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História

O caminho de volta

Sinopse

Nesta entrevista, Luiz Galluzzi conta sobre sua ascendência baresa e fala sobre sua experiência com a cidade de Polignano a Mare. Em seguida, ouvimos a respeito de sua infância nas ruas da Zona Cerealista, onde jogou muita bola e aprendeu coisas valiosas sobre a vida, como o valor da amizade, da família e do comércio. Depois, nos conta da sua mudança para longe do Brás, a escola Bandeirantes e sua passagem pela PUC no curso de Administração. Então, Luiz fala de seu início no comércio atacadista como importador da Reluma, quando dos seus 19 anos. A partir daqui, discorre sobre as fases do comércio cerealista do Brás, as agruras dos tempos da inflação e das leis federais, além da modernização do comércio e dos produtos. Por fim, conta os seus sonhos e faz previsões à respeito do futuro da Zona Cerealista.

História completa

Polignano pra mim é uma segunda pátria, não é nem uma cidade, é um país pra mim. Já fui lá algumas vezes, me sinto muito à vontade lá, é como se fosse a extensão da minha casa, conheci muitas pessoas ao longo do tempo São Vito é o padroeiro da cidade. Lá se festeja em 15 de junho, aqui também, e quando os imigrantes italianos vieram para São Paulo, se eu não me engano a primeira imagem de São Vito no Brasil quem trouxe foi o avô do Modesto de Luca, porque como tinha aqui a colônia polignanesa já era muito grande, eles trouxeram junto com eles seus hábitos. E São Vito foi um dos hábitos que eles trouxeram, fazia parte da proteção, da crendice deles, da fé, que se comemora dia 15 de junho. Se comemora até hoje.

 

Hoje como eu disse, no Brasil, em Polignano existem 17 mil e 500 polignaneses. No Brasil hoje, com a geração que teve os filhos, tiveram os netos, agora começam os bisnetos, São Paulo tem mais de 100 mil. São Paulo é a cidade que tem mais polignaneses do mundo. E tem muitas das crenças no Brasil, muitas das coisas que eles trouxeram, não só da igreja, da festa de São Vito, como de culinária também. Muitas vezes você lá aprende a simplicidade dos alimentos e a simplicidade da amizade. São casas pequenininhas, ruas pequenas, que ficam em cima de um penhasco porque existia a invasão dos piratas e aí sim você era protegido. E como é uma cidade que se come bem, os restaurantes, trattorias, pizzarias, sorveterias, sempre tem um movimento turístico, mesmo no fim de semana de inverno. Então você consegue ver um lado teu, um espelho teu lá, que você desconhecia.

 

Uma cidade que sempre me acolheu muito bem, muito. Tanto que eu aprendi a amá-la, é um lugar que eu ainda penso um dia em morar, construímos lá um lugar que dá pra dormir pra não dar trabalho pra ninguém porque hoje os tios começaram a ficar velhos, os primos crescem, casam, tem filhos, então pra ter mais um pouco a nossa individualidade fizemos um cantinho nosso lá. E fiz graças à Zona Cerealista, que também aqui eu trabalhei e me deu condições de fazer alguma coisa na vida, crescer na vida. E é uma história muito louca porque você vê um pai que vem de lá pra cá sem nada, com uma mão na frente e outra atrás, se mata de trabalhar aqui em São Paulo, chega a trabalhar como funcionário no começo, funcionário de confiança dos _0:13:26_, uma família também tradicional na época. E ele trabalhou feito louco, que economizava o dinheiro de um bonde pra guardar o dinheiro, começar a vender caneta pros clientes que ele visitava pra ganhar mais um trocado. De todo esse trocado que ele ganhava, metade ele mandava pra minha avó pra ajudar e a outra metade guardava pra ele, pro futuro dele. E aí ele casou, conseguiu abrir a empresa dele, me deu estudo completo.

 

Acho que é uma história vitoriosa, não por ser meu pai que tem mais um monte de pessoas que eu posso citar os nomes e que tiveram o mesmo tipo de história, que venceram pela necessidade, venceram: “Não vou deixar meu país natal, meus amigos e minha família pra vir aqui passear”. Então acho que isso é uma coisa importante. E hoje, graças a Deus, eu tenho a oportunidade, se eu quiser, de fazer o caminho inverso, com uma outra estrutura, melhor do que quando ele veio, então isso é uma coisa muito gratificante. E isso eu devo ao Brás, o Brás nos permitiu, o Brás e nossos esforços.

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Publicado em 30/10/2016 por

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P/1 – Obrigado pelo tempo e pela disposição.

R – Agradeço. Eu gosto dessas coisas.

P/1 – Fala pra mim o seu nome inteiro, local e data de nascimento?

R – Luiz William Labate Galluzzi, oito de maio de 65. São Paulo, capital.

P/1 – Você nasceu em hospital aqui e onde?

R – Nasci no Hospital Matarazzo, São Paulo, e vim morar no Brás quando era pequeno. Da maternidade vim para o Brás, na rua Américo Brasiliense, que hoje é Eurípedes Simões de Paula.

P/1 – Vamos voltar um pouquinho antes nessa história. Qual é o nome do seu pai, onde ele nasceu e quando?

R – Meu pai é Guglielmo Galluzzi, no Brasil se fala Gulhelmo Galluzzi. Nasceu em Polignano a Mare, na Itália, em 1929. Minha mãe nasceu no Brasil, em 34, Rosa Labate Galluzzi, de famílias que eram conhecidas de Polignano a Mare.

P/1 – O seu pai então nasceu na Itália. Por que ele veio pro Brasil?

R – O meu pai veio pro Brasil por causa da guerra. A guerra destruiu tudo, eles tinham trabalho, tinham família, o meu avô tinha uma indústria de óleo e óleo na época de guerra é alimento pro governo, é confiscado. Foram tomando tudo e no período pós-guerra pobreza, fome mesmo, a família até tinha alguns imóveis, propriedades, mas não se pagava com isso daí. Aí meu pai resolveu ver a sorte no Brasil. O meu avô veio antes com um irmão do meu pai, ficaram aqui dois anos, não se adaptaram, voltaram pra lá. Meu pai veio quando eles estavam aqui, quando chegou aqui no Brás porque o Brás foi o lugar que a maioria dos polignaneses fixaram residência na época. Meu pai com 27, 28 anos de idade conheceu minha mãe, aí nasceu uma história de amor que continua até hoje. É por isso que eu estou no Brás também. E meu pai disse à minha mãe na época: “Vou casar com você, eu gosto de você, mas a minha intenção é voltar pra Itália”. E ela ficou assim: “É, casa e vamos ver o que vamos fazer”. E a história está aqui, estou aqui até hoje. E eles também.

P/1 – Que ano que o seu pai veio pro Brasil, você sabe exatamente?

R – 1957. Setembro de 57.

P/1 – E ele fala pra você como seu avô era, como era Polignano?

R – Sim. Fala, me conta muita história de lá. Tivemos algumas oportunidades de irmos juntos pra lá, sempre tem aquele pedaço que ele me pega e para: “Olha, aqui era a minha infância, aqui onde eu namorava escondido, aqui a minha praia que eu gostava de criança, lá é o lugar que eu sentava”, conta algumas histórias do meu avô. E como eu também tenho muitos primos lá, então você acaba aprendendo um pouco como era a minha família lá, porque eu não conheci os meus avós. Eu fui pra Itália a primeira vez eu tinha 16 anos, meus avós já eram falecidos. Então eu tiro essa cultura que eu tenho de lá foi passado um pouco pelo meu pai, um pouco por ir pra lá, mas principalmente pela minha mãe, que mesmo não nascendo lá, ela era filha de italianos da região. E minha mãe é uma pessoa que sempre amou isso, então ela conhecia os lugares sem ter conhecido. Então quando nós fomos pra lá ela mesmo pegou e falou assim: “Olha, essa rua aqui foi a rua que nasceu a minha vó. Essa rua aqui, quando minha mãe saiu de noiva pra ir pra igreja casar”. Quer dizer, sem nunca ter ido pra lá ela sabia os lugares, portanto, me passaram muito dessa cultura. Então tem um pouco enraizado isso em mim.

P/1 – E que histórias seu pai contava de Polignano, que você falou? Por exemplo.

R – No caso específico dele, ele sempre brinca que ele era o último irmão de seis, então tinha uma bicicleta e ele sempre era o último a dar a volta porque todos tinham que dar a bicicleta primeiro, ficava pra ele por último, então já era de noite, mas mesmo assim esperava pra andar. E ele fala que no Brasil um dia ele me deu uma bicicleta, então foi um orgulho duplo, como se tivesse, ele criança ainda, recebendo uma bicicleta. Ele conta as histórias de lá que no pós-guerra as pessoas realmente não tinham trabalho, queriam tentar alguma coisa, um monte de gente jovem saindo pra vida sem ter o que fazer e buscando alternativas. Eram pessoas que tinham berço, de uma maneira simples, mas buscavam alternativas pra vida. Começaram a ir pros Estados Unidos, pro Brasil, outros pra Argentina, em busca de uma América melhor, de uma vida melhor. E ele falou que na época ele foi inclusive servir o serviço militar porque na casa dele seria uma boca a menos pra comer, que apesar da família dele ter até um pouco de condições, era um período muito difícil. E que ele foi fazer o serviço militar pra ajudar minha avó, meu avô, era uma boca a menos pra comer. Em vez de seis filhos, tirando um são só sete no total, né? Então são essas passagens que dão valores pra gente também. Então, creio eu que a maioria, principalmente dessa imigração italiana que teve, o pessoal que veio, veio disposto a trabalhar. Veio no Brasil pra comer, mas pra trabalhar também, com vontade, sabe? Acho que isso ajudou muito até o desenvolvimento da Zona Cerealista. Não vieram aqui passar tempo: “Ah, vou ganhar mil reais e vou voltar pra lá”. Não, veio pra suprir uma necessidade mesmo e tentar vencer na vida.

P/1 – Entendi. Descreve pra mim como é Polignano. Você já foi lá, como é que é?

R – Uau! Polignano pra mim é uma segunda pátria, não é nem uma cidade, é um país pra mim. Já fui lá algumas vezes, me sinto muito à vontade lá, é como se fosse a extensão da minha casa, conheci muitas pessoas ao longo do tempo. Consegui entender a cultura local, o que é o frio, o que é comer uma azeitona frita, o que é o peixe de mar fresco, como você consegue fazer uma coisa simples ficar gostosa. Muitas vezes você aprende a simplicidade dos alimentos e a simplicidade da amizade. Por ser uma cidade pequena lá você consegue ter amigos no dia a dia mais fácil, você sempre dá uma saidinha, você não precisa nem gastar dinheiro, você não é escravo do dinheiro lá. Você sai, encontra os amigos numa praça, troca uma ideia, bate um papo, olha pra cara de um: “Pô, você não tá com a cara boa hoje, o que aconteceu?” “Ah, discuti em casa, meu trabalho não está legal. A mulher que eu gosto brigou. Preciso comprar uma casa nova”. Quer dizer, a pessoa se torna um pouco mais amigo, ela fica um pouco menos refém do WhatsApp. O WhatsApp ajuda na comunicação, mas aquela coisa de olhar nos olhos, eu acho que lá você vive mais fácil do que aqui. Então Polignano pra mim é referência pra muita coisa.

P/1 – É à beira do mar lá?

R – É à beira do mar, uma cidade praiana, 17 mil habitantes, 17 mil e 500. No verão é lotada, com milhares e milhares de turistas. No inverno, claro, ela é uma cidade de praia, então no inverno o turismo acaba não tendo tanto, mas sempre tem alguns passeios de cidades vizinhas. Nesse final de semana vai ter a saga do livro, vai ter a saga de um produto de funghi, então sempre tem um evento cultural ou gastronômico, ou lançamento de algum livro pra atrair pessoas de outras cidades pra ir lá no fim de semana. E como é uma cidade que se come bem, os restaurantes, tratorias, pizzarias, sorveterias, sempre tem um movimento turístico, mesmo no fim de semana de inverno. Então Polignano foi descoberta no mundo italiano, fizeram nos últimos anos uns cinco, seis filmes na cidade, que pra Europa, muito pra Itália inicialmente, abriu o turismo absurdamente, muito turismo. Hoje muitas pessoas da Europa querem conhecer Polignano pra conhecer esses filmes, geralmente são comédias do dia a dia, do cotidiano, da diferença do cara que é do Norte, do cara do Sul, dos costumes, que um come com a mão, o outro é mais polite, essas coisas assim. E neste tipo de comédia fica engraçado de ver.

P/1 – E como são as ruas e as casas? Elas são brancas, que cor que são? Como é a rua?

R – As ruas são estreitas, as do centro histórico são ruas bem estreitas, eram ruas que foram feitas pra passar cavalos, não para passarem carros. Então não tem como passar carro nessas ruas, ou você pode passar uma moto, mas um carro jamais. Esses carros pequenininhos que tem pode até ser que algum entre, mas como é um centro totalmente histórico é só na praça mesmo e depois você não tem acesso com carro, tem que ser com carrinho de mala que leva ou as ruas por fora da cidade histórica que dão acesso mais próximo, ao destino final. São casas pequenininhas, ruas pequenas, que ficam em cima de um penhasco porque existia a invasão dos piratas e aí sim você era protegido. Essa cidade em cima do mar, em cima das rochas, pros piratas subirem pra invadir é sempre difícil, o pessoal estava aqui em cima se defendendo, podia jogar óleo, podia jogar coisas. E pelo mar tem uma entradinha, uma baía lá, vai tipo um porto que eles poderiam subir. Então a cidade pela frente tem um portão que seria a porta da cidade que também às seis da tarde ou numa possível invasão se fechava e virava um mini reino de um castelo, vamos dizer assim, que tinha uma cidade lá dentro de auto-defesa. Então é uma cidade medieval nesse sentido. Lá dentro da cidade até hoje é conservada essa característica das casinhas brancas, o piso da época, tem a sua igreja matriz e tem as grutas que se avista lá de cima. É uma cidade que é intocável no tempo nesse sentido.

P/1 – E quando você vai pra lá você fica onde geralmente? Tem um lugar x ou y?

R – Como eu disse, meu pai era o último filho, então eu tive lá cinco tios. E sempre que você ia pra lá era uma festa, as coisas pra irem antigamente eram mais difíceis que hoje, hoje é um pouco mais fácil você viajar, você divide passagem, você tem mais facilidades, então eu lembro que na época apesar da passagem poder proporcionalmente ser cara, mas era mais difícil de ir. A gente também estava começando a vida, uma economia mais difícil pra família que estava começando as coisas e quando eu ia lá era uma festa ficar na casa dos meus tios, em geral na casa da minha tia que era irmã do meu pai, tinha esse negócio da irmã mulher acolher, tinha mais disso e eu ficava sempre na casa deles e assim.

P/1 – Era uma festa.

R – Uma festa sempre. E tudo era motivo pra festa. Às vezes você saía, ia jantar fora, ia comer na casa de um tio, na casa de um primo, ia tentando entrosar as brincadeiras. Daí você consegue entender às vezes por que seu pai era de uma maneira assim com você em São Paulo, daí você começa a aprender que o irmão dele era assim, que é uma coisa de família. O primo que parece mais com você, o jeito de brincar, o jeito de rir, o jeito de ser família, ou de paquerar. Então você consegue ver um lado teu, um espelho teu lá, que você desconhecia. Uma cidade que sempre me acolheu muito bem, muito. Tanto que eu aprendi a amá-la, é um lugar que eu ainda penso um dia em morar, construímos lá um lugar que dá pra dormir pra não dar trabalho pra ninguém porque hoje os tios começaram a ficar velhos, os primos crescem, casam, tem filhos, então pra ter mais um pouco a nossa individualidade fizemos um cantinho nosso lá.

P/1 – Você fez já?

R – Já fiz. E fiz graças à Zona Cerealista, que também aqui eu trabalhei e me deu condições de fazer alguma coisa na vida, crescer na vida. E é uma história muito louca porque você vê um pai que vem de lá pra cá sem nada, com uma mão na frente e outra atrás, se mata de trabalhar aqui em São Paulo, chega a trabalhar como funcionário no começo, funcionário de confiança dos _0:13:26_, uma família também tradicional na época. E ele trabalhou feito louco, ele economizava o dinheiro de um bonde pra guardar o dinheiro, começar a vender caneta pros clientes que ele visitava pra ganhar mais um trocado. De todo esse trocado que ele ganhava, metade ele mandava pra minha avó pra ajudar e a outra metade guardava pra ele, pro futuro dele. E aí ele casou, conseguiu abrir a empresa dele, me deu estudo completo. Acho que é uma história vitoriosa, não por ser meu pai que tem mais um monte de pessoas que eu posso citar os nomes e que tiveram o mesmo tipo de história, que venceram pela necessidade, venceram: “Não vou deixar meu país natal, meus amigos e minha família pra vir aqui passear”. Então acho que isso é uma coisa importante. E hoje, graças a Deus, eu tenho a oportunidade, se eu quiser, de fazer o caminho inverso, com uma outra estrutura, melhor do que quando ele veio, então isso é uma coisa muito gratificante. E isso eu devo ao Brás, o Brás nos permitiu, o Brás e nossos esforços.

P/1 – Só terminando essa parte de Polignano, fala o que tem lá. Tem uma igreja, quais são os pontos históricos de lá?

R – Polignano é a cidade natal de Domenico Modugno, que cantou Volare, que é uma música conhecida. Dizem que é uma das frases mais conhecidas no mundo inteiro, que se você estiver na Tailândia, estiver na China, na Austrália e alguém assobiar (assobia o início do refrão de Volare), provavelmente ainda vai te responder (completa o refrão). Quer dizer, é muito conhecida no mundo inteiro. Ele nasceu em Polignano, foi amigo de infância do meu pai, deu os primeiros acordes no piano na casa do meu avô e ele sempre disse lá que o lugar dele não era lá, que ele queria crescer, que ele queria ser músico, artista. Na verdade ele queria ser primeiro ator, ele partiu pra Roma. E em Roma, ele é um rapaz muito desenvolto, muito comunicativo, tinha o dom de falar, de brincar, de convencer, de persuadir as pessoas no sentido bom da coisa, ele foi pra Roma, não virou ator, virou cantor. Fez alguns filmes também e virou cantor. Então Polignano, hoje, virou uma cidade que estão difundindo muito mais isso, que antigamente não se falava tanto, que Domenico Modugno seria o filho mais nobre de Polignano. Polignano tem suas praias lindas, maravilhosas, com águas, com grutas, um peixe fresco, restaurantes, tratorias. É um povo hospitaleiro e quando vai alguém daqui pra lá que você recomenda ainda: “Olha, está indo um amigo meu”, não sabem o que fazer pra te agradar. Aqueles almoços de domingo que começam ao meio-dia e vão até cinco da tarde. E Polignano é isso, é um lugar que você pode ir pra descansar, pra comer, pra tomar um belo vinho, tomar sorvete, passear na rua, passear de bicicleta, passear de barco. Infelizmente no nosso momento atual, nosso país, você lá fica um pouco mais tranquilo com a violência, você deixa a tua mochila na praia, vai nadar, volta e sua mochila está lá, existe um pouco mais de respeito ao cidadão. Mas essa parte não importa, isso é questão de tempo e um tempo também teremos esse tipo de coisa. Mas Polignano é isso, é uma cidade pequena, mas muito bem acolhedora.

P/1 – E qual é a história de São Vito com a cidade?

R – Então, São Vito é o padroeiro da cidade. Lá se festeja em 15 de junho, aqui também, e quando os imigrantes italianos vieram para São Paulo, se eu não me engano a primeira imagem de São Vito no Brasil quem trouxe foi o avô do Modesto de Luca, que a primeira imagem de São Vito, porque como tinha aqui a colônia polignanesa já era muito grande, eles trouxeram junto com eles seus hábitos. E São Vito foi um dos hábitos que eles trouxeram, fazia parte da proteção, da crendice deles, da fé, que se comemora dia 15 de junho. Se comemora até hoje, hoje como eu disse, no Brasil, em Polignano existem 17 mil e 500 polignaneses. No Brasil hoje, com a geração que teve os filhos, tiveram os netos, agora começam os bisnetos, São Paulo tem mais de 100 mil. São Paulo é a cidade que tem mais polignaneses do mundo. E tem muitas das crenças no Brasil, muitas das coisas que eles trouxeram, não só da igreja, da festa de São Vito, como de culinária também.

P/1 – E por que São Vito está em Polignano? Como é que ele é, você sabe?

R – Bem, vamos lá, vamos ver se eu sei. Eu sei que... agora você me fez uma pergunta que eu não sei te responder com detalhes.

P/1 – Não tem problema.

R – Eu acho que quem poderia falar isso com mais detalhes seria o Luccino. São Vito é o padroeiro da cidade, isso eu sei. Lá tem os restos mortais dele, tem o braço santo dele, era um santo pagão. Eu sei que tem uma igreja na república tcheca e é padroeiro da cidade, padroeiro dos animais, dos pescadores, é isso o que eu sei. Eu não sei dizer em detalhe por que ele é padroeiro da cidade.

P/1 – Não tem problema. Agora o seu pai foi pra guerra?

R – Não, não, meu pai não chegou a ir pra guerra, ele não tinha idade pra ir. Ele teve irmão que foi.

P/1 – Ah, é?

R – É. Meu pai era caçula na época, ele não tinha idade pra ir na guerra. Meu pai nasceu em 29, a guerra, em 39 ele tinha dez anos, ele não pegou a guerra, teve irmão que chegou a ir pra guerra. Por isso que ele fala, quando acabou a guerra foi a época que, mesmo um pouco antes da guerra já tinha uns atritos lá, então ele tinha dez anos quando a guerra começou, então passou a guerra dos 39 aos 45, dos dez aos 16 anos, que é uma idade que uma criança brinca muito, né? Ele fala assim: “Isso daí eu não tive, tive pouco”.

P/1 – E ele falou pra você como foi a viagem dele pro Brasil? Como é que foi?

R – Foi num navio, ele veio com uma roupa no corpo e mais uma maletinha, se não me engano, com mais uma roupa se bobear. A minha avó chegou pra ele: “Ó filho, toma, sei lá, dez euros, que é pra você no navio comer alguma coisa, se precisar de alguma coisa”, porque era uma coisa realmente que não dava pra fazer quase nada. E ele trouxe as duas roupas no corpo, chegou no navio perto de São Paulo, com fome também, pegou um pouco daquele dinheiro, falou: “Pô, vou comprar comida, meus irmãos estão aqui”, já tinha dois irmãos aqui e o meu avô, ele comprou um cacho de banana. Um cacho de banana com tanta bananas e achou o máximo. E foi isso uma coisa que ele comprou no navio, quer dizer, não foi uma viagem fácil, morria gente no navio, jogavam. Mas era em busca de um mundo melhor. E uma curiosidade que teve da viagem, depois de 50 anos ele estava numa padaria italiana comprando pão e atrás dele tinha um senhor também comprando pão. E o dono da padaria que conhece os dois clientes fala assim: “Pois é, o meu pão é bom, né? Cliente de vocês”. Meu pai coincidentemente falou assim: “É, to aqui no Brasil já há 50 e tantos anos”. O de trás: “Eu também, cheguei no Brasil tem 53 anos” “Verdade? Eu cheguei aqui no dia sete de setembro”. Ele disse: “Eu também, sete de setembro” “Tá brincando? Pô, nós viemos no mesmo navio”. Eles não se viram no navio, ou se se viram, se viram lá e nunca mais. E depois de 50 e poucos anos se encontraram numa padaria, descobriram que vieram no mesmo navio e os dois moravam na mesma rua em São Paulo. Quer dizer, falar que é uma novela, se fosse uma história ia ser difícil de acreditar (risos). Mas é um particular da viagem. E a viagem foi o que ele disse, é uma viagem sofrida, uma viagem de dez dias, demorava, você cruzava o oceano sem celular, sem telefone, é uma viagem pro desconhecido pra tentar algo melhor.

P/1 – E ele chegou em Santos, você sabe?

R – Chegou em Santos no dia sete de setembro de 57. Meu tio estava lá esperando, vinha com baú. Aí veio pra São Paulo e começou a tocar a sua vida, arrumar um lugar pra ficar, no princípio um trabalho e começou a origem da minha família no Brasil.

P/1 – Ele chegou e veio direto pro Brás, já?

R – Sim, direto.

P/1 – Que rua que ele foi morar? Américo Brasiliense?

R – Não, ele morava, se não me engano, na Benjamim de Oliveira mesmo, com um irmão. Quando ele se casou foi morar na Américo Brasiliense, que hoje é Eurípedes Simões de Paula. Depois ficamos um pouco maiores, eu e minha irmã, e viemos morar na rua Benjamim de Oliveira até o ano de 79. Em 79 meu pai comprou uma casa fora do Brás, em outro bairro, tudo, e mudamos pra lá.

P/1 – Agora a sua mãe, fala um pouco dela. Qual é a origem da família dela, você já falou já.

R – É de Polignano também, de pai e mãe.

P/1 – Mas ela nasceu onde?

R – Nasceu aqui, dois irmãos nasceram lá. Também uma família de cinco irmãos, o meu avô comerciante também. O que eu vou te dizer mais dela? Minha mãe é aquele tipo de criação de mulher de mais antigamente, lavava, passava, cozinhava, ela tinha o dom pra cozinha, cozinha até hoje muito bem, sempre gostou disso. Uma mãe muito tranquila, não em relação ao filho porque filho é filho, mas em relação às pessoas em geral. Sempre foi uma pessoa voltada pra paz, voltada pra dar um conselho, voltada pra ter um dia melhor, sempre uma palavra de apoio, ela teve mais esse tipo de origem.

P/1 – Você falou que o avô dela, ou o seu avô, era comerciante, é isso?

R – É.

P/1 – Ele era comerciante de quê?

R – O meu avô comerciava arroz e cereais em geral.

P/1 – Já aqui já?

R – Já aqui. Tinha cinco filhos, morava em cima no sobrado com cinco filhos. Meu avô era um comerciante que trabalhou pra sobreviver, trabalhou pra manter a casinha dele, pra morar a mulher e os filhos, o armazém embaixo, não foi um grande comerciante no sentido como alguns outros que fizeram fortuna, mas criou uma família de cinco filhos.

P/1 – Qual era o nome dele e o nome do armazém, você se lembra?

R – O nome dele era Rafael Labate. O nome do armazém dele eu não lembro, quando eu nasci já não existia mais. Passou pro filho dele, eu não sei dizer.

P/1 – O que aconteceu, tá. E o seu pai já, ele começou a trabalhar de quê? Você falou que ele foi empregado de confiança.

R – Meu pai começou a trabalhar pro Lerário. O Lerário era um senhor aqui do Brás que também trabalhou muito, construiu muitas propriedades, muitos armazéns e pegou meu pai para trabalhar pra ele, pelo que eu entendo, uma espécie de office-boy, talvez um office-boy de luxo até, de confiança, meu pai ia cobrar os aluguéis dele. Quer dizer, acho que pra cobrar aluguel é uma pessoa que você tinha confiança, meu pai nunca falhou com eles em nada, cobrava os aluguéis e muitas vezes o aluguel era pra cobrar na rua de trás, então não tinha necessidade de pegar um ônibus. Então ele ia correndo pra economizar o dinheiro do bonde pra tentar começar a fazer o pé de meia dele, não escondendo do Lerário, falando a verdade: “Olha”, e o Lerário entendia. E o Lerário também era uma escola de vida pra muitas pessoas, então o Lerário falava assim: “Guilherme, vem comigo que eu vou no mercado fazer um pouco de compras”, meu pai é mais novo, “você ajuda ele a carregar os sacos, as compras”. E o Lerário tinha dinheiro, era uma família que já tinha dinheiro e ensinava. Então ele foi comprar uma dúzia de laranjas. “Quanto está a dúzia?” “Três reais” “Pô, mas três a dúzia? Me faz dois e cinquenta”. E era o dono da banca, esse tem dinheiro, fica chorando 50 centavos. “Não, faz dois e cinquenta” “Não posso” “Vai, dois e setenta então” “Tá bom”, fez dois e setenta. Meu pai: “Tó Guilherme, leva lá o saco”. E o tio da banca seguinte: “Quanto tá cinco caquis?” “Ah, cinco caquis está 30 centavos” “Me dá. Tá vendo só, Guilherme, os meus caquis saíram de graça”. Quer dizer, a diferença que ele economizou lá. Esse tipo de história de vida de você dar valor ao dinheiro. Não é você pegar e ser judeu, ser escravo, mas entender que você pode com o dinheiro fazer muita coisa e não desperdiçar à toa, tudo tem seu valor. Então são escolas de vida que pelo menos é o que o meu pai fala: “Se você vai fazer igual eu não sei, se o seu filho vai fazer igual, eu não sei, mas como pai a gente tem que ensinar. Ainda mais a gente que veio de uma guerra”.

P/1 – E como é que o seu pai conheceu a sua mãe?

R – Como vieram morar no mesmo bairro aqui, naquela época não existiam televisões e a diversão das pessoas era se juntarem à noite, como eu digo até na Itália acontece isso, ia pro centrinho, se encontravam, batiam papo e cada um pra sua casa. Então no dia a dia se encontravam e às vezes à noite acontecia muito disso: “Vamos todo mundo nos reunir na casa do João”. Então eu tenho facilidade em levar vinho, o outro vai levar pão, o outro vai levar melancia. A minha avó tocava violão, ia com violão. Se reuniam na rua, um tocava violão, o outro cantava, um tocava gaita, cortava um pedaço de pão pra cada um, uma melancia pra cada um e se divertiam. E nisso os adolescentes, as pessoas em volta, com certeza numa dessas meu pai se engraçou com a minha mãe e começaram a namorar. A minha mãe fala brincando que ela não queria ele no começo, que não queria, que tinha outros homens que iam atrás dela mas que a vó não deixava, não sei o que lá. Mas que no final, claro, que foi o homem da vida dela. E com certeza deve ter sido assim que se conheceram. Minha mãe conta que a primeira televisão que veio no Brás era da família Tucci, que era aqui na Benjamim de Oliveira mesmo, acho que número 54, não vou dizer ao certo. E que quando veio a primeira televisão todos vieram à noite pra se reunir pra ver a televisão, o que era, porque era uma coisa diferente. E era mais um motivo de festa, aí todo mundo trazia uma água, um vinho, um pedaço de torta, um pedaço de pão, uma fruta, se reuniam e se divertiam. De repente namoros, paqueras, casamentos.

P/1 – E eles casaram em que ano, você sabe?

R – Eles se casaram em 1964. Vão fazer 52 anos de casamento.

P/1 – E nessa época seu pai ainda trabalhava pro...?

R – Meu pai trabalhava, que eu me lembre, que eu saiba a história, em 69 o meu pai abriu uma empresa com mais dois sócios, deixou de ser funcionário pra virar patrão em 69. Aí teve uma enchente, perderam tudo, aí quem vendeu falou assim: “Olha, vou fazer uma coisa, eu vou te mandar mais 200 sacos do feijão branco que você não vai ter como pagar, aí você me paga aos poucos aquele e esse”. Aquela história, mais ainda se trabalhava pra pagar uma dívida que acabou ficando e também por um cara te ajudar. E graças a Deus vai pegando, vai acertando e as pessoas sabem quem era de bem, quem era de mal numa hora dessa e acaba ajudando também. Ele passou, superou e começou a trilhar um caminho melhor.

P/1 – Seu pai contava pra você como era o Brás quando ele chegou aqui. A sua mãe também, ela cresceu aqui?

R – Minha mãe cresceu aqui.

P/1 – Eles falam como é que era antigamente?

R – Olha, o que eles me falam muito era disso, que as pessoas trabalhavam, todo mundo precisava trabalhar, muitas pessoas no Brás trabalhavam pro Matarazzo. Tinha indústria Matarazzo no fim da rua, tinha parte acho que de roupa, de tecelã, não sei, de biscoitos também, então muita gente trabalhou pro Matarazzo, outras pessoas ficavam na Zona Cerealista mesmo, outras ajudavam em casa, porque quatro, cinco filhos às vezes, precisava de alguém em casa pra, minha mãe fala, lavar lençol, lavar toalha não é como hoje, era pesado, não tinha máquina, lavava na mão, você chegava a ficar com dor nas costas de lavar roupa pra sete pessoas numa casa, por exemplo. E o que eu entendo é que a vida era uma vida difícil, mas era uma vida um pouco feliz, as pessoas se ajudavam mais. Hoje, pelo curso do mundo, a gente acaba sendo um pouco mais individualista, temos que, não sei, temos a vida hoje um pouco mais, cada um está seguindo mais o seu passo, até porque cada um vai morar em um lugar diferente, não se mora como antigamente no mesmo bairro, você acompanha um ou outro. “Estou com duas galinhas, leva uma você, não preciso das duas hoje”. Hoje a gente tem as duas, pega e congela uma que um dia vai precisar comer. Então eu acho que as pessoas aqui se ajudavam mais, tinham mais lição de vida, era uma cidade mais romântica, vamos dizer assim.

P/1 – Você nasceu em 67?

R – Cinco.

P/1 – Em 65. E você é o filho mais velho?

R – Sou, eu sou o filho mais velho. Eu tenho uma irmã, minha irmã eu acabo falando muito pouco dela porque ela é excepcional, então ela tem os problemas dela, a gente aceita, a gente cuida, mas não é uma pessoa que convive no meio normal. Então eu tenho uma irmã, mas ela é uma pessoa especial. E ela vive numa clínica, morou conosco aqui até 79, mudamos para casa, um dos motivos que meu pai quis comprar uma casa foi pra justamente minha irmã ter um espaço maior, um jardim. Aí é uma coisa muito delicada pra falar pra gente porque entra em história de criança, então eu também me orgulho do meu pai que ele conseguiu fazer uma coisa, de dar pra minha irmã um espaço com jardim, um espaço pra ter cachorro, pra brincar e pra ser solta, coisa que aqui ela era presa no apartamento, né? E aí ficamos nessa casa muitos anos, minha irmã quando chegou a atingir 18 anos alguns médicos vieram falar comigo e falaram: “Olha, a sua irmã vive bem no mundo dela, ela não entende o mundo da gente. A mãe, sempre que tem uma mãe que tem um filho, a mãe se doa a esse filho 99,99% do tempo pra não falar 100%. A sua mãe era uma mulher muito bonita, estilo miss, e o tempo está machucando muito a sua mãe porque ela vive em função da sua irmã. Eu acho que agora que você está fazendo 18 anos, Luiz, conversa com a sua família, vamos tentar colocar a sua irmã numa clínica, porque infelizmente a vida dela é essa. Talvez numa clínica ela vai ter uma assistência de um mundo apropriado pro dela e a sua mãe volte a viver. Vai doer, mas como agora você já é um homenzinho”, falaram assim pra mim, “conversa com a sua família”. Aí falamos com vários médicos e, realmente, um médico chegou e falou assim: “Olha, a mãe vai ser mãe em qualquer lugar do mundo, vai estar pensando na filha. Mas do jeito que as coisas são um dia a mãe vai acabar falecendo e a filha, que seria um “problema” vai continuar existindo. Então eu creio que o mais importante realmente seja internar a menina numa clínica com condições específicas pra ela, uma boa assessoria. E em geral uma clínica que não seja em São Paulo, porque a mãe quer ir todo dia visitar o filho, ainda mais quando vai sair, então quer todo dia ver a filha, ver se está bem”. Aí os médicos no indicaram uma clínica em Betim, Belo Horizonte, ela está lá até hoje, vem pra cá duas vezes por ano. Minha irmã foi uma pessoa no Brás que também marcou porque ela era diferente das crianças normais, então todos meus amigos até hoje que me encontram: “E a sua irmã?”. Quer dizer, então o Brás, além de ser um bairro, ele era uma cidade. O Brás tinha uma coisa que quem morava aqui era uma grande família, muito, muito, muito junto um do outro nesse sentido. E voltando ao assunto da minha irmã, ela está nessa clínica até hoje, vem pra cá duas vezes por ano, vem em julho um mês, vem no Natal e fica mais um mês com a gente. E é isso, eu tenho uma irmã, infelizmente, nessas condições.

P/1 – Ela tem quantos anos hoje?

R – Ela vai completar 50 anos esse ano. Não vou entrar aqui no mérito político do Brasil de ajuda a crianças excepcionais porque eu acho um absurdo, não porque eu tenho um problema em casa, eu tenho problema em casa que meu pai até hoje pode bancar, que é uma faculdade que não termina, que tua filha está lá internada há 30 e poucos anos, é uma faculdade que não termina. Eu acho que uma pessoa que passa dos 80 anos deve cansar, que o meu país me ajudasse, o país onde ela nasceu. Mas tudo bem, nós tivemos condições de criá-la, o que a gente fica um pouco triste é que a gente conheceu pessoas que não têm condições de criar e que abandonam os filhos nessas clínicas, isso a gente acaba ajudando de uma maneira ou outra a mais, mas claro que sempre pesa um pouco mais. Mas acho que isso não vem ao caso da entrevista como uma coisa importante, seria um outro livro.

P/1 – Agora só um pouco nesse sentido, qual é a questão da sua irmã exatamente?

R – Então, ninguém sabe dizer ao certo o que ela teve. Minha mãe teve uma gestação normal, eu sou o filho mais velho, então não era a primeira gestação dela. Minha irmã nasceu normal, chorou bonitinha, igual a todo mundo. Quando começou a passar dos dois anos de idade ela começou a ter umas pequenas diferenças em relação aos primos: colocava o copo muito na quina. “Ah, vamos na casa do João”, ela ia, mas sempre ia depois. Então, a primeira coisa que se pensou foi: “Será que ela não escuta muito bem? Será que ela não enxerga muito bem?”, mas nunca uma coisa cerebral. E aí foram vários e vários exames com ela e não tinha nada nos exames, ela escutava, enxergava, tinha calor, frio, tudo isso daí. A única coisa que depois foram fazer exames mais profundos porque a Medicina também, imagina o que a Medicina evoluiu em 45 anos. A única coisa que realmente descobriram é que o cérebro dela não se desenvolveu, é do tamanho de uma ameixa, e a massa encefálica dela não cresceu. Então esse é o motivo disso. Se amanhã a Medicina souber como fazer isso crescer ela poderia, talvez, ter uma vida normal. A gente sabe que as células do cérebro sofrem mitose até os dois anos, por isso que se tem um acidente cerebral depois dos dois anos você não tem regeneração nele porque elas não crescem mais, então o cérebro dela com dois anos parou de crescer, ficou do tamanhozinho de uma ameixa e é esse o problema dela. O porquê ela ficou assim, por que aconteceu isso, você não pode afirmar ‘foi por causa disso’. Minha mãe, instinto materno, ela tem a intuição dela, intuição de mãe é muito forte. Ela diz que no parto, naquela época, o parto era o doutor conhecido, como é que chamava? Ai, me fugiu o nome dele agora, mas super conhecido, doutor Domingos Delascio. E ele falou pra enfermeira: “Olha, eu estou aqui no hospital, estou dando uma volta, a Rosa está aqui na sala já, as coisas vão começar a ficar mais fortes, quando começar a contrair mesmo, ficar forte, me chama que eu venho fazer o parto, tal”. Naquela época não existia bip, não existia celular, não existia um monte de coisa, era uma coisa de chamar. E a enfermeira ficou lá, minha mãe lá esperando a vez dela, aquela coisa. E a enfermeira saiu. A minha mãe viu que a enfermeira saiu. Aquela coisa: “Nossa, estou sozinha. E se acontecer alguma coisa eu estou sozinha”. A famosa lei de Murphy, ela começou a sentir as contrações, aquela coisa do medo: “Nossa, vou começar o parto agora, estou sozinha e agora?”, e começou a ter o trabalho de parto na hora e começou a gritar. “Socorro, estou aqui!”. Nisso a enfermeira ouviu e veio correndo. E a enfermeira tinha que mandar avisar o médico. E a minha mãe, não estou falando que é uma acusação, é o instinto dela materno, a imagem que sobrou naquele segundo, foi que a enfermeira colocou a mão e em vez de começar a ajudar o trabalho de parto, ela meio que segurou: “Vamos esperar o médico chegar, eu não sou a médica, tem que esperar o médico chegar”, então ela retardou a saída da minha irmã. Com certeza deve ter parado a oxigenação pela moleira da criança. Então minha mãe tem muito, muito feeling, que naquele momento faltou oxigenação. Minha mãe é uma pessoa de bem, é uma pessoa que hoje ajuda Deus e o mundo, sempre tem uma palavra boa pra todo mundo, eu falo que eu não posso falar da minha mãe porque eu sou filho, é difícil, então eu falo que a dona Rosa é uma pessoa especial, ela tem as amigas que falam por ela, esquece o filho. E quando fala do parto o rosto dela se transforma. Ela fala: “Eu não troco a minha filha, mas a minha vida mudou. Porque você é jovem, você pensa em criar a sua família, teu filho, tua filha, pensei que ia ter mais um filho depois e no final a vida reserva todas essas coisas pra gente”. Mas ela criou com carinho até hoje, é uma bebê de 50 anos pra ela. É isso.

P/1 – Qual é o nome dela?

R – Cláudia.

P/1 – Cláudia Galluzzi?

R – Cláudia Filomena Labate Galluzzi.

P/1 – E você nasceu e foi morar no Brás, na rua Benjamim de Oliveira.

R – É, eu nasci na Eurípedes Simões e mudei pra Benjamim até os 13 anos. Antes de fazer 14 eu mudei. Essa fase, não sei se tem algum roteiro.

P/1 – Fica à vontade.

R – Essa fase eu acho que foi uma das fases mais importantes da minha vida, que eu saí daqui ia fazer 14 anos, tinha 13. E naquela época ainda 80% dos italianos moravam no Brás e os filhos juntos e a gente jogava bola na rua praticamente todos os dias, de segunda a segunda. De segunda mais à noite, de sábado e domingo o dia inteiro. Por que durante a semana era muito difícil? Porque tinha caminhão. E isso daqui na época era lotado de caminhão, caminhão de feirante que hoje quase tem pouco. São Paulo abastecia o Brasil inteiro, então isso daqui era lotado o dia inteiro de carretas e carretas e carretas que encostavam aqui de madrugada pra carregar e já começar a ir embora de São Paulo pra levar ao destino final, desde o Amazonas ao Rio Grande do Sul, ao Nordeste. Então eu vivi muito isso daí, de fazer brincadeira com os chapas de caminhão, de descobrir cidades. Eu brincava que eu estudava Geografia vendo placa de caminhão, qual cidade, qual era o estado, aí eu ia procurar na revista Placar, por exemplo, que eu gostava de futebol, que times de futebol tinham naquela cidade. Então eu fazia uns paralelos na minha cabeça assim. Eu pegava, comprava os escudinhos, pintava da cor do time e tinha o goleiro. E tudo isso eu falo que é uma coisa do Brás, ele desenvolve tudo isso. E todos os amigos sempre juntos: “Vamos jogar bola, vamos fazer as coisas”. A maioria desses amigos, os pais também tinham empresa, a maioria, não todos, então todo mundo lutava pelo mesmo caminho ao sol. A gente não tinha noção da concorrência da vida nesse sentido de dinheiro, vamos dizer assim, mas todos os pais trabalhavam tentando fazer o melhor pra gente. Muitas vezes a gente não tinha dinheiro pra comprar uma bola, aí fazia uma vaquinha no fim de semana, comprava uma bola pra jogar e se não tinha bola a gente fazia mil outras brincadeiras. Então eu creio que a gente teve uma infância no Brás muito sadia, coisa que hoje às vezes a criança tem o condomínio pra brincar dentro de um condomínio com pessoas que foram morar lá, uma de cada lugar, que tem às vezes religiões, crenças, tudo muito diferente. E aqui a gente é todo mundo muito unido, jogava bola porque a gente queria, a gente escolhia os nossos amigos pra jogar bola. E eu fiz uma frase uma vez que eu não tinha uma mãe, eu tinha no Brás dez mães, porque eu saía da minha casa, tinha a mãe do João olhando; se não era a mãe do João era a mãe do Arnaldo; se não era a mãe do Arnaldo era a mãe do Miguel. Sempre tinha uma mãe olhando e sempre tinha alguém fazendo uma coisa errada, ou pode ser uma coisa errada, ou estar com uma pessoa estranha já avisada, depois que teve o telefone já ligava. Então não dava nem tempo de você fazer amizades erradas, porque amizade nessa hora sempre tem um amigo que: “Pô, tenho um negócio mais legal pra jogar bola, mas tem que fazer isso, não sei o que lá” “Tem um cara que fuma um cigarro diferente”, e graças a Deus, a minha turma toda, essa parte a gente foi criado com várias mães cuidando da gente. E tudo paralelo à Zona Cerealista. Então todo mundo que trabalhava aqui, mesmo esses meninos que alguns os pais não eram comerciantes, iam fazer compras nos laticínios. Então você conversa com eles hoje, eles também conhecem a Zona Cerealista de uma maneira que eu também conheço, que fazia compra, quem era aquele cara. Todo mundo chegou a comprar carne no açougue do Praxedes. Todo mundo aqui tomou injeção na farmácia do seu Ernesto. Na época de criança todo mundo cortou o cabelo no Vitor Barbeiro. Então tem pessoas do Brás que passaram por aqui que foram comuns a todas às pessoas, a todos os comerciantes, à toda a Zona Cerealista.

P/1 – Quem são essas pessoas que são comuns pra muita gente? Por exemplo.

R – É que muitos já partiram. Mas você pega o Vitor barbeiro, ele conhece história, cortava cabelo do meu avô, cortou cabelo de um monte de gente da minha idade, corta cabelo do meu pai até hoje. Então são pessoas marcantes, todo mundo conhece. O cara do açougue já faleceu. O Brás tinha o clube de futebol São Vito, futebol mesmo. Então pra gente que jogava futebol, ou quem jogava futebol no São Vito também, pra quem jogava bola todo mundo. Então quem não sabe que o saudoso Paschoalzinho foi um dos jogadores que jogou bola ao nível de futebol profissional, de Enéas, um cara sozinho foi convidado pra jogar no Palmeiras. Mas na época jogador de futebol não tinha o conceito de hoje, jogador de futebol antigamente “ah, não estuda, vagabundo”, não sei o que lá. Então muita gente aqui que jogava no São Vito não foi jogar num time grande porque a cultura é outra, tem que estudar. Mas que pra região todo mundo sabia que aquele cara jogava bola. Ou quem vendia televisão, o Luizinho do Brás que vendia televisão, que ele era tio de não sei de quem. Tinha jogador que saiu do Brás, o Nardo. Então o Brás é muito rico nisso, o Brás teve toda essa influência e veio tudo junto à Zona Cerealista, né? A Zona Cerealista carregou muito disso, criou tudo isso.

P/1 – Você falou dessas brincadeiras com os chapas e tal. Como era esse ambiente da rua quando você era criança?

R – Então, a gente jogava bola entre os filhos, primos, amigos, tudo. Mas claro que às vezes tinha alguma criança que não era descendente de italiano, mas que o pai estava tomando conta de um barzinho e o pai às vezes não tinha com quem deixar o filho também e trazia o filho. E brincava com a gente, interagia com a gente, jogava bola. A gente não tinha aquele preconceito de cor, de status, a gente era criança e queria jogar bola. E não sei, a minha mãe me ensinou assim e creio que a maioria das mães ensinaram isso daqui pra todos, criança é tudo criança, a educação é a mesma pra todo mundo. Então ficou uma coisa muito gostosa na época, não tinha... a gente nasceu, eu vejo hoje que existe muito mais esse lance do preconceito, seja racial, ou seja daquilo, ou até de poder aquisitivo. A gente era criança e a gente sabia às vezes que tinha uma pessoa que tinha uma condição de vida melhor, você ia fazer uma visita e você via que era uma casa mais arrumada, mas aquilo não fazia motivo pra não brincar de jogar bola com aquele menino, muito pelo contrário. E eles gostavam muito mais de jogar bola com a gente porque eles se sentiam mais livres, na casa às vezes era um pouco mais: “Olha, cuidado com o vaso, cuidado com a porcelana”, entendeu? Então na nossa casa ele ficava mais solto. Essa parte do Brás é uma parte da minha vida que eu acho que eu agradeço que eu vivi, eu agradeço que eu nasci aqui na Zona Cerealista. Eu falo, trabalho aqui até hoje, nasci aqui, morrer aqui eu já não sei (risos), mas que um dia eu saia do Brás, mas o Brás é um lugar que eu nunca vou poder deixar de vir. Eu tenho histórias aqui em todas essas ruas, em todas as ruas, sabe? Ou de brigar com amigo e sair correndo, ou de conhecer uma namoradinha e dar um beijo numa rua escondida, ou jogar bola naquela rua porque essa rua está tendo uma festa e estava tendo comércio ainda, então vamos jogar bola em outra rua. Ou porque desafiamos o pessoal da rua de cima, então tinha que ser jogo em uma rua em comum. Cada armazém desses tem as portas, a gente fazia de gol, então fazia adversário de um time contra o outro, então era um gol com tipo a trave, aquela era a trave. Quer dizer, a gente brincava aqui nessa Zona Cerealista sem saber o que ela era, né? A gente sabia que era importante, tinha comida, a gente brincava nela. E depois muitos de nós viemos a trabalhar nela, deixamos de ser brincalhão pra trabalhar mesmo.

P/1 – Mas conta pra mim como era essa questão geográfica, até das ruas. Na sua infância que rua servia pra quê, que rua você fazia o quê? Você jogava bola não era em qualquer rua, que nem você falou agora.

R – Assim, se você pegar a rua Benjamim de Oliveira, que é essa, ela sempre foi muito cheia de caminhão, então ela é uma rua que era muito difícil de jogar bola, quase não tinha espaço. A rua Américo Brasiliense também era complicada pra jogar bola. A Mendes Caldeira de fim de semana era até mais fácil jogar bola, mas ela era muito pouco residencial, era muito armazém e por algum motivo a gente não se sentia confortável em jogar lá, a gente aqui acho que ficava mais protegido. Era mais descer de casa e jogar. Então as ruas que a gente mais jogava bola aqui era rua do Lucas, Fernandes Silva e a rua da igreja, são as três ruas principais que a gente jogava. E dependia um pouco da idade. Na rua da igreja jogava o pessoal que já tinha 16 anos, 14, aqui jogava o pessoal que tinha 11, 12. Se era sábado à tarde era mais a Fernandes Silva, que era um pouco mais, seria uma espécie de Pacaembu, seria mais charmoso pra todo mundo. Já no domingo aparecia às vezes 30, 40 crianças, então a gente fazia dois, três times e tinha que ser a rua do Lucas que tinha um pouco mais de espaço. Quando vinha o pessoal que era mais velho, os mais velhos às vezes não queriam jogar bola com a gente porque a gente era criança ainda, eles iam jogar na rua da igreja e a gente ia lá, então, a gente falava: “Nossa, o dia que eu jogar na rua dos grandes vai ser legal”. Então essas três ruas eram as ruas que mais se jogavam bola. A gente deixava a Afrânio e Silva na parte de cima pra empinar pipa porque lá quase não tinha fio, que tinha a indústria do Matarazzo. Tinha a vilinha, depois da Monsenhor de Andrade, faziam jogos contra o pessoal da vila.

P/1 – Era outro pessoal.

R – É, era outro pessoal. Então às vezes jogava um jogo lá e um jogo aqui. E intercalado com isso, a gente está falando muito de homem, né, de futebol. As meninas nessa idade já começavam a passar no meio do jogo, as irmãs, as primas e a gente falava: “Pô, parou”, e a gente ficava com raiva porque tinha que parar por causa das meninas, não podia chutar bola nelas. Aí de repente, de um ano pro outro a gente começou a mexer com os hormônios já, a gente já começou a ficar contente: “Opa, parou”, que elas vão passar. E a gente: “Tomara que elas demorem mais pra passar”. Então o que eu quero dizer com isso? O Brás, a Zona Cerealista no caso, ela deu tudo isso pra gente que nasceu aqui, morou aqui, trabalha aqui. Ele deu lição de vida, deu amizade, deu descoberta do amor, deu a descoberta das coisas possíveis e das coisas difíceis, das coisas ruins. Por isso que eu falo que é um lugar que pra mim não tem preço, eu não trocaria por nada. Eu fiz altas amizades importantes fora daqui que eu vou levar pra vida inteira também, mas a base que eu tive aqui na Zona Cerealista foi algo muito importante. De vida, de lição. Quando eu abri a minha empresa aqui há 32 anos passou uma senhora, não lembro quem foi, era daqui a senhora, era tipo amiga da minha avó: “Ó, vem aqui, vem aqui” “O que foi?” “Ó, vou te falar uma coisa, hein?” “O quê que foi?” “Aprende o que eu vou te falar” “Pode falar” “Aqui no Brás se faz e aqui se perde. Toma cuidado disso, aqui faz e aqui perde”. Eu escutei aquela frase: “Tá bom, obrigado”. Quer dizer, eram frases de lições de vida, frases antigas que você entende: “Olha, você vai fazer dinheiro no Brás, trabalhando vai fazer. Mas não deixa tudo aqui, um dia o Brás muda, ele vira isso, vira aquilo, vira mercado de alho, vira mercado de outro produto”. Quer dizer, o que ela quis dizer, uma mulher sem faculdade, com a faculdade da vida: “Diversifica, faça outras coisas, não viva só disso”. Por que? Porque ela sabia do tempo dela de mocinha de quantas empresas abriam e fechavam porque o mundo vai mudando. Antigamente não tinha fax, quem teve acesso ao fax conseguiu mudar, o outro que não tinha foi ficando pra trás. Aí o cara colocou o fax aqui, só que aquele que tinha o fax antes saiu na frente. Aí chegou a internet. Quer dizer, o mercado, você tem que ser um camaleão, você tem que estar sempre mudando, se adaptando. Estou fugindo um pouco das coisas, é que uma vai puxando a oura.

P/1 – Tranquilo. Vamos voltar na questão do futebol, queria ser mais específico. Vocês nunca quebraram nada de ninguém chutando bola? Teve problema, como era isso aí?

R – Não, o que quebramos de vidro de armazém não tem como (risos), aí era, chuta pro mato que a bola é de campeonato (risos). Não tinha jeito, a gente estava jogando bola na rua, então vira e mexe sempre tinha um chute que você batia, às vezes você nem chutava no vidro, batia na guia, subia e batia no vidro. Ou pegava e ia pro telhado, daí pega escada, sobe, aí o cara vai subir no telhado: “Pô, quebrei uma telha”. Mas tudo coisa de criança, nunca quebramos um vidro de propósito: “Vamos quebrar um vidro porque aquele cara é chato, porque aquele tio não deixa jogar bola aqui”, isso nunca. A gente queria brincar, é criança, deixa brincar. É que nem hoje você pegar uma criança e dar um videogame, um celular e ela fica o tempo todo, duas horas, você esquece que ela está lá.

P/1 – Então não teve muito problema.

R – Não, quanto a isso não. Existiam, é que já foge um pouco da Zona Cerealista isso como livro, por isso que eu falo, isso dá pra fazer um outro livro. Todo o Brás a gente teve os nossos personagens folclóricos, os nossos personagens que eram do Brás.

P/1 – Sim, eu queria que você falasse um pouco deles também.

R – Então, quando você está jogando bola, nos dias de hoje, quando um avistava: “Parou, parou, chapa branca. Parou”. Ninguém se mexia. A gente vivia numa ditadura. Chapa branca era carro de polícia, era chapa branca antigamente. Então a gente parava porque não adianta chutar bola e bater num carro de polícia (risos). Então ninguém se mexia e a polícia passava. Aí de repente a gente ouvia um apito de um trec trec trec, era o cara que vendia raspadinha ou o outro que vendia sorvete, ou vendia o biju. Aí todo mundo na hora parava: “Vamos em casa pegar o dinheiro pra comprar um”. Às vezes um pai não tinha dinheiro, o outro tinha, às vezes tinha pai que tinha e não dava porque não era toda hora que dava. Mas aqueles sons, aquelas pessoas, garanto que todas as crianças se lembram. Ou quando acabava um jogo de futebol numa sexta-feira à noite que a gente jogava, suado, chegava em casa e de sexta-feira passava o rapaz que vendia tubaína em casa. Meus pais compravam uma tubaína, então chegava em casa e tomava uma tubaína gelada. Não se tomava tanto refrigerante, então se tomava tubaína gelada. Quer dizer, eram coisas bobas mas aqui na região, com quem você falar vai lembrar disso com saudades. Comprar pão com o seu Ernesto, no Zeferino, também toda criança aqui chegou a comprar pão lá. O seu Ernesto da farmácia, todo mundo que ficou doente primeiro ia lá, depois ia pro hospital. Tomar injeção a mesma coisa. Quem não ia no mercado comprar coisa de última hora, tinha o seu Luís verdureiro. Então são esses personagens que eu digo que todo mundo conheceu. Do Brás, se pegar como Zona Cerealista eu lembro de pequeno minha mãe mandava, eu já estava com oito anos: “Vai no Laticínios Vencedor”, acho que era Vencedor, “me compra um pouco de queijo e vai no seu Guido e me compra ovos”, então foi quando eu comecei já a ter liberdade de entrar na Santa Rosa pra fazer compras pra minha casa. Ou então, ela falava: “Desce, vai no armazém do Cacá”, que eu sabia onde era o Cacá, “e pede pra ele te dar meio quilo de fubá e meio quilo de farinha”. E eu falava: “Mas não precisa pagar?” “Não, não, não precisa pagar”. Depois eu sabia que meu pai também dava pra ele um pouco de alho, tinha um escambo. Ou seja, você já começava a entender um pouco de tudo isso daí, dessa Zona Cerealista, tudo, como é que funcionava, os valores: “Então um quilo de fubá é diferente do quilo do queijo”. Coisa de criança, na sua cabeça você começa a pensar. E isso foi.

P/1 – Vocês brigavam entre si, o pessoal das ruas?

R – Existia a briga como qualquer nicho de sociedade, quando todos são crianças brigando e sempre no meio de dez amigos sempre tem um que quer fazer as vontades dele ou que quer ser o líder, ou quer jogar bola em tal lugar e outro quer jogar bola em tal lugar, então você acaba dividindo. Então dependendo do dia um acordava mais torto que o outro, dava uma briga, não teve quem um dia não saiu no soco, mas aquele soco de: “Pô, mas se seu brigar com você a gente não vai jogar bola”. Então estava dando soco e jogando bola junto. Quer dizer, é por isso que eu falo, até isso a gente é amigo de todos até hoje. Fizemos um grupo agora de WhatsApp com mais de 50 pessoas, tudo daquela época. E a gente conversa como se fosse ontem. Então essas brigas existiam mas o meu grupo sempre foi muito coeso no sentido que ninguém fumava, ninguém bebia. Não que nós éramos certos, não estou discutindo isso, mas como ninguém bebia, ninguém fumava, a gente acabava não se misturando com quem bebia e com quem fumava. Então nesse nosso grupo nós tivemos sorte nisso, foi muito próximo em todos os sentidos.

P/1 – Quem são essas pessoas?

R – Eu, Arnaldo, Pedro, João, Fortunato, Miguel, Paschoal. Tem o nome de todos. Ontem mesmo eu vi o jogo do Palmeiras com seis deles.

P/1 – Ah, é?

R – É.

P/2 – Todo mundo é palmeirense?

R – Ontem juntamos só palmeirenses. Quer dizer, e outro que fumava ou bebia, ele mesmo já procurava uma outra turminha porque sabe que a gente não... é a mesma coisa que falar assim: “Vamos toma uma Malzbier” “Ah? O que é isso daí” “Cerveja escura” “Pô, nem sabia que isso existia, cerveja escura”. Então o cara não perdia tempo, entendeu? “Esses moleques com dez anos não vão ficar fumando Hollywood”, eles já tinham 13, 14 e já podiam fumar. E a gente foi criado também pra não fumar, essas coisas. Então o Brás tem tudo isso.

P/1 – E como é que era a questão do futebol. Você torcia pro Palmeiras? Sempre foi assim, como é que era lá?

R – Sempre.

P/1 – Tem corintiano também no Brás, né?

R – Tem. O Brás era um bairro mais italiano. E teoricamente os italianos tendiam a torcer mais pelo Palmeiras, apesar que o Corinthians também foi fundado por italianos e tal. Mas quem morou no Brás ficou mais limitado a ser Palmeiras, inclusive quem tinha os pais italianos. Então o nosso grupo, de cada dez, sete torciam pro Palmeiras. Tiveram dois que torciam pro Palmeiras e depois mudaram pro Corinthians porque a gente sabia que era imposição às vezes da família, aí ficou um pouco maior: “Não, quero ser Corinthians”. Eu com sete anos peguei o time do Palmeiras da Academia de 72, 73, 74. Era um time que tinha Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu, Ademir da Guia, Edu, Nei, César, não tem como esquecer esse time. Neivinha. Marcou, então ajudava a ser palmeirense também. Depois tinha três que eram santistas porque o irmão mais velho era santista, o irmão mais velho viu o Pelé jogando. Da Portuguesa era um ou outro porque o bairro aqui era muito italianão, então português era muito pouco, um ou outro que era português que o pai tinha um bar e vinha torcer pra Portuguesa. E Corinthians. São Paulo quase nem existia. São Paulo aqui no Brás quase nem existia, eram raros os casos de sãopaulino aqui no Brás. E corintiano tinha já meia dúzia que já gostava do Corinthians. E aqui também a gente aprendeu a ver a rivalidade, que é uma coisa gostosa que até hoje a gente brinca um com o outro, mas sempre de maneira gostosa. Nós não seríamos nada se não fosse o Corinthians e o Corinthians não seria nada se não fosse o Palmeiras. A gente falava que Palmeiras e Corinthians é diferente de Santos, São Paulo. Na visão de palmeirense, tá?

P/1 – Sei. Você ia em jogo?

R – Ia. Ia em jogo, meu pai me levava em alguns jogos do Palmeiras quando eu comecei a entender um pouco mais. O primeiro jogo que ele me levou foi do Palmeiras. Eu acho que foi Palmeiras e Fluminense, eu devia ter nove anos, se não me engano foi isso. E foi quando eu comecei realmente a amar futebol, comecei realmente... era palmeirense, palmeirense e um dia eu cheguei pro meu pai e pedi de aniversário pra ele um presente de aniversário, e me marcou isso. Eu falei: “Pai, eu quero um presente de aniversário” “O que você quer, filho?” “Eu quero ver o Pelé e o Rivelino jogando bola”, que eles não eram do Palmeiras. E meu pai pegou sério: “O meu presente eu quero ver o Pelé e eu quero ver o Rivelino”. Era um palmeirense, palmeirense mesmo, não ia mudar de time, mas eu queria ver o Pelé e o Rivelino. Meu pai comprou um ingresso pra ver Santos e Corinthians no Pacaembu num sábado à noite. Eu fiquei, pô, eu ia ver o Pelé, era um sonho de criança. Choveu tanto que o jogo foi adiado (risos). Fomos na porta do Pacaembu e o jogo foi adiado. E eu não vi o Pelé jogando e nem o Santos, isso já era 74, 78. E não vi. Depois uma vez eu vi o Pelé numa boate, dei a mão pra ele, nem sabe que na minha cabeça a criança que veio. Uma vez vi o Rivelino numa quadra de society que ele tem lá no Morumbi. Então assim, são coisas da infância do Brás que são, pra mim, né, são coisas particulares. Aí ia no jogo do São Vito também, né? Aqui no Brás todo homem, todo menino ia no jogo do São Vito porque se jogava mesmo na época contra outros times de outros bairros, ia muito jogar no Pari, no Serra Moreno e no Estrela do Pari. E jogando bem ou jogando mal tinha o técnico, colocava todo mundo pra jogar um pouco, lá tinha os times que eram melhores, tinham mais preferência, jogavam mais certo, mas sempre colocava no primeiro jogo pessoal mais rápido, por exemplo, o meu caso, ele colocava, todo mundo brincava. Então isso é uma outra coisa também que teve aqui do Brás, a gente não tinha esse tipo de bullying como se fala hoje, tá na moda, todo mundo brincava. Sem você saber, você teve pessoas que não tinham estudos mas que sabiam ser pais, sabiam ser jornalistas, sabiam ser médicos, sabiam dar tudo pela vida, história da vida.

P/1 – Onde eram esses campos?

R – No Pari.

P/1 – Mas o desse clube São Vito era?

R – Não, a gente jogava em outro estádio, o São Vito não tinha time. De quando eu era pequeno não tinha time, aí a gente jogava na rua, na frente do clube. Uma coisa muito mais fácil antigamente, né? Futebol de várzea, essas coisas. Hoje mudou bastante.

P/1 – Agora tem dois lugares que eu queria que você me contasse como era na sua infância. Um é o Mercadão Municipal e o outro é o Parque Dom Pedro II. Você frequentava esses lugares também?

R – Vamos lá. O Parque Dom Pedro eu frequentava quando era muito criança, que a minha mãe me levava lá para brincar. Lá tinha uma fonte, tinha os peixinhos, então de domingo era um espaço que você saía daqui, que a gente não tem essa noção, que era só atravessar uma avenida que você estava lá. Mas era um lugar diferente porque você já tinha árvores, tinha que nem eu falei, chafariz, tinha essas fontes. Era uma condição diferente, saía dessa condição toda. Eu lembro que eu criança adorava, eu lembro sempre de um sol muito forte que batia e eu sentava lá, pegava um copinho com a água e jogava dentro da fonte, é uma coisa que me marcou, o Parque Dom Pedro, como brincadeira, como talvez hoje as pessoas vão no Parque Ibirapuera, não sei. E o Mercadão já é um pouco diferente, o Mercadão já era uma coisa mais de compra mesmo, né? O Mercadão pra mim começou a existir quando eu comecei a ir lá pra ajudar a fazer as compras, pra carregar as sacolas. Às vezes ajudava meu avô. E antes disso, o que eu lembro mais do Mercadão foi eu, a minha mãe e a minha avó, morávamos aqui, minha avó morava na casa dela, saíam as duas juntas com carrinho de feira, aqueles carrinhos antigos de feira, e eu ia com elas, criança vai junto, ia até o Mercadão, fazia as compras e voltava. Então foi quando eu comecei a ter acesso ao Mercadão, principalmente ao mercado das verduras e das frutas, não o Mercadão como peixe. Na volta passava nele, mas aquele Mercadão dos peixes e das carnes eu creio que se voltava até um pouco mais aos homens, porque eu lembro muito mais das mulheres no mercado das frutas e das verduras. Eu lembro que com o meu pai eu ia mais no Mercadão dos peixes, das carnes. Talvez até porque ele fosse tentar vender alguma coisa, eu aproveitava e ia junto, então eu lembro muito disso. E pequeno, nessa trajetória de atravessar pro Mercadão, antes de atravessar como é hoje existia uma passarela por debaixo do rio.

P/1 – Ah, é?

R – É. Então a gente passava por debaixo do rio e depois eu lembro que começou a ficar violento. Criança escuta: “Olha, pegaram briga. Uma pessoa foi atravessar lá embaixo, é perigoso” e fecharam. Ela existe ainda, mas não se usa. E nesse caminho que eu ia de casa pra lá, foi quando eu também comecei a ter contato de empresa. Porque uma criança vai passando: “Essa empresa aqui vende farinha. Ah, essa empresa aqui vende feijão. Essa empresa aqui vende arroz. Ah, essa vende coisa de caixa. Essa vende coisa de bebida com caixa. Essa tem cheiro ruim”, cheiro de bacalhau, por exemplo. Então eu comecei a ter essas coisas diferentes, ver essas diferenças e como eu digo, eu acho que o ser humano tem, não vou falar bondade, isso é uma palavra forte, mas tem uma característica humanitária muitas vezes em tudo antes de você ter que deixar de ser humano por causa do mundo. Por que eu estou dizendo isso? Quando eu era pequeno me marcava todos os chapas. Chapas são pessoas, aqueles ajudantes gerais que colocavam as caixas nas cabeças, os sacos nas cabeças e tal, que em geral, 90% deles, eram pessoas que vinham do Norte em busca de trabalho por causa da seca, das condições de vida que tinham lá e vinham pra Zona Cerealista pra trabalhar de ajudante geral. E eu lembro que eu passava com a minha mãe pra ir com o carrinho nas feiras e todos eles no caminho me chamavam, eu tinha um olhão azul: “Ô menino do olho azul!”, sempre teve carinho. Pra mim eles nunca tiveram, nunca fizeram parte dessa diferença social que existe. A gente sabe se colocar cada um no seu lugar, mas nunca teve essa diferença social, eles sempre foram pessoas que na minha infância também eram pessoas legais: “Ah, aquele tio do feijão” “Aquele cara do bigode do arroz”. E eu fui crescendo nisso. Um dia eu acordei eu já tinha 13, 14 anos e eu entendi quem eles eram, eles ajudavam o Brasil a crescer também, eles ajudavam o Brasil com muito sofrimento, com dores nas costas, tudo, então você aprende mais ainda a valorizar. E sempre fui amigo deles, sempre fui um cara que tentei orientá-los, eu tive estudo. Então a Zona Cerealista pra mim, eu acho que eu consegui ver a Zona Cerealista de várias maneiras, ver do lado do chapa com as dificuldades, ver do lado do empresário, ver o lado do esforço de quem está começando, ver o lado criança, ver o lado família. Eu gosto do Brás, mas não quero morrer aqui (risos). Mas eu gosto daqui.

P/1 – Você acha que reflete muito do Brasil, o Brás?

R – Eu acho que o Brás ainda hoje, de uma maneira ou outra, com outras fantasias, ele ainda exerce muita coisa do que é o Brasil. Só que nós somos muito abandonados aqui no Brás, eu acho que o Brás tinha que ter uma função social muito maior do que se é dada hoje com investimentos. Agora vamos ter o SESC aqui, eu acho que é uma coisa que vai fazer muito bem pro Brás. O Brás está no centro de São Paulo, está perto do Mercado, o comércio do Brasil começou aqui. Não estou falando do comércio, não, daquele cara que comeu um arroz no Acre, passou por aqui. Quem comeu, alimentou uma família sem ser com farinha no Maranhão, alguma coisa daqui foi pra lá em 1950. Quer dizer, o Brás é muito forte até hoje, eu acho que ele tem mais poder do que muita gente imagina.

P/1 – Agora vamos voltar um pouco pra sua infância de novo. Você falou dessa passarela que tinha embaixo. Como é que ela era, onde você entrava e onde que você saía? Porque é uma coisa que realmente...

R – Era antes do rio, antes da avenida, você descia, tinha uns degraus lá, aí a passarela me dava a ideia de uma passarela fria, realmente eu teria medo de passar sozinho, depende a hora do dia, coisa de criança mesmo. Às vezes algum bêbado, sempre tem aquela coisa de criança, tem um cara com uma faca escondida lá e era mentira, folclore, uma coisa de criança. E você atravessava e do outro lado do rio e saía. Eu me lembro que era uma passarela azulejada, ambiente meio frio. É mais isso que eu lembro.

P/1 – Passava por debaixo do rio.

R – Debaixo do rio. Talvez, não é que você entrava por baixo do rio, onde tem a ponte você descia por baixo e cruzava, entendeu?

P/1 – Entendi. Agora você também teve educação religiosa nessa época?

R – Tive.

P/1 – Onde que você fazia comunhão?

R – Na Igreja São Vito, aqui atrás. É isso que eu falo, o Brás parece uma cidade, não parece um bairro. Aqui foi tudo muito ligado, o comércio, a religião, o futebol, as primeiras paqueras, as primeiras compras, as brigas. É difícil você hoje querer explicar para um filho, um sobrinho, que mora num espaço vertical de um condomínio tudo isso. Porque aqui na rua a gente aprendia, a gente brigava, ou tinha ciúmes, ou discutia, mas tudo na rua, ambiente sadio. Aquele amigo lá é mais torto, ele gosta de brigar mais, aquele lá não. A gente percebia isso no dia a dia, não num condomínio vertical preso, que pra jogar bola no condomínio não dá um time, se dá um time: “Ah, aquele cara está jogando com tênis novo, o meu velho. Mãe, eu não quero jogar”. Aqui não (risos), aqui não tinha tênis: “Ah, vamos jogar descalço mesmo”, o importante era brincar.

P/1 – Como é que foi esse contato com religião? Você gostava? Como é que era a igreja?

R – Eu acho assim, de novo falando do Brás. De quando eu nasci a igreja de São Vito tem uma participação importantíssima na região, no bairro. Porque 70, 80% das pessoas que moravam aqui eram italianas e oriundas na sua maior parte de Polignano a Mare e o padroeiro da cidade é São Vito. Uma cidade lá medieval, sem tecnologia em nada e a missa era uma das coisas da cidade. Então eu tive uma educação religiosa de ir à igreja, talvez pela minha irmã eu fui menos em missa porque minha irmã não tinha condições, mas meus pais me levavam quando eu era pequeno, tudo. E também como criança você tem acesso a Deus e o acesso a Deus ia vir através da religião. Então a gente ia na igreja, quando foi um amigo todo mundo queria ir porque: “Ah, tá todo mundo lá e você não vai estar lá?”. Então você também vai. Aí fizemos a primeira comunhão aí, demos os primeiros passos e a igreja existe até hoje pra gente. Não consigo imaginar um dia que não pudesse estar essa igreja aqui. Então também fez parte da minha vida.

P/1 – E você foi até a crisma lá?

R – Não. Eu nunca fui crismado, até hoje não crismei. Não sei por que. Mas fiz primeira comunhão, meus pais se casaram aí. Domenico Modugno, cantor italiano, quando veio pro Brasil foi na igreja ver missa, tem até uma foto dele. Era aquela igreja que imperava na região aqui, como toda igreja na sua cidade existe a igreja matriz, tal, essa daqui do Brás é uma igreja forte pra sua região.

P/1 – Você falou que tinha as baratinhas de chapa branca que passavam na rua e tal. Você acha que quando criança, ou até mais pra frente, você tinha essa consciência ou a questão da ditadura influiu na sua vida ou na vida do seu pai ou do Brás de alguma maneira?

R – Não, não, não. A gente não tinha esse poder de falar ditadura, isso não. O que a gente tinha e muito era respeito. Respeito a todos. A gente fala da chapa branca até com uma saudade da chapa branca, a palavra chapa branca: “Parou, parou, parou”. Mas era o mesmo efeito que tinha quando descia uma avó, que ela ia atravessar uma rua, que ela ia numa padaria: “Ó a avó do Pedrão, parou”. E a gente parava o pé na bola, ninguém se mexia enquanto a senhora não passasse desse pedaço praquele. Passava o gol a gente começava a jogar bola. Então a gente tinha respeito, a gente tinha educação. A chapa branca a gente não tinha essa ideia de ditadura, mas tinha o respeito: “A polícia, tem que passar senão eles vão parar. Não pode chutar a bola e bater no carro de polícia”. Entendeu? Então quando passava um bêbado também, a gente também parava, podia bater a bola nele. E geralmente o bêbado que tinha na época, ele parava pra ver o jogo. E a gente falava: “Pô, o cara sentou aí. Ah, coitado, deixa ele ficar vendo o jogo”. Então a gente fala até nesse sentido, que a gente, até pra essas pessoas, tinha um que tinha ataque epilético, tinha outro que você vê que tinha, a gente não tinha noção das coisas, mas vendo a gente jogar bola eles paravam e ficavam vendo. É uma coisa muito forte, você era uma criança e ainda assim você sabia que estava fazendo bem pra alguém nesse sentido, que o cara tinha uma ocupação. Não sei. E a gente tinha um respeito, a gente não tinha aquela coisa de: “Ah, vamos chamar alguém porque tem um bêbado”. Não, não sei. A criação era muito parecida, a criação era muito igual.

P/1 – Entendi. A questão é: vocês nunca se sentiram restringidos de alguma maneira por estar um governo assim?

R – Nunca, nunca, nunca. A maior restrição que eu tive na minha vida foi com meu pai em casa, em relação ao quê? Educação e respeito. “Luiz, eu não vou te repetir dez vezes: se a gente não pode ir, nós não vamos poder ir. Pode chorar”. Coisa de criança mesmo, coisa de pai, mãe e filho, tipo: “Ai, pai, quero um Autorama” “Não posso dar um Autorama, não tenho dinheiro pra te dar um Autorama hoje”. Claro, na hora eu ficava meio assim, né, depois falava: “Puta, eu enchi o saco do meu pai quando ele não podia me dar o Autorama na época”. Então você começa a entender o quanto herói ele era porque ele não me deu o Autorama, mas um dia me deu uma bicicleta. Um dia não sei o que, mas com 16 anos me mandou pra Itália. Então assim, são valores que você começa a ver. Mas quem tinha condição, que ganhou um Autorama, de vez em quando você ia na casa do cara e brincava no barulho do Autorama. Você lembra até hoje aquele barulhinho do carro, aqueles freinhos tipo bombril na frente deslizando. Então nesse sentido eu não sei, a nossa turma aqui nunca teve muito de inveja de quem tinha ou quem não tinha, a gente gostava de brincar, de estar junto. Não adianta, se você tinha um carro e anda sozinho, a gente quer estar junto. Foi o que eu falei, de bola tinha só um que ganhava bola todo Natal. Todo Natal a avó dele dava uma bola pra ele. A gente olhava da sacada louco pra ver quem ia dar o primeiro chute na bola, geralmente era ele. Mas acabou o primeiro chute a bola era de todo mundo. Ele não podia brincar sozinho. Quer dizer, não sei, não teve, foi uma infância muito gostosa.

P/1 – E vocês assistiam muita TV? Você gostava de assistr TV, ver programa?

R – TV era uma coisa que em casa já tinha TV. Eu não lembro quantos anos eu tinha, mas já tinha TV. Eu gostava de ver desenho, os Flinstones, mas nada era melhor do que jogar bola na rua. A TV que eu via, eu acho que era a hora que eu tinha que estar em casa, ou depois de almoço, depois de fazer lição. Meio de semana não podia jogar bola na rua, tinha muito caminhão, era perigoso, então ninguém deixava. Às vezes à noite, mas mesmo assim criança à noite na época a gente tinha que ficar em casa, tal. Ficando um pouco maior sim, até descia um pouco à noite pra jogar bola, principalmente já de sexta-feira. Então desenho, televisão, talvez resumia mais de segunda à sexta-feira, mais desenho, às vezes um Rin Tin Tin da vida, quando começamos já a entende um pouco mais de futebol, ver reprise na TV Cultura no domingo à noite, que passava o jogo em preto e branco.

P/1 – Jornal?

R – Não, não tinha esse vício de ver jornal, de ver novela. Olha, quando eu tinha de 12 pra 13 anos, que começou a mexer com hormônio masculino, aí eu já ficava olhando que aparecia uma atriz de biquini e a gente já ficava olhando, mas aí já era outro contextol totalmente diferente.

P/1 – E rádio vocês ouviam?

R – Ah, rádio sim. Rádio eu gostava.

P/1 – Sua mãe e seu pai, vocês gostavam de ouvir?

R – Sim. Tinha rádio no carro, em casa tinha rádio, eu gostava de escutar rádio toda noite, eu tinha um rádio pequenininho, então eu ficava na minha cama, escutava rádio e me canalizava muito em programas de esporte. As últimas notícias de Guzman, Antonio Guzman, acho que era Guzman e Lucas Neto. Depois tinha no rádio uma mulher que cantava “É noite como se sabe”, ela cantava umas músicas. Era mais assim, eu não ouvia o rádio pra parte política, não tinha esse, de pequeno eu não gostava nada de política. Gostava mesmo de futebol e música.

P/1 – Agora me fala um pouco da escola. Qual foi a primeira escola que você frequentou, Luiz?

R – A primeira escola? Chamava-se Rainha Margarida. Eu acho que é na rua do Gasômetro. É uma escola que eu lembro por falarem, eu não lembro tanto dela, não. Eu tenho uma vaga lembrança dela, não é uma coisa que eu me lembro. O que eu me lembro como escola mesmo foi quando eu fui estudar dentro do Clube de Regatas Tietê tinha uma escola, Escolinha Tietê. Aí sim, isso pra mim já virou uma escola. Foi quando eu comecei a ter relação de primeira professora. A minha primeira professora foi a Sueli, isso eu não esqueço até hoje. Tinha outros professores, o Ademir e Idalina. Então aí quando você tem os primeiros amigos, alguns já não eram no Brás porque a escola era a pagamento, alguns podiam pagar, tinha os que não podiam pagar. Mas a vantagem dessa escola que era a pagamento dentro do clube é que você podia utilizar o clube também. Então nessa parte eu estudava numa escola dentro de um clube e eu tinha acesso à piscina, sala de futebol, vôlei, gramado, coisa que aqui no Brás não tinha essas coisas, era só na rua, na rua. Durante a semana eu ia pra escola, não trabalhava nada, era criança, depois ficava brincando no clube. Aí comecei a jogar basquete no campeonato do clube e depois joguei basquete fora do clube contra outros times nos campeonatos. Eu fiquei nessa escola até meus 13 anos, foi quando eu mudei pra Santo Amaro. Nesse ínterim que eu fiquei aqui na época ainda estudar em escola pública era pra poucos, é difícil achar vaga. Todo mundo queria estudar no Caetano de Campos, na Praça da República, mas não conseguia vaga. E pro meu pai pagar o Tietê era uma despesa que ele tinha, mas a gente não conseguia vaga no Caetano de Campos e me colocaram uma época, por um período muito curto, no Romão Puiggari, que é aqui na Rangel Pestana. Eu não lembro ao certo quantos anos eu tinha, se eu tinha nove, se eu tinha oito, era uma coisa em torno disso. Só sei que eu fiquei aí e em seis meses meus pais me colocaram de volta no Tietê. Eu não sei quais foram os motivos, se foram financeiros, eu não sei se foi motivo porque pra minha irmã já estava começando a dar um pouco de trabalho e a gente morava muito mais perto daqui, era muito mais fácil ir, não precisava levar, é uma coisa que eu teria que perguntar e eu nunca perguntei. Eu sei que eu fiquei seis meses lá e não ambientei. Apesar que tinha mais amigos que eram da região, eu acho que o estudo na outra escola era um pouco mais avançado, eu tinha mais facilidade com tudo e voltei pra outra escola, voltei pro Tietê e fiquei lá até 79 quando eu mudei, aí eu saí daqui e fui estudar em Santo Amaro. Estudei um ano no Colégio 12 de Outubro pra terminar o ginásio e de lá eu fui pro Bandeirantes, três anos o colegial, foi quando eu comecei a ter outro contexto, de muita coisa fora do Brás. Foi quando eu conheci um outro mundo que não era o mundo do Brás, que era inclusive até um mundo, não sei se por causa da idade, era um mundo muito mais de competição: “Esses caras não são meus amigos, vou ter que conquistar esses amigos. Esse cara não está preocupado se estou como o pé machucado”, coisa que aqui no Brás: “Pô, tá doendo o pé” e já vinha um monte de gente ver o que era. Então me deu essa primeira mudança em relação ao mundo externo, o que era o mundo externo mesmo. Aí pro Bandeirantes eu fui, fiz Bandeirantes, aí foi uma outra mudança drástica na minha vida em nível de ensino, fiz amizades até hoje, amizades muito boas. A nível de estudo me deu uma base geral que eu creio que eu levo pra tudo até hoje, não fazendo propaganda da escola, não, mas é uma realidade. E de lá eu fiquei na dúvida se eu queria fazer Medicina, se eu queria fazer Administração. Achava médico legal e como eu fazia Biológicas no colégio muita gente ia prestar Medicina, talvez no embalo. E ia fazer Medicina, Administração. “Não, vou fazer Medicina, mas vou fazer Administração pra garantir, qualquer coisa eu tenho Administração”. E eu lembro que na época na USP eu cheguei a prestar Medicina, não prestei Administração e eu não passei na primeira fase de testes, fiquei nervoso e não passei. Na Santa Casa eu sei que eu passei, tenho certeza, certeza, certeza que eu passei e quando eu saí da classe o bedel lá, eu lembro disso até hoje, é que eu tinha 17 anos, acho que se fosse hoje seria um pouco diferente. O cara pegou minha prova e fez um visto, eu falei: “Por que você fez isso na minha prova?” “É porque você estava colando”. Eu falei: “Como assim colando? Não estava colando nada" "Não, tudo bem, pode sair que _1:27:11_ tem que sair”. Eu não colei nada, cismou, viajou, viu outra pessoa. E eu conferi os gabaritos e eu tinha passado na Santa Casa. Então eu sei que eu tinha pego Santa Casa. Aí dizem que na época se comprava vaga nas faculdades, eu não sei. E paralelamente eu prestei Administração na PUC, FMU, acho que Mackenzie. E eu peguei PUC, fiz PUC, falei: “Não vou ficar parado”, fiz a PUC Administração e depois, se for o caso eu presto Medicina de novo. Só que aí eu comecei a gostar de Administração, não sei, comecei a gostar, fui fazendo. Aí não tive mais saco de fazer vestibular de novo. E aí minha vida acadêmica virou PUC Administração.

P/1 – Tá, vamos voltar lá pro Tietê.

R – Tá.

P/1 – Como é que era essa escola? Você tinha algum professor que te marcou, alguma história que você passou lá que te marcou, como é que foram esses anos?

R – O Tietê foi a primeira escola, vai, porque eu fiz o Rainha Margarida mas acho que era tipo coisa pra bebê. E o Tietê não, foi uma coisa de prezinho, de você começar a ter ordem, de fazer um desenho. Lá tinha um jardim que tinha caramujo, que tinha lagartixa, coisa que aqui no Brás não existia essas coisas, a gente estava acostumado a ver rato, aranha, essas coisas (risos). Então lá não, tinha planta, desenho, amigos que já não eram amigos do Brás. Lá tinha amigos que vinham muito de Santana, que é a localização, Santana, Tucuruvi, uma parte central, não era mais o Brás que estava lá. Daqui eu tinha três, quatro amigos que estudavam lá. E me marcou, foi uma escola que eu brinquei bastante, que eu tive acesso a muito esporte porque eles faziam Olimpíadas lá, então mesmo eu era mais gordo de pequeno, quer dizer, continuo, mas de criança, as crianças eram um pouco mais magras e eu tinha um pouco mais de saliência, mas mesmo assim eu fazia tiro de corrida, tinha que saltar obstáculos e pular. Então a parte do Tietê de educação física é uma coisa que me marcou muito porque eu brinquei de tudo: jogar futebol, de jogar basquete, fazer atletismo, tinha bocha, coisa de judô, fiz de tudo lá. Handebol. Fora a parte de estudo, parte de escola mesmo, né? Aprender os números, aprender a escrever mesmo, essas coisas eu aprendi lá. E por lá tinha a Maria Esther Bueno que jogava tênis, era do clube. Eu nunca joguei tênis, mas pelo Tietê eu joguei no Campeonato Paulista de Basquete, conheci o Oscar, ele estava no Palmeiras, um pouquinho mais velho. Joguei xadrez em uns campeonatos interescolas do Tietê e também ganhei uma coisa de xadrez. Quer dizer, uma escola gostosa, uma escola que fiz uns amigos que depois marcaram pra minha vida. Hoje, através do Face, reencontrei alguns e foi importante porque a gente pode falar de alguns professores que marcaram a nossa. A minha primeira professora foi a tia Sueli, não tenho a mínima noção dela hoje, nada mas era a tia Sueli. Falando assim a gente vai lembrando agora, se não me engano ela tinha uma outra irmã chamada Sílvia e assim vai, foi uma fase também boa.

P/1 – E você jogava em que posição no basquete e no futebol.

R – Era pivô. Mais alto, jogava pivô.

P/1 – Você se inspirava em algum jogador de basquete da época?

R – Tinha duas pessoas na época que jogavam basquete no próprio Tietê, no time de cima tinha um neguinho, carinhosamente falava, que era o Pelezinho. Pô, o moleque fazia cesta. E a gente lá queria ser que nem ele no clube. Ele fazia cesta de qualquer lugar. Mas nessa fase mesmo pra mim era o Carioquinha. Carioquinha era o cara que todo adolescente, todo cara queria ter como ídolo, era o Carioquinha, uma geração ainda um pouco antes do Oscar, era o Carioquinha.

P/1 – Por que?

R – Porque ele era legal, engraçado, também jogou no Palmeiras. Ele arremessava bem a bola, ele, sei lá, às vezes usava fita na cabeça. Eu achava ele talvez um pouco mais de show, ele fazia um pouco mais de show no jogo, que era mais pragmático, pá pum, tipo o Hélio Rubens que era mais sério, cada um com a sua capacidade, mas o Marquinhos era um cara que desequilibrava, dava um drible, vai, se fosse no futebol, ele era um cara que dava uma coisa. Então o Carioquinha pra mim...

P/1 – Era show.

R – Show.

P/1 – E no futebol você gostava de jogar mais o quê? Era goleiro?

R – Aí no futebol era onde me colocavam (risos). Não, mas acho que como eu era alto acabava jogando mais na zaga, era mais pesadão, jogava mais na zaga, mais por causa disso. Mas ao mesmo tempo era ruim porque se era mais alto e mais pesado, o atacante era leve, é difícil. Aí no futebol o gostoso era brincar, não importa onde, lateral, no gol, na frente, era brincar. Claro, às vezes quando ficava: “Estou cansado, vou ficar aqui na frente, a bola vem, bate em mim e entra no gol”, aquela coisa de centroavante de fazer gol, aquela coisa gostosa. Se fosse votar no tempo hoje acho que ia querer ser meia.

P/2 – Você falou do Pelé e do Rivelino, quem que era o seu grande ídolo?

R – Olha, o meu ídolo era o time do Palmeiras. Eu não jogava no gol mas achava o Leão, um cara. Pô, Leão, não sei se o nome vinculado a um animal, o rei da selva, e eu sempre gostei muito de bicho, então o Leão era um cara que eu gostava de gritar o nome dele quando eu jogava no gol, brincando: “Leão”. Gostava do Ademir da Guia, como todo palmeirense naquela fase. Mas assim, eu acho que, se você falar do Palmeiras como um time, eu era alto, fazia às vezes um gol de cabeça, então falava que eu era o Leivinha. Mas o Leão... é que eu peguei o Ademir da Guia já um pouco mais avançado, o Leão era um pouco mais novo, então o Leão marcava mais nesse sentido, mas eu jogava no gol. Quando jogava na zaga certeza, certeza, é o Luís Pereira, sem dúvida, quando fazia gol era o Leivinha. Mas todo mundo queria ser Ademir da Guia, mas aquela história mesmo do Luís Pereira, Leão. E o Pelé porque acho que me ensinaram, meu pai me ensinou. Meu pai é italiano, era palmeirense mas o Pelé era o rei do futebol e eu acho que toda criança queria ver o Pelé. É ver o Pelé. Sempre foi uma coisa que eu gostei de ver in loco esse tipo de coisa, uma vez veio joga o Maradona contra o São Paulo, ele estava jogando no Sevilha. Eu fui no Morumbi, falei: “Dane-se, não sou sãopaulino, não torço pro Sevilha, mas eu sou amante de futebol. Peguei, fui ver Sevilha e São Paulo pra ver o Maradona, pra ver o cara tocando a bola, se é diferente, se não é. Então acho que aquilo de querer ver o Pel~e, querer ver o Rivelino é porque eram dois craques na minha infância, apesar que o Pelé já não vi muito jogar, era referência pra qualquer criança.

P/2 – E Copa do Mundo, você lembra da primeira Copa do Mundo?

R – Lembro, foi a de 70. Eu lembro muito bem, meu pai italiano, a Itália foi pra final da Copa do Mundo, eu estava no carro com meu pai voltando da casa de uma tia e acabou o jogo no radinho, acho que estava no radinho ou então tinha acabado o jogo na televisão e a gente estava voltando. O meu pai buzinava na rua o tempo todo. Eu era criança e achava engraçado ele buzinando. E ele gritava: “Itália! Itália! Itália”, até marca a gente que são coisas que são particularidades de cada um, de família, né? Coisa que às vezes nem eles sabem que marcavam a gente essas coisas. E eu lembro que daí teve a final em 70, Brasil e Itália, e eu tinha cinco anos, eu nasci em 65. E aqui na rua, no número 129 mais ou menos estava tendo uma reforma e d lado de fora tinha um banco de terra e areia. E a gente criança, aha, queria ir lá brincar de montar castelo, de fazer bola. Meu pai falava: “Vai começar a final, vai ter a final agora, Brasil e Itália, vem ver!”, e eu: “Não, quero brincar”. Eu ainda não tinha a noção exata do que era a Copa do Mundo com cinco anos, eu queria brincar na areia, era mais engraçado pegar um coisinho de areia e fazer um castelo. Então eu tive um primeiro contato de Copa do Mundo mesmo em 70, mas a primeira que eu vim realmente entender foi 74. Aí não, em 74 já tinha o Leão, já tinha o Luís Pereira, já tinha tudo isso na minha cabeça, aí a Copa do Mundo de 74 marcou e todas até hoje eu vi todas.

P/1 – E como era essa questão de família italiana torcer pelo Brasil, dava conflito em jogo?

R – Engraçado, eu não sei, não sei se a minha é brasileira ou se meu pai foi muito pai, mas eu sempre fiz isso, meu país é o Brasil, se jogar Brasil e Itália eu sou Brasil, nunca tive dúvidas sobre isso, sempre fui Brasil. Agora se o Brasil sair fora e ficar a Itália contra outro time, pelo carinho do meu pai e porque eu adoro a Itália, eu vou torcer pra Itália. Então assim, Brasil e Itália pra mim, eu nunca tive nenhum conflito interno. Não, sempre Brasil.

P/2 – Mas o seu pai torcia...

R – Não, meu pai pra Itália. Meu pai também: “Sou italiano, torço pra Itália” e sempre teve respeito um pelo outro. Gostamos de ver o jogo junto, às vezes brincamos um com o outro: “Pô, vocês perderam”. Meu pai tá aposentado, né? “Pai, vai ter na televisão Brasil e Alemanha, amistoso”, eu aviso ele pra ele ver o jogo, uma distração pra ele. E claro que meu pai aprendeu a gostar do Brasil também, pela família, por morar aqui no Brasil, um país que o acolheu. Mas a mesma história, se jogar Brasil e Itália ele é Itália, eu sou Brasil. Meu pai fala assim: “Eu só não torço mais pro Brasil do que eu deveria porque eu não gosto dos jornalistas brasileiros (risos). Que o Brasil é o melhor futebol do mundo, que o Brasil já ganhou. E realmente, pega uns 20 anos atrás o Brasil já ganhou, porque o Brasil era uma potência, mas acho que ele fala assim: “Pô, vocês podem ser isso, mas têm que ser humildes. Vocês não podem falar que já ganhou. Isso dá uma raiva, pô, tem que respeitar”. E hoje ele fala: “É, hoje vocês não falam mais ‘já ganhou’, né? Agora vocês pensam mais em falar já ganhou, porque o Brasil já não é mais como antes”. Mas sempre foi muito claro, campeonato de bocha, Brasil e Itália. Sou Brasil. Campeonato de bolinha de gude, Brasil e El Salvador sou Brasil. El Salvador e Itália? Itália. Nada contra El Salvador (risos).

P/1 – Fala pra gente algumas histórias que mais te marcaram nessa infância no Brás. Você falou várias coisas, mas tem alguma coisa específica que te marcou assim, que você passou?

R – Foi o que eu te falei, o que me marcou foi muito mais o companheirismo, a amizade. O fato de estar sempre todo mundo junto, uma coisa que virou amizade pra vida inteira. O que marcou foi jogar bola na rua com meus amigos, isso é uma coisa... É que tudo teve a sua fase, a fase de jogar bola que foi uma coisa quase diária, mas teve a fase da igreja que tinha as procissões que a gente via as procissões passando, quem ia fazer parte de ajudar a carregar o andor, quem ia ser apóstolo. Ou ao mesmo tempo quando encheu a rua e quem estava em casa, quem estava na rua, então pegava o amigo: “Ô, encheu a rua, vamos brincar na rua”. A gente ia brincar na rua, a gente não tinha ideia, era como se fosse uma piscinona grande aquilo lá e os pais vinham atrás porque brigava mesmo querendo bater: “Vocês são loucos? Se tem um bueiro aberto puxa vocês”. E a gente não tinha essa noção, era gostoso estar andando na rua na água. Nem todo mundo tinha condição de ir pra Santos, fazer essas coisas. Então tudo isso do Brás marcou, tudo do Brás teve uma coisa assim, desde as enchentes, do pessoal, dos chapas descarregando feijão, às vezes cantando alguma coisa ou dando risada. Pra mim, particularmente, em geral todo chapa tinha um apelido entre eles. O Gaúcho porque o cara nasceu no Sul. O Pelé porque o cara era muito mais escuro que os outros. Pé de valsa porque o cara era um pouco manco Branco porque o cara era mais branco. Quer dizer, todo mundo tinha um apelido e até nisso eu conseguia ver uma espécie de uma família. Tipo assim: “Pô, hoje o Pé de Valsa não veio”, não mudava nada pra mim, numa concepção de criança: “Pô, Pé de Valsa não veio”. Tem tudo isso numa infância aqui no Brás, o Brás era muito rico. Por isso que eu falo, você vai morar hoje num condomínio, você entrou no condomínio ou numa escola a tua vida está lá, talvez por isso as crianças vão no videogame. A gente não, a gente aqui tinha vários planos sociais que interligavam de uma maneira ou de outra.

P/1 – Você se lembra desses chapas cantando, descarregando?

R – Lembro. Um tirando sarro do outro. Claro, muita brincadeira de mulher envolvida, de homem. “Pô, você tá aqui, eu estava lá na tua casa. Vou cantar pra ela a tua música, vou cantar a música do”, sei lá, como chamava aquele cantor? Eu não sou cachorro não. Quer dizer, com tudo o que eles passavam, que hoje a gente tem muito mais noção, eles também eram felizes, também se divertiam. E os patrões na época também ajudavam mais, eu lembro disso, existia muito mais humanismo, muito mais uma... se ajudavam mais. Isso eu trago até hoje em mim, sempre que eu tenho uma roupa usada em casa, ou mesmo que não seja usada que eu comprei e acabei não usando, eu engordei ou emagreci, ou não gostei, ou por n motivos eu sempre trago pra cá, eu sempre trago aqui pro Brás pra dar pro pessoal. Eu nunca fui de ajudar campanha do agasalho, de rua. Por quê? Porque eu ajudo aqui, vários. Isso é uma coisa que veio desde aquele tempo do Brás, de criança.

P/1 – O que a sua mãe fazia ou faz de comida que você gosta?

R – Pô, aí é tudo (risos). Ela tem facilidade em cozinhar, então ela cozinha praticamente de tudo, quase tudo que ela faz, faz bem, tem coisa ou outra que eu falo assim, dando um exemplo fictício: “Ah mãe, o seu lombo não é tão bom quanto o Brasileirão que faz mesmo”. Ela fala assim: “É porque eu não coloco isso, senão fica muito forte, tal”. Mas geralmente o que ela faz é gostoso, ela sabe fazer as coisas brasileiras e ela também trouxe muito da comida italiana que ela aprendeu com a minha avó, que aprendeu com a avó. Minha mãe é uma pessoa que dá pra fazer um livro de culinária.

P/1 – É? E o que você gosta mais, doce, salgado?

R – Ah, em geral salgado, né? Acho que o doce é um complemento. Doce assim, às vezes eu posso ficar um ano sem comer doce, às vezes posso comer doce, toda semana um. Mas acho que salgado é mais prazeroso.

P/1 – E ela faz macarronada, faz massa?

R – Macarrão, faz arroz e feijão, faz estrogonofe, faz lasanha, faz tortas diversas, inventa coisa de peixe, coisa de frango, coisa de carne. Até chuchu com cebola caramelizada ela fez um dia e estava bom (risos). Você fala: “Pô, mas chuchu?”, pois é, até o chuchu estava bom (risos). É verdade. Jiló, ela faz um jiló no forno com um pão ralado em cima que o jiló acaba ficando gostoso de comer, quer dizer, às vezes uma coisa que a gente não gosta, uma coisinha boba que ela coloca muda um pouco e você come. Ah, outra coisa que a dona Rosa sempre falava de pequeno, eu acho legal isso, com criança: “Ó, vai pegar beterraba que faz bem pra isso. Vai pegar cenoura faz bem pros olhos”. Sempre de pequeno ela associava fígado faz bem pra comer, então eu sempre comi de tudo, sempre comi de tudo. “Ah, isso faz bem pra isso, vou comer. Isso faz bem praquilo, vou comer’. Só tinha duas coisas que quando eu era criança eu não comia, quiabo e jiló. “Quiabo e jiló não vai, não gosto”. Aí um dia fiquei mais velho e falei: “Pô, mas se existe o quiabo e o jiló, eles devem ter alguma coisa, alguma proteína, alguma coisa neles que existe que faz bem pro corpo humano que eu não consumo, então eu tenho que consumir pra poder ter esse tipo de nutriente que às vezes eu não consumo”. E hoje eu como quiabo e como jiló também (risos). É uma maneira de pensar, né?

P/1 – Agora queria que você falasse um pouco, se você quiser, da sua irmã nessa época. Ela tem quantos anos a menos que você e como era ela na infância dela e você lá jogando bola, como era essa questão, como era o tratamento?

R – Falar em relação a ela não tem problema nenhum, pra mim nunca teve nenhum problema. Às vezes tinha problema pras pessoas ao redor que ficavam mais constrangidas em perguntar ou queriam fingir que não existia porque não sabia como se comportar. Hoje é um pouco mais fácil, está na televisão, já tem nome agora de uma pessoa especial, antes era deficiente. A minha irmã é assim, é o que eu falo, eu fui um filho único que não sou único. Eu não era um filho único, mas moralmente, no sentido de uma normalidade eu era um filho único. Isso sobrecarregou um pouco sobre mim uma carga ou outra de família, porque um dia eu ia ter que cuidar dela, se defende, não entende nada. Então sem você perceber como criança, você adquire uma carga muito forte. Ela nunca interferiu em nada. A minha mãe que às vezes comenta comigo: “É, eu sempre tive que dar muita atenção pra ela, me perdoa que eu não podia ficar muito com você às vezes”. E eu não sentia falta disso. Minha mãe eu acho que ela criou isso dentro dela, mas ela me dava tanto carinho, tanto amor, acho que ela queria dar mais, mas ela dava o suficiente, não precisava mais, então eu não sinto falta disso, não. O que eu senti foi uma vez, eu pegava os livros da escola, tinha umas coleções de livros na sala pra brincar, eu pegava os livros e fazia estrada de carro e às vezes colocava um livro em cima do outro e fazia uma ponte e tal. E às vezes ela não entendia nada, ela vinha na sala e derrubava, aí eu ficava bravo, né? “Pô, essa irmã”, chamava de nenê, “Essa nenê do cacete, fica destruindo!” (risos). Minha mãe chegava: “Pô, mas ela não tem culpa, não entende”.

PAUSA

R – Onde é que eu estava falando? Da irmã.

P/1 – Da sua irmã, é.

R – Então, a minha irmã tinha esse lance de atrapalhar alguma coisa, mas assim, que seria a mesma coisa se fosse uma irmã normal que está enchendo o saco do irmão. Eu não tinha esse discernimento e tratava ela como: “Pô, para”, às vezes dava um tapa nela, coisa de briga de irmão. Aí minha mãe falava: “Ó, mas ela não entende”. Era estranho entender esse conceito ‘ela não entende’. Mas ao mesmo tempo minha mãe fala que quando ela nasceu eu já dei a chupeta pra ela, não quis mais nada, parece que nasceu um irmãozinho e eu abri mão, não preciso mais, quem precisa é outra pessoa. E mesmo sem saber que ela tinha um problema. Depois, uma coisa que me marcou muito quando eu tinha talvez dez, 11 anos, eu ia na casa dos amiguinhos da escola, do Tietê, tinha alguns que moravam aqui. E estava fazendo lição de casa, lições básicas mesmo, três mais cinco. E ele falava assim: “Vou ajudar a minha irmã a fazer a lição de casa dela”, tipo assim, a gente estava na quarta série, a irmã dele estava no segundo ano. E eu falei: “Porra, me deu vontade, cara, de fazer aquilo”. Puta, mas eu não tinha minha irmã pra ensinar a fazer lição de casa, ensinar a diferença da bolinha pra maçã, da pera, que é amarela. Pô, aquela foi a primeira vez que eu senti algo dentro de mim que eu falei: “Cara, tem alguma coisa que é diferente, que não casa”. A partir desse momento eu comecei a ter uma relação diferente, eu não conseguia brigar com a minha irmã, eu queria ela normal pra brincar. Pois é, pega mais lá embaixo. E é isso aí ela, nesse tempo o trabalho que a gente teve na minha família e tudo e superamos. A gente sempre acreditou na espera de um milagre e esse milagre não existiu, existe a fé, mas o milagre não existiu. A gente se contenta em algumas coisas que a gente pôde cuidar, pior pra quem não cuida, mas é muito triste você falar isso: “Pô, ainda bem que a gente pôde cuidar, teve gente que não cuida”. Acho que o certo é levantar uma camisa e ajudar quem não consegue cuidar. A gente acaba sendo um pouco mais acomodado porque a água às vezes não está batendo em você tanto, mas acho que ainda é uma coisa que dentro de mim dá uma: “Pô, por que você não faz pra ajudar outras pessoas”. A gente tem alguns amigos que se elegem deputados, que são gente boa, eu conheço alguns que são gente boas, às vezes dá vontade de falar: “Pô, não é interesse meu, é uma coisa real que acontece isso com muitas crianças que não conseguem pagar a escola, que os pais acorrentam em casa, que os pais às vezes são ignorantes e batem nesses filhos’. A gente sabe que isso existe, dá uma pena porque eu mesmo tenho isso em casa e eu não sei se minha irmã está com dor de dente, se ela está com uma dor de cólica feminina, se o travesseiro dela já não deu o que tinha que dar e está doendo a coluna dela. Isso é uma coisa que faz muito mal, então às vezes você tenta imaginar o que ela pode estar passando. Mas tantas pessoas que não têm acesso a esse tipo de coisa. Nisso eu queria uma ajuda do governo, mas você sabe que você vai pedir isso pro governo que nós temos hoje, tem tanta coisa pior pra eles, que pra sair uma verba pra esse tipo de coisa é uma coisa difícil. O que eu realmente acho que tinha que ser muito mais prioritário, porque nós estamos aqui em quatro hoje, conversando, fazendo essa reportagem. Os quatro que estamos aqui hoje temos capacidade de se virar amanhã, a gente sabe falar, a gente teve estudo, ou mesmo sem estudo a gente sabe falar, se virar, nem que for pra pegar uma laranja e vender no farol da esquina. Essas crianças, elas dependem 100% de você, 100%. Pra ir num banheiro porque não sabem falar, pra comer. Então esse lado meu da minha irmã me deu um lado muito humano, que tem gente às vezes que confunde eu ser um cara bom com um cara bobo. Existe o bom, mas não o idiota. Existe um cara humano, nem por isso que não veja a vida como ela é. Eu acho que isso é uma coisa que eu agradeço a ela nesse sentido, que às vezes eu vejo algumas coisas que me toleram mais a não brigar, a entender, a tentar pensar de uma maneira melhor. É difícil explicar isso daqui, é muito intuitivo, muito por aí.

P/1 – E ela tem um ano a menos que você.

R – Um ano a menos. Um bebê grande.

P/1 – Mas problemas de falar, mas de manusear as coisas?

R – Ela é um bebê grande que não tem raciocínio nenhum, vai ficar sentada, você não sabe se ela enxerga hoje, se ela não tem miopia, astigmatismo. Não é que ela vê uma televisão e acompanha uma novela, ela está no mundo dela, jogada lá, sentada. Põe a comida na frente dela, ela come, dá na boca dela, se ficar esperta ela põe uma comida na boca, tem esse instinto de comida. Nunca vai chegar pra você: “Quero ir no banheiro”, não tem essa condição. Então você pega e leva a pessoa no banheiro, tira a roupa lá no vaso e deixa lá meia hora. Às vezes acontece alguma coisa porque acho que tantos e tantos anos ela assimilou esse tipo de coisa, mas sempre tem que usar fralda, tomar banho uma vez por ano. Assim, é uma vida bem complicada. Como está numa escola existe aquele lance, o que os olhos não veem o coração não sente. Mas sente.

P/1 – Queria que você falasse um pouco dessas enchentes agora. Como é que eram, quando que aconteceu, que você passou por isso.

R – Aqui é uma região que sempre teve muitos grãos, arroz, feijão, cereais em geral, lentilha, grão de bico, feijão branco, farinhas. E por mais que você não queira sempre vai sair alguma coisa de um saco e vai cair na rua. Um grão, dois grãos, três, quatro, cinco, dez, uma casca de banana que comeu e cai na rua, isso sempre acaba indo pro bueiro, então você não tem enchente aqui, a canalização pro rio era diferente, o rio não era tão largo, hoje ele é mais largo e fizeram assentamento nele, antes não tinha essas coisas. Então transbordar o rio era muito mais fácil e os bueiros sujos era mais fácil ainda de encher mais rápido, então a gente conviveu muito tempo aqui com enchente mesmo. As maiores enchentes, pelo que eu escutei na minha vida, teve duas que eu não era nem nascido, ou se era nascido era bebê, então não tenho condições de lembrar dessas. Eu lembro de duas: uma quando eu morava aqui na Benjamim, o meu apartamento era de fundo e eu lembro que passou um carro de bombeiros dando comida pras pessoas no primeiro andar, que eram amigas da gente, dando comida e o cara pela sacada, com a escada giro ele chegava perto e dava comida pra gente, isso eu lembro muito bem. Dessas grandes, né ? E eu lembro também de uma que o meu pai foi me buscar, eu estudava no Tietê, a perua da escola me deixou na rua do Gasômetro porque ela não conseguia chegar aqui por causa da enchente, e meu pai foi me buscar lá. Meu pai apareceu lá. Só que assim, hoje a gente pensa: “Mas não tinha celular pra avisar, como é que era a comunicação?”, eu sei que ele apareceu lá, ele me colocou aqui, sentei aqui nos ombros dele e vim andando de lá pra cá. Quando chegou na altura da farmácia a água começou a bater no meu pé e tinha mais um quarteirão pra andar. A água começou a bater no meu pé, criança (risos), ôpa, virou festa. Meu pai falou que eu batia o pé na água e a água batia tudo nele, né? Ele falou: “Para!” e eu não parava (risos) era uma puta festa. Eu devia ter uns quatro, seis anos, cinco anos. E ele falou que na hora até desistiu, mas que chegamos em casa mesmo com a água aqui no peito dele e eu aqui. Se pensar bem hoje: “Pô, que perigo, sujeira, rato”, essas coisas todas, a gente passou por cima de tudo isso daí. Então eu lembro e depois quando tinha essas enchentes eu lembro que eu saía na rua, tinha aquele cheiro muito forte de coisa que ficava apodrecendo, depois de dois, três dias, de feijão que apodrecia, um fubá, farinha que ficava molhada, tal, essas coisas de cheiro me marcavam também. E aquelas pilhas jogadas fora, que esperava o caminhão vir buscar. E uma coisa também que eu lembro, que independe da enchente que existia muito aqui, todo sábado a gente jogava bola, a gente tinha que parar um pouco porque vinha um caminhão pipa e limpavam todas as ruas. Então as ruas ficavam limpas pra segunda-feira de manhã, senão a coisa aqui marcava bastante. Eles limpavam, hoje não existe mais isso, não.

P/1 – E com 13 anos você sai do Tietê, é isso?

R – Com 13 anos eu saí daqui do Brás e fui morar fora daqui.

P/1 – Antes de falar isso me fala como era o apartamento que vocês moravam.

R – O apartamento que a gente morava era dois quartos, um banheiro, sala, um sacadinha interna, que era um quintal, vai, não chamava-se sacada, era um quintal mas não tinha vista pra rua, mas era um quintal que dava pra ter vaso, planta. Eu lembro que eu colocava a tartarugazinha lá, dava pra brincar de bola. E tinha uma sala, cozinha e uma varanda de serviços, uma área de serviços. É um apartamento que eu nunca mais voltei e eu tenho vontade de voltar. Eu não sei quem mora lá hoje, eu não tenho quantificação de tamanho, pra mim o quarta era grande, era um corredorzinho e eu tenho saudades de voltar lá hoje e ter ideia do que era isso.

P/1 – Da dimensão mesmo.

R – É. Uma hora eu vou fazer isso daí. E eu lembro que tinha um corredorzinho no meio com um banheiro, acho que do lado desse corredorzinho era uma área aberta que meu pai acabou fechando e fez mais um quarto, alguma coisa assim. Era assim.

P/1 – E vocês eram um família que tinha animal de estimação? Ou não.

R – Não. Nesse apartamento que nós moramos eu lembro que de criança eu ganhei pintinho na escola, aqueles pintinhos coloridos, minha mãe deixou pegar. Aí depois, claro, ia começar a crescer, mas como tinha os pais que trabalhavam aqui e tinham armazéns, levavam pros armazéns e criavam no fundo dos armazéns. E na época ainda se matava galinha, essas coisas, se comia. Eu lembro que nós criamos tudo e depois eles falavam assim: “Agora eles vão matar” “Mas vocês estão loucos”, não tinha... mataram mesmo (risos). Eu não consegui comer. Então assim, isso não chega a ser um animal de estimação, mas teve esse contato de brincar. Minhas tias que não moravam aqui no Brás, uma tinha cachorro, outra tinha tartaruga. Aí uma vez eu peguei e comprei tartaruguinha d´água, comprei duas tartarugas d´água, pequenininhas e deixei nesse quintal que eu tinha. E perfeito, ficaram lá vivendo um mês, dois, três, um ano, não tenho ideia. Sei que um dia eu fui lá e estava só a carcaça, com certeza algum rato foi, pegou e comeu. Aí eu nunca tive cachorro, não tive nada assim de bicho próximo de estimação mesmo. Quando nós mudamos pra casa, em 79, aí sim, aí eu tive cachorro mesmo, cachorro grande.

P/1 – E como era essa casa, onde que era?

R – Ah, a casa já era o oposto do que poderia ser o Brás nesse sentido. Era uma casa enorme, quatro quartos, piscina, é outro mundo, era um clube numa casa, era irreal pro Brás. Já era aquela parte das pessoas que trabalharam aqui, dos italianos que vieram do nada e começaram a ganhar alguma coisa e começaram a sair do Brás pra ter as suas casas, suas famílias. Foi aí que o Brás começou a mudar um pouco o perfil dele, algumas pessoas não conseguiram sair daqui, algumas viúvas, outros porque o trabalho não deu certo, continuam morando aqui alguns poucos até hoje, também não quer sair daqui porque tem tudo, tudo é fácil, né? E a mudança do Brás aconteceu aquilo, você teve uma ruptura muito grande com aqueles teus amigos de infância, porque ninguém dirigia ainda nessa época, não existia celular, não existia internet, então a sua comunicação era você ligar o telefone fixo mesmo. E assim, ao mesmo tempo você tinha que ligar o telefone fixo, combinar com o cara, ver se ele ia estar na casa dele aqui no Brás no fim de semana, sempre ia ter vários amigos, mas você tinha que morar banho na casa de um, minha avó morava aqui ainda, então eu tomava banho na casa da minha avó para jogar bola. Aí quando chegou o terceiro colegial lá no Bandeirantes eu tinha aula de manhã até a noite, foi quando deu um corte aqui no Brás, mais forte, porque tinha que estudar, não tinha jeito. E mesmo assim, quando não tinha aula de manhã até a noite eu pegava o ônibus do colégio e vinha aqui no meu pai, ajudar meu pai a trabalhar ou ficar no escritório dele, tal e depois voltava com ele pra casa. Mais ou menos isso, mas já começou a ter uma ruptura com o Brás infância, a parte de sonhar, já começou a cair no mundo mais real.

P/1 – Como era o bairro de Santo Amaro na época?

R – Ah, o bairro de Santo Amaro já foi diferente, foi tudo, tudo diferente. É um espelho do que as pessoas vivem hoje, mais isoladas. Você tem a sua casa, o seu muro que te protege e acabou, é você e a sua família lá dentro. É pouca interação, pouquíssima interação com vizinhos. Até hoje, morei lá 20 e poucos anos, eu não sei te falar como chamava o vizinho da frente. Sabia quem era, falava oi, falava bom dia, mas não sei como eram como é que chamava. A vizinha do lado só sabia porque eram três alemãzinhas bonitas, mas eram mais velhas, mas a gente sabia o nome, falava oi pra lá, eu fiz alemão lá, guten tag, guten morgen, fiz seis meses de alemão, mas assim, não teve nunca amizade, não teve nunca uma coisa de Brás, não existia.

P/1 – E onde que era em Santo Amaro? Que rua?

R – Ah, era perto da Adolfo Pinheiro, perto da Chácara Flora, um bairro mais arborizado, tudo, quando eu cheguei lá tinha até macaco nos galhos ainda. Então foi uma vida totalmente diferente, outro tipo. Sofri um pouco em relação à amizade porque a distância daqui pra lá é grande, não é que dava pra ir lá ver amigo teu toda hora. E foi uma fase da vida que não volta mais.

P/2 – Você vinha bastante para o armazém do seu pai?

R – Então, eu vinha. Durante a semana como eu tinha que estudar lá, às vezes eu vinha mas era pouco, mas fim de semana, geralmente no sábado e domingo eu vinha pra cá, meu pai me trazia, algumas vezes eu vinha de ônibus, jogava bola, trazia roupa, tomava banho na casa da minha avó e saía com os amigos pra ir num Jack in the box da vida, até começar a ir num cinema, coisa com 14, 15 anos, isso acontecia. Todo domingo praticamente aqui jogando bola.

P/1 – Como é que era o armazém do seu pai, como era a fachada, como era por dentro, onde que era?

R – O armazém dele era na Benjamim de Oliveira, era uma fachada normal, tradicional de hoje da rua quando você passa por aí. Uma porta larga e mercadoria dentro, os armazéns padrões que eram diferentes, talvez, sei lá, dez metros, não sei, por uns 20 de fundo, uma coisa normal, porque eu também ia brincar lá às vezes, né? Não tinha o que fazer, ia lá, brincava. Mas assim, brincava de contar pilha, de contar quantas caixas tinha, ver se acertava, se estava contado certo. Aí gostava de subir nas pilhas, sempre achava uma aranha no teto, ficava olhando a aranha, aranha diferente: “Ah, essa daqui é mais escura, aquela não sei o quê”, aí passava um rato (risos). Tinha essas coisas que é de moleque que a gente acha engraçado. Se falasse isso para uma mulher: “Nossa, rato!?!”, era uma coisa normal.

P/1 – E você se lembra de algum funcionário do seu pai que você era amigo?

R – Ah, lembro de todos. Lembro de todos. Posso até fugir algum nome, mas lembro de todos. Sempre fui...

P/1 – Teve uma boa relação com eles.

R – Meu pai nunca me falou alguma vez na vida: “Olha, aqui você é patrão”. Não, sempre foi, todo mundo foi sempre igual, do mais baixo ao mais alto nunca tive inimizade com nenhum.

P/2 – Você chegava a ajudar ele nos negócios?

R – Meu pai? Eu era criança, não tinha essa condição de ajudar. Ele podia mandar: “Ó, faz isso daqui”, eu pegava e fazia. “Ó, pega esse papel e leva no cara lá da esquina”, eu levava. Mas eu não tinha noção nenhuma de nada.

P/1 – Mas agora você sabe como era na época o negócio dele na sua infância. O que ele vendia, como estava o mercado naquela época?

R – Um mercado em expansão. Ele vendia em geral produtos importados: azeite, vinho, alho, grão de bico, coisas que no Brasil não tem, vai, ele mais ou menos vendia esse tipo de coisa. Como eu te falei, na época São Paulo era o centro do Brasil, você vendia pra quase todos os supermercados, Nordeste, Centro-Oeste, então era um mercado em expansão, trabalhava e se ganhava. Existiam as concorrências como tudo na vida, então às vezes informação, você saber que a plantação de feijão foi pouca, então você conseguiu essa informação antes dos outros e você compra um pouco mais, não pra ganhar mais, pra vender mais caro, mas pra pode atender o seu próprio cliente. E se avisava também: “Olha, vai faltar feijão esse ano, choveu muito no Sul e não vai ter feijão”, o pessoal abastecia, coisa melhor, lei de comércio. Então eu começava a ter um pouco de noção disso. Eu achava legal quando chegava as mercadorias. Por exemplo, azeite eu achava legal porque cada azeite tinha uma cor de lata colorida, uma cor diferente, então eu começava a associar: Audácia amarelo, mas tinha Audácia vermelho, verde lá, mas um era da Argentina e outro espanhol, a marca era a mesma mas mudava por causa do país. Eu achava legal ver as latas de azeite coloridas, os vinhos, rótulos, as misturas, as cores, era uma coisa que eu gostava. De arrumar, deixar arrumado, eu achava legal. Não tinha noção de: “Ah, tá ganhando um real ou dez”, não tinha essa noção.

P/1 – Agora essa fase que você está falando é dos anos 70, mais ou menos?

R – Em 1980, mais ou menos.

P/1 – Pra importação. A gente vai chegar lá ainda. Agora você estava lá em Santo Amaro, tinha se mudado e estava entrando na adolescência, então as coisas começam a mudar um pouco em relação à infância, né? O que mudou pra você? Você começou a sair, fazer coisas diferentes, tentar namorar como é que foi?

R – Naquela época não se namorava cedo como hoje, namorar.

P/1 – Mas tinha um interesse já?

R – Não, não, isso sim. Quando mudou aqui do Brás eu lembro que um dia eu cheguei e falei assim: “Mãe, vai todo mundo comprar um tênis aí na Pajé”, tinha o calçados Clóvis, eu tinha um dinheirinho que eu tinha guardado, juntado. E era todo o dinheiro pra ir mexer com as meninas (risos). Já tinha isso daquela época, já ia pra lá pra Santo Amaro, tudo bem, morava lá era gostoso, tinha jardinzão pra jogar bola dentro de casa, piscina. Mas assim, eu queria estar com meus amigos pra fazer essas bagunças. Então a gente se encontrava em algum lugar. Em 75 abriu o shopping Ibirapuera, eu tinha dez anos. Com 12 anos: “Vamos pro shopping Ibirapuera”, na frente tinha uma pista de patinação, chamava Rock n’Roller eu acho. Então a gente ia lá pra olhar as meninas: “Aquela é bonitinha, eu gostei daquela, vamos conhecer”. Aí chegava dez amigos pra conhecer uma menina, aquela coisa que era uma bagunça mesmo. Mas já começava a aparecer aquela coisa de sentimento, mesmo com as amigas do Brás: “Pô, aquela lá, eu acho ela mais bonitinha”, aí as irmãs dos amigos. Tinha isso, era inevitável.

P/1 – Você se lembra da primeira menina que você foi lá falar com ela? Como é que foi?

R – A primeira que eu beijei? (risos) Eu lembro. Foi numa matinê de carnaval do Juventus, acho que eu tinha 12 anos (risos). Nós estávamos aqui e fomos pro Juventus, eu conheci a menina lá, sentamos. Aí fui dar um beijo nela, ela pegou: “É a primeira vez que você está beijando?”, eu falei assim: “É, porque eu estou com uma afta aqui”. Quer dizer, eu tinha 12, a menina devia ter uns 14 anos, eu era alto. Foi uma coisa muito sadia, muito gostosa, não foi aquela coisa arranjada, programada. “Teu pai vai te levar num lugar lá, teu tio vai te levar num lugar lá”, uma coisa muito assim. E mesmo o que eu te falo, aqui na rua, tinhas as amigas, a gente olhava, passava: “Tua irmã tá ficando bonita, tua irmã tá ficando gostosa” e não sei o que lá. E quando ia no shopping, nesses clubes de patinação eu lembro, a gente pegava e ia em 12 amigos. Em 12 não dá pra andar junto, então a gente dividia em quatro grupos de três cada um pra ver se a gente conseguia conhecer alguma menina. Aí quando conhecia uma menina ou outra, elas também queriam conhecer algum menino, tudo. É aquela história: “Pô, aquela lá é a mais bonita das três” e todo mundo gostou daquela lá. Aí você começa a ver que já existe uma competição interna quem vai dar em cima da menina, ou então deixar ela decidir quem ela vai gostar, ou se você ficar quieto pra ver se ela vai... aquela história da descoberta da vida, descoberta do amor, do sexo, tudo.

P/1 – Agora você falou do carnaval. Muita gente falava do carnaval aqui no Brás, né? Você passou por carnavais aqui também? Como que era o carnaval aqui?

R – Não, o carnaval do Brás que eu passei foi de criança, na igreja tinha um salãozinho pra festa de criança mesmo, fantasia de criança e só, que eu me lembre só. Eu me lembro que meu pai uma vez pequeno me levou num desfile de carnaval que o carnaval em São Paulo se não me engano na época era na Duque de Caxias ou São João, uma dessas duas avenidas. Ele me levou uma vez pra ver também, naquele tempo que não existia violência tal. Eu só lembro disso do carnaval daqui. Eu lembro que depois, já com 18 anos, que a gente já pegava carro ou já viajava ia para o interior de São Paulo, interior de Minas pra pular carnaval. E do Juventus também, que era próximo, às vezes a gente ia no Juventus pular carnaval. Fui uma vez no Palmeiras também.

P/1 – E como é a festa de São Vito aqui no bairro?

R – Ah, festa de São Vito é outra coisa que dá um capítulo à parte porque era a festa do santo, todo mundo participava, uma vez por ano era festa, pra criança era uma coisa diferente, tinha música, vinha gente, pessoas que já tinham mudado do Brás, ou avós ou tios que moravam aqui e vinham pra festa, então era motivo de você reencontrar as pessoas. Era motivo de festa, era uma coisa gostosa.

P/1 – Como é que é, tem as mamas lá.

R – Tinha as mamas. Antigamente não era bem como é hoje, esse tipo de mama, tudo. Tinha as barracas que se vendiam as comidas que têm até hoje. Tinha as mocinhas que vendiam biribinha, vendiam pipa e era tudo o que a criança quer, a mesma coisa que vai no shopping hoje, tem os playgrounds lá, tem os espaços de jogos lá, as crianças querem ir, para nós eram essas coisas, só que não eram todos os dias, era a festa de São Vito que era em junho e acontecia também um pouco na Festa de São Cosme e Damião no mês de setembro, mas São Vito era mais forte. A gente gostava, ia, a gente sabia que ia ter as barracas na rua. Mesmo sem dinheiro, por exemplo, a gente ia com os amigos pra ficar na barraca, que vinha gente de fora e ficava olhando as meninas que vinham de fora, e ficava bagunçando, dando risada, era motivo pra sair de casa e ficar brincando. Sabia que ia ter a procissão do santo no domingo e que vinha muita gente de fora na procissão. Quer dizer, o gostoso foi isso, você viver coisas de um mundo que hoje você em São Paulo é muito difícil encontrar, você consegue encontrar essas coisas ainda em cidades pequenas do interior, ou como Polignano a Mare, nas cidades provincianas tem esse tipo de coisa. São Paulo, talvez, mais raro esse tipo de interação. E tudo sempre do lado da Zona Cerealista, ligada intrinsecamente. Porque na festa a Zona Cerealista também ajudava dando patrocínio, às vezes dava, sei lá, dava bebida ou ajudava a comprar uma carne pra fazer o fígado, um patrocínio pra ajudar, sempre teve. Isso na época não tinha creche, essas coisas. Quer dizer, sempre esteve muito ligado tudo isso, afinal são vários fios que você vai ver estão totalmente ligados.

P/1 – E o que mais você fazia na adolescência pra se divertir? Você ia pro cinema...

R – Cara, cinema, aí você começa a descobrir música, quer escutar música. Eu tive muita influência de música italiana, tinha um tio meu que adorava música italiana, um primo meu na Itália trabalhava na RAI italiana, então sempre mandava disco. Então você começa a descobrir a música, sempre diversão. Acho que é que nem hoje, a gente não tinha os playstations da vida, os celulares, os tablets, mas a gente já tinha música pra fazer fita, pra tirar uma sequência com uma menina num bailinho, colocava uma música atrás da outra pra beijar a menina na hora certa, quem fazia a fita melhor. Quando alguém começava a ter um carro, amplificador de carro, caixa de som no carro, lavar o carro, deixar o carro bonito. E antes disso não adianta, era jogar bola, passar mulher e olhar, querer ir no Cine Augusta lá, ou no Jack in the Box, depois descer a Augusta inteira mexendo com todo mundo. Descobrindo a vida.

P/1 – Sei. E em São Paulo onde você ia mais? Em São Paulo inteiro. Porque a gente está falando do Brás mas...

R – Saindo do Brás com família eu ia visitar tios, era sempre isso daí, praticamente sempre esse tipo de programa no fim de semana, quando dependia de pai ainda, que não podia ficar sozinho, ia visitar um tio num domingo, no outro domingo ia visitar outro tio. Às vezes tinha alguma comemoração de Dia das Mães, a minha avó levava todo mundo pra comer fora no restaurante. Acho que Dia dos Pais também, mas meu avô morreu eu tinha nove anos, então acho que isso não teve tanto depois. Basicamente era isso, era visitar tios. Quando eu estava estudando na escola, que eu já jogava basquete, com nove anos jogava campeonato, aos dez anos meu pai tinha que me levar pro clube pra ter jogo, o jogo era aqui ou no campo do adversário, mas ia com a perua do clube. Saía daqui pra onde: Às vezes fazer visita para algum tio dos meus pais, não tios meus, tios dos meus pais. Começou uma época, começamos uns amigos, uns tinham apartamento em Santos, começar a ir pra Santos, aí já misturava um pouco de futebol na areia com ver menina de biquini. Está tudo numa fase de transição que vai muito junto uma com a outra. É o que eu te falo, você no Brás, você não tinha muita necessidade de sair. Porque aqui você tinha seus amigos, você tinha que jogar bola, você tinha o Mercadão, Parque Dom Pedro, você tinha um, não como hoje é, mas você tem a 25 de março aqui do lado, o centro aqui do lado e todo mundo morava aqui, não tinha essa necessidade de ter que pegar o carro e vamos sair, fazer um passeio, vamos até o Horto Florestal, vamos até o Simba Safari, vamos até o Zoológico, isso era um passeio, mas você não tinha necessidade de sair de casa mesmo. Hoje, pras pessoas muito mais hoje moram em condomínios, centros verticais, ficam mais presas, violência, às vezes chega fim de semana: “Vamos sair, vamos fazer uma visita, ou passear num shopping”. A gente não queria nada disso, a gente queria estar na rua com os amigos, era a melhor brincadeira que tinha, a maior diversão, não tinha tanto que sair, o programa chato que tinha quando sair era ter que ir no médico, por exemplo, no dentista.

P/1 – Então me fala como é que foi o Bandeirantes. Você falou um pouquinho, mas me fala um pouco mais. Você foi pra lá e como é que foi, você sentiu que o clima era diferente, né?

R – Senti. Senti que era outra coisa totalmente diferente em todos os sentidos. Comecei a sentir que o dinheiro fazia diferença em alguns casos porque tinha pessoas que tinham dinheiro, não voltado pro mal, mas você sentia que tinha pessoas que respeitavam mais, tinha pessoas que eram mais simples. E no meu caso era indiferente, era legal ter ou não ter, mas era muito igual pra mim, então eu fiz amigos com todo mundo lá, mas eu senti esse tipo de diferença. Competitividade, eu vou ser o melhor médico, se eu for bom médico... quer dizer, eu comecei a ver que aquela adolescência, aquela infância do Brás, de jogar bola, todo mundo sempre unido junto, junto, junto, lá existia isso, mas já existia um interesse comercial, um interesse de se você for um médico melhor do que eu você vai tomar o meu lugar. O sol existe pra todos, mas eu tenho que ser melhor que você. Então isso lá eu aprendi que existia. Nós lá no colégio, a nossa classe era um colégio que dividia homens em uma classe e mulheres na outra e as últimas classes mudavam as classes por índices, os 50 que tiravam notas melhores ficavam numa classe, os outros 50 na outra, tal, e a última classe de toda misturava homens e mulheres, parece que isso mudou hoje pelo que eu saiba. Tive bons professores lá e eu peguei sempre a classe masculina intermediária. E teve uma classe masculina intermediária que eu peguei, que era a famosa 62, que foi uma classe que marcou, que foi uma classe que os professores falaram que marcou, a gente não sabe se eles falam isso pra todos, né, aquela coisa fácil de falar, mas pelo que eu entendi marcou mesmo que a gente tem alguns professores que são amigos nossos até hoje e eles falam que aquela classe era muito amorosa, era uma classe muito companheira, era uma classe muito unida, que nas outras classes não existia isso, existia uma competição, mas era uma competição de amigos, não era uma competição predatória. Então é uma classe que ninguém tinha prazer em matar aula, falar: “Vamos ficar aqui no intervalo, não vamos ter aula”. A gente gostava, tinha professores que a gente ajudava o professor a dar aula e tinha professor que a gente judiava do professor pra dar aula, coisa da idade mesmo, aquele que dá mais espaço, aquele que dá menos espaço. Mas foi uma classe muito bacana, nós temos um grupo hoje no WhatsApp e a gente conversa como se não tivesse mudado nada em 30 anos. E as mesmas brincadeiras, as mesmas bobeiras, claro, hoje com ideias políticos diferentes de uns e de outros, mas a gente conversa como se fosse ontem. Foi uma turma muito boa, mas eu aprendi lá que era tudo diferente do Brás. Não tinha a minha mãe ou a minha tia, lá era cada um por si e Deus por todos. Desses meus amigos todos da minha classe que eram pessoas bacanas eu conheci talvez o pai, a mãe de seis, sete, então mostrou uma proximidade, tem gente que nem isso tinha, né? Mas já era outro mundo. E o Bandeirantes não tinha vocação pra esportes, isso é uma coisa péssima, a gente ia jogar uma bola de manhã, à tarde, à noite, lá era estudo, estudo, estudo, estudo. Sempre levei numa boa, mas a parte desportiva, de Educação Física eu sentia falta.

P/1 – E desses professores que te deram aula quem que você gostava mais, quem que você se lembra mais?

R – Eu vou te responder com 14 anos de idade. Com 14 anos de idade o professor que eu mais gostava era o Ernesto, de Biologia. Ele tinha uma didática de dar aula, metodologia, que ele fazia muita brincadeira, muita piada, exemplo. Pegava você, pegava outro amigo: “Vem aqui. Hoje nós vamos fazer uma fagocitose. Você vai ser fagocitado” “Hoje vai ser fotossíntese” “Hoje você vai ser uma mitocôndria. Você sabe que mitocôndria produz energia e a mitocôndria pra produzir energia precisa do quê?”. Quer dizer, então ele fazia uma brincadeira, um teatrinho, que a aula dele ninguém jamais pensaria em faltar. Ninguém jamais pensaria em não prestar atenção. Era a aula que passava mais voando, era a aula que talvez, pra maioria das pessoas que eu sinto isso, mais aprendia, de uma maneira muito tranquila. Então com 14 anos eu falo que o Ernesto foi o meu professor perfeito. Quando você hoje lembra dos seus professores que você teve, com a cabeça já de um homem, aí eu vou estar fazendo uma propaganda do Bandeirantes. Eram caras puta professores, pessoas bacanas, eram como segundos pais ensinando a vida pra você e todos eles, todos eles, sem exceção, muitos já morreram, hein? Nunca vão ouvir isso, então não é média mesmo, eram bons pra caramba, eram legais porque eles ensinaram a vida, eu sei que eu tenho noção de tudo um pouco até hoje. Se eu quiser falar com você agora de História eu tenho noção, se eu quiser falar de Geografia eu tenho noção, que o colégio era bom mesmo. E a gente entende hoje o quanto difícil é ser professor, ainda mais no nosso país, sem querer entrar no método da política. E eles estavam lá, eles ensinavam. E era época que você escrevia ainda na lousa e a gente era aquela idade de moleque de 15, 16 anos que a gente pensava em mulher 24 horas por dia, 50 homens numa classe, eles deviam sofrer na nossa mão. As besteiras que a gente fazia, revista pelada que aparecia e corria. Eles ensinavam e eles sabiam lidar com isso porque eles também já tinham sido adolescentes, né? Aí tem um professor de História que vem e pega um dia e ensina, ensina, ensina, ensina. Fala: “Gente, é o seguinte, tem que ensinar História assim. Só que História na vida, História é o seguinte, tudo tem causa, consequência e efeito. Se um dia vocês são muito democrata, muito democrata, muito democrata, um dia um cara vai cansar e vai querer mandar. Aí vai chegar no ápice e aí depois vai derrubar. Quer dizer, na História tudo vai ser assim, tudo o que for os extremos um dia cai, não adianta. É a mesma coisa, você comeu muito sal, muito sal, você vai ter sede. E se você tomar muita água você vai no banheiro. E depois você vai ter fome. Quer dizer, a História também, desde que a História existe, existe um ciclo de poder, hierarquia, sobe, desce, sobe, desce. Só que aí você precisa aprender a colocar datas, lembrar de nomes importantes. Porque as histórias mais ou menos vão se repetir na França, na Itália, mas tem datas e nomes diferentes. Eu sei que isso não tem muito a ver com o contexto, mas o que eu quero dizer é que o colégio lá no Bandeirantes foi uma fase de vida que eu aprendi coisas pra vida inteira. Eu falo isso hoje, muito como escovar os dentes de manhã, uma coisa automática. E em tudo, com a professora que era de Botânica, dona Zulmira. Todos, todos, todos, todos. Lapola, professor de Física, os irmãos de Química, todos eles foram ótimos professores e ótimos segundos pais pra vida.

P/1 – E você tinha alguma matéria que você gostava mais nessa época já ou não?

R – Gostava muito de Biologia, acho que era a que eu mais gostava. Acho que é mais fácil falar as que eu não gostava. Eu odiava Química e Física, principalmente Física. Física pra mim, eu tinha que fazer porque eu tinha que ter nota, mas eu odiava. Química um pouco menos, mas também não gostava. Mas Física, nossa: “Pra que me interessa que o carro vai chegar dez segundos mais cedo, se o elevador desceu antes?”, mas tinha que aprender. E hoje você sabe que para algumas coisas é muito interessante, né? (risos). Era cabeça de quem fazia Biológicas, que não era de Exatas.

P/1 – Agora você foi lá e entrou na PUC, né? Que ano foi isso?

R – Eu entrei na PUC eu tinha 17 anos.

P/1 – Foi em 82.

R – Com 21 anos eu estava formado na PUC. Nunca peguei DP, passei direto sempre (risos), me divertia.

P/1 – E como é que era na PUC? Onde que é, como é que era?

R – Nas Perdizes. A PUC foi um outro choque, pior ainda. Porque o Bandeirantes foi um choque que você estava longe dos seus amigos do dia a dia. Na PUC então foi um choque porque de repente você entra numa sala de aula que já tinha um cara com 30 anos de idade, você tinha 17, já não tinha nem aquele aspecto de colégio, né? Já era um cara que já tinha feito uma faculdade de Direito e quis fazer Administração. As pessoas totalmente diferentes. Na PUC já tinha política, já tinha cara que gostava de rebelião, coisa que pra gente era uma coisa que não existia ainda, no meu dia a dia não existia esse tipo de coisa, que você começa a entender também que isso que era política. Intervenção na PUC, invasão da PUC, histórias, a PUC sempre meio metida à esquerda numas coisas, greves. A PUC foi uma faculdade que de todos os meus estudos foi o que eu menos guardo na minha cabeça de tudo, até de matéria. A PUC até hoje, tem dias que eu sonho que eu falo: “Nossa, tem prova amanhã, não estudei”. A PUC já não é um colégio, ela é uma faculdade da vida, já está respondendo coisas da vida, você pode estar respondendo uma coisa específica de Matemática, de Propaganda e Marketing, Recursos Humanos, tudo isso, mas é uma coisa que se você fizer isso aqui agora é só colocar o nome aos bois lá, existe em tudo o que você faz. Desse cenário você faz Marketing, você faz RH. Estou falando de uma maneira bem generalizada. Se pegar uma multinacional, planilhas, ver como funcionam os números, interpretar é diferente, mas a PUC já foi uma coisa, já foi o mundo pra capar. Já não tinha amizade, eram dois, três amigos, não tinha mais aquela coisa de coloridinho, de ver a menina de saia da faculdade, da escola, que era bonitinha, lá foi um lugar que eu não fiz amigos, eu fiz profissionais e faculdade, da faculdade da PUC eu trago até hoje um amigo, o resto eu perdi contato com todos. Não que se eu encontrar com meia dúzia que eu era mais amigo antes não volte a ter uma amizade, mas acabou, passou, não sei nem como encontrar, tem uns que eu nem lembro o nome, foi uma coisa que já virou um mundo de empresa mesmo.

P/1 – E você namorava essa época?

R – Eu entrei na PUC com 17, com 19 eu comecei a namorar na PUC uma menina da PUC. Antigamente não se namorava tão cedo, né? E nem é isso, a gente jogava bola, mulher é pra encher o saco numa hora dessas, a gente queria jogar bola. Aí na PUC não, na PUC eu conheci uma menina, daí já começou aquela vontade de ter uma companhia, de querer sair, de querer namorar e namorei com ela quatro anos.

P/1 – Ela era de Administração?

R – De Administração também.

P/1 – Foi a primeira namorada então?

R – Séria, séria foi. Namorada séria é aquela que você namora um ano, né? Antes de um ano eu acho que é uma tentativa.

P/1 – E você falou da PUC, ela não marcou professores, só algumas, essa greve, a questão da esquerda, da política.

R – A PUC eu me lembro de alguns professores, os que talvez eu tinha mais aptidão. Eu lembro de um professor que faleceu faz uns dois anos, o professor Benatti. Ele era professor de Marketing, era um professor muito bacana, muito gente, ele era muito humano, me marcou muito isso dele. Era um cara, era tipo um professor paizão, de ensinar mesmo. E a aula dele, eu não sei se eu gostava de marketing, propaganda, essas coisas, a aula dele pra mim era muito mais gostosa do que as outras aulas. Não estou dizendo importância, mas a aula dele era uma aula muito gostosa de ver. E era um cara tão bacana que a gente fez umas bagunças na aula dele que até hoje eu lembro como uma das coisas gostosas da PUC também. Tive outros professores, William que dava aula de Economia, que era um pouco mais, puxava mais. Eu nunca tive problema com estudo, tá, sempre passei de ano, nunca tive problema de recuperação, pegar DP, nunca peguei DP, então minha relação com os professores sempre foi muito boa. Mas não teve professores que me marcaram que: “Nossa, aquele professor”. Existia um pouco daquilo de: “Pô, aquele cara trabalha na Embraer” “Pô, legal”. Hoje eu já teria mais noção do que seria a Embraer. Na época era o respeito, muito mais você ficar com medo do professor, o cara já é um professor, você é um cara que está saindo do colégio, camisa colorida e de repente na faculdade já tá com metade de gente com roupa de trabalho. Eu fiz dois anos de manhã e dois anos à noite porque quis começar a trabalhar. Então na mudança que se faz à noite é uma mudança mais drástica ainda, aí teus amigos acabam virando números mesmo, você acaba não sabendo, é oi, oi, oi. De dia ainda existe um pouco mais de colorido, existia mais menina de manhã estudando. Da PUC eu me lembro nome de poucos professores, me lembro mais daqueles que me convidaram pra trabalhar com eles depois que eu acabei a faculdade. E de amigos mesmo que eu tenho de lá até hoje é um só que eu frequento, que eu sou amicíssimo mesmo e o resto tem um ou outro no Face pingado e o resto não sei nem como procurar, não sei que fim teve.

P/1 – Você ficou de 82 a 86 lá, mais ou menos?

R – Isso.

P/1 – Isso é mais ou menos a época da Diretas Já, né?

R – Isso.

P/1 – Teve alguma movimentação na faculdade?

R – Na PUC sempre teve movimentação. A PUC sempre teve um lado esquerdo dela, vamos dizer assim, mas eu vivi, eu estava lá, era meia dúzia. A PUC tinha, sei lá, quatro mil alunos, era meia dúzia de manhã e era 60 à noite. O que acontecia? Os seis que faziam baderna, estou falando em baderna mesmo, não estou discutindo o certo ou errado, faziam baderna, gritavam, era meia dúzia. O resto ia tudo pra casa. A gente ia pra casa, aproveitar para almoçar mais cedo, ir tomar sol no clube, passear com cachorro, não ficava lá. O que aparecia na televisão era sempre aquela meia dúzia. Se eram certos os ideais dos caras eu não estou aqui pra discutir isso. À noite existia um pouco mais de seis, virava 60. O pessoal que estudava à noite, já precisava trabalhar, ralava mais também. Mas também a mesma coisa, começava a bagunça à noite, a gente que estudava à noite nessa época: “Clotilde, vamos pro barzinho, vai, dar uma risada”. Aproveitava pra ir namorar, eu namorava já, pegava a namorada e ia no Estinguete lá que tinha na rua Henrique Schaumann, aproveitava pra ir namorar. Ou então pegava e ia no jogo do Palmeiras no Parque Antarctica, ia ver o segundo tempo do jogo, entrava de graça quando era o segundo tempo. Não ficava nunca nas manifestações, ou contra, ou a favor. Não, nunca. Então a PUC nesse ponto nunca me marcou nada, pelo contrário, as pessoas tinham muito mais medo da PUC do que eu tinha.

P/1 – E você saiu da PUC, se formou e já estava trabalhando antes.

R – Já.

P/1 – Onde você estava?

R – Aqui.

P/1 – Com o seu pai?

R – Não, não. Com meu pai, não, meu pai tinha outra empresa.

P/1 – Você abriu a Reluma.

R – Eu abri a Reluma eu estava com 19 anos e faltava dois anos pra acabar a faculdade. Eu fiz seis meses de manhã, uma transição, aí eu fiz um ano e meio à noite porque eu já estava com a Reluma aqui, então eu trabalhava de dia, saía daqui seis e meia, ia pra PUC, fica na PUC até onze e meia, sei lá que horas que acabava a aula. Chegava em casa, jantava, tomava banho, sete horas estava aqui. Durante um ano e meio eu fiz isso daí. Mas não cansava, era gostoso (risos).

P/1 – Você tinha o quê, 20 anos?

R – Dezenove.

P/1 – Dezenove anos! E por que você quis abrir tão cedo assim? Como é que foi?

R – Cara, é engraçado, quando eu quis abrir o meu pai falou assim: “Você tem certeza mesmo que você quer?”. Eu falei: “Eu quero, quero começar a trabalhar, quero começar a ganhar dinheiro, ficar independente”. Era uma visão de vida que eu tinha na época. Aí meu pai ainda tentou falar: “Pô, mas tem certeza?”. Depois eles me contaram, quando eu fiquei mais velho, que ele falou: “A gente queria que você trabalhasse, claro, quem não quer ver um filho trabalhando e partindo de você, você querendo, não era a gente que estava mandando, então é mil vezes melhor. É que a gente sabia que a partir do momento que você ia começar acabou, acabou a vida de: ‘Vou passar uma semana em Santos com os amigos, empinar pipa, vou acordar meio-dia’”. E acaba mesmo, né? Mas eu estava convicto que eu queria, que eu queria, que eu queria. Aí ele pegou: “Bem, está com vontade então vamos ajudar”. Aí eles ajudaram a abrir a empresa com meus dois sócios, que minha mãe é prima do pai deles, aí juntaram a gente, montamos a empresa e começamos a tocar.

P/1 – E nesse período você já tinha planos de entrar em algum segmento do mercado? Como é que você analisava na época que estava as questões?

R – Na época, a maioria das pessoas que a gente convivia aqui na Zona Cerealista, eles eram importadores, meu pai era importador, o Dadá era importador, Tokio era importador, cada um no seu ramo mas era importador. A gente abriu a Reluma pra trabalhar com produtos nacionais, ou seja, a gente comprava da Nestlé, comprava da Gessy Lever, comprava da Colgate, comprava pilhas Rayovac e revendia pra supermercado, pra mercadinho, pra empórios. Não existia uma linha tão direta das indústrias pros supermercados, passava muito pela Zona Cerealista, muita coisa passava por aqui. Aqui existiam grandes atacadistas de produtos nacionais, a gente fala nacionais que não eram importados. A Benjamim, a Cofesa, Irmãos Brasiliano, várias coisas. A gente abriu pequenininho perante esses caras pra um dia crescer e, claro, ganhar dinheiro, essa coisa toda. Então o nosso primeiro trabalho aqui foi justamente com produtos nacionais. Começamos a comprar desses outros intermediários sabão em pó, creme de leite, leite moça, bombril, veja, detergente, papel higiênico, pilha... o que você possa imaginar que tenha no supermercado a gente comprava aqui e revendia. Chegamos até na época montar um pequeno varejinho aqui, gente que queria comprar uma unidade ou outra, mas não era o nosso foco. E estávamos indo bem. Na época existia inflação alta, vocês não conhecem isso, mas o produto custava dez reais de manhã, quando chegava às duas da tarde já estava custando 12, e volta apagar a lista e faz a lista nova. E sempre você tem algum produto que você vendia que tinha subido já e não deu tempo de atualizar, ou como você comprou um também que depois acabou subindo. E era um saco trabalhar assim porque era muito, você comprava por dez, você vendia por 13, aí você ia comprar estava pagando 17, aí o cara vinha e te pagava 18, era complicado. Contudo ainda, apesar da inflação falar, falar, falar, era uma época que ainda se ganhava dinheiro, eu acho, não sei dizer. Era diferente, sobrava. Hoje em dia pra sobrar demora mais. E a Reluma foi isso. Estávamos indo bem, aí teve o Plano Funaro, se não me engano, acho que foi em 1989, 90, por aí. Ou 87. Congelou os preços, na era Collor.

P/1 - O Collor entrou em 89.

R – Então, mas o Funaro fez parte... foi a Zélia, né? Eu sei que teve o Plano Funaro, que quando teve o Plano Funaro a gente começou a mudar o foco da empresa, a gente começou a parar de trabalhar com produtos nacionais e distribuição e começamos a mexer um pouco com grãos. Grão de bico, amendoim, alpiste, lentilha, foi uma fase de transição muito rápida essa nossa. Quando aconteceu isso daí nós começamos a mexer um pouco com bebidas nacionais, foi um mercado que foi bom e não foi bom. Então começamos a colocar Campari, só bebidas nacionais: Campari, Old Eight, Natu Nobilis, 51, Velho Barreiro, Drury’s, Steinhaeger, toda essa linha, sempre as nacionais. E estava vendendo bem, crescendo, tudo. Aí veio o plano do Collor, quando ele congelou tudo, o Pão de Açúcar – estou citando o Pão de Açúcar, podia ser outro supermercado – comprou da gente daqui 70% do estoque e no dia seguinte congelamento de preços com deflação. A gente acha que eles sabiam das informações (risos), os grandes grupos. Então você vendeu por dez, pagamento com 60 dias, por exemplo, aqueles dez daqui 60 dias o cara ia te pagar só oito. Então todo mundo perdeu de cara nas vendas porque a única coisa que você vende fazendo negócio, pensando em estar ganhando dinheiro, você perdeu o dinheiro. O mercado ficou parado um tempão, estagnou. Nesse período tentamos ver uma coisa ou outra pra fazer, a gente vai se reinventando. Aí com o Collor, o Collor deu abertura no mercado pra importação, que antes era mais difícil importar e a gente começou a partir pra importação, que já era o que o meu pai fazia, o que os outros faziam, só que com alguns produtos mais alternativos que antigamente não tinha. Ninguém trazia massa de macarrão italiana, é difícil ter isso aqui em excesso, tal. E começamos a botar pra esse tipo de mercadoria. Junto com isso começamos a trazer azeite que eles traziam, trazíamos licores italianos que não tinha acesso, alguns tipos de vinhos diferentes, que os vinhos aqui no Brasil era mais o Bolla, o chianti clássico, o chianti ruffino e nós passamos a trazer outro tipo de vinho, Lambrusco, Prosecco, Fraschati. Então com essa abertura do mercado, de novo a gente se reinventou, não só a gente como empresa, como também muitos da Zona Cerealista. E assim vai o mercado que sempre está, você continua vendendo pro Brasil inteiro, continua trabalhando. Claro que nesses últimos 20 anos as mudanças foram enormes no Brasil, hoje um cara que te comprava aqui pra ir pra Recife, hoje ele já abriu uma empresa em Recife e importa lá, importa por lá. Existe hoje coisa de rolos, benefícios fiscais, coisa que a gente não concorda, não compactua, acha que tem que ser uma lei geral pra todo o Brasil, mas tudo bem, isso no vem ao mérito da gente. Então o mercado hoje mudou um pouco, mas eu creio que ainda a Zona Cerealista é tendência pra tudo. O que ela era e hoje, acho que hoje ela está muito mais voltada como atacarejo, eu acho que existe um atacado menor do que era, mas existe um varejo muito maior. O varejo que eu digo não é o varejo de um quilo, mas o varejo de um cara que pega uma caixa, duas caixas pra família dele. A parte de laticínios que é um quilo, dois quilos existe e muito, eu acho que vai aumentar isso daí ainda. Mas aquele atacarejo você vem com seus amigos aqui, compra uma caixa de pasta de dente e divide em três pra não ser muita coisa. Acho que isso aqui existe muito no Brás ainda.

P/1 – Você falou muito da questão do Collor, nos anos 90. Agora vamos voltar antes da época que você estava ativo e vamos tentar fazer uma periodização, se você acha que dá pra fazer, do seu pai até os dias de hoje. Quando foi os momentos que a Zona Cerealista mudou mais e mudou por que, do que pra que, você entendeu?

R – É difícil falar não do meu pai, mas todas as empresas, né? Porque cada um tem os seus motivos. Eu acredito que quando deixou de ter inflação, que a inflação começou a zerar, aquela inflação galopante do Delfim, existiam muitos comerciantes aqui no Brás, muitos comerciantes, comerciante nato mesmo, de mercado. E naquela bola de neve da inflação você está trabalhando, mesmo quando você tem sentido de mercado, você está trabalhando numa bola de neve e aquilo às vezes você não consegue nem parar pra ver, você tá parando pra ver e já tem outra lista. Quando deu uma acalmada ficou os verdadeiros comerciantes, aqueles que têm o mercado na mão mesmo, tinha informação. Eu acho que as empresas que não souberam aproveitar de imediato as informações, porque a informação é muito valiosa, a informação vale muito mais do que você ter o seu produto aqui hoje. Eu acho que muita empresa começou a ficar um pouco pra trás. Porque antigamente você tinha a informação de um representante, ele ia te visitar, você ligava pra ele: “Ó, o que você acha da castanha portuguesa pro final do ano? Vai ter muita, vai ter pouca?”. E esse cara era uma pessoa muito importante, ele que fazia contato com Portugal, ou você às vezes ligava pra Portugal: “Olha, a safra foi grande, vai ter muita, o preço deve abaixar; a safra foi pouco, vai ter pouca, tem safra mas está miúda, está machucada, não está boa”. Toda essa informação, o que você vai comprar, o mercado vai reagir como, como vai vender, isso, aquilo. Quando você teve talvez muito mais informação direta de um celular, eu acho que pra você processar isso parece fácil, mas você pega uma pessoa de idade hoje, eles não sabem mexer no celular. Não sei se você entende o que eu quero dizer, ficou uma administração um pouco mais profissional, o Brás sempre foi um pouco muito amador. Era tanta coisa que fazia que não parava, mas um pouco amador, ninguém aqui era multinacional, ninguém vinha aqui: “Vou comprar sua empresa”. Você comprava uma Gessy Lever, mas você não comprava uma empresa daqui, não existia esse tipo de mercado, você pegava e montava uma. Então eu acho que com todos esses planos, os pacotes econômicos, as pessoas já tinham idade. Pra ter essas mudanças, às vezes os filhos eram pequenos pra entender, algumas empresas começam a fechar, começam a não acompanhar o ritmo, começam a ser devoradas por outras que souberam ter a visão um pouco melhor. Eu não vou discutir aqui méritos de informações privilegiadas de bastidores, de política, de economia porque eu acho que isso não vem ao caso aqui, eu também não posso chamar esse tipo de coisa, mas claro que a gente sabe que no mercado da Zona Cerealista teve gente que teve informação muito privilegiada e é mais fácil trabalhar assim: “Olha, pode comprar todo o bacalhau do mundo que vai faltar bacalhau”. Mas por que essa pessoa teve a informação e o resto não teve? Porque o cara falou assim: “Pra você eu vou dar essa informação, pro resto eu não vou dar”, a interpretação é de quem quiser. Então aí eu acho que existe uma mudança no Brás muito maior, que o Brás deixa de ser um pouco amador de papel, de vale e de ser mais profissional, de colocar em computador. E aí essa mudança mata, essa mudança matou muita gente. Não estou falando nem de sonegação de imposto, eu estou falando de você realmente descobrir tanta coisa, tanta coisa, tanta coisa que o mercado já não permitia um pouco mais de erro. Se você fizesse um erro: “Putz, preciso de dez mil reais”. Você tem dez mil reais assim (estala os dedos). Hoje você precisa de dez mil reais já tem que vender isso pra conseguir os mesmos dez mil reais. Então existe essa transformação, eu acho, muito grande, das pessoas de antigamente pras atuais. Um pouco mais de profissionalismo permite menos o erro.

P/1 – Modernização também.

R – Modernização, computador, informação. Antigamente existia um pouco mais de fio de bigode. “Vou te vender a dez”. Mercado subiu e fica a 15. “Eu vou te entregar a dez” “Ah, subiu pra 15, ó, acabou, eu dou pro outro a 14”. Entendeu?

P/1 – Vamos pelo menos pegar o ramo de importação agora. Na época do seu pai, nos anos 60, como é que era?

R – Na época do meu pai, como da maioria das pessoas, as pessoas trabalhavam mesmo, eram pessoas que trabalhavam, acordavam cedo, vinham aqui, arregaçavam a manga e trabalhavam, trabalhavam, trabalhavam. Hoje todo mundo trabalha, mas de uma maneira muito mais diferente. Você tem o computador, você dá o estoque, faz as coisas. Antigamente você ia vender o lote de um produto, tinha que mandar o cara contar pra ver se batia com a sua ficha direitinho. Pegar a nota fiscal, contar as notas que saíram e ver se tinha uma coisa, quer dizer, eles tinham mais rolo de faltar coisa, podiam te roubar e você não saber. Hoje não, hoje você tem uma nota eletrônica que te controla muito mais o estoque, você tem mais controle do que você tem. Na época do meu pai, que eu saiba, não só do meu pai, como das pessoas, você trabalhava, o mercado era muito consumidor, o mercado existia, abastecia o Brasil inteiro. Hoje aqui você sofre um pouco, você já não abastece todo o Brasil. Você abastece o Brasil, mas não é aquela necessidade, como eu já disse, tem uma empresa que está hoje em Recife, tem uma empresa hoje que está em Fortaleza, tem uma empresa que já tem duas, três, quatro, cinco maiores que já vendem no Rio. Um fez uma empresa em Belo Horizonte, entendeu, então o Brasil descentralizou um pouco, mas eu acho que ainda a Zona Cerealista é o marco inicial de tudo porque eu conheço pessoas que não estão morando mais em São Paulo, saíram de São Paulo e estão montando negocinhos de varejo como da Santa Rosa em outros municípios. A ideia foi daqui, levou pra outros lugares. E está vendendo.

P/1 – Era mais difícil importar na época do seu pai, né? Você falou que antes do Collor... como é que ele fazia?

R – Pra importar você tinha que ter um registro de importação no Banco do Brasil, o Banco do Brasil que autorizava a sua guia. Você tinha um limite de importação, então se naquele ano você podia importar 200 mil dólares, por exemplo, você vai mostrar no seu balanço que você ganhou 50 mil, tal, você podia importar um pouco mais no ano seguinte. Se você exportasse você tinha um benefício a mais ainda porque você exportou, está ajudando o Brasil a exportar, ter mais divisas, então você importa mais. Quer dizer, você construía a sua importação em base no que você importava, pouco a pouco. Então nesse sentido ainda que você falava assim: “Ah, vou trazer tudo isso daqui”, não, às vezes fazia composição, pega a minha empresa, pega a tua e a dele e vamos trazer todo mundo dez mil caixas de alho, por exemplo, e deixar o mercado um pouco na nossa mão pro mercado não ficar esculachado. Ou então se vier uma mercadoria ruim a gente pega a mercadoria ruim e manda vender pra quem faz pasta em pó de alho, mas não estraga o mercado. Quer dizer, coisas de mercado, coisas do dia a dia, né?

P/1 – Então depois do Collor a Reluma passou por um outro momento.

R – Ah, a gente está sempre se reinventando, né? É assim, eu não quero, não estou falando eu não quero perante uma camera porque é uma coisa muito complicada isso daqui, falar de parte política, falar de parte administrativa, falar de parte fiscal. A gente sabe de várias empresas hoje no Brasil em todos os ramos, tem empresas que fazem importações com crédito, entra com ação de advogado pra pagar o imposto depois, mas não pagou agora então tem um custo diferenciado, vai pagar depois, então a pessoa vende pra depois pagar. E aí tem gente que não, a gente quer pagar agora, então o teu custo é dez, o custo da outra pessoa é oito. Então esse mercado, se você importar pelo porto de Vitória o teu imposto é diferente, se você não entrar em São Paulo, então entrar em São Paulo aumenta o custo do teu imposto. Quer dizer, então são várias formações de custo no Brasil e é justamente por isso que eu não quero julgar, nem o sistema brasileiro, nem o sistema das empresas, cada um faz o seu pra se defender. Então do jeito que a gente optou por trabalhar as coisas ficaram mais difíceis, a gente está seguindo mais a regra do estado de São Paulo como tem que ser, tem o seu lado bom e tem o seu lado ruim. Ruim porque as vendas diminuem um pouco e bom porque está mais dentro daquilo que se propõe aqui. E nesse sentido é o que eu falo, isso que é o gostoso, você de novo acaba se reinventando, acaba: “Pô, isso aqui não está legal, o que está legal?”. Então você começa buscar alternativas, outros produtos, produtos que não têm talvez um rolo de imposto, que o imposto aqui ou lá é o mesmo, ou então que você não tenha _2:51:31_ porque é um produto acima de um peso tal, então você está sempre dentro da lei. Então a gente vai se reinventando e dançando conforme a música.

PAUSA

P/1 – A gente estava falando do comércio agora mesmo, da zona. Eu fiquei pensando agora, você e o seu pai são do ramo de importação, mas como é que está o atacado? Como estava o atacado na época do seu pai e como está hoje?

R – O atacado era fortíssimo. Era importação de atacado, você importava dez mil caixas de um produto e você vendia mil pra um supermercado, 500 pra outro estado, 500 pra outra cidade. Ribeirão Preto é uma cidade grande, quer dizer, Ribeirão Preto comprava pra ela e pra mais 20 cidades vizinhas, então era um atacado de importado também.

P/1 – Entendi.

R – Entendeu? Não era só porque era importado, mas era atacado também. Muitas vezes chegavam duas mil caixas de alho, estou falando do alho que se trabalhou muito aqui, saiu de um caminhão, punha no outro e esse caminhão ia pra Minas Gerais. E o cara que comprava esse alhinho, duas mil caixas pra Uberlândia, ele já vendia 200 pra Uberaba, 100 pra Arajá, mais 100 pra Itabirito, mais 200 pra outra cidade lá perto, Campo Verde se não me engano. E assim ia. Ou como sul de Minas. Quer dizer, era um atacado de importado mesmo. E se o cara não fosse esperto, não tivesse essa visão, ele ficava sem. E quando você tem o produto, existem duas coisas, você quer ganhar dinheiro, a coisa básica pra você trabalhar, você quer ganhar dinheiro. Mas a segunda coisa importante, você quer atender ao teu cliente. Você atendendo seu cliente você vai estar ganhando e você vai ter o seu cliente com você, então se você não o alho, independente do preço, seu cliente não vai vir pra você, você não vai atender o teu cliente. Então acho que esse atacado você precisa da visão que você precisa do produto.

P/1 – E como é que é um produto bom? Quando você está olhando um produto que você vai vender, quando você escolhe e você fala: “Não, eu vou vender esse produto agora”? Quando que é a hora, como é que você sente isso como comerciante?

R – Produto bom é aquele que te dá dinheiro, né? (risos) Não importa a hora e dá dinheiro. Não, existem produtos que são sazonais. Você pega um bacalhau, por exemplo. Hoje se come bacalhau no Brasil o ano inteiro. Uns dez anos atrás bacalhau era sinônimo de Páscoa. Depois da Páscoa você vendia bacalhau esporadicamente a alguns poucos restaurantes portugueses que precisavam ter o produto e um ou outra família portuguesa que compra. Hoje bacalhau você compra em abril, compra em maio, compra em junho, compra em julho. Antigamente não, se você comprasse muito bacalhau e não vendesse você ia guardar bacalhau pro ano que vem, aí é custo de manutenção, refrigerador. O bacalhau não vai envelhecer, mas vai ficando mais velho. Então você tinha que ter o mercado na mão, aí sim como eu disse antes, informação, bastidores, se teve muita pesca, não teve pesca, qual tamanho que sobrou mais. “O Brasil está comprando, mas os Estados Unidos também quis comprar esse ano porque os Estados Unidos costuma pegar um bacalhau da Groelândia que esse ano teve pouco, então ele está entrando forte no mercado de Portugal pra comprar bacalhau. Então a tendência é subir o preço lá e faltar um pouco de mercadoria”. Então tudo isso é informação de mercado que você tem que ficar antenado, que você trabalhando e tendo essas informações na mão, você tendo seus tipos de clientes, saber pra quem você vai vender, ou mesmo você não tem pra quem vai vender mas sabendo essas informações você fala: “Esse produto aqui vai ser bom”. É aquela história, o meu pai uma vez disse: “Você vai fazer dez importações. Difícil acertar as dez, é difícil, não é fácil, mas você tem que tentar acertar em sete, empatar em duas e perder em uma”. Você não pode fazer assim, ‘ah, vou importar’, não, você tem que estudar a importação, você tem que estudar o mercado”. Não é pra você trazer um bacalhau, então: “Vou trazer bacalhau”. No mercado sobrou 20 mil caixas do ano passado, vai fazer o quê com bacalhau? Vai chegar o teu aqui que é um custo mais caro, não sei o que lá. Vai vender? Não vai vender, vai demorar, então não é um produto bom. Por isso que eu digo, para um produto ser bom vai todo de uma pesquisa, tudo do dia a dia, de você saber, de você acompanhar. E isso você só aprende andando, indo, visitando. É a simples lei da oferta e procura. Existe já um outro produto que as pessoas não trabalham e que você aposta. “Pô, todo mundo importa bacalhau. Tem um produto que lançaram na França”, estou falando de coisas importadas, tá?, “que é um condimento que não existe em lugar nenhum ainda, que a França montou, que o bacalhau fica com gosto de pérola do adriático com fantasia de mediterrâneo. Pô, acho que vou apostar e trazer isso daqui”. Uma aposta, um produto inovador, mercado pode aceitar. Como vai aceitar? Propaganda, ou porque ele é bom e se vende sozinho. É um risco. Você pode achar que é um produto bom, então você traz. Se vai ser bom vai ser o seu trabalho, pra quem você vende, vender a ideia pro cara que o negócio é bom e ver se pega, propaganda. Tem coisas que são boas e não adianta, você não vai fazer isso, ninguém vai querer. Então é muito de feeling, muito de produto pra produto. Existe aquele que é o trivial, o trivial é aquele que você não erra, você vai ganhar menos. E você apostar num produto diferente, acontece isso aí, quanto maior o risco, maior o lucro. Mas principalmente estar antenado no mercado. O produto ser bom ou não ser bom você está ligado. Estou falando exemplo de bacalhau tudo fictício, né? Estamos tudo falando de bacalhau, bacalhau, bacalhau, daí um cara chega: “Tá todo mundo falando em bacalhau, cara, mas ninguém está falando do azeite. E todo bacalhau acompanha azeite. E o azeite, o mercado está vazio, vou apostar um pouco no azeite. Pô, pera aí. Carrefour, eu estou com um lote de dez mil caixas de azeite, vocês querem comprar?” “Vocês estão loucos, estou aqui com mil caixas e não consigo vender” “Não, eu tenho interesse, está vazio, eu tenho pouco” “Ôpa. Tem pouco azeite. Liga no Pão de Açúcar” “Não, estou trabalhando só com marca minha” “Opa, não tem tanto azeite no mercado”, que eles importam hoje, né? Você começa a sondar aqui, andar na rua, olhar os armazéns, ver quem tem, quem não tem, mandar alguém fazer uma corretagem pra você. “Olha, tem azeite aí? Preciso de mil caixas” “Ah, eu tenho, quanto você quer?” “Não, não tenho, só tenho 200 e poucas” “Pera aí, mercado não está tão...”, é um produto que você pode apostar. “Eu acho que vou trazer azeite que vai vender. Antes de vender só com bacalhau, eu vou trazer já em janeiro, porque janeiro tem muito calor, se usa muito mais salada, se usa mais tempero. Aí já fica pra quaresma”. Quer dizer, não estou dando aula aqui, estou dando simplesmente noções de mercado que acontece. Agora, existem todos os fatores internacionais, né? Coisa que já não depende do Brasil. Quebrou a safra da azeitona em Portugal nos últimos quatro anos, quebrou na Itália, subiu o preço do azeite lá, pegaram azeite africano pra atender o mercado deles, o pouco que ficou pro mercado deles e o resto exportou. Então o preço do azeite subiu mundialmente. Então o preço aqui, por mais que está faltando você vai trazer, mas você vai fazer o custo, vai estar caro, vai vender, não vai vender. É uma aposta, aí cada um sabe o seu tamanho, saber a sua clientela. É o comércio, comércio puro.

P/1 – Você falou muito no caso fictício, mas você pode falar pra mim alguns casos que aconteceram com você que por qualquer motivo, por qualquer razão, você se lembra bastante de um produto, de uma transação, de uma coisa que você superou, qualquer coisa desse tipo, você fala pra mim?

R – Então, eu, a minha empresa, a gente não tem o perfil de ser uma empresa de commodities. A gente não é, como eu disse, bacalhau ou mesmo alho, a gente nunca foi uma empresa voltada pra esse setor. Já aconteceu uma vez que nós importamos um alho, não é o nosso mercado preferido, predileto, não era o nosso ganha pão maior. Por que a gente importou alho? Porque o mercado era pra ser bom e pra nós um navio que estava vindo pra cá com outro navio, pessoa até que vendia mais alho que a gente, não me lembro o que aconteceu que o navio foi desviado pra Argentina porque não tinha lugar aqui e o nosso alho chegou no outro navio e tinha lugar. O mercado estava vazio. Essa diferença desse mercado ter ido pra Argentina primeiro pra depois vir pro Brasil, o mercado aqui ficou vazio cinco dias sem o alho e o nosso navio de alho chegou. Vendemos alho pra caramba. Não é que nós vendemos muito mais caro, mas a gente vendeu e não teve concorrência, vai, vendeu fácil. Então é uma coisa que marca, ganhou dinheiro. O que a gente aqui sempre trabalhou um pouco mais certo foi, por exemplo, com vinho. Nós mexemos uma época muito forte com vinho. Então a gente já sabia que casamento, batizado, aniversário, festa de formatura, então a gente trabalhou nisso. Eu não estava preocupado em acertar a loteria, eu estava preocupado em ter o meu produto, fazer divulgação do meu produto porque eu sei que iam comprá-lo. Então eu fui ganhar dinheiro mediante o meu trabalho ao longo anos, divulgando a marca, fazendo a marca e fazendo o pessoal ter certeza de que aquele produto era mais gostoso, o custo benefício melhor que outros, tal. O que podia acontecer numa hora dessas é você conseguir ganhar cinco, seis concorrências de festa de formatura, por exemplo. Então ia vender duas mil caixas e acabou vendendo oito mil. Ou então consegui fazer um pacote bom com o Pão de Açúcar no final de ano, os caras sempre estão comprando três mil caixas, um negócio bom pra eles, consegui uma ajuda do exportador pra fazer um folheto a mais de promoção no Natal, leve três, pague duas, não sei o quê lá e acabei vendendo 16 mil caixas. Entendeu? Então isso são coisas de trabalho, geralmente acontecem. O outro já é um pouco de sorte com especulação. Comprei a cebola, mas a cebola do vizinho veio estragada, ou ela veio brotando, a minha não veio, então eu tive sorte. E isso acontece muito por aí, é que eu não sou tão voltado pra isso.

P/1 – Você contou um caso que você teve sorte, mas você já teve azar também?

R – Ah, com certeza. Às vezes não é questão de azar, às vezes é um produto que não teve aceitação, o pessoal não gostou. Quando eu trazia um vinho branco espumante, a gente trazia o branco espumante suave e o tinto suave e vendia os dois muito bem, muito, muito bem. Aí tinha uns italianões que falavam assim: “Pô, por que vocês não trazem um tinto seco desse tipo? Porque a gente gosta do seco, a gente não gosta do suave”. E nós trouxemos o seco e começou a vender. E bem. Não na mesma proporção, mas vendia. Aí isso eu estudava o mercado de vinho, na época conversava muito lá fora. E o vinho rosé estava começando a ter uma tendência mundial, principalmente feminina, de tomar vinho rosé. E mandamos trazer esse tipo de vinho rosé. Na sua faixa também vendeu. Faltou só o branco seco. “Ah, traz um pouquinho do branco seco”. Vendeu, tá, mas suou. Porque já não pegou tanto. Então quer dizer, foi um erro, perdemos dinheiro? Não perdemos, mas foi vendendo caixa a caixa, empurrando, trabalho de boca a boca: “Olha, pega uma caixinha pra ver como é que é, só pra testar”. Não foi uma coisa que o cara chegou pra mim: “Ó, me manda dez mais dez mais duas” “Ô, você não quer pegar uma dessa aqui pra experimentar?”. Uma vez teve um cara que veio pra nós, isso em 1992, se bobear a ideia hoje é boa, vender cebola já pronta em lata, vinha da Espanha, produto super bom. Umas latinhas assim. Quer dizer, tua mulher não precisa descascar cebola, não precisa chorar, não precisa temperar, ela já vinha a cebola própria no creme da cebola. Era só você escolher como ia fazer, ia caramelizar, tudo bem, ia colocar um sal, uma pimenta a mais e colocar no polvo, era só escolher, estava pronta. Um produto que não pegou. Cebola, apesar de tudo é um produto barato no Brasil em relação a essas coisas. O custo da latinha, tinha um custo da preparação, da lata, do transporte, do imposto, coisa que a cebola aqui in natura tem isenção de imposto porque é produto básico, primário, né? Quer dizer, foi um produto que teve um erro nosso de não pensar em todos esses detalhes, achamos que ia ser uma coisa boa e não foi. Vendemos com prejuízo. “Vamos vender porque isso aqui não vai”. Teve um cara que fazia coisa de pastel, comprou, colocou tudo em um monte de pastel, em torta, e falou: “Pô, traz aquilo lá que aquilo lá quebrava meu galho”. Não trouxemos mais. Ele fala: “Puta, perdia muita tempo cortando cebola, cozinhando cebola, papapa, aqui já estava mastigado pra mim” “Pois é, mas não posso trazer um produto pra vender pra você com prejuízo, teria que vender no preço honesto”. No preço certo teria que ser dez, estava pagando cinco. Acontece esse tipo de coisa assim.

P/1 – E isso tem muito a ver com isso que você falou de comerciantes que se renovam ou não, né? Tem gente que ainda vende batata e cebola só aqui na Santa Rosa, né?

R – Mas porque a mercadoria está boa, porque se especializou nisso e não precisou mudar. Se ele precisar mudar, a Santa Rosa sabe muito se reinventar. Se esse cara que está vendendo batata e cebola hoje, talvez amanhã ele comece a vender atum, é que ele não precisou, tem um cliente mais antigo, tem as colocações dele. Às vezes ele é produtor. O que eu quero dizer quando ele se reinventa não é que ele tem que se reinventar só quando ele está ruim, ele pode se reinventar até numa boa mesmo, ou então ficar na zona de conforto. Pra que eu vou fazer com outras coisas, colocar mais tanto dinheiro aqui pra arriscar se aquele mercado está bom, não estou precisando mexer e estou feliz assim. Acontece disso.

P/1 – E que momentos você acha que teve mais mudança aqui na Zona Cerealista? Em todos os sentidos, para atacado de cereais, pra nacional ou pra importação. Quais seriam os marcos?

R – Eu acredito que a abertura dos portos em 90, 91 com o Collor, não só para a Zona Cerealista, mas para o Brasil – não estou defendendo o Collor aqui, estou dizendo que essa medida que ele fez, tudo o que estou dizendo aqui não tem nada a ver com política, tá? Estou fora de política. Essa medida que o Collor teve na mudança dos portos foi importação de carro, entendeu? Quer dizer, um monte de benefícios que pro nosso setor também aumentou muito, muitas empresas cresceram, começaram a ter negócio de delicatessen, quem quisesse um produto mais específico, uma cerveja importada, coisa que ninguém tinha acesso a isso antes, teve. Então é esse é um mercado em que o trabalho é muito determinante, mudou muito. Eu acho que existe o antes e o depois disso. É como a gente fala, a gente andava de carroça, hoje eu não ando de carroça, até o carro nacional hoje teve que se aprimorar, aperfeiçoar, porque senão ele não ia conseguir vender, independente dos impostos que se tem do importado. Isso eu acho uma coisa importante. Com a queda da inflação, não ter aquela inflação galopante, apesar que tem gente mais antiga que preferia aquela inflação louca, ele achava que ganhava dinheiro. Porque, claro, você compra dez, daqui a pouco está 10.50, daqui a pouco está 11, o cara podia bancar, vendeu a 13. Ele pensou que estava ganhando três. Não está ganhando três porque depois ele vendeu a 13 e teve que comprar a 18. Quer dizer, é um pouco irreal. Então a mudança da inflação, um pouco mais estabilizada, ajuda você a trabalhar com um pouco mais de calma, pensando um pouco mais. É ruim você ter que subir o preço do cliente, o cliente pensa que é gostoso? Não. O gostoso é você manter o preço pro cliente, que o cara volta aqui e sabe que o preço dele é dez, que ele vai vender a 12, que ele está ganhando dinheiro. É ruim quando você tem que chegar pro cara e falar: “Olha, vou ter que subir”. Então essa parte, quando mexe com a parte cambial, que o dólar estoura vai pra cima é ruim pra gente, a gente trabalha em produto importado, é ruim, atrapalha. O pessoal, até absorver esse aumento, é difícil. E a primeira quedinha que dá: “Ó, o dólar está baixando”. Só que o dólar baixou de quatro pra três e cinquenta e nova e o cara quer, você pagou a quatro, aí vem o dólar a três e cinquenta e ele quer pagar a três e cinquenta. E você pagou a quatro. Quer dizer, essas mudanças cambiais muito fortes atrapalham a gente também. Já vi que quebrou por causa disso daí, tinha muita dívida em dólar e quando estourou o cara não teve como pagar e aí atrapalha tudo. Essas mudanças teve. Teve uma mudança pra mim, que trabalhava de uma maneira fazendo propaganda, divulgando caixa a caixa, eu gostei, foi bom, foi a nota eletrônica porque aí tinha muita gente que vendia às vezes sem a nota, tal, então você vendendo com nota eletrônica você tinha garantia que está todo mundo tirando, ou teoricamente teria ser assim que funciona, né? Então pra mim foi bom porque eu comecei a vender uns produtos a mais porque eu vendia com nota. Tinha gente que falava: “Pô, aquele cara lá” “Problema dele, eu vou fazer assim”. Então deu uma moralizada no mercado, acho que é uma coisa que foi bom, aumentou o custo de muita gente, mas foi bom. Não acho isso uma coisa determinante na Zona Cerealista, mas eu acho que foi uma tentativa de moralizar.

P/1 – E internet você acha que ajudou bastante?

R – Internet ajuda. O que você manda de e-mail por dia, de promoção, o que você recebe facilita muito pra você. Nota eletrônica, às vezes tinha erro em bater nota, nota eletrônica praticamente não erra, coloca lá os dados, tal, sai a nota. Ajuda muito, a internet ajuda muito.

P/1 – Divulgação do produto?

R – Divulgação, busca, informar onde tem. A gente não trabalha muito com isso, mas tem gente que até em Facebook divulga um produto e aquilo lá em um segundo espalha. É que nós não somos voltados pro varejo. Talvez para um varejo, tá tendo um vinagre de maçã em promoção a 0,99. Não é um produto desse que vai fazer você sair de casa pra comprar, mas se você quiser divulgar isso, você divulga muito mais fácil.

P/1 – E como é a sua relação com o cliente que bate aqui na sua porta? Como é que você acha que é o tratamento que deve ser feito com ele, como é essa relação que você constrói?

R – Uma pergunta talvez mais fácil pro cliente, né? Mas assim, se você pegar o conceito americano, o cliente é a coisa mais importante. Quando você tem o cliente na mão você tem pra quem vender, não adianta você ter um produto aqui, se você não tiver o cliente, vai ficar aqui pra você pra vida inteira, então o cliente é a coisa mais importante. Eu acho que o cliente tem que ser bem tratado, bem respeitado, eu acho que você tem que fazer pro cliente praticamente tudo o que puder pra melhorar, pra ele voltar, pra ele ter satisfação de estar com você de novo. Eu tenho por princípio ser fiel com meu cliente, ser honesto. Se eu falar pra ele: “Olha, esse produto tá mal, ele está com um preço barato mas não está tão bom”. Eu vou avisá-lo, eu não vou vender pra ele se eu souber que está ruim o produto e enganá-lo. Depois ele vai me xingar, vai reclamar e ele vai estar enganando os clientes dele, então essa é uma filosofia minha, de empresa, eu falo pro cara. Eu acho que o cliente é a coisa mais importante que você tem que ter na sua vida. E ele pode te divulgar pra outras pessoas. O que você aprende com tempo de vida, com tempo de experiência é que existem clientes safados que querem denegrir o teu produto pra terem uma vantagem. “Ô, mas o teu vizinho tá 9,50, seu está 10,00”. Só que daí você descobre que no teu vizinho a mercadoria é ruim, manchada, velha, apodrecendo. Então esse é o tipo do cliente que eu falo o seguinte: “Faz parte do jogo do comércio o cara fazer uma proposta, cabe a você aceitar ou não”. Mas eu classifico às vezes que têm alguns que são muito jerks, que não precisa. Eu acho que às vezes uma transparência com aquele que é parceiro, aquele que é parceiro eu acho que a transparência é mais importante. “Olha, não estou pegando de você essa semana porque eu achei uma azeitona mais barata e a sua está um real mais caro”. Eu falo: “Porra, legal. Eu não posso te fazer mais barato porque está no meu custo”. Mas eu sei que aquela que está fazendo mais barato daqui três semanas vai subir porque vai acabar e o cara vai voltar pra mim. Então fica uma coisa transparente. Se eu quiser pegar, abaixar meu custo e não ganhar nada pra atender meu cliente eu posso fazer isso, tem cliente que merece, tem cliente que acaba fazendo isso daí. Mas acho que é muito também do cliente que você tem. Cliente honesto, cliente que é parceiro seu. É aquele cliente que fala: “Olha, estou com um problema aí, esse vinho aqui eu trouxe mil caixas e está vendendo, posso te mandar um pouquinho, umas 20 caixas a mais? Se não vender você me devolve? Só pra ver se... você tem um ponto de venda bom, de repente eu coloquei uma promoção lá”. E o pessoal: “Pô, manda aí”. Tem aquele que pega, fala assim: “Não, pode mandar, mas quanto tá o custo dele? Nove? Pode mandar, mas eu pago seis” “Não foi isso que eu te pedi, eu te pedi uma outra coisa”. Quer dizer, cada caso é um, cada um é um, cada um tem uma maneira de pensar. Que nem aquele cara que não era nada, cresceu na empresa dele e ficou metido. Teve aquele que não era nada, cresceu e continuou igual. Tem aquele que era metido e continuou metido. Tem aquele que era metido e aprendeu que não vale a pena ser metido. Mas a minha filosofia é essa, eu espero nunca mudar. Eu acho que cliente, você tem que ser parceiro e fiel ao teu cliente, tentar oferecer o melhor que você pode fazer pra ele. Não é não ganhar, mas você oferecer as melhores condições pra ele ir embora, estar contente com você e voltar pra você.

P/1 – Qual é o perfil de cliente do seu pai e qual o perfil de cliente seu, mais ou menos?

R – Bem, são gerações diferentes, né?

P/1 – Sim.

R – Meu pai tinha clientes, muitos feirantes que compravam diretamente pra colocar na feira, pra vender o produto já na hora, muitos supermercados, muitos atacadistas de outros estados, outras cidades que compravam pra abastecer as cidades deles. O meu cliente já teve uma mudança porque já não existia mais esse cliente que vamos chamar de maneira agressiva de atravessador. Porque falar atravessador parece que o cara está atravessando e ganhando. Não, esse atravessador vai fazer o papel de distribuição porque ninguém tinha condições de atender a todos os clientes ao mesmo tempo e esse cara fazia por você. Só que ele tinha que ganhar o dele. Então, é claro, você paga dez, tem todos os impostos, tem funcionário, o cara tinha que vender a 12. E hoje esse perfil mudou um pouco. Por quê? Porque o cliente final não pode vender mais a 14 se tiver alguém vendendo a 12, então, ele tenta ir na fonte buscar a mesma condição de preço pra poder ser concorrente do vizinho dele. Você não pode vender num barzinho a Schincariol a 10 no outro barzinho estar 13, a diferença é muito grande. Vai, 10, 10,50 ainda passa. Então o cara que está vendendo a 13,50 ele vai ter que achar maneira de comprar pra vender nesse preço. Uma coisa é uma promoção momentânea pra chamar cliente, uma coisa é uma coisa real. Então eu creio que no meu caso hoje em relação ao meu pai, a gente já lida praticamente com cliente final, é aquele que já vai por pra vender ou aquele que vai usar, ou aquele que coloca na pizzaria dele, não mais aquele que ainda compra de um que vai vender pro outro. Acho que essa diferença, é uma linha mais direta, a gente vende direto mas horizontal, eles vendiam mais perpendicular e essa pessoa que ia horizontalizar. Deu pra explicar? (risos) A gente não é professor, a gente está no dia a dia.

P/1 – Agora uma coisa que me chama a atenção é que parece que a Zona Cerealista foi muito importante no sentido de capilarização do Brasil, da distribuição. Como é que você vê isso daí? Você por exemplo falou dos atravessadores agora, né? Como é que você vê essa questão?

R – Eu sou atravessador agora?

P/1 – Não, não. Você falou que existiam os atravessadores e tal, por exemplo, mas...

R – É o que eu falo, a palavra atravessador depende de quem escuta, como interpreta, né?

P/1 – Distribuidor.

R – Tem gente que interpreta o atravessador, uma vez eu ouvi isso: “Atravessador. Pô, então você é aquele cara que me ferra, que você compra a dez e vende a 12 pra me ferrar”. Eu falo: “Não, eu sou aquele cara que ajuda você a ter acesso à mercadoria que você não vai ter”. Então, é... desculpa, a pergunta de agora.

P/1 – É que assim, por exemplo, tem uma história que o Dadá contou que ele foi até lá, fez Paragominas e tal.

R – Sim, sim, sim.

P/1 – Então sem a Zona Cerealista parece que não ia ter esse contato, né, entre as regiões.

R – É assim, o Brasil é muito grande, muito grande e o centro comercial do Brasil sempre foi São Paulo. Não adianta falar que o centro comercial do Brasil era Manaus, não era, era São Paulo. O Brasil nasceu daqui pra dentro, foi do litoral pra dentro. Quando chegaram as pessoas aqui, chegaram as caravelas, chegaram no litoral de São Paulo, não chegaram pelos incas, pelos maias, vindo por cima, tinha os índios isolados lá. Então o Brasil cresceu pra dentro. E São Paulo, talvez pelo clima, porque chegar e sair de São Paulo, Rio de Janeiro já é um lugar muito quente e lá pra cima, então, muito mais quente. Existia a brisa, existia o vento, mas é muito mais quente. Então acho que São Paulo, pela sua localização geográfica em relação ao Sul, eu acho que são estados que se adaptaram mais facil às pessoas que vieram de fora do Brasil no início do século, final do século. Um pouco mais de frio, calores não tão intensos. Por isso que eu acho que ficou mais no sul do Brasil esse desenvolvimento. São Paulo, por que São Paulo e talvez não o Paraná? Eu acho que a localização geográfica de São Paulo ficou tudo mais fácil e São Paulo um pouco mais perto do centro, vamos dizer assim, em relação ao Sul. Estou me enrolando pra explicar uma coisa fácil. São Paulo acabou sendo ela a capital do Brasil pra fazer a rota da distribuição, era aqui, saía de São Paulo. A gente não estava vivo naquela época e eu não sou historiador, então começou o pequeno comércio dos alimentos aqui em São Paulo, passava-se pelo rio, o rio trazia produtos nas canoas antigamente, lacustre. O Mercado Municipal, com certeza, ele está onde está hoje por causa que aqui era o comércio, porque senão esse Mercado Municipal poderia estar mais perto do Ipiranga, ou poderia estar mais perto da marginal Tietê. Então ele está aqui por causa da Zona Cerealista, então a Zona Cerealista, o nosso centrão aqui de abastecimento, ela foi importante no Brasil, daqui saiu pra fora. Com certeza tudo o que vinha, o porto de Santos era o maior porto que nós tínhamos, e talvez Santos era o maior porto porque São Paulo estava aqui. Então as coisas importadas vinham por Santos e daqui saía pro Brasil. Então São Paulo vendeu as ideias pro Brasil inteiro. Hoje, claro, existem pessoas no Nordeste, Norte e Centro-Sul que têm as suas ideias adaptadas às suas regiões que fazem coisas diferentes, coisas mais legais. Mas São Paulo com certeza é o coração que bombeia pra todos esses lugares. Daqui começou, com certeza.

P/1 – E agora a internet facilita bastante isso, agora você provavelmente teve que viajar muito também, né? Pra fazer essas compras, ou mesmo pra mostrar um produto, pra buscar produtos novos.

R – Isso existe em uma empresa mais estruturada, você manda um gerente seu de vendas fazer uma região específica, ou você monta um escritório em algum lugar específico onde tem mais clientes, você monta um representante na Bahia. Esse cara na Bahia vai ser responsável por fazer Bahia, Sergipe e mais dois, três estados. Isso pode acontecer. Aí você manda umas amostras pro cara e o cara faz o trabalho lá e você nem precisa ir você visitar. Uma empresa mais enxugada você pega você, você vai uma semana fazer essas visitas, tal, vai mostrar um produto. Mas independente disso sempre existiram as feiras. As feiras do Anhembi, Feira do Alimento, que o Sagasp também participava, Feira dos Supermercados, as APAS, a ABRAS, então são feiras que muita gente, às vezes as pessoas saíam de lá e vinham pra cá ou então você mandava um bilhete cortesia pro cara vir visitar a feira e você expunha as novidades que tem. Hoje com a internet é muito mais fácil, você manda pdf, um monte de demonstração, você manda produto, manda por sedex, tal, não precisa mudar tanto. Agora claro, eu ainda acho que você tendo o cliente que recebe o vendedor, eu ainda acho que é a melhor coisa. Eu acho que pode ser prático pra você que está aqui hoje, nós estamos aqui atrapalhados, trabalhando todo mundo: “Putz, eu preciso comprar um vinho diferente”...

TROCA DE FITA

(repete áudio de 3:21:59 a 3:52:01 o áudio original de de 2:51:42 a 3:21:58)

TROCA DE FITA

R – Bem, onde estava?

P/1 – Você estava falando da...

R – De visitar o cliente.

P/1 – Isso.

R – Eu acho que se você pode visitar o cliente, eu acho uma coisa importante. Se você está com pressa hoje, eu tenho utilizado muito disso, de compras pela internet, que é um outro segmento que existe de mercado, a Zona Cerealista já tem muita empresa que já vende via internet. Eu acho que a via internet pra você comprar, quando você detém o que você quer, quando você sabe o que você quer: “Eu quero tal produto porque eu conheço”, eu acho que facilita, não preciso ir até o lugar. Mas se é um produto que eu tenho dúvida, ou tamanho, ou gosto, ou uma coisa que eu não conheço, eu acho a melhor coisa você ainda ter um vendedor que vai visitar. Porque você vai visitar o seu cliente, você saca como é o seu cliente, você entende que tipo de cliente que é, você vê se ele tem cliente pros teus produtos, você vê se você vender cinco é muita coisa, não, você também tem que pensar que tem cliente que te compra pra não te pagar, tem cliente que te compra pra fazer estoque, te pagar depois de três, quatro, cinco, dez meses, se atrasar o problema é seu. Então você visitando o cliente eu acho uma coisa importante, você tem mais acesso e fica mais amigo. Ver se o cara não te dá amizade, você saca mais, você vai mais ao encontro do que ele quer, você agrada mais ele do que você encher o cara. Eu gostava de vender na rua uma época e eu ia numa cliente que o filho dela corria de kart, pra mim não mudava nada, uma empresa pequenininha. Ela comprava um pouco de vinho meu, alguns temperos, eu ia embora de lá, anotava. “Posso visitar a senhora a cada 15 dias?” “Tudo bem”. Claro, se eu vejo que está vendendo mais rápido eu venho depois de uma semana, mas era 15 dias. Aí eu ia em um outro que era no Jardins, o cara já era assim mais seco, meio mais tal... Eu escrevia lá, ele é um pouco mais seco, gosta do _3:43:06_ a _3:54:07_ cartola. É um cara que parece mais rabugento, compra mais ou menos assim, assado, às vezes parece que vai atrasar, tal. Eu ia no outro, japonês, gente boa pra caramba. No final ele gosta que você fala, fala, fala, mas quem dá o apito final é ele. Por mais que você fala, quem decide é ele. E fui fazendo essas listinhas e visitava os clientes. Passava duas semanas ia lá: “Oi dona Maria, tudo bem? Como estão as vendas? E o seu filho, correu esse fim de semana?”. Já quebrei ela um pouco: “Pô, correu” “Machucou?” “Machucou” “Pô, que chato, tal. Precisa de algum vinho?” “Ah, manda duas caixas que até que vendeu”. Quer dizer, eu não virei amigo dela, mas ela começou a virar parceira minha, começou a virar cliente minha. Eu não fui lá só pra vender. Se desse pra vender eu vendia, mas se não desse pra vender eu virei um cara que amanhã estou aqui pra orientar. O outro, do cartola, continuou seco a vida inteira. Ele tinha clientes bons, mas era um cara seco, um cara que você ia lá, dependendo você podia ficar dez minutos, podia ir embora: “Não enche o saco e vai embora”. O japonês foi o contrário. O japonês, chegava no final: “Quatro caixas, três caixas” “Quatro caixas, duas caixas” “Dez caixas”. Um dia eu peguei e falei: “Posso falar uma coisa? Você conhece meu trabalho, não vou me intrometer. Essas dez caixas que você está pegando aqui eu acho que é muito, eu acho que você não vai vender tudo isso aqui em uma semana. Posso fazer uma coisa? Eu guardo pra você no meu trabalho, se subir o preço é teu, vou te vender só cinco, não vou te vender dez, você vai fazer estoque aqui à toa”. Ele me olhou: “Tá bom”. Depois mais duas vezes que eu fui lá sabe o que ele falou pra mim? “Conta o estoque e tira o pedido, não precisa me atrapalhar mais”. O que eu quero dizer? Eu virei amigo dele, eu era dono daqui, não era funcionário, desses funcionários que querem forçar a venda pra ganhar comissão, eu não tinha esse interesse. O cara chegou: “Meu, estou ocupado aqui às vezes atendendo as mulheres, vê lá o que precisa”. Porque ele sabia que eu nunca estava sacaneando ele. Ele sabe que eu não estava vendo a mais do que ele precisava. Paes Mendonça, quando seu Mamede morreu, ou ele estava vivo, mas quem atendia aqui na loja de Pinheiros começou uma vez atender a neta dele, a Angela Paes Mendonça, está viva ainda, é nova. E eu vendi uns produtos lá, fui lá e eu na sala de vendedor lá esperando, era dono, não era vendedor. Eu vi os caras: “Ela só quer desconto” “Ela quer desconto”. “Chega lá: Quanto custa a garrafa? Custa dez? Fala que custa 200. Aí você dá 100% de desconto, mais 50, mais 20, vai chegar nos 15 ela vai te comprar. Burra, não sabe que custa dez”. Menina, ela era bonitona, jovem, crua de tudo. Fiquei com pena dela. Ela falou pra mim: “Quanto custa o teu produto?” “O meu produto custa 10” “Tem desconto?” “Não, não tem desconto, esse é o preço final” “Não, mas tem que dar desconto, todo mundo deu desconto” “Pega o teu preço de compra do mês passado”. Ela pegou: “Nossa, está o mesmo preço” “Pega o preço das últimas dez coisas que você comprou hoje aqui do mês passado”. Era tudo muito mais barato, os caras subiram o preço. Ela virou minha amiga na época, me agradeceu. Tiraram ela da área porque deu prejuízo. O que eu quero dizer? Não estou contando história minha, estou falando o seguinte:, quando você vai visitar o teu cliente, quando você está com o teu cliente é muito mais importante porque você sente o cara, você sabe o que você pode vender, você sabe como vender, você sabe forçar a venda. Mas se o cara não quer saber de receber ninguém, o cara quer estar no canto dele, não vai, esquece. Força com alguma promoção, você não precisa ir no cara visitar, o cara não quer atender, então manda um WhatsApp: “Promoção na azeitona, 9,90 só hoje”, deixa o cara ficar curioso, manda uma foto da azeitona. Mas eu acho que o cliente, indo ainda é a melhor coisa. A mesma coisa que você vai num supermercado e você olha o que está comprando. Você vai comprar uma lata de creme de leite, você sabe que é mais ou menos sempre a mesma coisa. Agora você vai comprar um salame, você olha: “É, esse salame aqui está mais seco, aquele está com mais gordura, esse aqui pra ser espanhol está com uma cor não sei o que lá”. Então eu acho que o vendedor ainda é importante. Com toda internet que tem, eu acho que você pode massacrar o cara com informação, mas acho que é importante o vendedor que vai ainda, explica alguma coisa pra quem não sabe. Não sei se eu consegui vender a ideia que eu quero.

P/1 – Sim. Agora gostaria que você comentasse um pouco como é essa questão de supermercados. Porque parece que eles mudaram o mercado um pouco aqui na Zona Cerealista, né?

R – É. Na verdade o meu professor de faculdade, o Benatti, ele falava: “Gente, vai chegar um dia que você não vai comprar da indústria pra vender pra supermercado, a indústria vai vender direto pro supermercado. É que hoje o parque industrial do Brasil não consegue produzir tudo, então eles são obrigados, vocês compram e revendem pro supermercado, mas vai chegar um dia que eles vão aumentar o parque industrial e vão vender diretamente. Pra que vão vender pra vocês a dez pra você vender a 12 e ele a 14? Ele pega e vende a 14 direto e ganha mais dinheiro”. Então eu acho que o supermercado está justamente no papel dele porque ele tem o cliente final na mão, por isso que o atacarejo aqui na região subiu muito, porque você está ganhando mais por varejo final também, então você proporciona um preço bom porque se eu vender aqui pro supermercado com importação porque não tem como ele comprar de outro, ele tem que comprar de mim, eu vou vender pra ele a dez e ele vai vender a 12. Eu posso vende aqui no meu varejo a 12, eu estou ganhando mais do que vender a dez, ou então eu vendo a 12 e dez centavos, mais caro que ele, mas o cara não quer ir até lá porque está aqui, né? Então o supermercado teoricamente é sim um mal pra Zona Cerealista, pro comércio, porque ele acabou importando ele mesmo e vendendo pro cliente dele, né? E nós perdemos cliente com isso. Mas era uma coisa que, naturalmente, você vai contestar o quê? O cara vai importar, vai vender mais barato, o governo não vai ajudar uma instituição dessas? Tem que ajudar. É que a gente sabe que muitas vezes eles não vendem mais barato, eles vendem por um preço maior que o seu, tipo assim, se você fosse vender pra eles ia ter que vender a 14 e eles vendem a 13,90 e eles não vendem a 12 como eles poderiam. Então eles não estão ajudando o povo brasileiro, eles continuam vendendo caro e ganhando mais do que deveria. Tudo bem, empregam milhões de pessoas, a gente sabe que eles poderiam vender mais barato. Atrapalha a gente, então de novo a gente tem que se reinventar, bolar coisas novas ou então você ter uma marca exclusiva que ele é obrigado a comprar de você e assim vai. Eu não creio que o supermercado atrapalhou a Zona Cerealista, ele atrapalhou, mas era uma consequência natural do mundo, a gente tem que se adaptar.

P/1 – E o supermercado ainda tem uma questão da embalagem, não é também? Que o varejo aqui não tinha na época.

R – Supermercado te atende mais bonito, né? Você vem comprar um alface aqui no ceasinha você paga 1,50. O mesmo alface num supermercado custa sete e pouco. E você fala: “Por que sete e pouco?” “Ah, porque já está limpo, ele está num pacotinho bonito, é só cortar, abrir e colocar na mesa”. Cada um sabe quanto custa o seu dinheiro, né? Eu acho que se você quiser comprar esse pacotinho que está limpo já, que é uma coisa prática e você não quer se mexer, o mundo tende a ser um pouco cada vez mais individualista, cada um tem menos tempo pra fazer as coisas em casa, não é que nem antigamente que você tinha marido e mulher, a mulher ficava em casa, não trabalhava e cozinhava pro marido, ou então o pessoal tinha a cozinheira. Hoje em dia as despesas são altas, a mulher acaba cozinhando ou se ela não cozinha tem alguém que cozinha pra ela, quem pode, ou então você vai no supermercado e compra tudo pronto, cozinha, esquenta no microondas lá e come. Eu fui criado numa geração diferente, não sou muito adepto disso, apesar de entender que às vezes é assim que vai funcionar. Mas eu prefiro ainda comprar o alface, ir lá, pagar 1,50, eu lavar o alface e eu fazer a minha salada. Supermercado te dá esses favores. Tem gente que não quer, tem gente que não sabe lavar um alface, tem gente que não sabe descascar um abacaxi. Tem gente que fala assim: “Meu, eu descasco abacaxi, eu perco a metade. Eu compro lá e já está limpinho, não tem desperdício”. Aprende. Pô, aprende a descascar um abacaxi. Ou então você compra o abacaxi assim, mas não precisa comprar tudo assim. Então assim, eu acho que o supermercado te vende facilidade só que eu acho que em tempo de crise, a economia no Brasil está um pouco mais apertada, eu acho que você tem que pensar muito bem na facilidade. Então eu acho que a Zona Cerealista pode não te dar o pacotinho com cheiro de talco de criança, mas te dá muitas vezes produto bom, produto fresco, vai. Já vi muito supermercado vender produto que está ficando velho aqui, vende pra lá e o cara vende com preço de novo ainda. E você está comprando tudo e não está tão fresco. Ou aquelas folhas de alface já estão ficando murchas, mas ela tá lá vendendo.

P/1 – Isso tem muito a ver com o consumidor final, né? Você acha que ele mudou ao longo dos anos também?

R – Ah sim, o consumidor final, aqui existia muito feirante que vendia diretamente pro consumidor final. Hoje existem consumidores finais que vêm na Santa Rosa comprar, muito essa parte de varejo a granel, de quilo. Você não vê aqui um cara que diz: “Vim comprar uma caixa de aspargo pra minha família”. Isso tinha mais antes, o avô vinha, comprava uma caixa de aspargo e deixava dez pra ele, dez para uma filha e dez para outra filha. Essa é uma coisa que eu acho que precisava resgatar aqui ainda. Mas existe aqui muito varejo de laticínios ainda, existe muito isso. De queijo, de frios, o cara que aproveita e pega castanha, caju, amendoim, isso existe muito aqui. As coisas de produtos naturais. De novo o Brás se reinventou. Quando você imaginava que há dez anos aqui ia estar se vendendo a granel essa ração humana, por exemplo? Então eu acredito que amanhã vai ter uma outra coisa, então o Brás sempre vai estar se reinventando, sempre. Quando a gente estava falando de supermercado, em relação à Zona Cerealista, uma das coisas que a gente se sente mal amparado pelo governo, não sendo uma crítica política, é que a gente nunca teve tantos benefícios como todas essas pessoas têm. Supermercado tem muito benefício do governo, indústria tem benefício do governo e nós não temos benefício de nada, você importa, você se vira, você paga o câmbio, se o câmbio subiu ou se o câmbio baixou você não em uma linha de crédito, você não tem não sei o que lá. Eu acho que nós temos um papel muito importante na sociedade aqui, eu quero ver se tudo mundo aqui amanhã deixasse de importar um produto específico. “Ah, produto é supérfluo, importação é supérfluo”, tudo bem, é supérfluo, mas tem gente que não vive uma pizza sem uma azeitona, você não precisa dela pra viver, mas quantas coisas usam azeitona, por exemplo? Alho, Brasil hoje produz alho, tem alho bom, mas toda produção no Brasil, se não me engano, não dá pro Brasil inteiro consumir. Então fica você sem alho pra fazer um tempero. Faz falta. O feijão no Brasil subiu, o feijão carioquinha deu problema de safra e subiu muito. Às vezes pessoal importa feijão de outro lugar, fica sem o feijão. Faz falta. Então você aqui importa, você tem que dar prazo pros clientes e você não é banco. Você não pode cobrar juros de banco. Se o cara não te paga o problema é seu, você não tem o seguro pra isso, não existe essas coisas. E quando você está apertado aqui, você não conseguiu pagar uma duplicata, ou alguma importação tua que vai vencer porque o dólar disparou, que você pega um dinheiro no banco, você paga um juros alto, você vai pagar o banco, você vai ter que ter garantias, isso, aquilo. E quando acontece com a gente o contrário a gente não tem o mesmo benefício. Então eu acho que a Zona Cerealista, com tudo, é uma instituição muito forte, ela consegue sobreviver por ela mesma, pelos próprios braços. Até que não venha uma ideia, uma linha de BNDES amanhã: “Vamos fazer isso, isso e isso, vamos melhorar”. Não, a gente aqui é tudo, a gente importa, a gente vende, a gente é banco, a gente é credor, a gente financia as pessoas. É um mix. Desenvolve o Brasil. Você entrega lá em Rondônia, a mercadoria chegou lá, aí o cara pega, às vezes um cara maldoso: “Não gostei da mercadoria”. Quanto deu a nota? Dois mil reais. Você vai cobrar o cara? Quanto custa o avião pra você ir lá cobrar o cara dois mil? Tem cara que faz isso de propósito. Ele não te paga: “Ah, ele não vem aqui me cobrar dois mil”. E morre. Quer dizer, é complicado. Rondônia como exemplo, hein? Porque isso aqui tem que tomar cuidado.

P/1 – Agora, existem muitas reclamações dos comerciantes com relação ao espaço que vocês estão aqui na Zona Cerealista. Como é que está isso hoje? As reclamações são altas, ainda são voltadas pra que tipo de problemas?

R – O espaço físico?

P/1 – Sim, o espaço físico, a geografia.

R – Olha, aqui de novo a gente vai estar voltando na história de São Paulo, né? Por que o Mercado Municipal foi feito aqui? Porque aqui era o centro de distribuição, aqui era o centro de tudo. Aqui 60, 70 anos atrás você tinha bonde e você tinha carroça, as ruas não eram asfaltadas, então existia muita carroça que vinha aqui e abastecia os mercados, tudo. Depois os caminhões, os caminhõezinhos tal, hoje não tem mais bonde. O que eu quero dizer? A Santa Rosa, quando ela existiu, ela existiu para um comércio conceito da época, talvez 1920, não sei te dizer, não estou sendo historiador aqui, né? Mas não sei a partir de quando começou a entrar carros aqui na Zona Cerealista, não sei se 1920, 1940, não sei precisar essas datas. Mas ela foi feita pra esse número, não para carretas como ela tem hoje. Então o espaço aqui hoje é pequeno, se você pegar carretas que viram aqui as esquinas, elas viram, mas se tiver um carro parado em cada esquina ela não vira. Então é um espaço que realmente hoje é inapropriado pelo que ela cresceu e pelo que cresceu o mundo. Mas também mudar a Zona Cerealista daqui tem que se mudar um dia para um lugar planejado pra não ter mais essas coisas, enchente, não virar carreta, ter um belo lugar que você possa guardar uma carreta com uma mercadoria pra descarregar no dia seguinte sem perigo de roubo, sem perigo de assalto, aqui nós somos, sempre tem assalto, sempre tem roubo, sujeira de rua, educação de povo que joga as coisas aqui na rua. Então a localização aqui, os espaços são pequenos, você pega o metro quadrado de uma Santa Rosa aqui, não vou falar em valores, mas ele custa dez vezes menos do que na 25 de março, oito vezes menos do que uma rua Oriente. E você está encostado neles. Quer dizer, aqui é um lugar ainda que por esse negócio de entrar tanto caminhão e tanta sujeira ficou um pouco mais degradado e o espaço ficou pequeno. Eu creio que a Santa Rosa nunca vai deixar de existir, eu acho que vai virar um patrimônio da cidade esse atacarejo, mas talvez um ou duas ruas voltadas para esse atacarejo, uma espécie de passeio a céu aberto, a um shopping a céu aberto de alimentos. Talvez o resto pra cima vire uma nova 25 de março, uma nova rua Oriente, ou vire prédios totalmente como às vezes se comenta. Então eu creio isso, que esse espaço que falta pra nós hoje, eu acho que com o tempo vai se adaptar para uma outra coisa. Você não tem nesse quadrilátero um hipersupermercado. Talvez não convenha ter ainda, mas você tem um varejo aqui pequeno que movimenta bastante, você vem aqui de sábado e domingo e não anda.

P/1 – Pra você, qual é o papel da Sagasp com os atacadistas e importadores? Você conhece ela há tempo, né?

R – Então, a Sagasp pra mim é até difícil falar, né? Porque eu faço parte da Sagasp, conheço a Sagasp há muitos anos, de quando eu conheci um pouco e hoje eu vejo que não conhecia nada eu já fazia parte. Ela tem um papel muito importante, basta saber utilizá-la. Ela está aqui pra defender os interesses dos atacadistas, de quem está aqui. Muitas vezes a gente aqui, no dia a dia, tomando conta das empresas, da estrutura, a gente acaba às vezes não tendo tempo de aproveitar mais o Sagasp como deveria. Mas sempre que eu precisei, ou sempre que eu precisei recomendar para alguém usar, sempre ajudou muito. Às vezes um problema burocrático, às vezes um problema de indicar um advogado pra isso, tem o doutor João lá. É difícil eu falar da Sagasp porque eu faço parte de lá, eu sei que tem muitos benefícios, entendeu? E aqui falando assim parece que estou querendo fazer uma propaganda. E pra fazer uma propaganda do Sagasp eu acho o presidente nosso é a melhor pessoa pra falar do Sagasp. Mas é uma entidade que visa defender e ajudar todas as pessoas. Os contribuintes da Zona Cerealista uma vez queriam fechar aqui a entrada de caminhão, não que nós somos contra, acho que um dia no futuro isso vai ser uma necessidade da cidade de São Paulo, mas nós mostramos, fizemos uma pesquisa paga por nós que o que entrava e saía de caminhão aqui semanalmente era um absurdo, ou seja, abastecemos muito ainda, muito mais do que se imagina, ficaram perplexos. Então se acontecesse isso ia existir um desabastecimento no Brasil, real. Então eu acho que se não fosse o Sagasp ia existir essa intriga, essa briga, essa coisa toda. Entre tantos outros casos. Enchente diminuiu bastante aqui, diminuiu bastante. Não está ainda o ideal, mas já diminuiu. Mas você pensa que foi quem? Que foi o dono do bar que ligou pra prefeitura? “Ó, vem aqui limpar os bueiros”. Sagasp todo ano pega um ofício: “Favor...”. Quer dizer, trabalha-se por trás pra tentar ajudar o contribuinte se você não pode ajudar hoje, pelo menos não prejudicar, que as coisas são difíceis pra todo mundo, mas ela tenta sempre dar uma orientação, quando muda a nomenclatura de algum produto, alguma importação, alguma coisa, sempre tem um aviso pra deixar você a par do que está acontecendo. Ela faz o papel dela de entidade. Mas com certeza eu acho que o nosso presidente Dadá e o doutor João podem dar milhares de benefícios com muito mais propriedade do que eu, que eu sou suspeito (risos).

P/1 – Você falou um pouco do que você acha pro futuro da Zona Cerealista, né? Fala mais um pouco pra mim por que você acha que esse seria mais ou menos o caminho mais interessante pra ela.

R – Eu acho que a Zona Cerealista nunca vai se acabar, ela vai sempre se reinventar. Talvez mude algum produto, talvez um dia aqui amanhã não entre mais caminhões ou entre caminhões de um tamanho limitado. E eu acho que sempre aqui vai ser um prazer você tendo uma estrutura com metrô, agora com o SESC que vai ter aqui, uma estrutura mais limpa, eu acho que ela vai fazer rota de um círculo turístico da cidade de São Paulo. Você numa cidade praticamente sem violência, sem assalto, sem vandalismo, com o mínimo de dignidade, eu acho que você pegar a sua família e você fazer um passeio no centro de São Paulo, esse complexo Mercadão-Zona Cerealista, andar no Vale do Anhangabaú e depois fazer um passeio, ver um show no Teatro Municipal, eu acho uma coisa que tá tudo muito perto um do outro. Se o nosso rio fosse limpo, canalizado, ia ser um outro tipo de passeio. Eu acredito, espero estar vivo pra ver que ainda essa Zona Cerealista aqui vai ser parte de um complexo turístico de primeiro mundo. Vai ter a sua parte de venda, que não vai ser nunca descaracterizada, talvez um pouco mais apropriada pro consumidor. É que nem você ir passear nos grandes centros de rua de uma Europa, fazer compras, passear com a sua família. Eu acho que a Zona Cerealista, a Santa Rosa vai ter esse atacarejo a céu aberto que vai ser parte de um circuito turístico. Espero e desejo isso.

P/1 – E quais são seus planos pra Reluma hoje?

R – A Reluma não é só minha, né? Então, eu falar por uma empresa que não é só minha eu não tenho a liberdade de 100% pra isso. Eu acho que a gente também acaba voltando hoje um pouco mais para um atacado, tentando começar a olhar mais o consumidor final, porque esse consumidor final avança, ele está na rua Santa Rosa hoje, ele vai começar a avançar, que nem aconteceu um dia na Oriente, na 25 de março, nós somos muito próximos. Então eu almejo a Reluma ainda trabalhando com varejão final, não só fornecendo porque a gente fornece muito a essas pessoas do varejo, eles não são importadores, né? Eu acho que hoje eles não têm capacidade de importar porque são muitos itens que eles trabalham, então eles dependem da gente que abastece. Então eu acho que a gente vai ter o nosso trabalho de abastecê-los, estamos próximos a eles, você pega uma barrica aqui, uma barrica aqui, uma barrica aqui, você abastece todos esses e _4:16:51_ o que o cara queria tudo. E eu acho que talvez a gente tente, não sei, é uma coisa que a gente sempre tem vontade mas ao mesmo tempo não pode chocar com teu cliente, de abrir uma coisa pro varejo também. Sempre tem espaço pra isso, mas a importação ainda dá um apego maior.

P/1 – Você está casado hoje, né?

R – Noivo.

P/1 – Noivo?

R – Pior que casado.

P/1 – Por que?

R – Brincadeira.

P/1 – E você conheceu sua noiva quando?

R – Ixi, minha noiva eu conheci na praia.

P/1 – Muito tempo atrás?

R – Muito tempo atrás.

P/1 – Quantos anos atrás?

R – Uns 18 anos atrás.

P/1 – Dezoito anos.

R – Mas aí viramos amigos, eu tive a minha vida, ela teve a vida dela, aí nos percalços da vida chegou uma hora que nunca perdemos a amizade, sempre estivemos próximos, aí um dia.. “E aí, tudo bem?” “Tudo bem”. No dia seguinte: “Tudo bem?” “Tudo bem”. No terceiro dia estava junto.

P/1 – Você conheceu ela na praia?

R – É.

P/1 – Que praia que foi?

R – Guarujá.

P/1 – Como é que foi?

R – Estava indo jantar à noite, estava com uma amiga minha, nós fomos jantar num restaurante, acho que era o Avelinos, tinha pagode, na época tinha show, tal, uma fase boa que tinha lá. E estava lá com a minha amiga, amiga mesmo, jantando, dando risada, falando da vida, tudo. De repente eu vi uma pessoa lá dançando, ah, achei interessante e aí fui lá, conheci, ficamos amigos. Ela era muito menina na época, tinha 18 nos só, eu tinha 30. Aí fiquei amigo, parabéns, feliz páscoa, feliz natal. “Ah, vai ter uma festinha em casa, aniversário, vai vir uns amigos meus, vem e tal”. Ficamos sendo amigos. A vida seguiu, eu namorei outras pessoas, ela namorou outras pessoas. Aí chegou uma fase que ela estava solteira, eu estava solteiro, a gente se encontrou, ela estava mais madura também já, mais mulher, era mais criança. Eu também tinha ficado mais velho, eu não estava naquela fase de fazer tanta bagunça e aí aconteceu de estar junto e estamos juntos.

P/1 – Certo. Dezoito anos já, então?

R – A gente está junto, junto, junto há quatro. Mas que a gente se conhece há 18.

P/1 – Qual é o nome dela?

R – Alessandra.

P/1 – E o que ela está fazendo hoje?

R – Ela ajuda o pai dela. O pai dela trabalha com representação de máquinas injetoras plásticas, faz PETs e vários tipos de embalagens plásticas.

P/1 – Vocês estão noivos há quanto tempo?

R – Um ano.

P/1 – Um ano. E está marcado pra casar já?

R – (risos) Isso vai pro livro?

P/1 – Não.

R – A gente pensa. A gente brinca, claro, a gente namora pra ficar noivo pra casar. Mas acho que tem algumas coisas, como eu já não sou novo, eu acho que a gente tem algumas limitações que a gente exige, que a gente quer conforto, tanto da minha parte como da parte dela, então são ajustes de namoro pra juntar e ser feliz, não pra juntar e ficar brigando. Quando você é novo você junta banana com prego, você acha legal. Aí você percebe que juntar banana com prego hoje, o prego fura a banana e vai estragar a banana. Então você tem essa experiência e quer juntar de uma maneira para o negócio ser mais gostoso, né? Adaptações só. É namorar, como se namorava antigamente, esperando a hora certa pra casar. Como você traz vícios da sua idade, da tua liberdade, então você tem que ter um pouco mas de cuidado. É claro que a intenção é sempre estar junto.

P/1 – Entendi. E você pensa em ter filho algum dia?

R – Com certeza.

P/1 – Você não tem filho ainda.

R – Não. Mas eu quero ter, penso em ter. Trazer ele no Parque Dom Pedro, passear no Mercadão, vir comprar queijo fresco na rua Santa Rosa e ainda mostrar: “Ó, aqui teu pai trabalhou, teu avô trabalhou aqui, teu outro bisavô aqui e eu joguei bola em todas essas ruas”. Isso eu vou fazer. Aqui não tem como escapar (risos).

P/1 – Quais são seus sonhos hoje, Luiz?

R – Meus sonhos hoje?

P/1 – É.

R – Meus sonhos hoje é que o Brasil rapidamente se ajuste, seja econômica, seja politicamente, não importa o jeito, mas que as coisas se ajustem rapidíssimo pra voltar a crescer. Que eu moro aqui, eu vivo aqui, o importante é todo mundo estar feliz, todo mundo ter uma produção, todo mundo ter emprego e saúde. Falar como socialista, eu acho que o direito de ter escolas e hospitais, eu acho que isso são coisas prioritárias hoje pra qualquer nação, pra ser uma nação forte um da. Então o que eu gostaria muito é isso. Eu acho que a parte privada, a gestão privada está sobrecarregada, infelizmente acho que é uma coisa que depende hoje um pouco mais do governo fazer essas tarefas, talvez até junto com o empresariado, mas o empresariado já está muito sobrecarregado, mas o que eu queria mesmo era isso, era um Brasil mais forte, um Brasil com menos diferenças, que as diferenças fossem desaparecendo com o sacrifício do governo e não estrangulamento d classe média, como tem ocorrido. Gostaria que a Zona Cerealista nunca acabasse, acho que não tem como acabar, não ficasse num livro pra história, mas que ela existisse como um marco e com turismo pra quem vem conhecer São Paulo, a Zona Cerealista tem que fazer parte do turismo de São Paulo. É Zona Cerealista junto com Mercadão, eu acho que essa área aqui, ainda mais quando tiver o SESC pronto, se o rio for despoluído nessa área aqui, que é uma coisa que a gente escuta há 200 anos já, arrumar tudo isso daqui, talvez fazer mais alguns prédios aqui. Não sei, eu acho que tem tudo pra ser uma revitalização do centro muito boa. Do paulistano, do turista poder andar a pé por aqui, subir pela São Bento, fazer um outro city tour lá e chegar no Teatro Municipal e não ter medo de violência. Poder voltar pra cá e fazer umas compras e ir pra casa feliz. Passear. Passear sem ter medo, pelas ruas, com ruas limpas, sem sujeira, com educação. Eu acho que a Zona Cerealista merecia isso por tudo o que ela já representou na história do país.

P/1 – E pra sua vida pessoal, quais são seus planos agora?

R – Minha vida pessoal? Minha vida pessoal é o que eu falo, eu não sei o dia que a gente vai partir, se vai ser daqui um ano, dez, 15, 20 ou cem. Sempre brinquei que eu ia chegar nos cem anos. Hoje eu quero chegar nos cem anos, mas eu quero escutar música, eu quero ver os gols do Palmeiras, quero dar comida pros pombos e ser feliz dessa maneira. O que eu faço pra isso? Tento ser um pouco econômico por motivos óbvios e faço isso pra poder chegar numa situação de ser uma pessoa de idade e não depende do Estado, depender mais de mim do que do Estado, eu acho que é isso que eu penso. E claro, ver o Brasil crescer, ver um Brasil que os filhos, que os netos desfrutem de um Brasil muito melhor, muito melhor e com justiça. É muito fácil falar isso hoje porque está na moda, né? Mas realmente é verdade, ter um país mais país, mas com civilidade, que você pare o carro na rua pra alguém atravessar não porque você vai ser multado, mas por respeito. Que você volte a ter respeito pela pessoa de idade, que você volte a poder ser um cara romântico e carinhoso com a sua mulher em atravessar a rua, abrir a porta de um carro. Que você possa roubar, roubar mesmo uma flor de uma parque pra fazer uma serenata à noite. As coisas mais simples, mais bobas, mas que dão civilidade pro ser humano. Eu gostaria disso. Que o Brasil arcasse um pouco mais com a parte de escola e de hospitais, que eu acho muito triste, graças a Deus eu tive uma condição diferente, mas deve ser muito triste você ver um pai com 40 e poucos anos vai na fila do hospital e morre e um filho fica sem o pai com um pai novo. Essas injustiças eu acho que tinha que mudar urgente no Brasil porque isso não volta mais. Se você deixou de comer um estrogonofe um dia, um dia você pode comer, na frente, mas uma vida, oportunidade de estudar, eu acho que isso não podia, eu acho que isso tinha que ter o direito, todo mundo, de ter essas igualdades. E é isso, o que eu penso mesmo de mim, me contento com pouco. Se puder ver os gols do Palmeiras, escutar música de tudo quanto é tipo, ter minha família, claro, poder brincar com meus netos um dia. É isso. E estar presente no livro, no lançamento do livro. Nos anais do sindicato eu já estou presente. É isso.

P/1 – Como é que foi contar um pouco da sua história hoje?

R – Bom, foi muito fácil contar. Às vezes foi fácil porque você soube conduzir, não estou sendo político mas você soube dar um direcionamento pra coisa. Às vezes eu posso fugir da resposta ou então eu poderia aqui, talvez, ter dito respostas mais executivas, mais empresariais. O meu tipo de reportagem foi uma reportagem muito mais humanitária, muito mais humana. Não fugindo da Zona Cerealista, mas de quem viveu as duas coisas na Zona Cerealista. Se eu nunca tivesse vivido na Zona Cerealista talvez eu ia ficar dando muito mais ênfase a números, a produtos, a histórias, a sacanagens, a roubo, irmão que roubou irmão, cara que quebrou. Eu acho que isso existe não na Zona Cerealista, isso existe em todo lugar do mundo. Briga de família, briga por poder, todos os lugares do mundo, em qualquer país do mundo. Então pra mim foi muito importante conseguir falar essas coisas do meu passado, da Zona Cerealista, do Brás, por causa de um livro, porque eu acho que um não vive sem o outro, é muito difícil. Porque se a Zona Cerealista foi aqui, quem viveu aqui viveu a Zona Cerealista, viveu no meio de caminhão, não tem como. Eu subia em caminhão pra brincar de bola em cima de caminhão. Não teve como nunca pegar, subir num caminhão pra andar 50 metros e depois pular, o caminhão fez parte da minha adolescência aqui, então é tudo muito ligado. A única coisa é que eu acho que eu tentei dar o enfoque muito mais nessa parte fora da porta do armazém, coisa que muitos poucos aqui tiveram porque meu pai veio, mas já veio pra cá com 20 e poucos anos e eu brinquei aqui, entendeu? Então talvez meu pai, o Dadá, eles tenham muito mais histórias pra dar, histórias comércio, muito mais do que eu, eu posso dar dez, eles podem dar mil. Nessa parte eu posso dar mil e eles podem dar duas.

P/1 – Mas foi bom, você gostou?

R – Eu gostei. Eu gostei porque quando eu fiz aquele site Memórias do Brás lá, que eu nem estou tocando mais aquilo lá como se deve, eu estou num ponto da minha vida, assim, que às vezes é gostoso você pegar e achar um, não digo um hobby, achar alguma coisa diferente, que você saia do seu trabalho que hoje é desgastante, mas que chega em casa com prazer de fazer alguma coisa. Uma coisa que você fala assim: “Puta, fui dormir às cinco da manhã, acordei às sete, mas foi um tesão” “Puta, eu fui dormir às cinco mas fiquei escrevendo um monte de coisa papapa”. E uma das coisas que eu tive muita vontade foi de mexer com o Brás. Eu juntei uns amigos com a desculpa de fazer o grupo do Brás, fizemos um WhatsApp agora, reviveu muito, então deu muita vontade de fazer uma coisa em cima disso. E eu tinha pensado em escrever um livro do Brás. Eu tenho muito acervo, já comecei a falar com pessoas, apareceram muitas fotos, muitas histórias, histórias até de gerações antes da minha. Mas é aquilo que eu estava falando: é pra ficar rico isso? Não. Por que? Ela tem vendagem limitada, quem vai comprar é até a minha geração, quem estiver mais novo não vai ter vontade de comprar. Você pode comprar por causa do teu trabalho, da tua profissão, pra ter um pouco mais de profundeza, ser mais completo naquilo que você faz, mas não que é uma coisa que você vai comprar e ficar: “Sábado à tarde eu vou passar no shopping, vou comprar esse livro que deve ser um tesão”, não vi fazer isso daí. Mas ao mesmo tempo que eu falo isso, essas histórias do Brás, além de não morrer pra mim e para algumas pessoas eu tenho certeza que de uma fantasia minha, que isso é uma fantasia minha, nada me impede de pegar amanhã, eu não conheço esse mundo, não conheço esse meio, pegar um Benedito Ruy Barbosa e falar: “Cara, eu não sou escritor de novela, mas eu tenho personagens reais, eu tenho personagens que dá pra colocar que vai fazer comédia”. Eu acho que a gente precisa rir mais. Sabe, e você fazer um personagem baseado no João da esquina aqui você vai rir e ele é o espelho da sociedade brasileira. Todo bairro tem o seu louco, todo bairro tem o cara que conta fofoca, todo bairro tem aquele cara que quer dar golpe nos amigos e diz: “Depois eu pago”. Todo bairro. Isso em cidade pequena é a mesma coisa, toda cidade pequena tem aquele pessoa: “Ih, aquele é o louco. Ih, aquele é o 171. Ih, aquele você está ferrado”. E isso no Brás a gente não queria que perdesse. Vai perder, claro, mas ainda acho, tem um pessoal ainda que a gente quer fazer alguma coisa, não sei o quê, a gente está perdido. Aí você começa a ver que o negócio é muito mais difícil, muito mais complexo, que quando você vai pensar nisso: “Nossa, tem gente de Museu que pesquisa”. E a gente fala assim: “Ixi, tá saindo uma coisa totalmente amadora”, aí você acaba dando uma brochada. Mas por isso que eu gostei muito, que ele chegou muito próximo daquilo que eu tinha vontade de fazer. Legal isso. Vocês gostaram?

P/1 – Gostei, foi ótimo! Obrigado, viu?



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