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História

A gente tem sonho

Sinopse

Sebastião Rosa é mineiro de Monte Carmelo, nasceu no dia nove de março de 1953. Trabalha desde os sete anos, e já teve muitas experiências profissionais. Foi em busca de esperança de uma vida melhor em Brasília no final da década de 70 já casado com Antônia e com um filho. Tião disse que o sonho de quem estuda pouco não vai muito longe, mas ele se tornou uma liderança respeitável no bairro do Fercal.

História completa

Nasci no dia 9 de março de 1953 na cidade de Monte Carmelo, Minas Gerais. Eu nasci na beira do Rio Paranaíba, quase divisa de Minas com Goiás. A gente estudava num rancho de palha de coco, era distância de dois quilômetros da residência. Tinha que subir uma serra, inclusive passando nas invernadas, onde tinha muito gado bravoIa de manhã; passava na roça, trabalhava um bocado. Quando dava o horário da escola, ia pra escola, estudava até certas horas, que é lá pelas três da tarde, aí passava, voltava pra roça de novo pra depois voltar pra casa. Chegava em casa à noite. A gente ainda tirava um tempinho, que toda a vida criança tira um tempo e brinca, né? Eram umas brincadeiras que a gente fazia com sabugo de milho, brincadeira de chutar bola com lobeira, pescaria no Rio Paranaíba. 

 

  Não existia um chuveiro, não tinha um fogão a gás, então, dava certa hora, apagava as lamparinas e dormia. Nós somos doze irmãos, eu estou na sétima posição. Eu comecei a trabalhar com 7 anos de idade. A gente pegava coco de babaçu a semana toda e no final de semana a gente quebrava pra vender a castanha pra manter a compra de casa, que era o açúcar, era querosene, essas coisas que a gente precisava em casa. Eu tinha um sonho de ser alguém na vida, de estudar, mas como não morava na cidade, era complicado, tinha vez que passava três meses sem ter professora. Às vezes ficava seis meses estudando na cidade e voltava pra roça. Estudei pouco. E o sonho de quem estuda pouco não vai muito longe, não.


  Eu vivi com meus pais até os 11 anos de idade, quando a minha mãe faleceu. Passou dois anos e meu pai faleceu, então eu perdi os dois e fui morar na casa de um irmão. No começo da minha vida para o trabalho, eu não conseguia sozinho ganhar o dia de um adulto, por exemplo. O dia do homem tinha que ser eu e meu irmão trabalhando. Eu morei na faixa de seis anos com esse meu irmão, até inteirar 16 anos, e daí fui caçar meu destino. Fui trabalhar em Três Marias, na barragem, construir casa pra Cemig.


  Um dia eu falei: “Eu vou embora pra minha cidade, não vou ficar mais em Três Marias”... Eram nove horas da noite, peguei um ônibus, cheguei em Paracatu. Fui no guichê da rodoviária e perguntei qual o ônibus que saía primeiro, se era de Monte Carmelo, se era pra Unaí, ele falou: “Sai o de Unaí primeiro, seis horas da manhã”. “Então é nesse que eu vou.” Em vez de ter ido pra minha cidade, eu vim pra Unaí. Quando cheguei, eu desci numa rodovia, estrada de chão, uns seis quilômetros até onde eu ia. Já era de noite, fui descendo. Cheguei na beira do Rio Preto e lá tinha umas canoas. Só que era um dia de festa e os canoeiros estavam tudo do lado da festa; eu cheguei do lado oposto. Ninguém me atendeu pra me passar na canoa, lugar cheio de mato – nadei e atravessei o rio, à noite.


  Por coincidência, cheguei numa festa, lá está ela, minha esposa, que é a Antônia. Ela estava com a aliançona no dedo, noiva. Tinha uma colega minha, a gente conversando, ela falou: “A Antônia vai casar daqui a 30 dias”. Eu falei: “Não, quem vai casar com a Antônia vai ser eu”. O noivo dela não estava lá por perto, tinha viajado. Nós dois fomos dançar e aí comecei a conversar com ela. Eu brinquei: “Se você jogar essa aliança fora, eu vou pôr aliança no seu dedo com o meu nome”. E assim aconteceu. Namoramos três meses, noivamos e casamos. A gente vive há 37 anos, graças a Deus. Então pra mim deu certinho, é aquela história: viver sem ela é complicado e eu tenho certeza que pra ela também é. Viramos dois assim que um depende do outro, não tem como.


  A gente casou no dia 7 de setembro de 1977. Aí fiquei um ano lá em Unaí, perto dos pais dela, e depois viemos aqui pra Fercal, pra trabalhar na Grupi Materiais de Construção. Da Grupi veio o chamado pra trabalhar na Votorantim. Eu comecei a trabalhar de servente mesmo, era faxineiro do laboratório. Foi aí que começou a fluir alguma coisa melhor. Toda vida meu serviço foi esse, é serviço bruto, mas começou a melhorar em termo de emprego. Na Votorantim, a chefe do laboratório era a Marília. Estava tendo umas vagas, uma vaga melhor do que faxineiro, que era de analista físico, então eu perguntei pra ela se ela não podia me colocar numa vaga daquela. Ela falou: “Vou fazer uma experiência com você: se você passar, você vai ser classificado. Se não passar, aí tem o caminho da rua”. Fiz o teste; todo mundo calado. Passou uma semana, ela me classificou no laboratório como Analista Físico II. Daí, fui subindo.


  O meu sonho era de ver a Fercal uma cidade muito boa pra se morar, uma cidade onde não existe violência, uma cidade bem arrumadinha, que a Fercal tem tudo pra ser isso. Aqui, como é uma zona rural, é local de mata, local de morro, de montanhas, que podia ter um turismo. Quando eu mudei para aqui, não tinha água encanada, não tinha energia, as ruas não eram asfaltadas e até era muito difícil. Hoje nós estamos vivendo bem, em vista do que era. Eu lembro quando a Caesb mandou furar esse poço aqui na comunidade, lembro da gente pegar caminhão e ir em outra cidade que estava mudando as redes, arrancar aqueles canos do chão pra fazer rede aqui na Fercal, que até hoje ainda tem deles aí no chão. E a gente pegava as ferramentas, ia cavar, fazer vala, botar os canos dentro e a Caesb chegava e ia ligando a água pro pessoal.


  Eu era louco pra ver isso funcionando pra todo mundo!


  A energia? A gente andava isso aqui, era mato e não tinha nem uma lâmpada aqui pra dizer. Essa rodovia, não tinha. Era lamparina que a gente usava, vela. Aqui O Mundo das Tintas tinha um transformador de energia na época, mas era só da empresa. Dessa empresa passou a fornecer a quase todos os moradores. No final da história ninguém tinha energia, porque distribuiu com tanta gente que a energia não dava pra fornecer, era fraca, acabava. Nós saímos várias vezes dentro do mato à noite emendando fio que a chuva, o vento, tinha derrubado; não tinha rede, não tinha nada, era passado na gambiarra. Então hoje melhorou, evoluiu muito.


Tem jeito de melhorar? Eu tenho certeza que tem: melhoramento na cidade, reformar uma pracinha, bem feitinha, gramado, toda iluminadinha, é muito importante. Que na minha cidade eu fui zelador de uma fonte luminosa, onde tinha animais, tinha jacaré, tinha seriema, tinha saracura, tinha peixes. Então à noite tinha uma praça, enchia de gente. E eu ficava lá, tratando os animais. Era lindo aquilo ali! Tinha um viadutozinho que passava por cima da água, o pessoal passava, andava em volta nas calçadas. Então dava pra se divertir, era uma maravilha, você ia pra lá de dia de domingo, sábado, passear na praça. Isso eu tinha vontade ver na Fercal.

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Publicado em 06/10/2015 por

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Votorantim Fercal
Depoimento de Sebastião Rosa
Entrevistado por Tereza Ferreira da Silva e Márcia Trezza
Fercal, 6 de maio de 2015
Realização Museu da Pessoa
VOF_HV003_Sebastião Rosa
Transcrito por Karina Medici Barrela

P/1 – Nos fale o seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Sebastião Rosa. Nasci no dia nove de março de 1953 na cidade de Monte Carmelo, Minas Gerais.

P/1 – E qual era o nome dos seus pais?

R – Meu pai se chamava Benedito Rosa e a minha mãe Lucília Vieira.

P/1 – O que seus pais faziam?

R – Os meus pais, a função deles era lavoura, trabalhavam em fazenda.

P/1 – Descreva o que você lembra da sua época de infância sobre seus pais?

R – O que eu lembro na minha época, do tempo de criança, que a gente morava nas fazendas, que hoje lá não existe a fazenda mais, que foi coberta pela água de uma barragem, que é no Rio Paranaíba. Então eu nasci na beira do Rio Paranaíba, divisa de Minas quase com Goiás, né? Então a função mesmo era na lavoura, a pessoa só vivia mesmo na lavoura.

P/1 – Além da lavoura, quais os costumes dos seus pais, o que eles faziam além de trabalhar?

R – Além de trabalhar era o seguinte, na época da gente as coisas eram muito complicadas, pouco recurso, não tinha passeio, a gente não tinha quase lazer, era mesmo em casa. Atividade mesmo que tinha mais na região era a castanha do coco do babaçu, que era para produção de óleo de fabricação de sabão, de uma fábrica de sabão que tinha na minha cidade.

P/1 – E quando criança vocês tinham algum lazer, os seus pais participavam, apoiavam algum lazer que vocês, quando criança, mesmo depois do trabalho vocês teriam o hábito? Como vocês se divertiam quando criança? E os seus pais participavam?

R – A gente era o seguinte, no tempo da gente criança a gente brincava mesmo era correr nos pastos, nas invernadas, andar a cavalo, era isso que a gente fazia, que não tinha atividade, que era fazenda. E os pais da gente sempre perto, porque os pais da gente acompanharam muito o crescimento da gente na época, então, o lazer era esse.

P/1 – Além das brincadeiras, vocês estudavam?

R – A gente estudava. Apesar que as dificuldades eram muito grande, a gente estudava num rancho de palha de coco, era distância de dois quilômetros da residência da gente. Tinha que subir uma serra. Inclusive a gente passando nas invernadas, onde é que tinha muito gado bravo na época, o gado era bravo então a gente tinha que passar no meio da boiada pra ir pros estudos. Ia de manhã, passava na roça, trabalhava um bocado, quando dava o horário da escola a gente ia pra escola, estudava até certas horas, que é lá pelas três horas da tarde, aí passava, voltava pra roça de novo pra depois voltar pra casa. Chegava em casa à noite.

P/1 – E ainda tinha tempo de brincar, seu Sebastião?

R – A gente ainda tirava um tempinho, que toda a vida criança tira um tempo e brinca, né? Eram umas brincadeiras que a gente fazia com sabugo de milho, brincadeira de chutar bola com lobeira. Hoje não, hoje tem todos os brinquedos modernos, antigamente a gente não tinha. Pescaria, tinha o rio Paranaíba, que ainda existe mas a gente fazia pescaria. O lazer da gente essa esse.

P/2 – E como é brincar com sabugo de milho?

R – O sabugo de milho, hoje está até acabando também que é o carro de boi. Então a gente fazia os carros de boi e colocava, inclusive, as rodas fazia da lobeira também. E o sabugo a senhora atrelava um sabugo, um com o outro, fazia como que eram dois bois, e saía puxando com a cordinha falando que era o carro de boi.

P/1 – O que mais te marcou na sua infância?

R – É. Voltando (emocionado), me desculpa que a gente, a infância da gente foi muito sofrida. Então o que a gente fazia era isso, era chegar em casa e dormir, não existia energia, não tinha uma televisão, não tinha um telefone, então a gente chegava do colégio logo após tinha que dormir, né? Não existia um chuveiro, não tinha um fogão a gás, então, deu certo a hora, apagava as lamparinas e dormia.

P/1 – E como era a convivência com os pais, qual a origem dos seus pais e como era a forma deles educarem os filhos?

R – Ah, era muito rígido, os pais da gente eram muito rígidos. Graças a Deus meu pai nunca bateu nos filhos, nós somos 12 irmãos, então meu pai foi uma pessoa que não bateu nos filhos, a origem dele também era de lá, do mesmo local, que é de Monte Carmelo, ele e minha mãe, então ele não batia nos filhos, então ele educava os filhos às vezes através de chamar a atenção, explicava e tinha hora que ele passava perto da gente e a gente sabia o que ele queria, né? Então a gente já não era aquele fazedor de arte. Então, assim a gente foi criada. E também como eu criei meus filhos sem bater, sem judiar, e graças a Deus hoje eu tenho uma família que é os meus filhos do jeito que é.

P/1 – Você já falou que tem 12 irmãos, né?

R – Certo.

P/1 – Você é dos mais velhos ou dos jovens dos irmãos?

R – Eu estou intermediário. De 12, eu estou na sétima posição.

P/1 – Esses 12 irmãos conviveram junto até quando se casaram?

R – Conviveram até se casar. Os primeiros que se casaram, os mais velhos, eles ainda ficaram morando perto da casa dos meus pais na minha cidade, que a gente tinha uma “chacarinha" na cidade, na rua lá, cada um tinha uma chácara, cada morador. Então meu pai tinha a dele e cada um foi casando. Os três primeiros casaram e ficaram morando de vizinho dentro do quintal.

P/1 – Seus pais são de lá mesmo da cidade?

R – Da mesma cidade.

P/1 – Você disse que tinha pescaria no rio e tudo, você disse que vocês não faziam muita arte não, né?

R – É.

P/1 – Mas teve algum acontecimento que você nunca mais esqueceu?

R – Não, arte a gente fazia. A gente fazia porque toda criança faz arte, né? Então não vai dizer que não é custoso, que é! Mas as artes que a gente fazia eram as artes que até fazia graça às vezes, né? Teve arte da gente chegar, às vezes você via um cavalo no pasto, você chegava lá, pegava o cavalo, montava e saía nele, você está entendendo? Então hoje eu tenho medo até de montar num cavalo, mas a gente fazia aquilo. Às vezes quando chegava em casa o meu pai: “Ah, vocês fizeram uma arte, não fizeram? Porque vocês estão meio assim” “Não, não fizemos, não”. Aí quando ele ia descobrir a gente tinha feito a arte, que tinha montado no cavalo que não podia montar, né? Que às vezes o cavalo está lá quietinho, a gente chegava, montava em cima, ia tocar e correr no mato, né? Então era as artes que a gente fazia, não tinha outro jeito de fazer arte. Mas graças a Deus por isso hoje eu sou feliz porque é umas artes que até a gente compreendeu a viver com aquilo ali, que foi bom por isso. Não tinha outro tipo de fazer arte, de chegar, pegar um carro e sair no carro, aquilo não existia. Existia um caminhão puxava leite da fazenda, era o que a gente fazia o transporte pra cidade, inclusive.

P/1 – E todos irmãos participavam dessas brincadeiras?

R – Quase todos os irmãos, porque como a gente era 12, os mais velhos sempre, aí já virou homem então vai ajudando a corrigir a gente. Então, os mais velhos, o que eles faziam muito também era fazer serenata à noite para as namoradas deles, andava a pé o tempo todo com o violão, né, pra fazer uma serenata e tal, que era até muito bonito, que eu acompanhei umas vezes com eles, que meus irmãos cantavam também, tocavam violão, meu pai também. Então era aquilo, né?

P/2 – Você fez alguma serenata?

R – Eu acompanhei meus irmãos na serenata, várias vezes eu acompanhei. Mas só ia pra ver mesmo ele tocar e cantar.

P/1 – Você não chegou a fazer nenhuma serenata pra alguém especial?

R – Não, serenata eu fiz já através de música que era no disco, aquele long play de vinil, aquele grandão, né? As “radiolinhas" pequenininhas, então eu conseguia fazer serenata, entendeu?

P/1 – E você viveu com seus pais até que idade?

R – Eu vivi com meus pais até 11 anos de idade, que foi quando a minha mãe faleceu, passou dois anos meu pai faleceu, então eu perdi os dois e aí fui morar na casa de um irmão meu.

P/1 – Também na mesma cidade?

R – Na mesma cidade, na mesma casa que era dos meus pais. Que o meu irmão mais velho morou na casa, depois que meus pais faleceram ele ficou na casa.

P/1 – E qual era o sonho que você tinha, qual o seu sonho?

R – Tereza, o sonho meu de infância era aquilo, era ajudar meus irmãos, que inclusive eu ajudei o meu irmão mais novo do que eu, eu ajudei ele. Eu tinha um sonho de ser alguém na vida, de estudar, mas como não morava na cidade lá era complicado, igual eu tava falando sobre a escola, que era, tinha vez que passava três meses sem ter professora, ela não ia no colégio. Então pra estudar ficava difícil. Quando o meu pai mudava pra cidade, por exemplo, a gente estava na roça que ele mudava pra cidade, pra estudar a gente ia de trem de ferro, que é de Três Ranchos a Monte Carmelo, então pegava o trem na estação de Grupiara, que chama Grupiara lá a região, a cidadezinha, pra ir pra cidade. Ia na segunda e voltava na sexta à tarde. Então, esse sonho era complicado, porque às vezes ficava lá seis meses estudando na cidade e voltava pra roça de novo. Então pra começar, talvez ia começar no outro ano a estudar. Estudei pouco. E o sonho de quem estuda pouco não vai muito longe, não.

P/1 – Mesmo esse pouco que você fala, o que serviu pra você, hoje, esse pouco estudo?

R – Serviu de exemplo o seguinte, como eu estudei pouco, nunca tive intenção de ser covarde com ninguém, fazer maldade, pensamento ruim. Eu toda vida tinha um pensamento bom, então Deus me ajudou muito sobre isso e chegou um certo ponto, com 24 anos de idade, que foi que eu casei, aí veio o apoio da esposa, né? Veio o apoio da esposa, logo veio filho, os meus filhos é uma maravilha. E o que acontece? O apoio maior que eu tenho é dos filhos. Se eu fizer uma arte eu tenho até vergonha dos meus filhos, então, esse foi um exemplo pra mim.

P/2 – Você disse que seu pai voltava pra roça e ia pra cidade, voltava, por que ele fazia essas mudanças?

R – Eu vou explicar pra vocês aqui o seguinte, ele mudou para uma fazenda 12 vezes, a fazenda que eu fui nascido. Era o seguinte, ficava um ano na fazenda, aí colhia as lavouras, aquelas coisas, aí às vezes não estava gostando, que teve época que a gente passou, a lavoura não produzia muito, dava sol, estragava o mantimento, aí meu pai desgostava: “Ah, eu vou pra cidade”. Chegava na cidade era aquela dificuldade, além da cidade era pequena na época, os recursos pra serviço era muito pouco, então ali ele ficava lá na cidade mais uns seis meses. Aí o patrão na época: “Não, você vai lá pra fazenda de novo, eu preciso de você na fazenda”, aí ele voltava pra fazenda. Então, aí foi que a gente estudou pouco. Meus irmãos não têm nenhum formado, de 12 irmãos não tem nenhum que formou.

P/1 – Vocês também trabalhavam na fazenda com o seu pai?

R – Trabalhava na lavoura junto com meu pai. O meu pai, quando a gente plantava as lavouras, colhia, aí tinha aquele tempo do intervalo de uma colheita até plantar de novo. Naquele tempo meu pai ia trabalhar pro patrão, que era roçar pasto, era fazer acero na cerca, que a gente fazia, a gente tava junto. Então aconteceu o seguinte, no começo da minha vida para o trabalho, eu não conseguia, sozinho, ganhar o dia de uma pessoa, de um adulto, por exemplo, um homem. O dia do homem tinha que ser eu e meu irmão pra trabalhar pra pagar o dia de um homem, então era nós dois pra ganhar um dia de serviço naquela época.

P/1 – E quantos anos você tinha quando você começou a trabalhar pra se manter, pra ganhar mesmo?

R – Eu digo pra vocês o seguinte, eu comecei a trabalhar com sete anos de idade, porque a gente naquela época era muito sofrido, na minha região a gente sofria muito, então o que a gente fazia? A gente pegava esse coco de babaçu, quebrava, pegava a semana toda e no final de semana a gente quebrava e pra vender a castanha pra manter a compra de casa que era o açúcar, era querosene, essas coisas, que não tinha lá pra gente e a gente tinha que levar na cidade pra vender a castanha e comprar os produtos que a gente precisava em casa. Então, daí pra cá eu comecei a trabalhar e até hoje, graças a Deus.

P/1 – Qual foi o seu primeiro emprego fichado? Ah, hoje eu sou um homem fichado?

R – Eu trabalhei na prefeitura da minha cidade, que inclusive eu tenho aí, agora está até me servindo esse documento, eu trabalhei na prefeitura da minha cidade em 1967, foi o primeiro emprego assim, não era fichado, mas um emprego que foi na prefeitura, onde eu varria rua, varria rua à noite, capinava as ruas.

P/1 - Você já era de maior nessa época?

R – Não, era de menor. Era de menor. Naquela época eles já me pegaram com 13 anos de idade e passei até a ser encarregado de outros adolescentes. Porque naquela época, é igual eu tou falando, a brincadeira era pouca. Era na cidade e eu já trabalhava na prefeitura capinando e tomando conta de outros adolescentes, eu era encarregado.

P/2 – Quando você foi morar, foi com a sua tia que você foi morar?

R – Eu fui morar na casa do meu irmão.

P/2 – E como foi, Tião, essa fase?

R – Foi uma fase complicada. Foi uma fase complicada porque eu tinha esse irmão meu mais novo, mais novo do que eu – tinha não, tenho, graças a Deus ainda está vivo, está na minha cidade. E ele era um cara mais nervoso. E nós dois novos, então ele não dava muito certo com a minha cunhada. Essa cunhada minha era professora num colégio na minha cidade, Colégio Letícia Chaves é o nome dele, inclusive. Então ele era muito custoso, assim, mais nervoso e mais custoso, ele respondia a ela muito, então ela às vezes não gostava sabe daquela situação e aí eu tinha que às vezes tirar ele, levar para outros lugares, entendeu? Então toda vida foi isso. Mas graças a Deus, como eu combinava com ela, tudo funcionava, tudo dava certinho, eu ficava paleando ali: “Não, para com isso, deixa que eu vou tirar ele daqui, vocês não vão brigar mais”. Eu tomei conta de três sobrinhos que é filho dela. Então até hoje eles me tratam como pai, eles falam que eu que sou o pai deles, não é o meu irmão, que eu dava banho, eu que dava comida, porque ela ia trabalhar no colégio e eu ia zelar deles em casa.

P/1 – E quanto tempo você morou com eles?

R – Eu morei na faixa de seis anos com esse irmão meu, até eu inteirar 16 anos. Meu irmão ficou na minha cidade, inclusive entrou numa banda de música e lá ele está até hoje, ele toca contrabaixo e eu fui caçar meu destino. Fui pra Três Marias, trabalhar em Três Marias, na barragem, construí casa pra Cemig. E com esse irmão meu, que eu morava com ele, inclusive, e vim pra Unaí. De Unaí fiquei um tempo, foi onde eu arranjei a minha esposa e a gente casou lá.

P/1 – Nessa época de adolescência, qual era o tipo de diversão que os jovens tinham?

R – Na minha cidade é uma cidade que tem muitas igrejas. Então na minha cidade é o seguinte, antigamente eles faziam a Missa do Galo, que era na passagem do ano, meia-noite tinha a missa do galo; tinha carnaval lá na minha cidade, mas eu não participava de carnaval, eu não gostava muito então eu não participava. No bairro que tem a casa que era do meu pai, lá tem a Igreja Nossa Senhora de Fátima, mesmo bairro, inclusive chama até bairro Nossa Senhora de Fátima a casa que era do meu pai lá. Então lá eles faziam aqueles bingos, fazia aquele ranchão, tinha aquele correio elegante pra mandar o bilhetinho pra namorada. Então era isso a diversão da gente. À noite a gente quase não andava, porque toda vida eu tive muito medo de certo horário da noite, principalmente uma cidade pequena, eram umas ruas desertas, então eu não era muito de estar passeando à noite. Tinha cinema, então dia de domingo tinha matinê. Quando a gente estava morando na cidade, a diversão da gente era essa. Ia parque pra cidade, tinha um circo, então, essa era a diversão da gente.

P/2 – Você tinha medo do quê, de andar na rua à noite?

R – Olha, eu sou um homem que eu não tenho medo, mas eu tenho receio da noite porque é o seguinte, você vai andando numa estrada numa cidade pequena, uma rua sem asfalto, sem nada, pouca casa, então ali mora o perigo, entendeu? Às vezes é um malfazejo para as pessoas. A escuridão, assombração, isso não me faz medo, não. Aqui na Fercal aconteceu uma história comigo muito interessante, eu indo trabalhar na fábrica da Votorantim. Então, o pensamento da pessoa é que faz o medo.

P/2 – Conta esse fato interessante.

R – O que aconteceu é o seguinte. Eu trabalhava na Votorantim num horário – era três turnos que a gente trabalhava – e eu morava mais na frente aqui um pouquinho. Eu saio da minha casa dez e meia da noite pra ir trabalhar na Votorantim, naquela época não tinha essa energia que a gente tem hoje, era tudo escuro e estava chovendo muito. Eu embrulhei numa capa e tou indo na rodovia pra ir pra Votorantim. Como tem um viaduto na entrada da Votorantim, de longe passou um carro por mim e o farol dele deu lá debaixo daquele viaduto que tem; debaixo daquele viaduto eu vi um vulto, ou era uma assombração, pra mim era uma assombração. E tava vindo e eu tinha que ir, eu tinha que trabalhar. Eu falei: “Nós vamo ter que encontrar. E agora, como é que nós vamo fazer aqui?”, mas fui andando assim mesmo. Mas era uma pessoa que estava vestida de capa, também uma capa escura, e tinha uma criança, filho dele, que vinha com ele do lado, então aquilo ficou muito grande, ele tampando a criança. E eu olhava e falava: “Vou ter que encarar, não vai ter jeito”. Mas assim, sabe, aquilo começou a “arrupiar", aquele negócio! Quando eu cheguei num certo lugar que não tinha jeito mesmo eu falei: “Aqui agora a gente vai topar de cara mesmo”, mas eu passei de um lado da pista e ele passou do outro. Eu acho que ele tava com medo também, aí ele olhou assim, eu falei: “Opa!”, e ele falou: “Opa!”. Era um vizinho meu (risos)! Então isso, uma coisa que aconteceu, isso aqui no escuro na época, porque hoje não, hoje tá até bom, né, mas era escuro, muito escuro isso aqui.

P/1 – Você nos falou da sua diversão na sua época de adolescente que era participar dos eventos da igreja, do circo. Como foi, foi nesses correios elegantes que você conheceu a sua esposa? Nos fale.

R – Não, Tereza, foi o seguinte. Como ela é de Unaí e eu sou de Monte Carmelo, então vim conhecer ela depois. Mas era aquele negócio, Tereza, de criança, aquela namoradinha que escrevia um bilhetinho e tal, então ali começava, às vezes, uma amizade, começava até a namorar, então aquilo ali é igual eu tava te falando, era diversão. E vim conhecer a minha esposa foi depois, passado bastante ano, eu já tinha 24 anos de idade quando eu conheci ela.

P/1 – Nos fale como foi o seu primeiro encontro, como é que foi até chegar ao casamento, conta um pouco da sua vida matrimonial.

R – O seguinte, Tereza, eu saí da minha cidade pra ir pra Três Marias. Uns cinco anos atrás eu tinha vindo em Unaí e na região lá eu conheci a família dela. Então ela era nova, eu também bem mais novo, então ficava ali, a gente ia pro campo jogar futebol, aquele negócio, então ela sempre a gente via, né? Mas não tinha nada de importante de namoro, nem nada. Aconteceu o seguinte, fui embora de novo pra minha cidade, fiquei na minha cidade mais um tempo lá, uns cinco a seis anos, e voltei. Aí meu irmão me levou pra Três Marias, eu fui trabalhar em Três Marias com ele, um dia lá eu falei: “Eu vou embora pra minha cidade, não vou ficar mais em Três Marias, eu vou embora”. Chamei meu irmão, expliquei pra ele que eu não ia ficar mais e saí de Três Marias era nove horas da noite. Peguei um ônibus, cheguei em Paracatu. Na cidade de Paracatu me procuraram, aí eu cheguei no guichê da rodoviária e perguntei qual é o ônibus que saía primeiro, se era de Monte Carmelo, se era pra Unaí, ele falou assim: “Sai o de Unaí primeiro, seis horas da manhã”. Eu falei: “Então é nesse que eu vou”. Em vez de eu ter ido pra minha cidade eu vim pra Unaí. Quando eu cheguei em Unaí, eu desci numa rodovia, desci do ônibus, estrada de chão, uns seis quilômetros de onde eu ia, já de noite também, já era de noite, aí vou descendo pra lá. Cheguei na beira do Rio Preto, o pai dela morava do outro lado e lá tinha umas canoas. Só que era um dia de festa e os canoeiros estavam tudo do lado da festa e eu cheguei do lado oposto. Cheguei, chamei, chamei, chamei, ninguém me atendeu pra me passar na canoa, lugar cheio de mato na beira do rio, povo tudo na festa. Atravessei o rio, nadei o rio e atravessei, à noite, e fui pra lá. Por coincidência a gente por ali e tal, aí um dia eu vou numa festa lá. Cheguei numa festa, tá ela lá na festa, minha esposa que é a Antônia. Ela estava lá com a aliançona no dedo, noiva, aí tinha uma colega minha lá, que eu tinha visto na outra época também, a gente conversando, eu falei: “Cadê a Antônia?”, a minha colega falou assim: “A Antônia tá aí, ela tá noiva, vai casar daqui a 30 dias”. Eu falei: “Não, quem vai casar com a Antônia vai ser eu”. E assim aconteceu. Vai por ali, tal, o noivo dela não tava lá por perto na época, que ele tinha saído, viajado pro Estado dele, que era Goiânia inclusive, aí numa festa numa casa lá nós dois foi dançar e aí comecei a conversar com ela. E brinquei com ela: “Se você jogar essa aliança fora eu vou por aliança no seu dedo com o meu nome”. E assim aconteceu. Namoramos três meses, noivamos e casamos. É, graças a Deus.

P/1 – Mas você já a conhecia, eu não entendi?

R – Eu tinha visto ela uma época atrás, uns seis anos atrás, mas só vi também.

P/1 – O que te chamou a atenção na Antônia pra você depois chegar na cidade e perguntar cadê a Antônia? O que te chamou a atenção nela?

R – O que aconteceu é o seguinte, eu via muito pela família dela, o pai dela, inclusive que morreu há dois anos atrás agora, eu considerava ele como meu pai também, né? A mãe dela é uma pessoa muito boa, que era a minha sogra. Então eu vi pela família. Eu dizia o seguinte, que eu não casaria. Na época eu falava que eu não casava pela convivência que a gente via de certos casais, não vou casar. E fui tocando até que eu casei com 24 anos, já estava meio “veinho”, no caso. Pelos acontecimentos comigo, de ficar sozinho no mundo. E aí via a família dela, eles me tratavam muito bem, então começou aquele negócio ali, eu falei: “Essa pessoa vai servir pra mim”, pela moral que ela tinha na época, e tem até hoje, tanto que a gente vive há 37 anos, graças a Deus. Então eu via aquilo ali e falei: “Essa serve, sabe que vai dar para eu casar com essa moça?”, e foi onde é que aconteceu, igual eu tou falando pra você. Foi muito rápido. E graças a Deus, tudo aconteceu que não brigamos, não tem discussão, não tem palavrão, não tem xingamento. Então pra mim deu certinho, que vem aquela história também, pra mim viver sem ela é complicado e ela, eu tenho certeza que ela também é. Viramos dois assim que um depende do outro, não tem como.

P/1 – Essas propostas que você disse que foi assediado por pessoas que não eram de vida correta. Por quê? Porque você não tinha pai nem mãe?

R – Não. O que acontece é isso, a pessoa pode te influir pra que é ruim é muito fácil, pra você seguir o que é bom é difícil. Então a pessoa simplesmente… Às vezes o jovem tem a cabeça, hoje principalmente, a cabeça deles é muito focada às vezes, eles veem muito as coisas aparecer e eles quer seguir aquela estrada. Então, às vezes a pessoa incentiva com uma coisa à toa, com uma porcaria a pessoa se incentiva e depois é difícil sair, que é o caso da droga. A primeira vez que eu vi o problema da maconha mesmo, eu vi um cara apanhar na minha cidade, na delegacia, que fazia dó. Eu ia no cemitério levar comida pro meu pai, que ele trabalhava lá no cemitério, e passava na porta da delegacia. Então o cara apanhava muito, o cara gemia de apanhar, naquela época batia mesmo. Então a coisa era menos também. Hoje já é mais diferente.

P/1 – Você diz que foram três meses entre tirar uma aliança do dedo da dona Antônia, colocar a sua, namorar, noivar e casar. Você permaneceu na cidade dela ou você voltou pra sua cidade com ela?

R – Não, eu permaneci. A gente ficou lá, era até na fazenda, não era nem na cidade, era na fazenda perto de Unaí, 30 quilômetros de Unaí. E lá eu permaneci. E foi quando a gente casou, no dia sete de setembro de 1977. Aí fiquei lá um ano em Unaí, perto dos pais dela, e depois viemos pra Brasília, vim morar perto de Sobradinho, fiquei lá um tempo. Aí passou, fui pra perto da sua casa, inclusive.

P/1 – Você veio pra Brasília inspirado em quê? Qual foi a sua expectativa de estar vindo pra Brasília?

R – Casualmente. Eu não estava trabalhando na época lá perto da minha família, eu estava longe, fiquei uma semana fora da minha família. E eu tenho uma pessoa que é meu compadre, que hoje mora em Patos de Minas, e essa pessoa vivia aqui em Brasília. Você conhece ele, é o Gaspar. Esse Gaspar, uma pessoa muito boa, inclusive ele hoje é padrinho de um filho meu. O Gaspar veio pra Brasília, está trabalhando em Brasília. Eu cheguei lá na fazenda onde eu morava com a minha esposa, eu cheguei lá, estava na beira do rio pescando, inclusive. Fui pra beira do rio pescar, que é pertinho, aí escutei um grito dentro do mato, aí o Gaspar desceu gritando: “Ei, ei, tal, vem cá”, aí fui lá onde é que ele tava. Aí começou a conversar: “Eu vim aqui pra você ir embora pra Brasília mais eu amanhã”. Eu falei: “Não, não é assim, não” “Não, eu arrumei um serviço em Brasília pra você e você vai pra lá”. Aí foi que eu vim pra Brasília. Trabalhei, fiquei numa chácara primeiro, um pouco, aqui perto de Sobradinho. Depois da chácara foi que eu fui lá pra Basevi, trabalhar na Basevi, lá perto, na Grupi Material de Construção.

P/2 – Mas ele te chamou pra trabalhar aqui no quê?

R – Ele era operador de máquina, eu ia trabalhar era braçal mesmo, que eu não tinha profissão nenhuma na época.

P/2 – Mas na empresa?

R – Na empresa, era braçal, de servente mesmo. Servente. Então foi aí que começou a fluir alguma coisa melhor. Não foi ruim, não foi ruim, que toda vida meu serviço foi esse, é serviço bruto, mas começou a melhorar em termo de emprego.

P/1 – Quando você veio pra Brasília você já tinha filhos?

R – Quando eu vim pra Brasília eu tinha o filho mais velho, que é o Cássio. Ele tinha um ano, em 78 ele nasceu, aí eu vim pra Brasília.

P/1 – E os demais, nasceram também?

R – Um nasceu lá na Basevi, perto da Basevi, e outro nasceu aqui na Fercal em 85.

P/1 – E pra Fercal, o que te trouxe aqui pra Fercal?

R – Pra Fercal, eu trabalhava lá nessa empresa, que inclusive trabalhava junto com teu esposo, que ele era meu chefe. Viemos aqui pra Fercal, pra trabalhar aqui na Fercal. Como o patrão nosso tinha uma empresa aqui também, aí a gente vinha no caminhão pra trazer material, levar material, né? Então nesse intervalo de trabalhar pra lá e pra cá, o chefe do Seu Vicente me convidou pra trabalhar com eles aqui, pra vir pra cá, aí eu desci pra Fercal. Mudei primeiro, depois passou uns tempos, veio a Tereza, fomos vizinhos lá e somos vizinhos aqui até hoje, graças a Deus, né? Uma pessoa que a gente aprendeu a gostar e acostumou junto, né?

P/2 – Essa empresa primeira que você trabalhou quando veio pra Brasília era em outra cidade?

R – Ela era aqui no Lago Oeste. É aqui na região, mas já é por cima da serra, lá no Lago Oeste.

P/2 – Não faz parte de Fercal?

R – Não.

P/2 – E essa empresa que você veio trabalhar em Fercal, qual o nome dela, Tião?

R – Era Grupi Materiais de Construção. E ela fechou, faliu, no caso. Da Grupi veio o chamado pra trabalhar na Votorantim também, e foi pra onde é que eu fui trabalhar, de 82...

P/2 – Como é que o pessoal te conhecia e pelo jeito gostava, né?

R – Através de amigo, tanto lá na Grupi como aqui na Votorantim. Porque quando eu vim pra cá eu fiquei um tempo aqui, aí tinha um rapaz que era dono aqui, que chama João de Jesus, ele trabalhava na Votorantim, ele perguntou se interessava trabalhar na Votorantim. Eu falei: “Interesso”. Aí fui trabalhar na Votorantim, da qual fiquei lá um tempo, né, depois resolvi sair.

P/1 – Você fazia o quê lá na Votorantim?

R – Na Votorantim eu comecei a trabalhar de servente mesmo. Eu trabalhava na limpeza do laboratório, eu era faxineiro do laboratório. Tive proposta pra subir mais, né? “Ah, você quer um emprego melhor?”. Inclusive aconteceu até uma história interessante na Votorantim, a chefe do laboratório era a Marília, o nome dela é Marília. Estava tendo umas vagas, uma vaga melhor do que faxineiro, que era analista físico, então eu perguntei pra ela se ela não podia me colocar numa vaga daquela. Ela falou: “Vou fazer uma experiência com você, se você passar, você vai ser classificado. Se não passar, aí tem o caminho da rua que é o mais perto, né?”. Muito gente boa ela, mas só que naquela época você tinha que corresponder no serviço, não é dizer que hoje não corresponde, mas tinha que corresponder. Fui fazer o teste, então passei no teste. Fiz o teste, todo mundo calado. Passou uma semana, ela me classificou no laboratório como Analista Físico II. Daí a gente fui subindo pra I, vai e tal.

P/1 – Quando tempo o senhor trabalhou lá?

R – Eu trabalhei na Votorantim quatro anos, que foi de 82 a 86.

P/2 – Como analista físico?

R – Era, analista físico.

P/2 – O que faz um analista físico?

R – O analista físico coleta material, prepara o material pro comando central analisar, que é a análise química, né? Então coleta cimento, coleta farinha, coleta clínquer, né? Todo material que usa no cimento e que chega também, que é o material que usa pra fabricar, a gente fazia análise. Então trabalhei quatro anos no laboratório.

P/1 – E você saiu da Votorantim por quê?

R – Eu saí por conta própria. Inclusive a gente pensa assim que não deveria ter saído, pro pessoal me mandar embora deu trabalho, é. Não foi que eu fiz maldade com ninguém, e nem quis pirraçar ninguém, mas deu vontade de sair, eu acharia que era hora de eu sair e eu saí. Pedi até que eles me mandaram embora.

P/1 – E por que você achou que era hora? Tem uma causa especial?

R – Eu vou ser sincero, eu sou uma pessoa, o seguinte, eu trabalho desde criança igual a gente já comentou, mas quando a coisa vai ficando muito, no serviço, uma coisa às vezes que tanto pode desgostar o patrão como eu também, então desgostei. Eu peço, saio, melhor assim do que estar com problema, então vou sair.

P/1 – E depois que você saiu de lá, qual foi o seu relacionamento? Porque a gente sabe que é um local que fica muito próximo aqui, muita gente tem uma vivência, uma afinidade, ou não, com a fábrica pelo fato de ficar perto da comunidade. Qual foi a sua convivência com a Votorantim depois que você saiu de lá?

R – Das melhores possível. Graças a Deus! Com chefe que já veio pra Votorantim e que às vezes não está aí mais. Tem amigo, vários amigos lá dentro. Sempre a gente está comunicando, quase toda semana o pessoal da Votorantim liga pra mim, tem um evento, tem uma reunião. Eu acho que pra mim é muito importante.

P/2 – Tião, como a Tereza acabou de falar, a Votorantim é muito parte desse lugar, né?

R – Certo.

P/2 – Ela fica em Fercal mesmo, né?

R – Isto.

P/2 – Você conheceu Fercal antes da Votorantim.

R – Não. Quando eu conheci já tinha a Votorantim.

P/2 – E como você vê a empresa aqui nessa comunidade, a influência dela na sua opinião, do seu ponto de vista?

R – Olha, eu sou suspeito se eu falar mal, porque a gente não tem boa convivência e mesmo com a comunidade. Eu já fui várias vezes Presidente da Associação aqui da Fercal II e toda vida, igual a pergunta foi feita, de relacionamento, sempre eles me respeitaram, eu respeitei eles, a comunidade. Tudo que eu vejo que às vezes não tá funcionando normal, eu peço, eu ligo, eu converso com as pessoas, então a gente vai mantendo um relacionamento muito bom, inclusive. Eu creio assim, que a Votorantim é uma empresa que tem que, ela atua no Distrito Federal, vamos supor, então ela não pode focar só na Fercal, aqui onde é que eu moro. Ela já trouxe vários eventos, várias coisas que foi muito importante pra nós na região. Mas ela se divide para várias regiões de Brasília no caso, mas eu não tenho nada a reclamar da Votorantim, um grupo que eu sei que dá muito emprego, gera muito emprego. Na atual fase que a gente está passando agora a dificuldade é muito grande pra todas as empresas, não está bom. A gente está vendo que não está assim, caminhando a passos largos, está indo mais devagar agora. Mas a gente torce que as coisas funcionem e volte tudo ao normal, e que a Votorantim quanto mais ela puder ajudar Fercal, pra gente é melhor. Eu não tenho vontade de sair daqui da região, tenho a minha família, tenho a minha esposa hoje, que é só eu e ela em casa, mas tem meus filhos que dependem também desses empregos, e depende da fábrica, não tem como, né? Porque aqui na região a fábrica mantém muitos empregos, muita coisa pra gente também, então eu torço que não saia daqui. Não tem outro lugar mais pra ir, que a minha cidade pra mim é muito boa, mas pra mim já acho que não vou mais me adaptar lá igual aqui na Fercal.
P/1 – Todos os seus filhos, os três, trabalham na fábrica?

R – Sim, o Cássio e o Márcio trabalham pela Votorantim. E o Rodrigo, que é o caçula, trabalha numa terceirizada dentro da Votorantim.

P/1 – O Cássio e o Márcio, eles trabalham pela Votorantim. O que eles fazem lá? E quanto eles trabalham lá também.

R – Eu não me recordo o tempo. Eles entraram lá quando começou, Tereza, até que você também estava junto, que era no Projeto Bom Menino. O Cássio tinha 16 anos de idade, hoje ele está com 35, se não me engano. E a função do Cássio lá dentro, eu sou uma pessoa que eu não procuro meus filhos, o fazer deles; enquanto eles estão andando no caminho certo, eu não tenho preocupação. Mas se eu não me engano ele trabalha na área de Finanças da Votorantim. E o Márcio trabalha na área da Mineração, que é na Oficina de Veículos lá embaixo, dentro da fábrica.

P/1 – Qual a formação deles e em quê que a Votorantim contribuiu pra formação deles?

R – O Cássio formou em Edificações, formou nesses negócios de computador, informática. E a Votorantim é o seguinte, ela deu bolsa na época, ajuda, para ele também, pra ele continuar os estudos dele. Como ele era novo, estava estudando, e até hoje ainda estuda também, então a formação dele, ele fez faculdade, fez tudo, entendeu? E ainda está estudando pra crescer mais.

P/1 – Isso o mais velho, o Cássio. E o Márcio?

R – O Márcio está fazendo curso de mecatrônica, né? E está fazendo outro curso, que eu nem sei o que é que ele está fazendo nesse momento, mas ele está fazendo também, que está estudando, está fazendo faculdade também, está terminando. A Votorantim deu apoio pra eles também. E eu espero também que a Votorantim precisa isso mesmo, dar apoio às crianças da região, porque tem muita gente inteligente aqui, crianças, às vezes a dificuldade é grande. Antigamente era mais, hoje está até mais fácil um pouco, mas antigamente pra estudar aqui era difícil, que inclusive hoje faculdade você sabe que é só lá fora mesmo, então precisa de um meio de transporte, uma ajuda no transporte. Porque as pessoas, às vezes até meus filhos mesmo, trabalham na fábrica e têm que sair voando aqui pra chegar lá ainda a tempo de estudar. Mas ela ajudou muito nessa bolsa escola, ela ajudou muito com os meninos.

P/1 – Você falou que foi presidente da associação por várias vezes e é um dos motivos que você tem bom relacionamento com a fábrica. O que te levou a ser representante da comunidade, da Fercal, o que te levou a representar a Fercal?

R – É aquilo que a gente fala, a gente tem sonho. O meu sonho era de ver a Fercal uma cidade muito boa pra se morar, uma cidade onde não existe violência, uma cidade bem arrumadinha, que a Fercal tem tudo pra ser isso. Aqui, como é uma zona rural é local de mata, local de morro, de montanhas, que podia ter um turismo. Então, gostaria, o meu sonho quando entrei, incentivo inclusive você, Tereza, como amiga e vizinha, quando eu via que vinha o governador na Fercal, através de vocês, aquilo incentivava a gente: “A Fercal hoje começa a melhorar também”. Através da fábrica, por exemplo, das empresas da região e do governo. Como o governo vem no local, aí a gente tinha aquela ânsia que ia chegar e resolver tudo, e que a coisa ia ficar boa. Que quando eu mudei para aqui, não tinha água encanada, não tinha energia, as ruas não eram asfaltadas e até era muito difícil. Hoje nós estamos vivendo bem, em vista do que era. Mas o sonho como presidente de associação era isso: ter os amigos na Fercal, ajudar a Fercal a subir, crescer e ver os filhos da gente que estudou, nasceu aqui na Fercal, se criou aqui na Fercal, ver os filhos da gente se dar bem na vida. Que hoje eles têm até bom emprego, graças a Deus, através da Votorantim, estão bem empregados, então é aquilo que a gente queria.

P/2 – Tião, antes de você morar na Fercal você morou em algumas cidades. Você participava antes também de associação, de movimento, ou foi aqui que começou?

R – O seguinte, em Unaí eu não era de movimento de ir contra ninguém, contra nada. Mas tinha sindicato, essas coisas, então sempre eu era sócio, eu participava, entendeu? Três Marias tinha também, tinha clube, tinha tudo, então eu sempre atuava ali. Mesmo que eu não frequentava, mas eu estava ali ajudando, pagava contribuição.

P/2 – Mas você tinha alguma participação direta no sindicato?

R – Não, sindicato só era um sócio no sindicato, por exemplo, pagava mensalidade. Tem aquelas opiniões, pediu uma opinião, a gente estava ali para dar uma opinião.

P/2 – E como você começou aqui em Fercal a ser mais atuante, de chegar a ser presidente da associação?

R – Olha, é igual eu tou falando, isso é antigo dos amigos e de certos moradores. E a gente via as dificuldades. Eu via a Tereza, por exemplo, ela conseguiu um emprego lá no governo, que ela foi presidente do Negro, a Tereza, em Brasília, ela foi uma pessoa excepcional em Brasília, eu, inclusive como amigo. Então eu via aquilo, ela lutava, nós precisávamos de ver uma água pra Fercal, aí através do incentivo dela, das cobranças que a gente ia fazer, incentivou também. Por exemplo, um presidente está saindo um outro tem que pegar, às vezes a pessoa nem queria aquilo, aquele negócio ali, que não é muito fácil. Não, então alguém tem que pegar para não deixar acabar. Então o incentivo é esse. E ver as coisas andando. Quando a Votorantim ofereceu a montar esse conselho comunitário que a gente tem hoje, aquilo a gente pensa assim, agora vem uma coisa muito boa, que vem alguma coisa muito boa, inclusive até hoje está, por exemplo, através dessas entrevistas da gente através do conselho. E então a gente vai incentivando. E vamos crescer, vamos crescer, vamos melhorar. E agora nesse momento eu estou pedindo também que os jovens entrem, participem, os jovens da Fercal que deixa de sair dessa vida difícil de droga, de coisa, e vem ajudar, vem me substituir, que eu já estou chegando numa idade que a gente vai enfraquecendo. E que eles atuem ajudando a Fercal crescer, ajudando, dando orientação, inclusive dando ideia para as fábricas, pra eles verem que eles precisam também de um emprego, precisa de trabalhar na região, moram perto. Então eu acho que é um ajudando o outro, aí a coisa anda. Ser amigo, que graças a Deus eu não tive problema com ninguém na minha vida até hoje, eu sou muito feliz por isso. E o exemplo é esse, de ser o pai que meus filhos também nunca me deram problema, e eu acho que pra ninguém, eu nunca tive uma reclamação dos meus filhos em rua, em lugar nenhum. Então, pra mim é muito importante. Isso que a gente quer na Fercal. Melhorou muito? Melhorou. Através da Tereza, luta correndo aqui, tem várias pessoas que ajudaram a gente também. Presidente de associação, a gente sofre duas vezes.

P/2 – Por quê?

R – É muito sobrecarregado e muito cobrado. E você não tem a ferramenta na mão pra você resolver o problema. A gente tem o seguinte, através das amizades, tanto que chama associação. Da onde que não tem fins lucrativos, não tem nada. Às vezes aqui a gente pagou uma água pra uma pessoa beber, que a pessoa não tinha condições. Aconteceu da gente pegar água até nos córregos, a gente pegava água pra beber, pra usar. Igual a Tereza: “Vamos lá na Caesb, a gente tem que ir na Caesb”, a empresa distribuidora de água em Brasília. Chegava lá: “Não, mas lá está assim, assim, assim”. Como não tinha nem energia, não tinha como ligar uma bomba, não tinha nada. Hoje é muito importante estar do jeito que está, que a gente já tem uma região que tem água, outras não está tendo totalmente, mas melhorou 90% já. Precisamos mais de melhora, porque onde a gente mora, igual eu moro aqui por essa idade, eu gosto muito do lugar, é muito sossegado, eu não tenho problema com violência, não tive com meus amigos também. E a gente melhorando melhora pra todo mundo. Às vezes o desespero, eu penso, no meu pensar, o desespero faz um jovem fazer besteira. Não só o jovem como o adulto também. Então se você está melhorando a sua região, você está crescendo, você já tem um salariozinho melhor, tem educação, a coisa funciona, vocês podem ter certeza que anda. É um respeitando o outro, está entendendo, e a coisa vai fluir.

P/1 – Eu estava com medo de fazer essas perguntas.

R – Eu sou uma pessoa que quando falo, eu sou espontâneo. Quando eu conto a história que eu tomei ela do cara, ela não gostava não quando eu falava.

P/1 – Agora ela aceita, né?

R – Não. Ela: “E pra que você falar isso?” “Uai, mas eu tomei mesmo” (risos).

P/1 – Deixa eu só voltar um pouquinho nesse cara. Como é que ele viu isso? Você ainda encontrou esse cara? Você teve oportunidade de dar de cara com ele?

R – Tereza, foi o seguinte. Na época, eu sou sincero com você, eu não vou mentir. Ele tava noivo e foi arrumar a documentação pra casar. Veio buscar os documentos pra fazer a documentação pra casar. Então naquela época foi isso. E eu cheguei.

P/1 – Mas você já chegou com o documento pronto?

R – Não, presta atenção: como eu cheguei lá na região, igual eu tou te falando, tava pertinho do casamento, acho que faltava uns 30 dias, eles tinham que passar o papel pra já. Como eu cheguei lá e meti o bico no meio, aí falei: “Não, ela vai casar é comigo”. Inclusive, essa moça que eu falei pra ela antes, ela é minha madrinha de casamento. Aí convidei ela pra ser minha madrinha de casamento.

P/1 – Mas e o cara?

R – Aí o cara nem lá voltou mais, Tereza. Eu não vi ele mais lá.

P/2 – Falaram pra ele.

R – Alguém deve ter avisado, né? Então ele não voltou mais, eu não tive contato com ele mais, daquela época pra cá.

P/1 – Voltando à questão da luta pela comunidade, das conquistas como resultado dessa luta toda, de tantas reivindicações, o que mais te marcou, o que mais te emocionou?

R – Na Fercal eu tive várias coisas que me marcou, né? Quando, Tereza, a gente naquela dificuldade com água, como você sabia e sabe, a gente usava água, mas começou a poluir alguma coisa assim que aconteceu, então quando falou assim: “Ó, chegou”, eu lembro quando você me falou assim: “Ó Tião, conseguimos tantos poços pra Fercal”, ou vai ser perfurado na Fercal. Aquilo foi muito importante, inclusive furou um poço nessa comunidade que ele sustentou a gente mais de uns 20 anos. Não era muita gente, mas em vista do poço ter pouca água, sustentou nós. E lembro de você passar outros poços pra outras comunidades, que foi onde é que serviu aos outros também. Aquilo marca muito a gente porque a água é um bem que tá até ficando escasso no mundo, que a gente fica muito chateado que tá ficando escasso. Mas naquela época pra gente foi, porque aí você ia ter uma água na porta. Fizemos mutirão pra cavar a vala, pra colocar encanação.

P/2 – Vocês que construíram na verdade.

R – Isso, a gente construiu bastante rede. E isso durou por uns 20 anos. E chegou um ponto que aí a empresa mesmo que é a Caesb passou a tomar conta e começou a fazer outras redes, aquelas que a gente fez já acabaram, não usamos mais. Ainda tem uns lugares que tem. Então o que marcou mais, porque é um bem que a gente adquiriu. A energia, a gente andava isso aqui era mato e não tinha nem uma lâmpada aqui pra dizer.

P/2 – Era lampião?

R – Essa rodovia não tinha. Era lamparina que a gente usava, vela. Aqui O Mundo das Tintas tinha um transformador de energia na época, mas era só da empresa. Dessa empresa passou a fornecer a quase todos os moradores que tinha. No final da história ninguém tinha energia, porque distribuiu com tanta gente que a energia não dá pra fornecer, era fraca, acabava. Eu e mais o esposo da Tereza, nós saímos várias vezes dentro do mato aqui, vinha da fábrica, da Votorantim, à noite e nós saíamos aqui nos matos emendando fio que a chuva, o vento tinha derrubado, aquele negócio não tinha rede, não tinha nada, era passado na gambiarra. Então hoje melhorou, evoluiu muito. Tem jeito de melhorar? Tem. Eu tenho certeza que tem. Mas essas coisas marcam a gente. Era eu mais a Tereza pegando uma marmitinha de comida pra ficar três dias numa reunião, ia de manhã, voltava de tarde, estava lá vindo no outro dia, lutando, isso era a luta da vida aqui na época, né? E aí incentivou. “Ah, eu também vou ser presidente de associação”. Você ter aquela vontade de entrar. Depois, às vezes, você quer sair e fica difícil, porque você acostuma com as pessoas, você acostuma de cobrar das autoridades as coisas e você não fica querendo deixar passar. Aí você vai na fábrica, cobra um negócio: “Ô, tem que ajudar nós lá e tal”, aquela ânsia, entendeu?

P/2 – Quando vem alguém pra ficar nesse lugar, e ela não está fazendo, como é? Qual a sensação quando vem alguém pro lugar?

R – Com certeza. Aí chega aquele alguém no lugar da gente através de uma eleição, tem um estatuto, é uma associação. Porque desde que você representa o povo, você passa a ser uma autoridade, você está representando o povão, né? Que sejam 200 pessoas, que sejam 300, é o povo. Então aí vem aquele incentivo: “Às vezes o Sebastião não está fazendo nada na comunidade, então eu vou me candidatar e vou ficar no lugar dele, vou ganhar uma eleição”, tem vários interesses. Às vezes a pessoa quer adquirir um emprego bom, por exemplo no Governo. Mas eu creio que é o seguinte, através de uma associação você tem uma força que você é um representante de um povo, de uma comunidade, então você já tem um nome. Quando você representa bem, se você representar bem a sua casa, você pode representar o povo. Se você representa o povo você pode, aí você pode ir subindo, você pode ir lá no governo, você tem mais direitos, desde que você respeite os direitos de cada um. Então essa é a vontade de quem quer entrar. Mas quando você entra vem as dificuldades, se você pensasse no amanhã, eu entrei ontem, mas hoje eu já quero sair. Quando você vê que a coisa não anda do jeito que precisa e que falta isso, falta aquilo e você vê uma mãe de família às vezes passando necessidade e você não pode socorrer, você não tem aquela ferramenta que possa ajudar. Ajudar, você não deixa de ajudar, mas não é o suficiente às vezes. Então aquilo, você vai tomando aquele desgosto, fala aquele negócio ali não funcionou. “Ô gente, eu precisava ter ajudado aquela pessoa ali, podia ter botado a energia lá pra ela na casa dela, ajudar ela a pagar”, mas se você não tem condições você não pôde ajudar. Então aquilo dói na gente! A nossa região é muito boa, graças a Deus, que hoje praticamente todo mundo tem dentro de casa que é uma energia, uma água, mas às vezes a pessoa não tinha condições de pagar dez reais por causa de uma água. Então a gente fica muito chateado com aquilo. E a pessoa merece, ele tem que sobreviver. E às vezes a pessoa, se não tiver aquela consciência: “Eu sou presidente da associação, eu tenho que ir lá ver Fulano de tal que ele está precisando disso, ele precisa de um carro pra levar ele em Sobradinho”, que a gente, por exemplo, não tem uma ambulância naquele momento ali, não tem um hospital, não tem um posto médico que funciona 24 horas. Você precisa levar aquela pessoa, a pessoa está machucada ou está doente, sentindo uma dor, que tem várias vezes que já aconteceu que não dá tempo de você chegar em Sobradinho, no hospital. Como é 13 quilômetros daqui dentro do hospital, na estrada já aconteceu o pior, a pessoa já vem a óbito ou qualquer coisa. Então você fica pensando: “Ô gente, eu devia ter conseguido uma ambulância, um hospital pra cá, um posto de saúde, médico mesmo aqui na região, atuando assim, porque todo lugar no Brasil precisa, mas devagar eu acho que as coisas vão. Devagar vai, um dia nós vamos ter. Eu, às vezes, não vou alcançar, mas aí chega, tem meus filhos e meus netos que alcançam, o que já é muito importante pra ele. Eles tendo a vida boa, pessoas que não fez mal com ninguém eu acho que merece ter momentos bom, né?

P/1 – Por tudo o que o senhor colocou, percebe-se sua participação em tudo aqui na região pelas conquistas. Qual a sua satisfação pessoal de ter participado desses processos todos, de tantas conquistas que a Fercal tem?

R – Se eu fosse explicar qual eu não tenho um destaque, porque todas pra mim foi muito importante. O que a gente conquistou de bom pra Fercal foi muito importante, que até hoje ainda tem, graças a Deus. As conquistas pra Fercal foram muito importantes, Tereza, através de amigos como você mesma, no caso. Amigos dentro das empresas, amigos no GDF, amigos na comunidade, quase todo lugar que eu passo aqui mais na região aqui de Sobradinho as pessoas me conhecem: “Ô Sebastião, Ô Sebastião”, então isso é muito importante. As conquistas são essas, você é enxergado de alguma maneira, às vezes tem aquela pessoa que fica com o pé atrás: “Não, o Tião Rosa não é isso, eu não sou muito ‘gostador’ dele, não”, mas não deixa de gostar um pouquinho. Então, essa conquista de conquistar melhorias pra região também, isso foi muito importante. Não existia ônibus, você lembra que não existia, então isso, começou a existir os ônibus, ainda precisamos melhorar muito, aí é igual eu tou dizendo, que os jovens hoje têm que tomar conta pra ajudar a tocar pra frente.

P/2 – Tião, deixa eu perguntar sobre os jovens. Tem alguns já participando do conselho.

R – Tem.

P/2 – Você vê algum jeito de fazer essa relação com eles, deles entenderem tudo isso que vocês já fizeram e seguirem o mesmo caminho?

R – Olha, eu creio que sim.

P/2 – Você já pensou um jeito sobre isso?

R – Desde que os jovens também tenham interesse do que a gente começou. E eles tendo interesse, eles podem até melhorar muito, que eles têm condições de fazer isso, porque hoje tem a mídia, tem tudo o que ajuda, inclusive, que a gente não teve. Antigamente você tinha um centro comunitário, não tinha o computador lá dentro que podia agilizar, né? Então eu creio que se os jovens com boas intenções, que eles têm tudo pra tocar e melhorar de agora pra frente.

P/2 – Mas de vocês com eles, vocês já tentaram alguma conversa?

R – Eu não tentei, vou ser sincero com você. Eu creio que é o seguinte, precisa de, no lazer deles, por exemplo, fazer uma reunião, né Tereza, de convidar eles pra participar e começar a mostrar o caminho pra eles, como a gente acha que tem que funcionar de agora pra frente, como que era o passado, e trouxemos até agora. Eu creio que é o seguinte, de hoje em diante os jovens têm que fazer o Brasil andar, fazer a Fercal crescer, fazer Brasília andar, por exemplo. Você vai atrair empresas, mais emprego, mais coisa, porque o Brasil hoje está na mão dos jovens, não adianta o Tião Rosa falar: “Não, o Tião Rosa vai”, eu cheguei num certo ponto que é defasando, não indo pra frente. A gente tem aquela vontade de ir pra frente, mas eu já não tenho aquela força mais de fazer.

P/2 – Tião, foi criado o conselho pela Votorantim?

R – Pela Votorantim.

P/2 – Fala o nome todo dele, por favor.

R – É Conselho Comunitário.

P/2 – Ele foi criado de que forma?

R – Eu recebi um convite, na época me fizeram um convite que ia formar um conselho comunitário. Como eu me acho comunitário, então tá na hora, presidente de associação, aquelas coisas, então, vamos formar o conselho junto ao presidente da associação, pessoal de colégio, que era diretor, professor. Então formou aquela equipe, cada um representando uma área, e formou, e através da Votorantim, que ela fez o convite e a gente: “Vamos lá fazer, vamos montar esse conselho”.

P/2 – E foi quem se interessou?

R – Foi convidado várias pessoas de vários... Eu creio que no começo foi quase todo mundo, quem que interessou e quem não interessou. Eles foi porque a ânsia da gente aqui na Fercal é sempre vida melhor, quando fala: “Vai fazer um conselho”, igual foi esse, montar esse conselho, então todo mundo quer entrar, todo mundo quer entrar. “A coisa vai melhorar”.

P/2 – E eles fizeram uma eleição?

R – É, a gente fez várias reuniões, começamos a discutir os problemas, foi tudo feito, não foi feito eleição porque não tinha um presidente, por exemplo. Na época, no começo, não tinha.

P/2 – Pode ter quantas pessoas quiser no conselho?

R – Na época poderia ter, eu não sei se mudaram a norma, mas eu creio que tinha que ter, inclusive a gente já foi nas comunidades com todo mundo, já teve essas oficinas, e convidar. Por isso que eu digo, tem que chamar aquelas pessoas que têm interesse, que têm inteligência, e os jovens, vamos e a partir de hoje vamos fazer isso e isso.

P/2 – Ele é aberto, participa quantas pessoas quiserem, mas o conselho é da Votorantim e vocês têm uma associação? Como que faz, não fica confuso?

R – Não. A Fercal é formada por 14 associações, tem ONG e tem associações. Então, no caso, igual eu, Tereza, sempre nós atuamos, no caso, até quando a gente pôde, que teve jeito, a gente atuou. Como a Votorantim montou o conselho, nós montamos junto com a Votorantim, a Votorantim convidou e a gente montou. Que por sinal é muito interessante porque às vezes o jovem hoje não vai lá numa reunião, por isso que tem que convidar pra eles entrar lá no conselho e começar a sentir o gosto da coisa. “Ó gente, amanhã pode estar melhor pra mim, então vou começar a frequentar”. Porque a gente conversa nas reuniões, a gente não pode achar, começar e morrer, porque tudo tem que ter início, meio e fim, na minha opinião. Porque você começa um serviço, se parar ele, ele não acabou, você não viu o produto, não viu o resultado, não viu o bem que aquilo fez, então você tem que começar. Se é um conselho, se é uma reunião, você vai que pode ir, vai, vê o que está acontecendo, o que as pessoas estão passando, vem pessoas de fora. O mais importante que eu acho é o seguinte: quando vem as pessoas de fora, que gostam da Fercal e que acham interessante o que a gente tem na Fercal. “Ah, tem um conselho na Fercal. Tem uma associação ali”, então isso pra gente é orgulho, pra mim é orgulho, entendeu? Então o interesse das pessoas é melhorar. Tudo o que você vai fazer eu creio que tem que melhorar. “Ah, isso aqui não está bom” “Dá, de pouquinho, consertar”. E entrando pessoas inteligentes, que tem mais ideia, vai melhorar. Igual eu tou falando, Votorantim ajudou? Muito. Ajuda? Ajuda. Mas quanto mais ela puder poder fazer curso pra esses jovens, que os jovens vão atuar mesmo que seja em outras áreas, mas que ajuda a formação desses jovens. Ocupar a cabeça desses jovens pra não entrar em palhaçada. É igual o povo reclama muito de droga e tudo, eu não tenho esse problema, não tive com a minha família e, graças a Deus, não tenho. Tirar isso da cabeça deles e fazer eles atuar numas áreas. Fercal, que aqui tem região, local que pode ser turismo? Tem, demais. Mas ainda ninguém se interessou de explorar e ninguém teve aquela capacidade de chegar e falar: “Vamos explorar o turismo da Fercal?” O que tem que ser? Tem que ser esses jovens pegar. Eu estou lá acompanhando, mas eu já sou a passo lento.

P/1 – Sebastião Rosa, a gente fala sempre na Votorantim, mas aqui na região tem outras empresas que colaboram, que participam, incentivam? Ou é só a Votorantim que tem essa interligação com a comunidade?

R – Olha, Tereza, eu sou suspeito de falar mal das outras empresas, seja a Votorantim e qualquer empresa. Bom, elas podem atuar em outra área que não chegou ao meu conhecimento. Porque eu via Votorantim com o projeto do vôlei, que teve na Fercal, do projeto daquele de criança que eu não estou lembrado o nome.

P/1 – Menor aprendiz?

R – É! Então eu não sei se as outras teve, se teve não chegou ao meu conhecimento, eu defendo o que eu vejo e que sei, não vou comentar uma coisa que eu não tenho conhecimento dela. Eu sei que a Votorantim atuou nessas áreas, teve o projeto Bom Menino, isso que ajudou muito, tem vários funcionários que saíram disso aí e que precisa de ser isso mesmo, afinal, que a gente não depende, não pode esperar só pelo Governo também, a coisa não é fácil. Eu sei que o Governo não tem que dar nada pra ninguém, o que ele fizer ele tem que cobrar. Essas empresas têm interesse, porque ela está investindo numa mão de obra que no futuro, ela investindo no jovem a mão de obra futura poderá ser boa pra elas também. E o que ela já fez na região já ajudou muito. Ah, não me ajudou? Não, não tem problema, mas ajudou o meu vizinho, ajudou quem precisava bastante. Então, pra mim também foi a mesma satisfação que eu tenho, né, de ter ajudado, que seja meu vizinho, que seja quem for, mas ajudou.

P/1 – De todas essas conquistas que nós tivemos, ficou alguma coisa, algumas das reivindicações que você mais gostaria que tivesse contemplado a Fercal e que não aconteceu e te frustrou?

R – Tereza, tanto teve várias coisas de bom, como teve várias coisas também que não é bom. Na Fercal a gente precisa de áreas de lazer, de uma coisa maior, não é coisas pequenas. A gente tem uns parquinhos, tem umas coisas, mas a gente precisava, por exemplo. Assim, eu fiquei frustrado é o seguinte, é em termo de uma calçada, por exemplo. Um calçadão pra você fazer uma caminhada. Porque vai chegando certa idade a gente tem que fazer caminhada, seja criança, seja adulto, tem que fazer a caminhada. Aqui a gente não tem esse lazer. Igual eu moro aqui, eu não tenho lazer de sair aqui, só se eu for em Sobradinho, né? O lazer da Fercal é pouco. Eu acharia que teria que ter mais. Um parque pra pessoa andar, arejado, um lugar bom, um lugar que você possa sentar, conversar como seu vizinho, conversar com o seu amigo, né? Então tem essas coisas. O melhoramento da cidade, seja Fercal II, seja qualquer lugar da Fercal. Melhoramento na cidade, reformar uma pracinha, bem feitinha, gramado, toda iluminadinha, aquilo é muito importante. Que na minha cidade eu fui zelador de uma fonte luminosa, onde tinha animais, tinha jacaré, tinha siriema, tinha saracura, tinha bichos lá dentro, peixes. Então à noite tinha uma praça, aquilo era uma maravilha! Enchia de gente. E eu ficava lá tratando os animais.

P/2 – Que legal ser zelador de uma fonte!

R – Era lindo aquilo ali! Tinha um viadutozinho que passava por cima da água assim, então, uma passarela, o pessoal passava, andava em volta nas calçadas. Porque tem várias praças na minha cidade, a minha cidade é uma maravilha de cidade, muito limpinha, muito zelada, tem várias praças, vários eventos. Tinha dois cinemas na época. Então dava pra se divertir, né? Na praça mesmo, era uma maravilha você andar na praça, não tinha problema de tanta violência igual tem hoje, né? Então você andava despreocupado ali naquela praça, ia pra lá de dia de domingo, sábado, passear na praça: “Vou lá pra praça”. A gente falava: “Vou lá pro centro da cidade hoje, vou lá pra Praça Getúlio Vargas”, inclusive chama. Tinha várias outras: Praça do Rosário, Praça Nossa Senhora de Fátima, tinha também. Então aquilo era uma maravilha. Isso eu tinha vontade ver na Fercal. É você ver o povo ali ter um lugar pra passear à noite: “Vou levar minhas crianças, vou dar uma voltinha ali à noite”. Porque às vezes tem muitos bares, tem muitas coisas que incentivam mais uma violência e você também já não pode estar ali com uma criança, então ter o lugar de você ter isso. Que seja bem arrumadinho. É pequeno? É, mas bem arrumadinho, que seja bonitinho. Inclusive na Fercal II, eu já falei até com bastante gente aqui, “Ô gente, eu tinha vontade de ver a Fercal II toda arrumadinha, toda asfaltadinha, as pessoas zelando, o lixo no lugar do lixo, a água boa pra você beber, a energia funcionando, essa era a minha vontade, na Fercal II, principalmente, que é o bairro que eu moro.

P/2 – Aqui?

R – É. Que tem Fercal II, Fercal I, e tem Bananal, Quilômetro 18, tem Engenho Velho, tem Rua do Mato, né? Então essa comunidade aqui, não é que eu queria que viesse só para aqui as benfeitorias, mas isso aqui podia ser um exemplo. A Fercal II podia ser um exemplo, na minha opinião. Eram os vizinhos tudo: “Não, vamos se unir” “Puxa gente, lá tem um capim ali, vamos lá capinar na parada de ônibus?” “Vamos”. Pega uma enxada lá, vai lá dar uma capinadinha. Porque não é tudo que o governo faz a tempo e a hora. Uma parada de ônibus todo mundo usa.

P/1 – Já houve essa prática aqui na Fercal?

R – Teve. A gente já fez mutirão da Fercal, Tereza. Você sabe que a gente já fez, inclusive.

P/2 – Mutirão pra quê?

R – A gente fez mutirão pra limpar grotas, limpar a nascente de água.

P/2 – Mas quem teve a iniciativa?

R – A iniciativa foi da época que a Tereza era presidente da associação. Eu sei que como ela atuava mais lá perante o governo, ela andava mais pra lá e a gente ficava mais cá, ela chegava lá: “Nós vamos fazer isso e isso”, reunia. É por isso que eu estou lhe dizendo, quando você tem uma educação, tem as pessoas amigas que seja amigo e tal: “Vamos fazer isso, vamos ajudar?” “Vamos”, a gente vai fazer. Você faz na sua casa, ajuda a fazer na do vizinho, depois você pode fazer na cidade. Não é que você, você precisa trabalhar, precisa de ganhar o pão de cada dia, você não vai dedicar só aquilo, mas você se juntar hoje dez pessoas já limpa um pedacinho. Ah no outro domingo os outros vai, no outro sábado, no outro dia da semana. E que o governo também que bote, bote uma pessoa, um fiscal, por exemplo, porque tem pessoas que é o seguinte, ele joga o lixo aqui, você vai lá e limpa; amanhã ele torna a jogar de novo, então não funciona só assim também, você só trabalhando, mutirão.

P/2 – Mas quando o senhor era zelador lá, como é que funcionava?

R – A gente ajudava. “Ah, vamos numa comunidade ajudar a furar lá pra botar uns canos d’água”, nós ajudávamos. “Vamos tirar cano d’água lá de tal lugar”, a gente ajudava. Trazia cano pra botar até em outra comunidade, porque a gente estava ganhando, mas também vamos ajudar, né?

P/1 – Fala sobre essa tirar cano de outro local.

R – Tereza, eu lembro quando a Caesb mandou furar esse poço aqui pra nós, na comunidade, eu alembro da gente pegar caminhão aqui e ir em outra cidade que estava lá, que estava mudando as redes, a gente arrancar aqueles canos do chão pra trazer pra fazer rede aqui na Fercal, que até hoje ainda tem deles aí no chão.

P/2 – Mas porque o cano estava lá abandonado?

R – É, porque não estava mais usando aquela rede. Se a empresa botou uma rede aqui de espessura tal, atendia a comunidade. Hoje a comunidade aumentou então tinha que passar pra outra rede, aquela rede ia ficar lá embaixo do chão. Quer dizer, aproveite o material e ajudava nós aqui. E a gente pegava as ferramentas, ia cavar, fazer vala, botar os canos dentro e a Caesb chegava e ia ligando a água pro pessoal.

P/2 – Olha só!

R – Então, foi uma época que aquilo foi uma maravilha pra nós. Hoje é tudo diferente, hoje a pessoa já olha: “Esses caras cavando o chão, isso não existe, arrancar cano de lá pra botar aqui, tem que botar é novo”. Mas até aquele material que você aproveitava é muito importante, mais na frente você pode pegar o dinheiro daquele que você ia comprar novo e investir em outra coisa. E como a gente passou poucas e boas por causa de água! Então, essas histórias, é igual eu falei, eu dou o exemplo da água na Fercal. Nossa, eu era louco pra ver isso funcionando pra todo mundo! Porque eu acho que a gente merece também. Era chegar e falar assim: “Eu vou ligar a água pra cá”. Porque tudo o que você não tem muito interesse de fazer pra pessoa, pode se tornar um problema. Se eu peço pra ligar uma rede de luz na minha casa e a empresa não puder ligar, eu vou puxar uma gambiarra, eu vou passar a dar um problema lá, porque eu não estou fazendo a coisa correta. Na época que a gente vive, a mesma coisa é a água, o vizinho ali não vai viver sem água, ele vai ter que puxar da minha rede, eu vou ter que ajudar ele. Ele vai desperdiçar, não vai aproveitar aquilo direito. Primeiramente era isso, eu já vou falar porque era o governo chegar e falar: “Tem que fazer isso, botar essa rede de água, passar a cobrar”, pois a gente precisa de quantidade, qualidade e preço. Se a senhora estiver com tudo funcionando, vai entrar o dinheiro arrumadinho, vai dar pra sustentar todo mundo, dá para satisfazer todo mundo, dá pra todo mundo sobreviver. Se você não faz direito, o que vai acontecer com você? Eu vou puxar a gambiarra, se ela vazar na estrada, problema. Você está jogando a água fora que está escassa, não está escassa, graças a Deus ainda temos aí em abundância no Brasil, mas várias regiões não têm, que está meio escasso. Mas se você estiver aproveitando aquela água, amanhã ela te serve. A energia do mesmo jeito, está difícil; a gente tá pagando caro, mas se tiver tudo funcionando, todo mundo lucra com aquilo, o morador, governo, a empresa e todos. E a manutenção e o serviço é de menos, mas tem que estar tudo funcionando direitinho.

P/1 – A gente está chegando já no final da entrevista. Ficou alguma coisa que você gostaria de colocar a mais, assim, que você necessita explicitar ainda nessa entrevista?

R – Se a gente for conversar, a gente conversa o dia todo, ainda fica coisa pra gente falar, né? Tem, tem o pedido que vem pessoas igual tá vindo vocês, vem de outro estado, que é orgulho pra nós na Fercal, que é conhecedor também dos problemas. Vem pra ajudar nós na Fercal. Onde que a gente mora é muito importante ter pessoas que possa ajudar. Eu não vou dizer que em tudo você vai chegar a 100%, mas se você chegar a 95 é lucro. Seja uma empresa que está ajudando, que ajuda com boa vontade e que faça o projeto direitinho pra não ter desperdício de nada, ninguém ficar contrariado e a coisa funcione. Se eu fosse pedir hoje eu pediria várias coisas ainda que precisa. No caso, a Educação. Eu acho que a Educação é muito importante, eu não tive, quase não tive, né? Mas se você estuda, faz a pessoa estudar, tem condições de estudar, que estude! Hoje tem que ser desse jeito. Por quê? Se você tem educação, você não joga um lixo na rua, você sabe aproveitar uma água, você não vai jogar uma água que você usou na porta do seu vizinho. Você diminui a doença, você não joga o lixo, não vai apodrecer pra fazer mal pra você ir lá pro hospital. O que eu acho muito, assim, eu fico assistindo certas coisas e olhando, o problema dessa dengue no Brasil. A dengue, nós causamos a dengue. Descuido, falta de... Se tivesse educação, a pessoa não ia fazer: “Ah, eu vou largar essa caixa destampada”, você está prejudicando você e seu vizinho e o governo em si! Porque a partir do momento que você pega uma dengue, por irresponsabilidade de um lixo, de uma água que está lá parada, mal usada, você tem que ir pro hospital doente, sentindo dor e passando mal, você tem que ir pro hospital, o médico tem que te atender, você tem que ter o remédio, você está ocupando o lugar de outro que está com outro incômodo e que podia estar naquele lugar, e você tem que estar lá porque você pegou uma dengue por irresponsabilidade, porque eu acho que é irresponsabilidade. Isso é uma coisa que eu fico olhando e pensando: “Gente, por que o morador não cuida da própria saúde dele?”. É trazer o seu lixo arrumadinho, não tem 100% mas vai 95, gente! Amanhã você chega a 96, né? E medo de doença. Por isso que eu digo, porque quando você não tem uma saúde 100% no local que você mora e tudo, você tem que evitar todos os problemas de você adoecer. Uma rua boa pra você andar, você evita um acidente. Isso é meu desejo que eu tenho pra Fercal. Não é coisa que eu tenho dinheiro pra fazer nada, eu não tenho dinheiro, tenho boa vontade e penso em ajudar. “Ah, vamos fazer a calçada?” “Vamos. O que eu posso fazer lá?” “Vou mandar o concreto lá e você espalha o concreto lá”, você tá entendendo? Eu tou pronto pra ajudar. É essa que é a minha vontade, não é só ficar dependendo do Fulano, não. E eu acho que é o seguinte, tem um ditado muito certo na vida, né? Que Deus falou: “Faça a sua parte que da minha eu ajudarei”. Se nós todos trabalhar em conjunto, andar junto, o que vai acontecer? Todo mundo com pensamento positivo a coisa vai funcionar. Não adianta. Tem um ditado muito certo de antigamente que dizia: “Um boi sozinho não puxa o carro”. Se você botar os dois de pareio e puxar igual, fazer força igual, aí vai igualzinho. O que nós vamos fazer? Vai tudo dar certo. “Ah, isso aqui é pesado”, mas nós é dois pra fazer. Aí funciona! “Ah, tem um monte de lixo ali?” “Tem” “Ah, não foi só o Tião que jogou, não. Tereza jogou, fulano jogou” “Fulano, vamos lá que hoje nós vamos ter que limpar aquela lixeira lá que nós jogamos o lixo lá no chão, tá lá. E foi nós três que jogou”. E é onde é que vem a educação. E se você souber você não vai jogar o lixo no chão. Você é educado, você não vai jogar lixo no chão. Você vai morar numa cidade limpa, as suas coisas tudo vai ser boa, você tem saúde, seus filhos têm saúde, sua família tem saúde. A partir do momento que você passa a ser sem educação, tudo acontece.

P/2 – É verdade.

P/1 – Bom, nós vamos encerrar, mas eu queria saber como foi pra você contar a sua história?

R – Foi muito importante, porque acho que alguém vai ver e falar: “Esse velho tem até alguma coisa que eu posso aproveitar, sabia? É alguma palavra que pode servir pra alguém”. Não estou aqui me exibindo, estou mostrando quem sou eu, só isso. E foi muito importante, que eu falei da minha vida. Tanto que eu corri lágrima no olho.

P/2 – Obrigada, viu Tião? Foi ótima a entrevista.

R – Obrigado vocês.

P/2 – A gente quer ficar um monte ainda, um tempão (risos).

R – Estamos aí, vamos conversando e assim vai. Tranquilo, é desse jeito que vocês estão vendo aqui, aqui não tem nada de melhor não, é só isso aqui meu (risos).

FINAL DA ENTREVISTA



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