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Para este homem, a morte não é o fim



O que é a morte? Já parou para pensar? O Neives Batista acha que morte não é fim. Pensei nele por causa do feriado dessa semana, que vai encher os cemitérios de gente e de flores. Engraçado que tenho uma lembrança muito vívida na minha cabeça dessa data. Acho que já devo ter morado perto de cemitério. Lembro do vaivém de gente, o ambiente meio fúnebre, meio de homenagem, as flores no dia seguinte e aquele cheiro característico delas estragando...

Pois o Neives Batista conversou com o Museu da Pessoa e deixou um depoimento muito bonito, muito emocionante. Ele lembra de ter percebido que via espíritos quando era criança, em uma experiência de quase morte. Para o Neives, que nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a morte não é o fim nem o começo, é apenas o meio. "Eu me lembro uma vez que me bateu uma doença que tava até matando criança. Meu pai mandou chamar um cidadão que receitava homeopatia que eu já estava desenganado pelo médico. Tanto é que eu já estava abandonando o corpo", ele contou.

"E aí chamaram o falecido, seu 'Sossó' e ele começou a me dar homeopatia de cinco em cinco minutos. Lembro de quando ele chegou, eu tava em cima, tinha umas entidades junto comigo ali também. Eu já queria partir e disseram: 'Não, não, não... Não, parte, não! Isso aí agora vai dar certo!' Disseram pra mim: 'Volta pro teu corpo!' E realmente começaram a me dar aquele negócio de cinco em cinco minutos, mas eu lá de cima estava enxergando tudo aqui embaixo, inclusive o meu corpo". Surreal, não?

O Neives nasceu em 1936 e diz que tem a impressão de ter feito parte da história da cidade. "Eu posso contar muita coisa", disse. Ele lembra, por exemplo, que Pelotas não era uma cidade grande mas que tem o maior número de negros, como ele, depois de Salvador e do Rio de Janeiro. Eu não tinha ideia disso, e você? A razão, segundo ele, era a grande atividade de escravos na região em função das charques.

Retrato de Mestre Neives Baptista, cujo conhecimento vem do fato de reconstituir o fabrico de sopapo, um antigo instrumento. Foto:Antônia Domingues

No depoimento que deu para o Museu, o Neives contou outro episódios desses de ver gente morta. Foi quando o tio dele morreu. Na época, em Pelotas costumava-se velar o corpo das pessoas na sala da casa. "O meu tio estava sendo velado na sala lá de casa, e eu estava lá na cozinha... Chamei a mãe e disse: 'Mãe, vem cá!'. E ela: 'O que é que foi?'. Eu disse: 'O tio não tá morto'. E ela: 'Como não tá morto?' Eu: 'Ele passou aqui agora, tava brincando. Inclusive, olha lá onde ele tá, ele tá na volta do caixão, olha ele lá'. Ela: 'Tu ta enxergando?!' E eu: 'Tô enxergando!'

Bonita a história do Neives. Ele é mestre griô, é um dos poucos artesãos que sabem fabricar um tambor africano chamado sopapo, que ele aprendeu a fazer em função da relação que tinha com a umbanda. A mediunidade o atormentou por um tempo, mas ele contou que aprendeu a lidar com essa condição aos poucos.

Mas como, de quando em quando, me perco com as palavras tanto quanto com as memórias, também compartilho o vídeo dos causos do Neives - é de colorir minha imaginação e aumentar a esperança que tenho de recuperar minhas memórias. Espero que aconteça logo. Espero. Mas por ora só posso viver com as memórias de outros. 




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