tarde, é o que eu tenho mais dificuldade porque como você adiciona a sua… por exemplo, a janta. Todo mundo janta o quê? Sete e meia, oito horas. Sete e meia, oito horas eu tô na agência, ainda. Eu janto nove e meia, dez horas. O quê que eu faço do almoço até às dez horas da noite? tem que fazer duas refeições, o quê que eu faço? Então, eu meto uma fruta porque a empresa dá uma fruta e aí, eu já quebrei toda a rotina, porque tem hora que eu… tem dia que eu janto sete e meia, oito horas e tem dia que eu janto onze e meia. Ontem eu comi um sanduiche quando eu cheguei em casa às duas horas da manhã, mas eu comi fruta lá, que o povo queria pizza e Mcdonalds, não é fácil, sabe?

P/1 – E o monitoramento no meio disso? Você tá falando por exemplo, de dificuldade de alimentação…

R – Ah, o monitoramento, ele é feito provavelmente… ontem eu fiz… até que ontem eu fiz ele duas vezes durante esse horário que eu fiquei lá na agência, que eu comi bolacha e tal. Mas normalmente, eu faço quando eu vou comer. Eu tô tentando me regrar mais disso. Mas é bem difícil, porque eu cheguei numa época em que eu não lembrava de fazer e é bizarro, porque isso aqui faz parte da sua rotina e você não lembra de fazer e você precisa fazer porque sem isso, você não sabe quanto que você vai tomar de insulina, mas tinha uma época em que eu não lembrava. Hoje, eu tô colocando ele de volta na rotina, depois de 15 anos, não tem como não estar na rotina, mas é difícil, você tá ali no meio da… várias vezes, eu já sai para comer, quando eu tô comendo: “Putz, esqueci disso”, ou você mete fruta na boca, comeu três pedaços da fruta: “Putz, esqueci de medir”.

P/1 – E crises de hipoglicemia? Você tem algum histórico assim, você tem algum episódio mais…?

R – Não. Eu nunca fui parar no hospital, nem por causa de hipoglicemia e nem por causa de hiperglicemia, eu nunca fui internada por complicação disso. Já tive glicemias altas, tipo… não de dar o… que nem dá o high no aparelhinho, depois de ter glicemia, mas eu já tive 500 de glicemia, mas de parar no hospital e crise de… tive uma crise quando eu descobri, tive um dia que eu tive… acho que ficou 28 de hipo e eu tava meio sonolenta e tal, aí a minha mãe falou: “Você tá meio estranha”, era novinha isso “Não, tô só com sono”, não tava tremendo que é um dos sintomas, tremer, suadouro, nada, eu só tava com sono. Ela falou: “Você mediu a glicemia?” “Não”, aí a minha irmã: “Pega o aparelho”, aí mediu, tava 28. Mas foi só essa vez que deu esse extremo e a gente não saber, na maioria das vezes, eu tenho sintomas.

P/1 – Fala um pouquinho do seu histórico, da sua relação com os médicos que você teve ao longo desses 15 anos, aí, mais ou menos com diabetes, chegando na médica atual. Você teve problemas? Você teve que trocar médico?

R – Eu tive um médico que até o momento que eu comecei a acompanhar… eu conheci ele no convênio e ele era super legal, ele chamava Doutor Rafael, acho, ele era um senhor e aí, ele acompanhava, fazia dosagem, tal, só que aí depois que você começa a frequentar por exemplo, o acampamento, que as pessoas começam a falar assim: “Olha, dá pra você comer esse bombom aqui” “O médico não fala isso, não” “Mas dá pra você comer esse bombom aqui”, aí você vai lá e faz a contagem de carboidrato, aí você começa a falar de contagem de carboidrato, aí você chega no seu médico e fala: “Doutor, você sabe de contagem de carboidrato?” “Não” “Como não?” “Não,. não, você não pode comer isso”, aí eu cheguei na minha mãe e falei: “Olha, não vai dar, o moço tá passando uma insulina, a NPH, os meus amigos todos estão tomando tal insulina, duas insulinas e eu tomo só uma e ele fala que não se pode fazer contagem de carboidrato e no acampamento, eu fiz contagem de carboidrato, não faz sentido isso”. Aí, minha mãe falou: “Tem uma médica que eu passava da tireoide. Vamos ver com ela? Ela é uma endócrina, vai que ela tem um lance de diabetes”, aí eu fui pra ela, e ela tinha e aí, no meio do tratamento com ela, foi ela que me apresentou a LANTUS, ela falou assim: “Vamos tentar essa LANTUS? Mas ela é cara”, falei: “Quão cara?” “Ela é bem cara. Mas vamos tentar? Eu tenho dois meses aqui de graça para você, a gente tenta”, aí no primeiro mês, eu acho que eu não me adaptei, minha glicemia não ficou boa, não lembro o que aconteceu. Aí, no meio desse meu tratamento com ela, eu fiquei uns três, quatro anos com ela, no meio desse tratamento, eu fiz um exame… tem um exame chamado “Urina 24 horas”, você leva as garrafas pra casa e aí, a urina de cada seis horas vai em cada uma das garrafas, então tipo, deu seis horas, troca de garrafa, você vai pondo todas as urinas lá e depois você leva para o laboratório. Ela meio que vê a sua função renal, enfim… e aí, eu fiz esse exame e voltei pra ela, ela virou pra mim e disse assim: “Tem uma alteração aqui no seu exame” “Que alteração?”, isso faz tempo, isso faz uns oito anos atrás: “Tem uma alteração aqui falando que você tem problema de função renal”, falei: “Não doutora, como assim? Tive muita complicação?”, ela: “Não, olha, a partir de agora, é melhor a gente ficar tipo, três meses sem comer nada e beber nada, e aí, a gente daqui três meses, refaz o exame, tal, mas corta tudo”, aí eu fiquei quase um ano sem comer açúcar mesmo, sabe? Porque eu fiquei neurótica, a mulher falou que tava dando problema de função renal. Aí, eu fui contar para a Denise, que é a minha médica atual: “Natalia, não acredito que você caiu nessa” “Que cai nessa? Era um exame” “Natalia, provavelmente, você esqueceu de coletar algumas urinas, provavelmente você fez confusão, pôs uma urina na outra garrafa, não tem como dar isso, você não tem nem dez anos de diabetes, se fosse chegar nesse estado, você já teria tido outros problemas até chegar nesse estado, seus exames são impecáveis”, ela fala que eu sou um pouco preguiçosa. A gente nem muda o tratamento, porque ela fala que o problema nem é o tratamento, sou eu, tipo, perguntei preá ela uma vez: “Tem um monte de amigo meu que tem bomba de insulina, por que eu não tenho?” “Porque você é preguiçosa, você não precisa disso. Você pode só cuidar coma insulina normal e com o aparelhinho”, e aí foi quando ela falou: “Chega, não vai mais passar…”, já conhecia ela há muito tempo, aí a gente começou a conversar, ela falou: “Não, não dá mais, a gente vai passar juntas agora, tá bom?”, só que ela não atende o meu convênio, eu acho que ela só atende particular, se eu não me engano e aí, eu virei e falei assim: “Puxa, mas e aí?”, ela falou: “Não, eu vou te enfiar num estudo e uma clinica que eu participo, que eu trabalho, chama CP Clin, tem uns estudos de insulina, lá. Aí, eu te enfio no estudo, você participa do estudo e a gente faz o acompanhamento, é uma forma da gente se ver”, aí ela me enfiou a primeira vez nesse estudo e era da insulina inalável, só que eu fiquei com a insulina normal, então era do grupo de comparação, só que eu tinha a rotina, eu tinha que ir lá visitar ela, fazia vários exames, fazia exames de sangue, então foi uma forma da gente conseguir fazer o tratamento. Nos anos seguintes depois disso, a gente mantinha esse mesmo esquema, só que eu não participava do estudo, ela me ligava, ela me passava uma guia, ou eu ia no médico do convenio, só para pegar a guia, fazia todos os exames, aí ela falava: “Vem hoje na CP Clin”, aí eu sentava lá na CP Clin, porque ela tava atendendo m monte de gente, ela falava: “Fala pra Natália subir”, porque todo mundo lá na CP Clin me conhecia, agora sou eu, eu era meio que um encaixe assim, e subia. Aí, até quando foi? Novembro de 2014? Que eu entrei num novo estudo lá dela e fui sorteada e fiz o estudo da insulina inalável, aí eu fiquei acho que seis meses com a insulina inalável.

P/1 – E como é que foi essa experiência?

R – Foi a melhor coisa da vida. É outra coisa, picada… eu tomava a LANTUS que é a que dói um pouco em mim, eu tomava ela ainda, só que eu tomo só uma vez ela, porque ela tem uma basal de 24 horas, então eu tomo só uma vez ela. E aí, em vez de tomar a insulina rápida, eu inalava ela. Aí, tipo: “Doutora, como é que eu vou saber se tá certo?” “Você vai fazer a contagem de carboidrato assim, que é diferente, você vai ter que apagar tudo que você já sabe a começar do zero, porque não é a mesma coisa e você vai fazer o seguinte, você vai fazer a contagem de carboidrato, vai olhar no relógio e vai dar 15 minutos, aí você pode medir a sua glicemia, se tiver alta, você pode tomar mais, porque é esse o tempo que ela demora pra agir, 15 minutos”, sendo que a insulina rápida hoje é de 30 minutos a 3 horas. Em 15 minutos, eu já sabia se a minha glicemia tava boa ou não. Fiquei seis meses com ela. Ela me deu um pouco de trabalho, porque eu sai de férias, não por causa da rotina, mas por causa do… a rotina com ela era mais fácil, né, porque em 15 minutos, eu saberia o que estava acontecendo, mas em relação a… nessa época, ela era só um pozinho branco com um negocinho assim e ela não tinha um laboratório, ainda. Ela tava na fase de teste, eu era uma cobaia, mesmo. Então, por exemplo, eu não sei hoje, depois que ela foi comprada e tal, que ela já tá em desenvolvimento em alta escala, mas por exemplo, eu não podia deixar ela fora da geladeira, quando eu tirava ela da geladeira, ela podia ficar só 24 horas, se eu não me engano, ou dois dias, eu não lembro, mas acho que era 24 horas fora da geladeira. Aí como é que você viaja com isso? Aí, eu tive que levar uma bolsa com dez quilos de gelo, tipo, levei muito e ele era tipo, uma cartelinha com quatro assim, num vidrinho com um pó branco, aí tive que levar laudos, porque eu fui pra Argentina, ela deu um pouco de trabalho nesse aspecto, de não poder ficar fora da geladeira, do resto, não tive problema nenhum, tosse, nada. Hemoglobina melhorou, foi mais fácil, as pessoas não ficam te olhando, porque parece uma… é tipo… ela não é que nem uma bombinha de ar, tem um modelo que é, mas o meu modelo é uma modelo tipo quadradinho, assim, roxo, transparente, aí você colocava o negócio, virava o biquinho, fazia, aí eles pediam… como estava em fase de teste, eles pediam pra fazer duas vezes. E meu, é outro mundo! É muito, muito… foi a melhor coisa que eu fiz nesse ano. Por isso que eu falei da entrevista, porque logo depois disso, a “Veja” entrou em contato com a CP Clin para escolherem umas pessoas pra entrevistar e aí, a minha médica perguntou se eu queria e aí, eu fiz uma entrevista para a “Veja” com fotografo e tal e aí depois disso, eles ficaram com a matéria pronta só esperando ser aprovada a insulina. Quando a insulina foi aprovada, a “Veja” lançou a matéria e aí agora, tá lá nos Estados Unidos, né? Precisava de uma empresa comprar, acho que uma empresa já comprou e eu não sei quando isso chega aqui no Brasil, provavelmente, ainda vai demorar bastante tempo.

P/1 – E a história da sua irmã? Que teve um diagnóstico bem depois do seu, como é que foi essa história?

R – A minha irmã… tava contando para Luiza, a minha irmã foi muito engraçado, teria sido muito legal se ela pudesse ter participado, até, porque ela tava há uns três, quatro anos atrás, ela tava com um pouco de infecção urinária e foi no hospital, ela mora em Sobradinho, lá em Brasília, né? E ela foi no hospital lá e aí, sentou e me ligou chorando, eu falei: “Por que você tá chorando?”, ela falou: “O cara veio aqui e falou assim pra mim a abordagem: “Então, a sua diabetes está descontrolada, pode ser por isso também que você tem infecção urinária’”, a minha irmã olhou pra ele e falou: “Mas eu não sou diabética”, abordagem zero, sabe? Muitas pessoas não sabem lidar com isso. Foi uma coisa que eu aprendi muito também lá na Associação, não é assim que você conta para uma pessoa que a vida dela vai mudar, é um impacto. Eu tinha… voltar só um trechinho, eu tinha vários amigos da minha mãe que quando iam em casa, a minha mãe começava a diagnosticar as pessoas, não diagnosticar e falar: “Você tem”, ela começou a prestar atenção nas pessoas, aí tinha um amigo da minha mãe que falou assim: “Nossa, você emagreceu tanto!” “Emagreci, tô com umas câimbras, não ando me sentindo muito bem”, minha mãe falou assim: “Vem aqui em casa, rapidinho”, aí ele foi em casa, minha mãe falou: “Vamos ver um negocio”, aí deu o raio no aparelhinho, tipo, tava muito alta. Eles estavam no bar, aí ele falou: “O que isso significa?”, eu falei: “Olha, deu uma alteração aqui no aparelhinho, sabe o que eu acho legal, você procurar um médico, procura um clinico e faz uns exames, só para saber”, a abordagem faz toda a diferença, né? Você não pode chegar para a pessoa e falar: “Oi, sua diabetes esta alterada”, não. E foi isso que aconteceu com a minha irmã. Então, a minha irmã depois que ela saiu de lá, ela procurou um endócrino, teve uma dificuldade para encontrar um endócrino, porque cidade pequena, saúde não é muito boa. Aí, encontrou um endócrino novo, eu tenho umas experiências ruins com médicos mais velhos. A minha médica é mais velha, mas ela não é velha, só que ela é tipo, atenta, sabe, atualizada, ela vive viajando por causa da diabetes, ela vive focada nisso, ela dá aula, então tipo, diferente daquele médico lá que não quis nem saber da contagem de carboidrato. Minha irmã passou por isso um pouco lá em Brasília. E aí, tipo, ela achou um médico jovem que topou fazer um tratamento com a contagem de carboidratos, eu falei: “Certeiro, pode ficar com ele que esse é o cara”, e aí foi isso, faz uns três, quatro anos. A glicemia dela é bem boa, ela tem… tem uma fase no começo que eles chamam de fase de lua-de-mel, que tipo, seu pâncreas ainda libera um pouquinho de insulina e a sua glicemia fica linda, você toma… acho que nos primeiros dois meses, eu tomava dez unidades de NPH, hoje eu tomo 48 de LANTUS, tudo bem que são insulinas diferentes, mas nessa época, eu tomava uma picada, hoje eu tomo cinco, seis, porque cada refeição tem uma picada, então… e aí, ela tá nessa… acho que não mais, mas antes da gravidez que ela descobriu, até o ano passado, foi quando a minha sobrinha nasceu em dezembro… não, na verdade até os cinco meses de gravidez dela, a glicemia dela era perfeita. Aí, ela começou a ter umas alterações por causa da gravidez de ter que cortar alimentação, mesmo, ela cortou o carboidrato, fez uma dieta bem rigorosa, porque tava dando bastante alterado, isso não é bom para o bebê e a minha sobrinha nasceu com oito meses, a médica, a gineco dela falou: “Vamos antecipar isso para não ter problema”, então, a minha sobrinha nasceu com oito meses, fez uma cessaria e tal. Hoje, ela anda meio esquecida por causa da rotina, ela falou: “Tô esquecendo de tomar… as coisas, esqueci insulina, esquecei de fazer tal coisa” “No começo, você era tão certinha, não pode esquecer isso”, mas é a rotina, ela acorda às cinco, cinco e meia da manhã pra ir cuidar dos porcos dela, porque ela é zootecnista, ela cuida da carne suína lá de um frigorifico de Brasília, aí ela vai cinco horas da manhã, tem semana que ela dirige mais de 300 quilômetros, que ela fica indo em várias granjas, ela volta às cinco, seis horas da tarde para casa, aí tem o bebê, aí tem que dar banho no bebê, dar janta para o bebê, aí quando ela vai sentar para fazer as coisas, é dez e meia da noite e aí, é a rotina de novo. Mas ela super… no começo, ela ficou meio assim, porque elas me criticavam muito, minha mãe e minha irmã, tipo assim: “Como assim contagem de carboidratos, você tá comendo doce?” “Pessoal faz isso lá” “Não mas não pode comer doce” “Gente, vocês estão falando que é fácil, né, porque vocês comem. Quero ver falar alguém pra você que você não vai mais comer doce, nadinha. Vai chegar pra você falar que você não vai comer mais nada, nem tomar uma coquinha”, aí elas ficavam me criticando, aí minha irmã logo depois que ela descobriu, no primeiro aniversário nosso, ela falou: “Vem passar aqui?”, eu falei: “Vou”, ela comprou um bolo diet e a gente passou juntas o aniversario desse ano e aí, ela falou assim: “Nossa, nunca mais vou falar aquilo de você, porque é realmente uma bosta”, você não come, mas quando te proíbem, você quer comer tudo. Aí, ela falou: “Nossa, agora eu quero comer e é mais chato, tem isso, tem aquilo. Nunca mais eu vou chamar a sua atenção”, eu falei: “É, tá vendo?”. E foi de mais velho, mesmo. A gente tenta… às vezes, eu peço uns auxílios pra Denise daqui, mas é porque a minha irmã mora lá, provavelmente, se ela morasse aqui, a Denise seria a médica dela tranquilamente também.

P/1 – Agora, a gente tá encaminhando para o final da entrevista. Vou fazer uma pergunta mais assim, abrangente. Depois de todos esses anos…

PAUSA

P/1 – Natalia, eu tava te perguntando o quê que hoje você vê que mais mudou na sua vida depois que você foi diagnosticada com diabetes?

R – Vou falar de novo da rotina, porque eu acho que é a palavra que engloba…

P/1 – Desculpa. Só um segundo, eu não especifiquei. Eu digo assim, as questões práticas, eu acho que você abordou bem ao longo dessa entrevista, eu digo assim, o modo de ver a vida, de pensar a vida, de projetar, de…

R – Ah sim… eu não sei, eu começo a ficar mais preocupada agora porque depois de muito tempo e o fato de não estar tudo tão bonitinho, eu começo a ficar mais preocupada agora, eu não tenho problema nenhum, nunca apareceu nada, mas é agora que pode começar a aparecer, depois que a minha irmã teve filho, também apareceu uma preocupação extra, que agora sou tia e madrinha, então você tem que pensar nisso, porque tem uma pessoa ali que faz parte, tem sua família, né, minha mãe e minha irmã também, namoro, tem minha namorada também, então tem muita gente que começa a envolver e que… vai chegando os 30 anos também, foi a primeira coisa que a Denise me disse nos últimos dois anos: “Minha filha, vai chegar os 30 anos, se a gente não ajeitar agora, depois dos 30 vai ficar mais difícil”. Então, acho que é isso, esse momento é um pouco mais nebuloso assim em relação a mudar… ah, o ganho de peso também, perder e ganhar peso, eu sempre tô nesse efeito sanfona, um pouco por minha culpa, um pouco por tudo e acho que é isso.

P/1 – O quê que você acha que foi o momento mais difícil na sua relação com a diabetes nesses 15 anos?

R – Tem sido nos últimos anos, acho, que você vira rebelde, tipo, eu falo que é de saco cheio, sabe? As pessoas falam: “Mas você não pode encher o saco disso”, mas tem uma hora que enche, sabe, porque tem que medir, tem que furar… nada disso me incomoda, mas ter que pensar nisso, tipo: “Ah meu Deus, eu tenho que fazer isso hoje ou tenho que fazer isso agora”, nos últimos tempos anda mais chatinho isso, eu ando bem cansada disso.

P/1 – Fala dos seus sonhos pra gente.

R – Meus sonhos? Nesse momento, preciso arranjar um emprego (risos), porque eu fui mandada embora há pouco tempo, viajar acho que é um sonho bom, tô com planos de morara no Canadá também é um sonho bom, estudar inglês, porque eu não tive a oportunidade de estudar inglês, casar, ter um cachorro, porque eu não consegui ter um cachorro ainda, eu moro sozinha, não tenho cachorro. Acho que é isso. Não tem muita coisa.

P/1 – O quê que você achou de contar a sua história pra gente?

R – Tem umas partes legais, eu gosto de lembrar dessas coisas, principalmente as coisas relacionadas ao diabetes, porque já faz tempo, né, estavam mais constantes. Lembrar de outras coisas mais chatas. Ah, eu gostei (choro), eu não conhecia o Museu da Pessoa, meu amigo disse que é muito legal. Quando eu contei para ele, ele falou: “Sério?”, eu falei: “Sério” “Sério?”, eu: “Sério” “Nossa, que legal”, eu não conhecia, pra mim, tipo, outros amigos falaram assim: “Mas por quê que você vai fazer isso?” “Por causa disso, da diabetes”, aí eu fico mais feliz em saber que é por causa disso, porque aí, a gente volta lá naquele ponto atrás que as pessoas não sabem muito o que é isso. Tá longe ainda de saber, as pessoas não sabem que por exemplo, o diabetes se desenvolve tanto quanto a AIDS, as pessoas não sabem isso, né? As pessoas acham que é tomar insulina e que tá tudo certo ou que você é uma drogada e por aí vai. Isso me incomoda um pouco de não ter mais atenção para isso.

P/1 – Tem alguma questão que a gente não abordou aqui, algum episódio que você queira compartilhar com a gente que ficou faltando?

R – Não, acho que não. Tive uns problemas… acho que só do acampamento, eu não frequento mais a Associação depois de um episódio chato que aconteceu lá, é que no meio da contagem, isso não encaixou lá na história. Eu… quando eu… eu tive uma mudança bem radical, porque eu comecei a namorar uma menina, eu cortei o meu cabelo, eu fiz uma tatuagem e coloquei piercing e alargador em três meses e aí, tipo, as pessoas não entendiam. Isso foi muito radical para eles, né, hoje em dia, não, mas sei lá, uns dez anos atrás: “Meu Deus, o que aconteceu?”, e aí, por conta disso, eu fui barrada no acampamento, as pessoas não queriam que eu fosse… queriam que eu fosse, mas não queriam que eu tocasse nesse assunto, como se eu fosse chegar numa criança e falasse alguma coisa do tipo: “Oi, a titia tem uma namorada”, não fazia sentido nenhum pra mim. E as tatuagens também, isso eu já sabia das pessoas terem preconceito de tatuagem e tal, mas é que na minha área não tem isso e aí, teve esse afastamento da Associação e principalmente do acampamento por causa disso, as pessoas meio que acharam que a mudança foi muito radical e quando eu fui… logo depois que eu virei aspirante, que eu fui a segunda ou a primeira vez que eu fui como monitora, eles pediram pra eu tirar todos os meus alargadores e piercings, não mostrar tatuagens e não falar da minha namorada e aí, tipo, na hora, você fica: “Meus amigos vão…”, você vai e tudo bem. Aí depois que eu voltei de lá, falei: “Me senti ruim com isso”, aí depois disso, eu fiz mais duas ou três tatuagens e como é que eu cubro a perna inteira fechada? Só vou andar de calca? Não entro na piscina? Aí depois disso, eu comecei a me afastar e teve um dia, que a gente foi num encontro lá na Associação, já tinha acontecido meio que tudo isso e aí, a gente tava no bar conversando e os meus amigos começaram: “Conta pra gente, como é que é a sua namorada? O quê que aconteceu?”, conversa de amigo. Aí, eu comecei a contar, aí um menino virou e falou: “Posso fazer uma pergunta?” “Humm”, ele é diabético: “Você tá usando drogas? Tá usando heroína?” “Gente, o quê que tá acontecendo? Eu não fiz nada, gente, eu só cortei o cabelo, fiz tatuagem e tenho uma namorada”, porque esse negócio da minha primeira namorada foi um estopim muito louco, porque até então, eu tinha sempre receio de pôr uma roupa, não sei o que lá, aquela coisa tipo… e aí, quando eu comecei a namorar essa menina, quando eu conheci essa menina e comecei a namorar com ela, ela falava muito isso pra mim, tipo: “Você tem que ser quem você quer ser. Não vai se vestir assim porque a sua mãe quer. Você quer se vestir assim? Ou você quer se vestir como a sua mãe? Você quer fazer o quê? Cortar o cabelo? Quer cortar o cabelo curto?” “Quero, sempre tive vontade de cortar o cabelo curto”, na verdade, eu tive vontade de raspar o cabelo, mas não tive coragem, então cortei ele bem curto. “Então, vamos cortar o cabelo” “Não, vamos aos poucos e de repente, tá curto” “Tá bom. Você quer fazer tatuagem?” “Sempre quis” “Então, guarda dinheiro e vamos lá fazer tatuagem. Que mais você quer fazer?” “Quero por alargador” “Então vamos por alargador, onde você que fazer? Piercing. Quer por piercing na língua? Vamos. Você tem que fazer o que você quer fazer. Você quer usar boné hoje? Então, você vai usar boné hoje.”, e aí, isso me deixou tipo: “Gente, o quê que eu tô fazendo num lugar que a pessoa tem que voltar a ser uma outra pessoa… ser uma pessoa que você não é?”. Isso foi embasamento de entrevista de emprego também. Quando eu tava em empresa e não em agência, eu trabalhei no Buscapé, mas o Buscapé era ok, sabe, dá pra ir de bermuda, calca jeans, porque é descolado. Eu fui numa entrevista no Mcdonalds em Alphaville na Universidade do Hambúrguer que era pra trabalhar internamente no Mcdonalds, tipo, eu ganhava 600 reais nessa época, a vaga deles de estagiário era mil e 800 reais e eu fui até lá. Cheguei lá, a mulher começou a falar comigo, ela perguntou: “O que você quer ser quando crescer?”, eu falei: “Quero fazer isso…” “Então a vaga não e sua” e eu comecei a pensar que não era mesmo, porque eu ia ter que mudar toda a minha vida, como é que você se veste no ambiente social? Como é que você vai trabalhar? Comprar calca social, camisa social? Essa não sou eu. Eu gosto disso, de você chegar lá o mais confortável possível, ter um ambiente confortável, esse é o ponto positivo de trabalhar numa agencia, porque você é quem você é, sabe? Acho que você não precisa ser… claro, quando você vai num cliente… mas como eu não vou no cliente, então você tá ali, as pessoas conversam de tudo, não é aquela coisa protocolo, sabe, de lugar quadrado. Então fez tudo isso, esse estopim daminha primeira namorada acho que fez todo… mas as pessoas até entenderem que isso… algumas pessoas se afastaram por causa disso, então teve um… eu me afastei. Depois desse negócio do acampamento, eu me afastei totalmente deles, as pessoas falam: “A gente sente saudades, vem visitar a gente”. Minha médica todo ano, ela vai e traz uma camiseta pra mim da temporada, ela fala: “A camiseta da temporada tá guardada pra você”, às vezes, quando eu tô um pouco mais com saudades, tem amigos meus que são monitores que eram acampantes, eles vão, eu escrevo um bilhetinho, eles imprimem e colocam no mural. Mas vontade zero, não faz… sabe quando você anda na vida, tá tudo aqui, aí de repente você muda o caminho assim, você tem um outro caminho e aí, essas pessoas anão acompanham, então… as pessoas estão lá, mas eu não falo mais com elas, acho que elas já não fazem mais parte do caminho da vida. Sei lá, alguma coisa assim. Tipo, é só isso que eu acho bizarro, desnecessário, né?

P/1 – Totalmente. Obrigado por ter compartilhado coma gente e obrigado por ter contado a sua história. Foi muito rico ouvir.

R – Obrigado vocês.


FINAL DA ENTREVISTA



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